Basílica de San Isidoro – León

A Real Colegiata de San Isidoro de León é um dos monumentos românicos mais destacados de toda a Espanha. Declarada Monumento Histórico-Artístico em 1910, toda sua parte ocidental está superposta à antiga muralha romana da Legio VIII Gemina, nome da cidade dada pelos romanos durante sua fundação. Sob os cimentos do atual edifício, também foram encontrados vestígios desta época inicial.

A basílica que hoje conhecemos aparece documentada por primeira vez no ano 956, durante o reinado de Sancho I, que construiu um templo para acolher as relíquias de Pelayo, um menino martirizado em Córdoba em 925, e cuja fama estendeu-se por todo o continente. O traslado do corpo, porém, só foi realizado por sua esposa, a rainha Teresa, e por sua irmã Elvira Ramírez. A vida monástica no local durou apenas 20 anos, devido ao ataque e a devastação provocada pelo caudilho árabe Almanzor em 988. Ao receber a notícia do ataque,a rainha Teresa se encarregou de levar o corpo do mártir a Oviedo, para que fossem preservadas as relíquias.

A reconstrução do monastério deveu-se a Alfonso V, onde foi posteriormente sepultado. Durante o reinado de sua filha, D. Sancha, e de seu esposo, o rei Fernando I, decidiu-se construir um novo templo no séc. XI. Reedificaram também o Panteão Real, onde foram enterrados. Segundo o costume da época, para engrandecer a igreja, era necessário contar com relíquias importantes. Trouxeram, então, desde Sevilha, o corpo do erudito e bispo San Isidoro, em 1062. No ano seguinte, a igreja foi consagrada sob a titularidade do santo sepultado.

Esta foi a primeira igreja românica erguida no Reino de León, conservando-se desta época, o Panteão Real, a Tribuna, os dois primeiros corpos da torre e os dois pórticos da fachada.

A igreja foi reedificada no séc. XII, graças a filha de Fernando I e D.Sancha, a infante Urraca. Este é o templo que contemplamos atualmente, bem como as portas românicas da fachada. Foi também a responsável pela decoração pictórica do Panteão Real. A nova igreja foi consagrada em 1149, transformando-se depois em Abadia.

Abaixo, uma imagem de San Isidoro, que decora o interior da igreja.

Além das reformas realizadas no período românico, a basílica sofreu outras nos séculos posteriores, como a que sucedeu no séc. XVI, quando se derrubou a antiga capela maior para a construção da atual, a cargo de Juan Badajoz El Viejo. De estilo gótico, foi encarregada em 1513 e o retábulo que a adorna  foi talhado entre 1525/1530, e procede de uma paróquia de Valladolid e que foi levado à basílica em 1920. No seu programa iconográfico, vemos cenas da vida da Virgem e da paixão de Cristo.

O séc. XIX foi o pior para a história do edifício, poi foi saqueado pelas tropas francesas e também depois da Desamortizaçao de Mendizábal (1835). No séc. XX, com a Guerra Civil, foi novamente ocupada pelos militares.

O templo possui 3 naves, com planta de cruz latina. O ábside central pertence ao séc. XVI, e os laterais, ao período românico.

No exterior destaca as duas portadas românicas, as primeiras construídas no Reino de León. A denominada do Cordeiro é a mais antiga e principal do templo. Seu tímpano está decorado com maravilhosos relevos românicos, representando o sacrifício de Isaac, com o cordeiro místico sustentado por dois anjos. Infelizmente, durante minha visita, a porta estava sendo restaurada, e não pude ver-la.

Já a Porta do Perdão era a entrada de acesso à igreja dos peregrinos  que faziam o Caminho de Santiago, para obter o perdão dos pecados e para que conseguissem as indulgências correspondentes. Seus relevos são atribuídos ao Mestre Esteban, que também trabalhou nas catedrais de Santiago e Pamplona. Por primeira vez, esculpe temas evangélicos, que seriam reproduzidos em outros lugares. No tímpano, observamos cenas da Ascençao, Descendimento da cruz e o sepulcro.

A Tribuna Real acolhe hoje em dia um excepcional museu, com valiosas peças de arte românico, e o espaço ficou conhecido como a “Câmara de D.Sancha”, pois era o palco exclusivo da rainha. Algumas das peças expostas foram encarregadas pela própia rainha e seu esposo, o rei Fernando I, para embelezar a igreja que ambos haviam mandado construir. Um exemplo destas magníficas obras é a arca de San Isidoro, construída em prata e realizada em 1065 e a arca onde foram guardados os restos de Pelayo e San Juan Batista, datada de 1059.

A galeria ou átrio também foram realizados no séc. XI, a primeira construída no estilo românico. Atualmente, se denomina Panteão dos Infantes, pois nele estão depositados restos de infantes reais, bem como membros da nobreza leonesa.

O Arquivo-Biblioteca, do séc. XVI, foi construído por Juan Badajoz El Moço, e possui grande quantidade de pergaminhos, códices e livros raros.

A Torre do Galo forma parte da muralha e tem um formato quadrado. O galo situado na parte mais alta foi considerado um dos símbolos mais queridos da cidade. Muito antigo, não se conhece sua história, nem quando e porque chegou à torre. No início do séc. XXI, foi retirado do local para estudos, e colocado uma réplica em seu lugar. Na foto a seguir, o sino de época medieval que situava-se no alto da torre.

Muitos dos capitéis que adornam a basílica sao considerados como exemplos para os demais, construídos em épocas posteriores.

Este post não teria sentido, se não mencionasse o inigualável Panteão Real da basílica de San Isidoro. Localizado aos pés da igreja, está decorado com pinturas murais que, por sua qualidade e grau de conservação, o tornam único na Espanha e em toda Europa. É conhecido como a “Capela Sixtina do Românico”. Suas fotos não estão permitidas no local. Recomendo, pois, sua visualização na Internet, é simplesmente maravilhoso…

 

 

 

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Palácio de El Pardo – Madrid

As origens do Palácio de El Pardo se remontam ao ano 1405, quando o rei Enrique III ordenou a construçao de uma casa real no monte de El Pardo. Por sua vez, Enrique IV edificou sobre a mesma um pequeno castelo, que logo se transformou num palácio durante o reinado de Carlos I, a partir do projeto de Luis de Vega. As obras iniciaram-se em 1547 e foram concluídas em 1558, já durante o governo de Felipe II.

Em 1604 um incêndio destruiu boa parte do palácio, apesar de ser salvo o quadro de Ticiano, chamado Vênus de El Pardo, atualmente exposto no Louvre. Felipe II ordena, pois, a reconstrução do palácio, sob a direção de Francisco de Mora, o mesmo arquiteto que sucedeu a Juan de Herrera na execução do Monastério do Escorial.

Em 1722, Carlos III promoveu obras de melhorias e ampliações a um dos arquitetos autores do Palácio real de Madrid, Francesco Sabatini.

Foi no El Pardo onde faleceu o rei Alfonso XII em 1885. Uma vez terminada a Guerra Civil Espanhola, o edifício foi mais uma vez objeto de reformas, desta vez para habilitar-lo como residência do Gen. Franco. Durante seu governo (1939/1975), o palácio foi o centro da maioria das grandes decisões políticas do país.

Atualmente, o Palácio de El Pardo é utilizado para hospedar chefes de estado estrangeiros em visita oficial a Espanha. A celebração de atos oficiais e sociais, por parte da Família Real Espanhola, é outra de suas funções.

Em torno ao palácio, foi crescendo um pequeno núcleo urbano que deu lugar ao pueblo de El Pardo, hoje em dia integrado ao município de Madrid.

Além de seu valor histórico e arquitetônico, o palácio destaca-se por sua decoração interna, representativa de diversas épocas históricas. Infelizmente, as fotos não são permitidas durante a visita guiada que se realiza diariamente.

O denominado Pátio dos Austrias, de estilo renascentista, está coberto por uma bôveda acristalada, permitindo que o lugar seja usado para atos oficiais.

Próximo ao palácio, a “casinha dos Príncipes” foi concebida como um palácio de recreio da casa real no séc. XVIII. Seu autor foi o arquiteto Juan de Villanueva, que iniciou as obras em 1784.

O Real Palácio de El Pardo encontra-se situado numa região de alto valor paisagístico e meio ambiental, pois o Monte de El Pardo é considerado como um dos bosques mediterâneos mais bem preservados da Europa. Se encontra protegido através de sua inclusão no Parque Regional De La Cuenca Alta Del Manzanares.

 

 

 

Caminho de Santiago – Rioja (Parte 2)

Antes de começar o post, quero desculpar-me pela ausência de fotos do post anterior, especialmente aquelas relacionadas com o Monastério de Suso. Todas as fotos publicadas são de minha autoria e, por uma questão pessoal, prefiro não copiá-las de outras fontes. Aos interessados  no tema, existem à disposição na Internet grande quantidade de imagens deste incrível monastério.

O Monastério de Yuso (localizado na parte baixa), de grandes dimensões, é fruto de vários séculos, pois foi fundado no séc. XI e reconstruído nos séc. XVI ao XVIII, misturando-se os estilos renascentista e barroco.

O edifício alberga abundantes obras  de arte. Um de seus maiores tesouros são  as valiosas arquetas de ouro e marfim, feitas no séc. XI e que contém as relíquias do Santo Millán e são únicas na Europa.

De especial interesse é o conjunto formado pela Biblioteca e Arquivo, considerado entre os melhores da Espanha monasterial. Seu valor radica não somente na enorme quantidade de documentos originais – mais de 10 mil – mas também nos raros exemplares que se conserva, como o Evangelho de Jerônimo Nadal, impresso em Antuérpia em 1595, com todas suas páginas policromadas. A Sacristia está ricamente decorada, como vemos abaixo.

No entanto, o grande destaque do monastério fica por conta de um fato histórico, relacionado com o idioma espanhol. Foi aqui, durante o séc. XI, que se escreveu a primeira publicação conhecida da escrita romance, que evolucionada, originou o idioma castelhano. O acontecimento sucedeu quando um estudante ou predicador, encontrando dificuldades de compreensão de determinados textos latinos que estava lendo, realizou uma série de anotações destas obscuras expressões latinas outras que as traduzisse, que lhe fizesse entender o sentido. O texto lido era o códice Aemilianensis 60 e as anotações traduzidas ficaram conhecidas como as Glosas Emilianenses. Se o primeiro texto em espanhol foi redigido no Monastério de Yuso, o mesmo idioma adquire a conotação de culto, e o primeiro poeta de nome conhecido na língua castelhana surge no mesmo vale de San Millán: Gonzalo de Berceo, que no séc. XIII escreve a primeira obra literária no idioma, dedicada aos milagres de Nossa Senhora. Daí a importância do monastério para o estudo e conhecimentos das origens do idioma e da literatura espanholas. Atualmente, o monastério segue mantendo e promovendo a vida monástica, acadêmica e turística.

Nas fotos seguintes, outras imagens do monastério.

A próxima parada obrigatória do peregrino é o município de Santo Domingo De La Calzada. A cidade deve sua existência ao caminho, ou melhor, a Santo Domingo.

Um pastor, chamado Domingo (1019-1109), que vivia nas proximidades da atual cidade, foi desprezado pelos monastérios de Cogolla e Valvanera, decidindo, a partir de então, levar uma vida eremítica. A poucos quilômetros de onde se estabeleceu, perto do rio, passava o Caminho Francês de Santiago, seguindo a velha calçada construída pelos romanos. Domingo sentia pena pelas dificuldades que os peregrinos sofriam durante a travessia do rio e ao largo da rota. Construiu, então, uma ponte, parece que de 24 arcos, e levantou um hospital de refúgio para os peregrinos. Desviou, também, a calçada romana para que passasse pelo local.

Alfonso VI conheceu e protegeu o santo, que ergueu uma igreja, consagrada em 1066, na qual foi posteriormente enterrado. Em torno a ela, começou a edificar-se o burgo de Santo Domingo. Mesmo depois de sua morte, o santo continuou a proteger a cidade com seus milagres e atendendo as preces dos peregrinos, tanto que a cidade ficou conhecida como a Compostela Riojana.

De sua parte românica, o templo conserva apenas o ábside. A estrutura atual, de 3 naves, é de estilo gótico, reformada nos séc. XV/XVI.

O Retábulo Maior, feito de alabastro e nogal, é uma das principais obras do artista Damián Forment (séc. XVI).

O sepulcro românico do santo, do séc. XII, foi ampliado com um monumento feito de alabastro no séc. XV, coberto com um baldaquino, obra de Felipe Vigarny (séc. XVI).

A torre foi levantada em 1762 e o título de catedral lhe foi concedida em 1232.

Seu local mais visitado, porém, é o denominado “galinheiro”, que remete a uma das lendas mais conhecidas do caminho. Trata-se de uma jaula, onde um galo e uma galinha passam sua existência como recordação do divulgado milagre jacobeo da ressureiçao da galinha, que carcarrejou depois de assada. Uma tradição, situada normalmente no séc. XIV, nos transmite o ocorrido.

A lenda diz que entre os muitos peregrinos que paravam na cidade para venerar as relíquias de Santo Domingo, apareceu um casal alemão com seu filho de 18 anos chamado Hugonell, que desprezou a paixão de uma garota que vivia na hospedaria onde permaneceram. Furiosa, introduziu no bolso do rapaz um objeto de prata. Quando os peregrinos reiniciaram o caminho, a garota denunciou o jovem por roubo. O juiz o declara culpado e é condenado à morte por enforcamento.

Depois de um mês, quando seus pais regressavam de Santiago e se aproximaram do patíbulo para orar pelo filho morto, percebem que este se encontra vivo, suspendido pela corda. Suplica aos pais, então, para que acudam ao juiz para que o solte e o deixe em liberdade. O juiz encontrava-se sentado à mesa a ponto de comer uma galinha. Ao escutar a solicitação dos pais, solta uma sonora gargalhada e diz:

– Tão certo o que me acaba de contar, como que esta galinha está viva.

Então, para surpresa de todos, a galinha incorporou-se sobre suas patas e saltou para fora do prato. Imediatamente, o juiz ordena que soltassem o inocente jovem e castiga a verdadeira culpada, a garota.

Abaixo, uma foto do órgao da igreja.

Também localizado na cidade, o antigo hospital de peregrinos construído por Santo Domingo foi reconstruído e adaptado para sua nova função, um hotel da rede de Paradores Nacionais, que bem merece uma estadia ou um cafezinho nas suas cuidadosamente restauradas dependências.

Caminho de Santiago – Rioja (Parte 1)

O peregrino que realiza o Caminho de Santiago de Compostela, em sua etapa riojana, descobre verdadeiras obras primas da arquitetura em pueblos salpicados de história e paisagens encantadoras, onde abundam os vinhedos que elaboram o famoso vinho da Rioja.

Depois de atravessar a Comunidade de Navarra, a primeira parada na Rioja é a sua capital, Logroño. Devido à sua importância, lhe dedicaremos uma publicação à parte. Em seguida, aparece a cidade de Nájera, cujo nome foi dado pelos árabes, que significa “cidade entre rochas”. Foi reconquistada pelo rei leonês Ordoño II em 923. Os reis navarros aqui tiveram seu palácio e declararam Nájera sede episcopal e capital do reino. O rei Sancho El Maior fez com que o Caminho de Santiago passasse pela cidade. Seu monumento principal e de visita imprescindível é o Monastério de Santa Maria La Real, fundado pelo rei Don Garcia, filho de Sancho El Maior, em 1032.

Em 1079, Alfonso VI de Castilla o incorporou à influente Abadia de Cluny, na França. As várias dependências que integram o monastério foram construídas entre os séc. XV/XVI. Na Guerra da Independência, foi saqueado e sofreu perdas irreparáveis pelas tropas napoleônicas. Foi declarado Monumento Nacional em 1889. Desde o exterior, o monastério surpreende por sua sobriedade, com um aspecto similar ao de uma fortaleza. A igreja, de belas proporções e constituída por 3 naves, foi construída no séc. XV.

O Retábulo Maior data de princípios do séc. XVIII, de estilo barroco. No centro aparece a imagem de Santa Maria La Real, segurando o menino Jesus em seu joelho esquerdo. Trata-se de uma talha policromada pré-românica de estilo bizantino, e acredita-se que foi encontrada em 1044 pelo rei Don Garcia.

Em uma de suas capelas, encontramos o sepulcro de D. Blanca de Navarra, mãe de Alfonso VIII. Se conserva apenas a tampa do sarcófago, que constitui uma verdadeira jóia da estatuária românica do séc. XII.

O coro gótico-isabelino foi talhado em madeira em 1492 e está considerado uma obra prima do estilo. As talhas representam a profetas e personagens do Antigo Testamento e virgens e santos do Novo Testamento, junto a motivos ornamentais e grotescos de inspiração profana.

O Panteão Real situa-se embaixo do coro e, no centro, escavado na rocha, se encontra a gruta onde foi achada a imagem da Virgem por Don Garcia. No local, estão sepultados os restos de 12 personagens reais pertencentes ao reino de Nájera-Pamplona. São obras de escultura renascentista do séc. XVI, sendo, portanto, bastante posteriores à época em que viveram os reis.

O denominado Claustro dos Cavalheiros foi levantado no princípio do séc. XVI. Em seu conjunto, harmonizam-se perfeitamente o estilo gótico das bôvedas com os suportes renascentistas. Historicamente, o claustro foi utilizado como Panteão Nacional, centro de enterramento dos nobres mais importantes do país, explicando desta forma a origem de seu nome.

Muitos peregrinos, depois de deixarem a cidade de Nájera, desviam o caminho até chegarem ao pueblo de San Millán de Cogolla, situado a 20km de Nájera. Nele, encontramos dois monastérios, que por sua importância, foram declarados Patrimônio da Humanidade.

O Monastério de Suso ( palavra relacionada com sua localização, no alto de uma colina) está intimamente vinculado à vida do santo Millán, que dá o nome ao pueblo.

Viveu como anacoreta em grutas, onde hoje se situa o monastério, e onde também foi sepultado em 574. Com sua vida eremítica, se inaugura a história de Suso. No edifício, podemos contemplar elementos estruturais do primeiro templo erguido na época visigoda (séc. VI) e o pórtico de acesso mozárabe do séc. XI.

Depois da morte do santo, criou-se uma comunidade de presbíteros, que se reuniam em um cenóbio. A afluência de peregrinos ao sepulcro do santo é contínua, incrementando o papel do monastério na comunidade. No seus auge, possuía uma valiosíssima coleção de manuscritos e códices, entre os quais uma cópia do Apocalipse do beato de Liébana, com a letra do séc. VIII, e a denominada Bíblia de Quiso, datada de 664.

No séc. XI, com a construção do Monastério de Santa Maria La Real de Nájera, decidiu-se pelo traslado dos restos do santo para o novo local. Conta-se que durante a viagem, os bois que transportavama carruagem com os restos do santo se detuveram, não havendo força humana capaz de fazê-los avançar nem retroceder. O rei entendeu o fato como um aviso divino, e ordenou a construção de um outro monastério no mesmo local, o chamado Monastério de Yuso, cuja história resumida veremos no próximo post.

 

 

 

Convento de San Marcos – León

O Convento de San Marcos é uma das jóias da arquitetura leonesa, junto com a catedral e a Basílica de San Isidoro. É considerado um dos monumentos mais significativos do Renascimento Espanhol.

Sua origem se remonta ao séc. XII (1152), na época do rei Alfonso VII, quando a infanta Sancha de Castilla realizou uma doação destinada a construção de um edifício que pudesse hospedar os “pobres de Cristo”, convertendo-se num templo-hospital de refúgio para os peregrinos que faziam o Caminho de Santiago. No séc. XVI, este edifício foi derrubado para o erguimento de um novo, graças às doações feitas por Fernando El Católico.

Sua fachada é um expoente do estilo Plateresco e começou a construir-se em 1515. Está decorada com medalhões e estátuas que exaltam a monarquia, misturadas com motivos jacobeos e personagens do mundo clássico. O espaço central, que divide a fachada em duas é uma remodelação feita no período barroco, sobre a qual há uma estátua de Santiago Matamouros.

A torre foi levantada posteriormente, em 1711/1714, e no alto vemos a cruz de Santiago.

A igreja é de estilo gótico hispano tardio, comumente conhecido como estilo Reis Católicos. Finalizada em 1541, possui uma ampla nave e as bôvedas são de crucería.

O retábulo maior é do séc. XVIII. O coro foi realizado por Guillermo Doncel e Juan de Juni em 1542.

Acima, vemos a concha, símbolo principal do Caminho de Santiago.

O claustro, do séc. XVI, foi levantado em dois níveis por Juan de Badajoz, El moço.

O conjunto de  estátuas que adornam o templo é de indiscutível elegância.

As portadas e os sepulcros estao ricamente esculpidos.

Ao longo de sua história, o edifício teve uma enorme variedade de usos, principalmente depois que deixou de ser convento em 1836, destacando os seguintes:

– Prisão: um de seus “residentes” mais ilustres foi Francisco de Quevedo.

– Quartel de cavalaria.

– escola de veterinária, hospital penitenciário e campo de concentração de prisioneiros republicanos durante a Guerra Civil e o período do pós guerra mundial. Foi um dos estabelecimentos repressivos mais severos e saturados da Espanha franquista, alcançando uma população reclusa de 6.700 homens.

– Min. Guerra, Fazenda e Educação.

Atualmente, o edifício é utilizado de várias formas:

– Igreja

– Museu Arqueológico Provincial

– Hotel de categoria 5 estrelas da rede de Paradores Nacionais, que exibe em seu interior uma grande coleção de obras de arte.

 

 

 

Museu Ferroviário de Madrid – Segunda parte

No post anterior, vimos exemplares de locomotivas a vapor e elétricas da coleçao do museu, expostas em sua nave central. Agora, seguiremos o itinerário recomendado, conhecendo as locomotivas a diesel, que encontramos na Via 3.

Os motores a diesel aplicados à tração de trens chegaram ao país em 1930, mediante a circulação de pequenas locomotivas de manobras ou para passageiros em linhas de pouco tráfico. Na década de 50, locomotivas mais potentes, de fabricação norte-americana, tornaram-se uma alternativa à tração a vapor, quando não era possível a eletrificação das linhas.

Abaixo, vemos uma locomotiva de manobras, construída pela Alemanha e Espanha em 1935. Fabricada para substituir as pequenas locomotivas a vapor, já com baixo rendimento, realizavam manobras nas estações e depósitos. A série compunha-se de tão somente 2 veículos e não foi possível dar continuidade à sua utilização, pois com a Guerra Civil sua finalidade foi alterada. Atualmente, conserva-se apenas este exemplar, que forma parte da coleção do museu desde sua criação.

O denominado Automotor diesel 9404 foi fabricado pela espanhola Cia Auxiliar de Ferrocarriles (CAF) em 1935. Existe muita semelhança entre este trem e o modelo alemão conhecido como “Hamburguês voador”, o mais rápido do mundo na época. Realizou sua primeira viagem na linha que interligava Madrid a Toledo.

Na Via 4, podemos ver alguns dos trens de passageiros mais característicos da coleção.

O primeiro é o Talgo II, construído na Espanha em 1950. Seu nome provém da sigla Trem Articulado Ligero Goicochea Oriol, sendo que seu ciclo iniciou-se na década de 40, quando o empresário e político José Luis Oriol outorgou seu apoio ao projeto do engenheiro Alejandro Goicochea Omar, que havia obtido a patente de um “novo sistema de transprte ferroviário”, e buscava para sua execução um apoio financeiro. Em 1941, iniciaram-se as provas com o Talgo I entre Madrid e Guadalajara, alcançando os 135km/h. Com a chegada do Talgo II em 1950, fabricado nos EUA, foi inaugurado os serviços comerciais na rota entre Madrid e Irún. A revolução de seu sistema baseava-se em suas inovações fundamentais: composição articulada e a ligeireza de sua estrutura de alumínio, além de novos parâmetros de conforto, como ar condicionado, poltronas reclináveis, janelas panorâmicas, restaurante, etc.

O vagão de terceira classe C16, fabricado na Grã-Bretanha em 1885 pela empresa Great Southern of Spain Railway, foi utilizada na península entre 1885/1941. Sua distribuição interna correspondia ao formato característico dos primeiros veículos ferroviários, baseado em conexões separadas, sem interligação com as demais. Tinha capacidade para 60 passageiros, distribuídos em 5 partes com 12 poltronas cada.

A seguir, vemos um belo trem-restaurante espanhol, construído em 1930.

Fabricada em 1864, a diligência de abaixo foi utilizada pela Cia de ferrocarriles que fazia a rota entre Medina do Campo, Zamora, Orense e Vigo.

Prosseguindo o passeio pelo museu, visitamos a Sala dos Relógios. O interesse pela precisão na medição do tempo e seus avances técnicos tiveram, ao longo do séc. XIX, uma estreita relação com a evolução dos trens como meio de transporte. Neste contexto, o museu dispõe de uma série de relógios que se utilizavam habitualmente nas instalações e oficinas ferroviárias.

O relógio que vemos na plataforma é de origem francesa, fabricado em 1876.

Na Sala de Modelismos, existem 3 maquetes de distintas épocas e escalas. A visão do movimento dos vários veículos em miniatura fascina o visitante e o transporta a paisagens reais ou imaginários. A atração que as locomotivas e vagões exercem desde sua aparição fez com que, quase paralelamente à instalação ferroviária, se iniciasse a fabricação de brinquedos que evocam este meio de transporte, promovendo uma imparável paixão pelo colecionismo e um grande entusiasmo pela construção de maquetes, atividade que atualmente constitue o passatempo favorito de inúmeras pessoas.

A maquete de abaixo representa uma paisagem germânica idealizada, com distintos elementos: montanhas, ambiente rural,urbano e industrial.

A seguir, uma maquete de uma típica estaçao espanhola.

Fotos dos brinquedos que fizeram a alegria de muitas crianças e de adultos também…

As lâmpadas históricas ferroviárias também possuem seu espaço no museu.

O sistema de comunicação ferroviário conta com várias peças expostas, como veremos na seqüência. Abaixo, uma mesa de telégrafo de 1900, utilizada na estação de Córdoba.

Um telégrafo elétrico, de finais do séc. XIX, que utilizava o chamado sistema Bréquet, de origem francesa.

Finalizamos com uma central telefônica, utilizada pela Renfe entre 1941/1949.

Espero que tenham gostado do post sobre o museu e quando vierem a Madrid, não deixem de visitá-lo, pois ele permite o aprendizado da evolução do transporte ferroviário e suas múltiplas relações.

 

 

 

Museu Ferroviário de Madrid – Primeira Parte

Para aqueles que gostam de viajar de trem e se interessam por conhecer a história deste fabuloso meio de transporte, uma boa pedida é a visita ao Museu  Ferroviário de Madrid, localizado na antiga estação das Delícias. Por estar fora do roteiro turístico tradicional da capital espanhola, além de recomendada, sua visita é deveras agradável e instrutiva. A estação Delícias foi desenhada como uma estação terminal da linha que unia Madrid a Cidade Real, e que possuía continuidade até a fronteira portuguesa através de Badajoz. A linha foi aberta em 1879 e um ano depois se inaugurou a estação. Seu projeto deveu-se ao engenheiro francês Émile Cacheliévre e foi considerada a primeira estação monumental da capital. Desde sua origem, a estação se estruturou em 3 áreas bem definidas e separadas segundo a utilização: mercadorias, tração e passageiros.

A estação foi fechada ao tráfico de passageiros em 1969 e dois anos depois, para as mercadorias. De todo o conjunto, a área dedicada aos passageiros é a mais relevante, sendo um exemplo da arquitetura e engenharia de ferro, material representativo da revolução arquitetônica do final do séc. XIX e símbolo do progresso da época, por sua versatilidade e rapidez de construção.

Em 1984, a estação converteu-se no elemento central da sede do Museu Ferroviário, que objetiva a conservação, estudo e divulgação do patrimônio histórico- cultural ferroviário. A criação e formaçao da coleção permanente do museu originou-se na grande exposição realizada em 1948 em Barcelona, como motivo do centenário da primeira estrada de ferro peninsular. Está organizada de uma maneira didática e coerente, facilitando a compreensão da evolução do transporte ferroviário da Espanha.

A coleção de trens é considerada uma das mais destacadas de toda a Europa, estando formada por 318 peças de material rodante, dos quais 121 são locomotivas.

Em seu amplo espaço, o museu oferece uma exposição que propõe diferentes itinerários temáticos, relacionadas com a tração ferroviária, em suas 3 aplicaçoes: a vapor, elétrica e a diesel. Além disso, são abordados temas como a instalação e infraestrutura das vias, o controle de tráfico e uma sala de maquetes feitas a escala com trens em movimento.

Na denominada nave central, estão expostas locomotivas, vagões e outros veículos que conformam o núcleo principal da coleção do museu.

Na Via 1, visualizamos a evolução das locomotivas a vapor que circularam pelo país, e cujo ciclo finalizou-se em 1975. Nest post e no seguinte, veremos alguns dos exemplares desta magnífica coleção.

O trajeto inicia-se com a Locomotiva do tipo Mikado, construída em 1960 no País Vasco, em parte seccionda, permitindo a compreensão do funcionamento de uma locomotiva a vapor.

As primeiras locomotivas deste estilo que circularam no país eram de fabricação britânica, como a da imagem abaixo, que chegou ao país em 1864, passando a fazer parte da Cia dos Ferrocarriles de Zaragoza a Pamplona e Barcelona.

Esta outra foi encomendada a construtora Sharp & Stewart entre 1877/78  e formou parte do lote de locomotivas da Cia de Ferrocarriles que faziam a linha entre Taragona e Barcelona, chegando até a França. Deixou de ser operativa em 1966.

A seguinte é a mais antiga do museu. Construída na França em 1863, na sua chegada recebeu seu batismo simbólico, uma tradição no meio ferroviário: “El Alagón”, referência a um rio, afluente do Tajo. Destaca-se por apresentar uma enorme chaminé denominada “tubo de estufa” e uma caldeira baixa.

Construída em 1887 e de origem britânica, a denominada “Pucheta” foi utilizada para o transporte de minério de ferro a Bilbao.

Já na foto seguinte, vemos uma locomotiva fabricada na Espanha em 1955. Por seu desenvolvimento técnico, foi considerada uma das melhores do estilo construídas no país, chegando a alcançar 150km/h, um recorde da tração a vapor no país. Foram fabricadas apenas 10 unidades deste tipo e prestavam serviços aos trens expressos da linha Madrid-Irún. Funcionou até 1975.

Na Via 2, estão expostas as locomotivas elétricas, uma solução buscada ao iniciar-se o último quarto do séc. XIX, para superar os problemas de consumo e confiabilidade das locomotivas a vapor.

A primeira que vemos foi fabricada na Suíça em 1907. Foi adquirida pela Cia dos Caminhos de ferro do Sul de Espanha para que pudessem incrementar a tração dos trens que transportavam minérios. Deixaram de circular em 1960, e este é o único exemplar que se conserva atualmente.

A seguinte é uma locomotiva que a Renfe ( Rede Nacional de Ferrovias Espanholas ) encomendou para os serviços das linhas Madrid-Ávila e de Villalba-Segóvia, eletrificadas em 1944. Eram muito apropriadas como trens de carga, apesar de funcionarem também para o transporte de passageiros. Construída por um consórcio entre Espanha e Suíça em 1944, deixaram de funcionar em 1978.