Gigantes e Cabeçudos

Durante as festas populares na Espanha, nos pueblos e cidades, é comum presenciarmos um desfile de figuras de caráter folclórica-históricas e amplamente difundido por toda Europa Ocidental e América Latina: os gigantes, que dançam e animam o ambiente, e os cabeçudos, que perseguem as pessoas, sobretudo crianças, que fazem parte da celebração.

Como o próprio nome indica, os gigantes são figuras de vários metros de altura que giram e dançam ao som de uma banda de música tradicional.

O mais habitual é que as figuras representem a arquétipos populares ou personagens históricos de relevância social. As figuras são construídas com pano, poliéster ou fibra de vidro, suportadas por uma armação de madeira, ferro ou alumínio, que se cobrem com chamativas vestimentas. A altura desproporcionada dos gigantes criam um certo efeito de nobreza, enquanto os cabeçudos, de menor altura, se destacam pela proporção exagerada da cabeça, gerando um efeito mais cômico.

Existem também os caballitos, personagem metade cavalo, metade humano. Os gigantes existem em cerca de 90 países, com origens muito diversas.

No Brasil, por ex., são famosos os bonecos gigantes de Olinda, que desfilam na época do carnaval. Na Espanha, sua primeira aparição documentada ocorreu em 1380, em Barcelona.

O desfile de gigantes e cabeçudos são organizados por uma espécie de grupos carnavalescos, denominados comparsas.

Em Madrid, podemos admirar suas evoluções durante as festas em homenagem a San Isidro, padroeiro da cidade, realizadas anualmente no mês de maio.

Tanto os gigantes como os cabeçudos possuem nomes, como o de Alfonso VI, rei espanhol da época da reconquista (lado esquerdo da foto) e Beatriz Galindo, conhecida como La Latina, cujo bairro madrilenho lhe presta homenagem, foi uma humanista espanhola dos séc. XV/XVI e uma das mulheres mais cultas de sua época. Foi também preceptora de Isabel a Católica (direita da foto).

Praça de Espanha – Madrid

A Praça de Espanha de Madrid é um dos locais mais conhecidos e visitados da capital espanhola, pela beleza de suas fontes, monumentalidade dos edifícios que a cercam e estátuas majestosas, que homenageiam personagens ilustres da história do país. Localizada estrategicamente no final da Gran Via, é considerada uma das maiores praças espanholas.

Séculos atrás, o espaço da atual praça era tomado por um campo de cultivo. O rei Carlos III comprou as terras pertencentes ao Duque de Osuna para a construção de um convento para os frades de San Gil, que habitavam na capital. Porém, os frades não chegaram a viver no edifício e José de Bonaparte, irmão de Napoleão, que reinou durante 5 anos na cidade, ordenou que o convento fosse utilizado como quartel de cavalaria, função que exerceu até a metade do séc. XIX. Em 1908, o convento-quartel foi demolido, criando espaço para o projeto da praça, realizado em 1911.

Situado no centro da praça, contemplamos o monumento a Miguel de Cervantes, realizado simultaneamente à urbanização da própria praça.

Sua construção foi motivada pelo terceiro centenário da publicação da segunda parte do D.Quixote e sua posterior morte em 1616. O autor do projeto foi o arquiteto e escultor Rafael Martínez Zapatero. As figuras que compõem o conjunto são o próprio Cervantes, sentado e, na base, as estátuas de D.Quixote e Sancho Pança. O trabalho foi concluído depois de finalizar-se as estátuas de Dulcinéia e Aldonza Lorenzo.

Aludindo à universalidade do escritor, o monumento ressalta os 5 continentes, todos eles com traduções nos mais diversos idiomas da clássica obra. A espécie de árvore predominante no jardim que embeleza ainda mais o ambiente é o Olivo, em homenagem aos campos de Castilla-La Mancha que inspiraram a Cervantes. A parte construtiva do monumento está feita de granito, enquanto a parte escultórica realizou-se com um tipo de pedra da região de Sepúlveda (Prov. Segóvia).

Em frente à estátua de Cervantes, um lago de formato retangular propicia uma das vistas mais características da capital, com a presença de dois de seus edifícios mais emblemáticos. A Torre de Madrid e o Edifício Espanha.

O primeiro foi, na época de sua construção (1954/1957), o edifício mais alto da espanha, com 142m de altura e o mais alto da Europa, até 1967. Na foto abaixo, o vemos situado no lado esquerdo da imagem.

Já o Edifício Espanha ocupa a parte frontal da praça, e se caracteriza por sua disposição escalonada. Construído pelos arquitetos irmãos José Maria e Julián Otamendi a partir de 1948, ocupa atualmente o oitavo posto dentre os mais altos de Madrid, com 117m de altura. Foi inspirado nos modelos americanos, como uma pequena cidade, onde realizavam-se funções diversas, sem a necessidade de sair dele: comerciais, administrativaas, recreativas e hoteleiras. Possuía também um recorde na quantidade de elevadores existentes, 32. O Edifício Espanha foi amplamente utilizado como propaganda pelo regime de Franco. Depois de sua venda ao banco Santander em 2005, e a reabilitação de sua fachada em 2006, atualmente o edifício encontra-se vazio, a espera da construção de um centro comercial ou para residências de alto padrão.

Do outro lado da praça, vemos a dois dos escassos edifícios modernistas de Madrid. De um lado, a Casa Gallardo foi projetada pelo arquiteto Federico Arias Rey em 1911. Formado em Barcelona, trouxe de Catalunha o estilo que se havia tornado predominante na Europa no início do século. Sua fachada possui um movimento que faz com que qualquer variação na luminosidade do dia, repercuta na sua visualização. Inspirado no modernismo francês, a prefeitura da cidade outorgou um premio como o melhor projeto arquitetônico do ano.

Na esquina oposta, vemos o edifício da Real Companhia Asturiana de Minas, que apesar do nome, é de origem belga. Construída a finais do século XIX pelo arquiteto Manuel Martínez Ángel, que também fazia parte da diretoria da empresa. Ressaltamos o fato lamentável ocorrido às portas do edifício, a morte do próprio arquiteto, assassinado por um disparo, cometido por um próprio aluno seu.

A fachada chama a atenção pela magistral combinação de materiais utilizados, pedra com ferro no nível inferior, pedra e tijolo no intermediário e pedra com pizarra na parte superior. As torres de estilo francês lhe conferem um certo aspecto de palacete. Atualmente o edifício sedia a Conselheria de Cultura da Comunidade de Madrid.

 

 

 

Museu Nacional de Escultura – Segunda Parte

Neste post, veremos algumas das obras do incomparável acervo do Museu Nacional de Escultura, em ordem cronológica, segundo o estilo que representam.

No entanto, começamos pela capela, um dos espaços mais autênticos do museu. Quando passou a integrar o museu em 1933, se instalaram algumas obras que evocassem seu antigo esplendor. Algumas dela são:

Retábulo Maior do Monastério de La Mejorada de Olmedo (Província de Valladolid). Realizado por Alonso Berruguete (1523/1526). Foi instalado onde situava-se o antigo retábulo original feito por Gil de Siloé para a decoraçao da capela, e que foi destruído durante a invasao napoleônica. De estilo renascentista, exibe cenas da vida de Jesus e Maria.

Sepulcro de alabastro de Diego de Avellaneda: Felipe Vigarny –  1536/1542. Procedente do Monastério de San Juan Bautista e Santa Catalina (Prov. De Sória).

Estátua orante de bronze do Duque de Lerma: Pompeo Leoni/Juan de Arfe (1601/1608). Procedente da Igreja Convento de San Pablo de Valladolid. A solenidade do retrato e o modo de conceber a imagem no contexto de uma atmosfera sacra e suntuosa forma parte do desejo de vencer a morte com a fama póstuma e perpetuar-se.

Iniciamos nossa visualização cronológica através do estilo românico. Depois de um largo período de tempo, que começou com a queda do império romano (séc. V) e prolongou-se até o surgimento do românico ( séc. XI), ocorreu um empobrecimento e até mesmo um desaparecimento da escultura como forma artística, e com a chegada do novo estilo houve um ressurgimento, propiciado pela integração da escultura de pedra com a arquitetura, que podemos observar nos templos e igrejas do período, bem como na escultura em madeira, da qual se conservam numerosos exemplos com sua policromia original. A iconografia básica destas talhas está representada pela Virgem com o menino Jesus, o cristo crucificado e o descendimento de seu corpo da cruz.

A finalidade destas obras não eram meramente decorativas ou narrativas, e sim comover o fiel, mostrando-lhes imagens concretas da divindade. No geral, as figuras são tratadas de forma pouco natural, sem proporções entre as diferentes partes do corpo e em posição rígida, hierática e frontal. Abaixo, vemos alguns exemplos de estátuas românicas do museu.

Na sala dedicada ao séc. XV, um período de transição do gótico ao renascimento, destacamos o retábulo da vida da Virgem, um anônimo flamenco. Procedente do Convento de San Francisco (Valladolid), é um exemplo de como eram apreciadas no Reino de Castilla a arte flamenca (Países Baixos). Na parte central, observamos o pranto da Virgem por seu filho morto.

Da época renascentista (séc. XVI), veremos várias obras:

Retábulo Maior de San Benito El Real (Valladolid): realizado por Alonso Berruguete entre 1526/1532, a obra revela o aprendizado adquirida pelo autor durante sua estância na Itália com os mestres renascentistas. Representa a imagem da Jerusalém Celestial, a cidade de Deus,com cenas do Novo e velho Testamento, em torno a San Benito.

Silhería do Coro do Monast. San Benito El Real: André de Nájera (1504/1533).

Enterro de Cristo: Juan de Juni (1541/1544), procedente do Convento de San Francisco(Valladolid). O conjunto oferece um marcado caráter cenográfico. O movimento e a atitude de uma figura é realizado de maneira similar nas figuras posicionadas no lado oposto, de forma a propiciar uma visualizaçao geral e frontal de toda a obra.

Tentações de San Antonio Abad: Diego Rodrigues e Leonardo de Carrión (1553/1559). Procedente do hospital de San Antonio Abad (Valladolid).

Redenção dos cativos por San Pedro Nolasco: Pedro De La Cuadra (1599). Fazia parte do retábulo maior do Convento de la Merced Calzada (Valladolid). A cena representa um fato freqüente no séc. XVI, a compra de cristãos, presos por africanos em batalhas ou através da pirataria, por frades da Ordem da Merced, fundada por San Pedro Nolasco, com esta intenção libertadora.

O barroco representou, no plano artístico, o que a contra-reforma significou no religioso, uma tentativa de deter o avance protestante pela Europa. Algumas das medidas utilizadas foram a propagação na crença dos milagres e o culto às relíquias, expostas em obras exuberantes. Impulsou também a canonização de santos mártires e popularizou as festas de devoção coletivas. Neste ambiente, as ordens religiosas, em especial a jesuíta, converteu-se em grandes patrocinadoras artísticas.

As artes plásticas, transformadas em um decisivo meio de propaganda, alcança uma dramática expressividade. Os temas religiosos incluem o arrebatamento do êxtase, as visões celestiais, a renúncia ao mundo profano, a ansiedade espiritual e, sobretudo, ao aspecto macabro da morte, através de formas violentas, insólitas e impressionantes.

Veremos, agora, algumas da obras do período expostas na coleção permanente do museu:

Retábulo Relicário de San Diego de Valladolid: Juan de Muniátegui e irmaos Vicente e bartolomé Carducho (pinturas). Os relicários expostos no interior refletem a relaçao entre estátuas e relíquias. A imagem foi o catalizador do seu poder, cuja veneração era o essencial, situando-a num cenário que cativasse a imaginação dos fiéis.

Paso de la Sexta Angústia: Gregório Fernández (1616), procedente da Confradia das Angústias (Valladolid). A composiçao adota a fórmula estabelecida em 1522, na qual Jesus não aparece situado no joelho da mãe, mas estendido no solo com a cabeça apoiada no seu regaço. Observamos a maneira naturalista das figuras, a expressividade nos rostos e mãos e a qualidade plástica anatômica, características deste que é considerado um dos maiores escultores espanhóis de todos os tempos. Além disso, detalhe para o contraste cromático e os excepcionais estudos anatômicos que podemos contemplar na figura dos dois ladrões.

Batismo de Cristo: Gregório Fernández (1624), procedente do Convento del Carmen Descalzo (Valladolid). Integrava o retábulo principal do convento, e magnífica é o detalhe da mão esquerda de Jesus.

San Juan Evangelista: Juan Martinez Montañés (1638), procedente do Convento de Santa María de la Pasión (Sevilha). Escultura pertencente ao retábulo a que estava destinada. Trata-se de uma visao de San Juan já maduro, como corresponderia à época de seu exílio na ilha grega de Patmos, onde redatou o Apocalipse, sentado e escrevendo, acompanhado de seu atributo habitual, a águia. Obra de grande qualidade técnica, deste artista que é conhecido como o “Deus da madeira”.

Alegoria da Virgem Imaculada: Juan de Roelas (1616), procedente do Monastério de San Benito El Real (Valladolid). O quadro reflete o documento fundamental para entender-se o dogma, no qual diz que a Virgem foi concebida sem o pecado original, e venerada na procissão que se celebra em Sevilha, em que participam todas as classes sociais.

Menino Jesus: Alonso Cano (séc. XVII).

Madalena Penitente: Pedro de Mena (1664), procedente da casa da Companhia de Jesus (Madrid). Inspirado em Gregório Fernández, é uma obra prima das artes plásticas espanholas por sua alta expressividade e soberba policromia naturalista.

Do séc. XVIII, admiramos a escultura de Sao Miguel Arcanjo, de Felipe Espinabete. Santo de grande devoção na época medieval, seu culto decaiu durante a contra-reforma, mas ganhou um novo impulso para defender o triunfo do catolicismo sobre o culto protestante. Obra plenamente rococó, personifica o triunfo do bem sobre o mal de uma forma preciosa.

Espero que tenham gostado. Quando de viagem por Espanha, nao deixem de visitar o museu e a cidade de Valladolid.

 

 

 

Museu Nacional de Escultura – Valladolid

O Museu Nacional de Escultura foi fundado a mediados do séc. XIX, resultado da desamortizaçao dos conventos espanhóis, impulsionada pelo ministro Mendizábal, que nacionalizou seus tesouros artísticos. Estes foram secularizados, entregues à tutela do estado e oferecidos ao público, sob a forma de centros culturais e museus. Um dos pioneiros foi este museu de Valladolid,  inaugurado em 1842 com o nome de Museu Provincial de Belas Artes e instalado num edifício renascentista, o Colégio de Santa Cruz.

Desde o início, definiu-se o conteúdo principal da coleção do museu à escultura religiosa em madeira policromada, desde a Idade Média ao séc. XIX. Nesta primeira fase, predominaram os artistas ativos no Reino de Castilla, entre 1500 e 1650, como Alonso Berruguete, Juan de Juni, Gregório Fernández, acompanhados de outros artistas contemporâneos, como Felipe Vigarny.

A cidade de Valladolid conquistou um importante papel na Idade Moderna, como residência intermitente da monarquia, representando um foco de novidades culturais e de atração para artistas e escritores, desde a época dos Reis Católicos até o começo do séc. XVII, quando chegou a ser capital do reino.

No séc. XX, se produz uma crescente ampliação de seu acervo, com obras provenientes de Aragón, Murcia e dos mestres andaluzes, como Pedro de Mena e Alonso Cano, conformando um conjunto mais amplo da escultura espanhola.

Se o núcleo principal da coleção permanente é representada pelas peças escultóricas, a presença da pintura  na exposição também possui um papel significativo, pois está concebida a partir da relação entre ambas artes, na medida em que a cor e as formas pictóricas se tornam fundamentais na ornamentação das obras escultóricas.

Em 1933, o museu foi elevado à categoria de Museu Nacional, e sua coleção foi levada a outro edifício histórico, nele permanecendo até os dias de hoje: o Colégio de San Gregório. Essa mudança significava  recuperar um dos grandes monumentos da cidade, um dos exemplos mais notáveis da arquitetura espanhola do séc. XV, em que trabalharam em sua execução mestres como Juan Guas, Simon de Colônia e Diego de Siloé, em diferentes etapas de sua construção.

Podemos dizer que o próprio edifício representa a “primeira obra de arte” da coleção. Seu patrocinador foi o dominicano Alonso de Burgos, bispo da diocese de Palencia e confessor dos Reis Católicos, que também mandou levantar uma capela em 1484, destinada a acolher seu sepulcro. Atualmente, este espaço representa um papel singular e privilegiado entre as dependências do museu, pois conserva quase intacta sua atmosfera original. A capela, construída por Juan Guas, estava decorada com o sepulcro de Alonso de Burgos, obra de Felipe Vigarny, e um retábulo de 1489, ambos desaparecidos durante a Guerra da Independência.

O Museu Nacional de Escultura é considerado o mais importante da península, e um dos mais destacados de todo o continente, em seu âmbito temático.

O Colégio de San Gregório edificou-se entre 1488/1496, ao redor de um pátio composto por dois níveis, unidos por uma espetacular e ornamentada escada de acesso ao piso superior. De estilo hispano-flamenco, foi construído por Juan Guas, e apresenta elementos decorativos característicos do gótico tardio, como os símbolos que enaltecem os Reis Católicos.

Abaixo, uma foto da escada que une os dois níveis.

A fachada do edifício é um verdadeiro retábulo em pedra, incluindo elementos figurativos complexos, relacionados ao papel da educação e seus benefícios. Trata-de de uma excelente amostra do estilo Gótico-Isabelino, em que se começa a introduzir características do renascimento. Está presidida pelo escudo dos Reis Católicos e observamos a presença da flor de lis, emblema de Alonso de Burgos.

Tanto o pátio quanto a fachada se tornaram célebres por sua ornamentação, elegantes proporções e por apresentar uma ostensiva simbologia de poder, que devido à sua complexidade, faz com que a explicaçao dos elementos e motivos que a compõem ofereça grande dificuldade.

O Colégio de San Gregório  tinha por finalidade proporcionar classes de teologia para frades dominicanos e adquiriu uma notável autoridade doutrinal , desempenhando um papel decisivo no aspecto espiritual e político da Espanha, em época renascentista e barroca.  Na época de sua construção, estimulava-se a construção de colégios que atuavam de maneira paralela e complementar às universidades. Sua função teológica concluiu no séc. XIX.

No próximo post, veremos algumas das obras mais representativas deste imperdível museu.

Valladolid – Segunda Parte

Nesta segunda parte da matéria sobre Valladolid, daremos prosseguimento aos monumentos mais importantes da cidade.

A Catedral de N.Sra. da Asunçao foi projetada pelo arquiteto Juan de Herrera e é a sede episcopal da arquidiocese de Valladolid. Devido à escassez de verba do recém criado bispado da cidade, a morte de Juan de Herrera durante sua construção e do rei Felipe II, principais promotores da obra, e a falta de interesse em concluir-la nos séculos posteriores, fez com que se construísse somente a metade do planejado pelo arquiteto.

Destaca a fachada sul, que estaria situada entre 2 torres, das quais só existe uma, levantada no séc. XIX sem que seguisse o projeto original, que constava de 4 torres.

O interior caracteriza-se pela sobriedade e pureza de formas. O retábulo Maior, obra de Juan de Juni, decorava o altar maior da Igreja de Santa Maria La Antigua, mas foi levado à catedral devido as reformas que foram realizadas no templo no séc. XX. O retábulo está dedicado à Santa Maria, e contém cenas da vida da Virgem e de Cristo.

O órgão é de 1904, que substituiu o anterior barroco.

O Museu Diocesano e Catedralício está situado nos restos restaurados da antiga Catedral e Colegiata medieval do séc. XIII, erigida pelo Conde Ansúrez, fundador da cidade.

O conjunto de capelas funerárias, que abrigam o acervo do museu, estão adossadas à antiga colegiata e foram modificadas no séc. XIV, em estilo gótico. Inaugurado em 1965, o museu contém mais de 450 obras, entre esculturas, pinturas e peças litúrgicas.

A Capela de San Lorenzo, construída a partir de 1345, está composta por duas cúpulas octogonais mudéjares, decoradas com motivos vegetais e heráldicos, além de exibir sepulcros do séc. XIII.

Outro destaque é um retábulo dedicado à San Miguel.

A Capela de Santo Tomás expõe uma coleção de virgens, a maioria góticas e um retábulo dedicado à Santa Ana.

Desde esta capela, acedemos ao único resto do claustro primitivo que alberga um Pranto sobre o Cristo morto, de estilo hispano-flamenco (1500).

As Capelas de San Blás e San Juan Evangelista, construídas em 1337, acolhem peças litúrgicas, como a custódia realizada por Juan de Arfe em 1590.

A Igreja del Monastério de San Benito El Real pertence à Ordem Beneditina, e foi totalmente edificada em pedra. Erguida sobre o antigo Alcázar Real, é de estilo gótico, ainda que sua fachada em forma de Torre-Pórtico foi realizada em época posterior. O edifício foi desenhado pelo famoso arquiteto Rodrigo Gil de Hontañón em 1569.

O Palácio de Fabio Nelli é considerado o edifício renascentista mais importante da cidade. Atualmente, sedia o Museu da cidade, com grande acervo de peças arqueológicas e artísticas.

A Igreja Penitencial de N.Sra. De Las Angustias foi projetada pelo arquiteto Juan de Nates, e inspirada nos modelos italianos e na catedral. Concluída em 1604, apresenta no interior um retábulo dedicado ao mistério da anunciação, de Francisco del Rincón.

Na fachada, apreciamos as esculturas de San Pedro, San Pablo e a Piedade.

Finalizamos o post com um dos mais belos edifícios modernistas da cidade, construído em 1906 pelo arquiteto Jerônimo Arroyo.

Na próxima publicação, não percam a matéria sobre o Museu Nacional de Escultura, um dos lugares mais fantásticos de Valladolid e, certamente, um dos museus mais espetaculares de toda a Espanha, no que se refere à arte sacra.

Valladolid – Primeira Parte

Capital da província homônima e pertencente à Comunidade de Castilla-León, Valladolid é a décima terceira cidade mais populosa da Espanha com aprox. 320 mil habitantes. Situa-se ao noroeste da Península e até a Idade Média não possuiu uma população estável. Após a reconquista dos territórios até então sob poder muçulmano, o monarca Alfonso VI encargou ao conde Pedro Ansúrez o repovoamento da cidade, sendo este considerado, pois, seu fundador, no séc. XI.

A partir de 1072, inicia-se seu crescimento, com a construção de igrejas, universidade e o Alcázar Real, permitindo que Valladolid se convertesse na sede da corte castelhana.

Uma das hipóteses mais prováveis para a origem de seu nome provém da expressão celta Vallis Tolitum, que significa Vale das águas, já que a cidade está cortada por dois rios, o Pisuerga e o Esgueva. De forma popular, utiliza-se a palavra Pucela para denominar a cidade.

Durante os séc. XII e XIII, Valladolid expandiu-se favorecida pelos privilégios comerciais outorgados pelos reis Alfonso VIII e Alfonso X, El Sábio. Nesta época, a cidade servia ocasionalmente como residência real e em 1469 os Reis Católicos Fernando de Aragón e Isabel de Castilla celebraram seu matrimônio no Palácio De Los Vivero. Durante seu governo, viveu uma época de dinamismo universitário, com a criação dos Colégios Maiores de Santa Cruz e de San Gregório. Vale lembrar que a universidade de Valladolid é uma das mais antigas do mundo, do séc. XIII.

Em 1500 se estabelece o Tribunal da Inquisição, dando lugar a celebrações dos chamados Autos de fé. Em 1506, falece na cidade Cristóvão Colombo, sendo sepultado no Convento de San Francisco, hoje desaparecido. Em 1527 nasce no Palácio de Pimentel, o futuro rei Felipe II. Construído no séc. XV, atualmente é a sede da Deputação Provincial. Abaixo, vemos algumas fotos do palácio.

Arrasada por um incêndio em 1561, a cidade foi reconstruída pelo já rei Felipe II, dotando-lhe da primeira Praça Maior de Espanha. O projeto de Francisco de Salamanca colocou em prática, por primeira vez, as concepções do urbanismo moderno. As praças maiores de Salamanca e Madrid, mais famosas, foram inspiradas no modelo da praça de Valladolid. O núcleo histórico da cidade articula-se em seu entorno, e a Casa Consistorial, situada no meio da praça, é seu edifício mais representativo. Construída em 1908 pelo arquiteto Enrique Maria Repullés, imita os modelos da arquitetura renascentista espanhola.

Da época da construção da Praça Maior, Valladolid converteu-se, durante um breve período, entre 1601 e 1606, na capital do Império Espanhol. Depois que esta função passou definitivamente a Madrid, a cidade entrou num período de decadência, do qual somente se recuperará com a chegada da estrada de ferro Companhia do Norte em 1860 e com o processo de industrialização ocorrido em pleno séc. XX.

Atualmente, a economia baseia-se no setor terciário de serviços, com um comércio diversificado e uma potente indústria automobilística.

O centro histórico da cidade está repleto de lugares de interesse, relacionados com os relevantes episódios que se sucederam na cidade. Nest post e no próximo, veremos os principais pontos turísticos de Valladolid.

A Igreja Conventual de San Pablo é um de seus monumentos mais representativos. Pertence à Ordem Dominicana e está localizada na Praça de San Pablo, que também alberga o mencionado Palácio de Pimentel e o Palácio Real.

O convento foi fundado em 1276, porém o templo atual foi construído em 1445, através da iniciativa do cardeal Fray Juan de Torquemada, tio do inquisidor geral Tomás de Torquemada. Os arquitetos responsáveis pelo projeto foram Juan Guas e Simon de Colônia, e na igreja foram batizados os reis Felipe II e Felipe IV. O estilo é o habitual da época dos reis católicos, o denominado Gótico Isabelino.

No séc. XIX, com a invasão napoleônica, tanto a igreja quanto o convento foram profanados, causando sérios danos ao conjunto. A progresiva ruína, associada aos processos desamortizadores, em especial o verificado em 1835, destruíram as dependências conventuais, restando em pé somente a igreja. No séc. XX, foi obra de várias restaurações, entre as quais a que se realizou depois que foi vítima de um incêndio. Seu grande destaque é a ornamentada fachada, construída em 1500, obra de Simon de Colônia, e se assemelha a um grande retábulo em baixo-relevo, feito de pedra.

Da época renascentista, edificada no estilo florentino, é o Palácio do Marques de Valverde, um dos exemplos de casa palaciega da cidade.

Uma dos templos mais velhos da cidade, a Igreja de Santa Maria la Antigua é mencionada desde 1088. Porém, desta época primitiva não sobrou nada. Conserva, no entanto, uma esbelta torre românica de finais do séc. XII. O resto pertence aos estilos gótico e neogótico, pois foi restaurada no séc. XIV e reconstruída no séc. XX.

De princípio do séc. XX é a Academia de Cavalaria, situada em frente a maior área verde da cidade, o Parque Campo Grande.

Idealizado por Miguel Íscar, prefeito da cidade na segunda metade do séc. XIX, o Parque Campo Grande acolhe uma grande variedade de árvores, constituindo um verdadeiro Jardim Botânico. Outro aspecto digno de menção é a enorme quantidade de aves como, por exemplo, o pavão real.

A Fonte da Fama foi construída em homenagem a inesperada morte de Miguel Iscar em 1880, e inaugurada 3 anos depois.

Um dos edifícios históricos da Universidade de Valladolid é o que alberga o curso de direito, como mostra sua decorada fachada barroca de 1715. No interior, admiramos sua bela escada decorada com azulejos.

Palácio das Comunicaçoes – Madrid

O Palácio das Comunicaçoes de Madrid foi construído a partir de 1907, mediante concurso municipal realizado 3 anos antes, pelos jovens arquitetos Joaquim Otamendi e Antonio Palácios. Este último foi o único arquiteto de sua geração que criou um estilo próprio, uma combinação da arquitetura norte-americana de caráter monumental com características espanholas, inspiradas no gótico e no renascimento.

Localizada na cêntrica Praça de Cibeles, ocupa uma área que pertenceu ao antigo Jardim Del Buen Retiro. A escolha do local para  a construção do edifício causou polêmica na época, por privar a cidade de uma zona de recreio.

Inaugurado em 1919, ante a presença da família real, como a Central de Correio, Telégrafos e Telefones de Espanha, é considerado como um dos primeiros exemplos da arquitetura modernista da capital, e representou o início da fulgurante carreira profissional de ambos arquitetos. Durante 100 anos, o edifício se destacou por ser o centro de um eficaz sistema de comunicações, que alcançava todo o país.

Denominado na época de sua inauguração como a “Caterdal das Telecomunicações”, marcou uma etapa fundamental no urbanismo de Madrid, convertendo-se num paradigma de modernização e reconhecido como um dos monumentos mais emblemáticos da capital.

Com o declínio da utilização do correio postal a finais do séc. XX, o palácio vai paulatinamente perdendo sua função original e em 2007 passa a sediar as dependências municipais da Prefeitura, mudando seu nome para Palácio Cibeles, e mantendo esta função administrativa até os dias atuais.

O acesso ao edifício se realiza por uma escalinata que permite a entrada ao hall principal, um amplo espaço no qual se distribuíam os 3 serviços de comunicações aos quais estava destinado.

Os motivos decorativos, tanto da fachada quanto do interior, foram realizados pelo escultor Ángel García Díaz. Os detalhes ornamentais vão aumentando na medida em que o edifício ganha altura, e esta disposição nos obriga a olhar para cima.

Antonio Palácios adaptou o formato côncavo da fachada ao local onde está situado o edifício, numa das laterais da Praça de Cibeles.

O conjunto se divide em duas partes separadas pela Passagem de Alarcón, atualmente coberta por uma galeria de cristal, e que funcionava como pátio de descarga. A parte traseira do conjunto sedia a prefeitura e, recentemente, a parte que dá para a Praça de Cibeles foi reabilitada como um novo espaço cultural denominado Centro Centro Cibeles de Cultura e Cidadania (5Cs). Tal designação não é um erro de datilografia, e sim a maneira como os madrilhenhos costumam dizer quando se encontram em pleno centro da cidade, “estou no centro centro…”.

Mesmo depois da reforma realizada, muitos dos elementos originais foram conservados, como a decoraçao de azulejos que adornam as escadas de acesso aos andares superiores, como as antigas lamparinas.

O espaço acolhe exposições fotográficas sobre a cidade, e dispõe de Internet grátis, sala de leitura, cafetería e auditório. Além disso, a visita guiada que se realiza é altamente recomendável.

A sala de leitura localizada no téreo foi realizada durante a reforma para inauguraçao do centro cultural, mediante uma pesquisa feita junto com a populaçao da cidade, cujo objetivo era saber os interesses do público na criaçao do novo espaço.

Por primeira vez, está permitido o acesso à torre, onde se  contempla privilegiadas vistas de Madrid e, inclusive, da Serra de Guadarama.

Abaixo, uma imagem da famosa Praça de Cibeles.

Finalizamos com mais algumas fotos do interior do palácio…