Caminho de Santiago – Rioja (Parte 2)

Antes de começar o post, quero desculpar-me pela ausência de fotos do post anterior, especialmente aquelas relacionadas com o Monastério de Suso. Todas as fotos publicadas são de minha autoria e, por uma questão pessoal, prefiro não copiá-las de outras fontes. Aos interessados  no tema, existem à disposição na Internet grande quantidade de imagens deste incrível monastério.

O Monastério de Yuso (localizado na parte baixa), de grandes dimensões, é fruto de vários séculos, pois foi fundado no séc. XI e reconstruído nos séc. XVI ao XVIII, misturando-se os estilos renascentista e barroco.

O edifício alberga abundantes obras  de arte. Um de seus maiores tesouros são  as valiosas arquetas de ouro e marfim, feitas no séc. XI e que contém as relíquias do Santo Millán e são únicas na Europa.

De especial interesse é o conjunto formado pela Biblioteca e Arquivo, considerado entre os melhores da Espanha monasterial. Seu valor radica não somente na enorme quantidade de documentos originais – mais de 10 mil – mas também nos raros exemplares que se conserva, como o Evangelho de Jerônimo Nadal, impresso em Antuérpia em 1595, com todas suas páginas policromadas. A Sacristia está ricamente decorada, como vemos abaixo.

No entanto, o grande destaque do monastério fica por conta de um fato histórico, relacionado com o idioma espanhol. Foi aqui, durante o séc. XI, que se escreveu a primeira publicação conhecida da escrita romance, que evolucionada, originou o idioma castelhano. O acontecimento sucedeu quando um estudante ou predicador, encontrando dificuldades de compreensão de determinados textos latinos que estava lendo, realizou uma série de anotações destas obscuras expressões latinas outras que as traduzisse, que lhe fizesse entender o sentido. O texto lido era o códice Aemilianensis 60 e as anotações traduzidas ficaram conhecidas como as Glosas Emilianenses. Se o primeiro texto em espanhol foi redigido no Monastério de Yuso, o mesmo idioma adquire a conotação de culto, e o primeiro poeta de nome conhecido na língua castelhana surge no mesmo vale de San Millán: Gonzalo de Berceo, que no séc. XIII escreve a primeira obra literária no idioma, dedicada aos milagres de Nossa Senhora. Daí a importância do monastério para o estudo e conhecimentos das origens do idioma e da literatura espanholas. Atualmente, o monastério segue mantendo e promovendo a vida monástica, acadêmica e turística.

Nas fotos seguintes, outras imagens do monastério.

A próxima parada obrigatória do peregrino é o município de Santo Domingo De La Calzada. A cidade deve sua existência ao caminho, ou melhor, a Santo Domingo.

Um pastor, chamado Domingo (1019-1109), que vivia nas proximidades da atual cidade, foi desprezado pelos monastérios de Cogolla e Valvanera, decidindo, a partir de então, levar uma vida eremítica. A poucos quilômetros de onde se estabeleceu, perto do rio, passava o Caminho Francês de Santiago, seguindo a velha calçada construída pelos romanos. Domingo sentia pena pelas dificuldades que os peregrinos sofriam durante a travessia do rio e ao largo da rota. Construiu, então, uma ponte, parece que de 24 arcos, e levantou um hospital de refúgio para os peregrinos. Desviou, também, a calçada romana para que passasse pelo local.

Alfonso VI conheceu e protegeu o santo, que ergueu uma igreja, consagrada em 1066, na qual foi posteriormente enterrado. Em torno a ela, começou a edificar-se o burgo de Santo Domingo. Mesmo depois de sua morte, o santo continuou a proteger a cidade com seus milagres e atendendo as preces dos peregrinos, tanto que a cidade ficou conhecida como a Compostela Riojana.

De sua parte românica, o templo conserva apenas o ábside. A estrutura atual, de 3 naves, é de estilo gótico, reformada nos séc. XV/XVI.

O Retábulo Maior, feito de alabastro e nogal, é uma das principais obras do artista Damián Forment (séc. XVI).

O sepulcro românico do santo, do séc. XII, foi ampliado com um monumento feito de alabastro no séc. XV, coberto com um baldaquino, obra de Felipe Vigarny (séc. XVI).

A torre foi levantada em 1762 e o título de catedral lhe foi concedida em 1232.

Seu local mais visitado, porém, é o denominado “galinheiro”, que remete a uma das lendas mais conhecidas do caminho. Trata-se de uma jaula, onde um galo e uma galinha passam sua existência como recordação do divulgado milagre jacobeo da ressureiçao da galinha, que carcarrejou depois de assada. Uma tradição, situada normalmente no séc. XIV, nos transmite o ocorrido.

A lenda diz que entre os muitos peregrinos que paravam na cidade para venerar as relíquias de Santo Domingo, apareceu um casal alemão com seu filho de 18 anos chamado Hugonell, que desprezou a paixão de uma garota que vivia na hospedaria onde permaneceram. Furiosa, introduziu no bolso do rapaz um objeto de prata. Quando os peregrinos reiniciaram o caminho, a garota denunciou o jovem por roubo. O juiz o declara culpado e é condenado à morte por enforcamento.

Depois de um mês, quando seus pais regressavam de Santiago e se aproximaram do patíbulo para orar pelo filho morto, percebem que este se encontra vivo, suspendido pela corda. Suplica aos pais, então, para que acudam ao juiz para que o solte e o deixe em liberdade. O juiz encontrava-se sentado à mesa a ponto de comer uma galinha. Ao escutar a solicitação dos pais, solta uma sonora gargalhada e diz:

– Tão certo o que me acaba de contar, como que esta galinha está viva.

Então, para surpresa de todos, a galinha incorporou-se sobre suas patas e saltou para fora do prato. Imediatamente, o juiz ordena que soltassem o inocente jovem e castiga a verdadeira culpada, a garota.

Abaixo, uma foto do órgao da igreja.

Também localizado na cidade, o antigo hospital de peregrinos construído por Santo Domingo foi reconstruído e adaptado para sua nova função, um hotel da rede de Paradores Nacionais, que bem merece uma estadia ou um cafezinho nas suas cuidadosamente restauradas dependências.

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