Alhambra de Granada

A Alhambra de Granada é, merecidamente, o monumento mais visitado de Espanha. Seu valor histórico, aliado às maravilhosas dependências que integram o conjunto a converteram num símbolo da arte e arquitetura hispano-muçulmana. Por isso, em 1984 foi declarado, junto com o Generalife, Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Representam o exemplo mais notável da lúdica vida palaciana que desfrutava o reino muçulmano nestas terras durante seu período de máximo esplendor, correspondente à dinastia  nazarí, a última dinastia árabe que reinou na Espanha. Foram testemunhos ao longo dos séculos da grandeza da cultura árabe, e também presenciaram a queda dos últimos territórios do império muçulmano através da conquista da cidade pelos Reis Católicos.

Na verdade, trata-se de um rico conjunto de palácios e fortaleza, residência dos reis da dinastia nazarís, e sede da corte do Reino de Granada. O recinto está cercado por muralhas, que ocupam a maior parte da colina de Assabica, situada na margem esquerda do rio Darro.

A Alhambra exibe os elementos da arquitetura islâmica mais conhecidos do país e com as ampliações realizadas pelos reis cristãos no séc. XVI e outras reformas posteriores, constituem o magnífico cenário que podemos contemplar atualmente. Uma das melhores vistas são aquelas que se obtém a partir dos mirantes situados no magnífico bairro de Albaicín.

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Etmologicamente, o termo Alhambra significa fortaleza vermelha, em referência à cor dos tijolos de taipas utilizados na construção das muralhas exteriores. Outra hipótese é que durante a construção, também se trabalhava de noite e as tochas iluminadas lhe conferiam a coloração avermelhada, vistas de longe.

A cidade de Granada possuía seu próprio sistema defensivo. Desta forma, o complexo da Alhambra funcionava de maneira independente em relação à cidade. No princípio, era um dos inúmeros castelos dos emires de Córdoba no séc. IX.

A maior parte do conjunto foi levantado entre 1248/1354, sendo que o primeiro núcleo do palácio se deve a Aben Alhammar, que estabeleceu no local sua residência. Seu filho, Mohamed II, fortificou o complexo. Porém, foi Ismael Yusuf I, o mais ativo de seus construtores, e Mohamed V, os principais impulsores da maior parte das edificações da Alhambra, ao longo do séc. XIV. A Alcazaba constituía a zona militar e centro de defesa e vigilância do recinto. É considerada a parte mais antiga, pois sua primeira edificação data do séc. XI, quando Granada converteu-se na capital de um dos chamados Reinos de Taifas.

Granada3O recinto amuralhado está formado por um polígono irregular, adaptado às condições do terreno, de 2.200m de perímetro. Está composto por 36 torres e 5 portas de acesso, uma das quais vemos abaixo.

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O conjunto está estruturado em duas partes bem definidas. A inexpugnável Alcazaba e no centro a chamada casa real, formados pelo Palácio de Comares e o Palácio dos Leões, ambos erguidos no séc. XIV, como sede administrativa e real.

Veremos agora algumas de suas principais dependências. O Palácio de Comares está formado pela torre do mesmo nome, a mais alta de todo o conjunto, com 45m de altura, e o Pátio dos Arrayanes, cuja imagem vemos abaixo.

DSC00480Ocupando o espaço da torre, o denominado Salão de Comares, ou dos Embaixadores, representa a estância mais ampla do palácio.

DSC00478Construído pelo sultão Yusuf I e seu filho Mohamed V, nele se celebravam as audiências privadas do sultão. Originalmente, seu solo era de mármore, atualmente é de barro. Cada centímetro de suas paredes estão revestidos com elementos decorativos alusivos ao sultão, ao Corao e a Alá. Escritos em árabe clássico, existem mais de 10 mil inscrições na Alhambra, a maior parte delas podemos admirar neste salão.

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Em sua época, era uma das salas mais suntuosas do mundo islâmico. Seu teto, de formato cúbico, está repleto de estrelas que representam os 7 céus da cultura islâmica, e revela a clara intenção de legitimar o soberano como o representante de Deus na terra. No centro do espaço situava-se o trono do sultão, razão pela qual é conhecida também como Salão do Trono.

O Pátio dos Leões é uma das imagens mais conhecidas de toda a Alhambra. Quando estive lá, a fonte composta pelos animais que dão nome ao local estava sendo restaurada e não pude vê-la. Atualmente, o trabalho está concluído, e se pode admirar em toda sua plenitude. Representam uma alegoria ao poder do sultão e foi esculpida a partir de 1377 e finalizada 13 anos depois. Abaixo, uma imagem da bela estrutura que constitui o palácio.

DSC00482A Sala dos Abencerrajes era a alcova do sultão, composta por muros totalmente decorados.

DSC00481Porém, um dos locais de maior riqueza decorativa é o mirante de Daraxa.

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O denominado Portal fazia parte da residência do sultão Yusuf III.

DSC00466Em 1492, com a conquista de Granada pelos Reis Católicos, o último reduto árabe da península, a Alhambra se transforma num Palácio Cristão. Em 1527, o rei Carlos V constrói um palácio renascentista, que apresenta um grande contraste com as demais construções islâmicas.

Granada4Granada5A seguir, algumas imagens que ilustram a beleza da Alhambra.

DSC00473DSC00477Granada13Granada9Localizado na parte norte do complexo, o Generalife é uma vila ajardinada utilizada pelos reis muçulmanos como local de retiro e descanso. Foi construído durante os séc. XII e XIV.

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A Alhambra tem estado presente na cultura popular de várias formas. Muitos livros utilizaram seu ambiente como fonte de inspiração para sua narrativa. Um dos mais conhecidos foi escrito por Washington Irvine, intitulado Contos da Alhambra. O mesmo sucedeu na música. Manuel Fala, por ex., em sua obra Noite nos Jardins de Espanha, inspirou-se no Generalife. Em 2006, a cantora Lorena Mckennitt deu um concerto no palácio de Carlos V, que podemos ouvir no DVD  Nights from the Alhambra.

O acesso ao conjunto está limitado por uma determinada quantidade de visitas diárias. Por isso, se recomenda comprar os bilhetes de entrada via Internet com bastante antecedência

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Bairro das Letras – Madrid (Parte 2)

Continuando nosso passeio pelo Bairro das Letras de Madrid, o escritor mais universalmente conhecido da Literatura Espanhola, Miguel de Cervantes, não só viveu, como também foi enterrado no bairro. Abaixo, vemos sua residência, da época em que viveu na cidade.

Na calle de Atocha, encontra-se a editora responsável pela primeira edição de sua obra máxima, O Fidalgo Don Quixote de La Mancha, em 1604.

O escritor está sepultado no Convento das Trinitárias Descalças, fundado pelo rei Felipe II em 1612. O atual edifício data de 1673 e foi declarado Monumento Nacional em 1921.

Nas ruas que compõem o bairro, foram travadas famosas disputas entre alguns de seus mais afamados literatos. Uma das mais célebres foi a de Francisco de Quevedo (1580-1645) e Luis de Góngora (1561-1627). Situada em frente ao Convento das Trinitárias, está a casa onde viveu Quevedo. A placa que alude ao fato, no entanto, não explica que havia sido anteriormente o lar de Góngora.

Os ilustres personagens tinham personalidades opostas. Enquanto Quevedo caracterizava-se por seu forte temperamento, assíduo dos prostíbulos e dos ambientes marginais da época, além de querido por sua proximidade às pessoas mais humildes, Góngora, por sua vez, gerava antipatia por sua forma de ser. A rivalidade entre ambos era tal que Quevedo decidiu comprar a casa que pertencia a seu inimigo, para depois botá-lo para fora, pobre e sem apoio. Outra fonte de conflitos foi entre Cervantes e Lope de Vega, e o fato curioso é que a rua onde morou Lope de Vega chama-se Calle Cervantes, enquanto que o Convento onde está sepultado Cervantes, se chama Calle Lope de Vega. É como se a rivalidade entre ambos perdurasse mesmo depois de suas mortes…

No século XIX, o bairro continuou sendo o centro intelectual da cidade, como comprova o Ateneo, instituição cultural privada inaugurada em 1835. Seu objetivo era a divulgação do saber, e para tanto possui uma das melhores bibliotecas do país, no que se refere aos séculos XIX e XX. Muitos dos maiores literatos do país pertenceram à instituiçao. Abaixo, vemos a foto da fachada e do teatro que alberga no interior.

Outro dos locais de convivência que se tornaram famosos no Bairro das Letras eram os denominados mentideros, onde poetas, dramaturgos, atores de teatro, etc, se reuniam para conversar, extender rumores ou compartilhar experiências. Um deles situava-se na Calle León, cujos relevos abaixo recordam o nome do lugar.

O Corral de Comédias de la Cruz, hoje desaparecido, tornou-se na época do século de ouro um local obrigatório para ver as  obras teatrais dos grandes dramaturgos, que nele estreavam suas peças. Uma placa e um mural pintado com cenas da época recordam sua localização exata.

Os palácios nobres também podem ser vistos, como o de abaixo, denominado Palácio de Santoña , cujo marquês foi um de seus proprietários. O edifício pertence ao séc. XVII, e em 1953 foi comprado pela Câmara de Comércio e Indústria de Madrid, sua proprietária atual. Como destaque exterior, a bela fachada, criada pelo arquiteto barroco Pedro de Ribera.

Outros edifícios chamam a atenção pela beleza de suas linhas e decoração escultórica.

A Basílica de Jesus de Medinaceli é uma das que provocam o maior fervor religioso de toda a capital. Isso porque é depositária da imagem mais venerada pelos madrilenhos.

Na primeira sexta feira de março, milhares de fiéis aguardam para beijar os pés do Cristo de Medinaceli e pedir 3 desejos, dos quais é concedido apenas um. O porquê, é realmente um mistério…A igreja, na época dourada do bairro, era assiduamente visitada por Lope de Vega, Calderón de la Barca e Tirso de Molina, escritores que haviam sido ordenados sacerdotes.

Hoje em dia, o Bairro das letras não é somente percorrido para melhor conhecer a história de Madrid, mas também para desfrute da noite, embalada por bares com música ao vivo e restaurantes para todos os bolsos. O Villa Rosa, por ex., é um clássico da noite da cidade. Inaugurado em 1915, desde sua fundação esteve ligado ao mundo taurino e ao flamenco. Sua época de maior esplendor foi nos anos 20, quando personagens como o novelista Ernest Hemingway e a aristocracia local se reuniam para conversar e ouvir uma boa música. O bar está decorado com cerâmicas que representam monumentos típicos de várias cidades espanholas.

Opções para curtir não faltam no bairro, e a oferta musical é ampla, para todos os gostos.

Bem, com estas fotos encerramos os posts pelo Bairro das Letras, este interessante local do centro de Madrid, que combina o agito noturno com a história e a cultura da cidade.

Bairro das Letras – Madrid

Em Madrid, existem lugares que normalmente passam inadvertidos pelos turistas em geral, desconhecedores de seus inúmeros atrativos. Um deles é o Bairro das Letras, também chamado dos Literatos. Seu nome se deve à intensa atividade literária que se desenvolveu no local ao longo do denominado Século de Ouro Espanhol, como ficou conhecido o período de máximo esplendor da cultura do país, compreendido entre os séculos XVI (renascimento) e XVII (barroco).

No bairro, estabeleceram sua residência alguns dos mais famosos escritores de sua literatura, como Cervantes, Lope de Vega, Quevedo, Góngora, etc. Uma boa forma de conhecê-lo é a partir da Praça de Santa Ana, criada na época em que José Bonaparte, irmão de Napoleão, assumiu o governo do país. Para tanto, mandou derrubar o antigo Convento de Santa Ana em 1810, fundado por San Juan de La Cruz em 1586. Num dos extremos da praça, situa-se o Teatro Espanhol, antigo Teatro ou Coral dos Príncipes, inaugurado em 1583, onde foram representadas muitas obras de Lope de Veja e Calderón de la Barca.

Em 1849, foi transformado no atual teatro, que continua hoje em dia como uma referência cultural no panorama artístico da cidade.

Em frente a ele, uma estátua homenageia o mais influente e popular poeta e dramaturgo espanhol do séc. XX, fuzilado durante a Guerra Civil, Federico Garcia Lorca (1898-1936).

No outro extremo da praça, outra estátua recorda a Calderón de la Barca (1600-1681).

Atrás do monumento, vemos o edifício Simeón, atualmente Hotel da rede Meliá, cujo destaque fica por conta do famoso Café Central, um dos templos do Jazz de Madrid. Em épocas passadas, o edifício, inaugurado em 1923, era ocupado pelo Gran Hotel Reina Victória, também chamado Hotel dos Toureiros, que nele se hospedavam quando vinham à cidade.

Em 2008, o bairro foi declarado Área de Prioridade Residencial, ficando restringido para o tráfico de veículos, salvo para os residentes. A maior parte das construções que conformam o bairro são dos séc. XIX e XX, embora se conservem algumas casas do século de ouro.

Um exemplo é a casa-museu de Lope de Vega (1562-1635), onde o escritor viveu os últimos 25 anos de sua vida. Considerado um dos mais importantes escritores e dramaturgos do século de ouro, foi também um dos mais prolíficos de toda a literatura universal. Foi o expoente máximo do teatro barroco espanhol, inimigo declarado de Góngora e grande rival de Cervantes.

De sua casa saiu o corpo do famoso literato, acompanhado por uma multidão até a Igreja de San Sebastián, onde está sepultado.

Fundada em 1541, foi saqueada em 1936 e praticamente destruída. O templo foi reconstruído entre 1943/1959 e dez anos depois declarado Monumento Nacional, graças ao extraordinário arquivo paroquial que possui, felizmente salvos do bombardeio a que foi submetida.

Dito arquivo contém milhares de dados bibliográficos de muitos personagens ilustres da vida cultural do país. Entre eles, que figuram nos dados relativos ao nacimento, batismo, casamento e defuntos, encontramos Cervantes, Gustavo Bécquer, o arquiteto Ventura Rodrigues, entre muitos outros. Aliás, o citado arquiteto também está enterrado na igreja, juntamente com Juan de Villanueva na denominada, é claro, Capela dos Arquitetos. Abaixo, outras imagens do interior da igreja.

Em algumas das ruas do bairro, podemos ver, ou melhor ler, poemas que recordam os grandes poetas, como vemos abaixo.

No próximo post, seguiremos conhecendo o imperdível Bairro das Letras…

Pueblos de Aragón – Parte 3

O pueblo de Yebra de Basa, localizado ao norte da Província de Huesca, Comunidade de Aragón, é o cenário da romaria mais importante da região. Realizada anualmente no dia 25 de Junho, presta homenagem à Santa Orosia e seu trajeto constitui uma perfeita combinação de natureza e religião.

A tradição conta que Orosia foi uma princesa nascida na Bohemia no séc. IX, que veio para Espanha para casar-se com um rei local. Porém, foi surpreendida pelas tropas árabes, e fascinados por sua beleza, foi obrigada ao matrimônio com o filho do Emir Muza. Por não querer comprometer-se com ele e não abandonar sua fé crista, foi perseguida, logo mutilada e decapitada. Séculos depois, um pastor das redondezas descobriu seu corpo e, desde então, sua cabeça está guardada em Yebra de Basa, e seu corpo em Jaca, lugares onde atualmente Santa Orosia é padroeira. Em seguida, iniciou-se a veneração da jovem princesa.

O caminho inicia-se logo depois de sair do pueblo, cuja Igreja Paroquial de San Lorenzo, do séc. XVI e de estilo gótico aragonês, representa sua estampa mais conhecida.

Com aproximadamente 6 km de percurso e um desnível de 670m, o caminho apresenta um nível de dificuldade baixo, facilitado pela beleza da paisagem e pelas 8 ermitas que existem ao longo da jornada. Do total, quatro delas estão incrustadas na rocha, como a de San Blás e de Santa Bárbara, ambas do séc. XVII.

As grutas também formam parte dos atrativos da trilha.

No meio da trilha, encontramos uma linda cachoeira, cuja queda esconde a Ermita de San Cornélio.

O local é propício para a prática de esportes radicais.

Depois de cerca de 2h30min aproximadamente, avistamos num campo aberto a Ermita dedicada a Santa Orosia, do séc. XVII e situada a 1550m de altitude. Seu âmbito de influência está relacionado às catástrofes naturais, como secas prolongadas, pestes, pragas, etc, além da liberação de demônios e maus espíritos, cuja crença nestes inóspitos paisagens do norte de Aragón ainda persiste.

Córdoba

Situada numa depressao às margens do rio Guadalquivir e aos pés da Serra Morena, Córdoba é a terceira maior cidade Andaluza, depois de Sevilha e Málaga.

Seu primeiro nome conhecido, Corduba, foi outorgado sob a forma de Colônia Patrícia Corduba, quando de sua fundação pelos romanos no séc. I aC. Outras referências, porém, ressaltam uma origem semítica, Qorteba, que significa moinho de azeite. Outras possibilidades seriam Qart-tuba, cidade boa, ou Kart-oba, cidade do rio.

O centro histórico da cidade foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1994, englobando uma das mais extensas áreas catalogadas com este título no mundo.

Seu primeiro momento de esplendor ocorreu quando foi a capital da província romana Hispania Ulterior Baética. A ponte romana que ainda hoje podemos contemplar foi durante 20 séculos a única existente, até que foi construída a ponte de San Rafael em mediados do séc. XX. Construída no séc. I dC, possui um comprimento de 331m e está formada por 16 arcos. Em 2004, tornou-se uma ponte exclusiva para pedestres e em 2008 sofreu a maior reforma de toda sua história, cujo objetivo foi devolver-lhe seu aspecto original.

Córdoba foi o local de nascimento de 3 grandes filósofos: o estóico Sêneca, em sua época romana, foi o primeiro. Averroes, cuja estátua vemos abaixo, é considerado por muitos, o maior filósofo árabe da Idade Média, e sua obra literária gira em torno de Aristóteles, definindo as relações entre religião e filosofia. Por último, o judeu Maimónides. Filósofo, rabino, intérprete da lei hebraica e médico, publicou várias obras em múltiplos campos do saber, das quais o Guia dos Perplexos, obra de filosofia aristotélica baseada na Torá, concilia o judaísmo com a razão.

Abaixo, vemos uma foto da antiga judería, formada por ruas de formato irregular e de casas brancas.

No ano de 711 dC, os árabes invadiram a península e em menos de dois séculos converteram Córdoba na maior cidade da Europa e uma das maiores do mundo e, possivelmente, a mais culta. No séc. X, finalizou-se a grande Mesquita, chegando a ser um importante centro de peregrinação para os muçulmanos. Contava com uma famosa universidade e uma biblioteca com mais de 400 mil volumes. O nível de alfabetização da população era alto e estava adornada com jardins, cascatas e lagos artificiais de grande beleza. Por toda parte se podia admirar suntuosos palácios, cheios de requinte, como por ex., o de Medina Azahara. Levou 25 anos para construir-se e suas ruínas são testemunho de sua antiga grandeza. Mais que um palácio, era uma cidade palatina, construída sob as ordens do primeiro califa de Córdoba, Abderramán III. Situada a 8 km da cidade, sua edificação foi realizada por motivos políticos-religiosos, pois seria uma mostra da superioridade da dinastia Omeya diante de seus inimigos, os Fatimíes, estabelecidos no norte do continente africano. Além disso, pertenciam à comunidade xiita, enquanto os omeyas eram sunitas, fato que supôs uma grande rivalidade entre ambos. A cultura popular, no entanto, diz que foi edificado em homenagem à favorita do califa, chamada Azahara.

Aproveitando o desnível do terreno, a cidade foi distribuída em 3 terraças separadas por muros. O palácio situava-se em sua parte mais elevada. No nível intermediário, estavam as casas dos funcionários mais ilustres da corte e no inferior, a cidade propriamente dita, com sua mesquita.

Os textos históricos e literários nos contam o elevadíssimo gasto de sua construção, do enorme esforço para realizá-lo e de sua monumentalidade e esplendor artístico, além do luxo e ostentação das recepções e cerimônias realizadas no palácio. Transcorrido menos de 100 anos, o conjunto ficou reduzido a um imenso campo de ruínas, pois foi destruído e saqueado no ano 1010, como conseqüência da guerra civil que colocou fim ao califato cordobês.

De todas suas dependências, destaca o salão de Abderramán III, também denominado Salão Rico, por sua qualidade artística e importância histórica. Sua parte central está separada das demais por um conjunto de arcadas de ferradura similar às encontradas na Mesquita de Córdoba.

As paredes estavam revestidas com finos painéis decorados em mármore.

Um de seus motivos principais é a Árvore da Vida, tema importado do oriente, e que tinham um grande simbolismo cosmológico, em concordância com o teto feito de madeira que cobria a estância, onde se representava um céu de estrelas.

A presença árabe na cidade esteve marcada por dois períodos. O primeiro foi o Emirato de Córdoba, proclamado por Abderramán I em 756 dC, no qual tornou-se independente do centro da dinastia, em Bagdá. Já o Califato foi fundado por Abderramán III, em 929 dC. Durante o reinado de seu filho, Hisham II (976/1016), o grande protagonista foi o hayib ou primeiro ministro Almanzor, gênio militar que em várias batalhas manteve aos reis cristãos do norte em xeque, chegando a invadir León, Pamplona, Barcelona e Santiago de Compostela. Depois de sua morte em 1002, os problemas sucessórios levaram a uma guerra civil que ocasionou a desintegração do califato em 1031 dC. Como conseqüência, surgiram os Reinos de Taifas, que devido à sua descentralização e fragilidade, fortaleceu os reinos cristãos e acelerou o processo de Reconquista.

Em 1236, Córdoba é reconquistada para o reino de Castilla y León, graças ao rei Fernando III “El Santo”. Na foto a seguir, vemos sua estátua, na entrada do Alcázar dos Reis Cristaos.

Um dos principais monumentos desta época, este edifício de caráter militar foi construído durante o reinado de Alfonso XI de Castilla, sobre os restos do Alcázar árabe anterior.

Tornou-se a residência dos monarcas em suas estâncias pela cidade, e os Reis Católicos nele permaneceram 8 anos, dirigindo da mesma a campanha contra o último reino muçulmano de Espanha, o Reino de Granada. Em suas dependências, Cristóvão Colombo solicitou os fundos para sua aventura marítima em 1486. Na imagem de abaixo, a estátua de Cristóvao Colombo, junto com os Reis Católicos.

Depois da conquista de Granada (1492), os Reis Católicos cederam o imóvel às autoridades eclesiásticas, que o converteram no Tribunal de Santo Ofício, perdendo seu ambiente palaciego. Com a abolição do Tribunal da Inquisição em 1812, foi transformado em prisão, até que em 1931 foi destinado a fins militares. Por fim, em 1955 foi cedido à prefeitura de Córdoba e, atualmente, é um museu e centro cultural. Na Sala dos Mosaicos, podemos ver alguns deles encontrados na cidade, como este, que pertenceu ao antigo circo romano.

O exterior do alcázar caracteriza-se por sua sobriedade, em contraste com o rico interior, repleto de jardins arborizados e pátios.

Este post apresenta uma pequena parcela do excepcional patrimônio desta cidade de Andaluzia. Recomendo, pois, sua visita, de preferência que nao seja no verao (julho/agosto), por que faz um calor de rachar…

Mesquita-Catedral de Córdoba

Este post está dedicado a um dos monumentos mais extraordinários que a arte hispano-muçulmana produziu no país. A Mesquita de Córdoba, posterior Catedral da Asunçao de Nossa Senhora, é considerada o monumento islâmico mais importante do ocidente. Declarada, juntamente com o centro histórico da cidade, Patrimônio da Humanidade, faz parte também da lista dos 12 tesouros do território espanhol.

O lugar que ocupa a Mesquita-Catedral foi, durante séculos, um local de culto de diferentes divindades. Durante a época visigoda se construiu a Basílica de San Vicente, que foi utilizada tanto por cristãos quanto por árabes. Escavações arqueológicas demonstraram a existência de um complexo episcopal que pode datar-se dos séc. IV e V dC. Ali se encontram os restos da antiga basílica.

Com o aumento da população muçulmana, a basílica foi adquirida por Abderraman I, o primeiro Emir da dinastia dos Omeya, que a destruiu para a edificação da mesquita. Um fato singular desta primeira mesquita é que está orientada ao sul, e não à Meca como seria o habitual. Esta circunstancia pode ser explicada de várias formas, e parece provável que os terrenos arenosos do rio Guadalquivir impossibilitavam uma orientação ortodoxa à cidade sagrada.

Um elemento novo relacionado à arquitetura foi a utilização dos denominados arcos de ferradura procedentes da arte visigoda, e que o islã adotou como símbolo de sua arquitetura.

Sua construção iniciou-se no ano 786 dC e com 23.400 metros quadradas é uma das maiores do mundo. Durante sua história, foram realizadas 3 grandes ampliações.

A primeira ocorreu durante o reinado de Abderraman II (821/852 dC), que ampliou a denominada sala de oração. Sob o governo de Abderraman III (séc. X), Córdoba se converte na capital do maior e mais influente reino islâmico do ocidente. Proclamado califa, construiu o primeiro minarete no continente europeu e ampliou o pátio dos naranjos. A última reforma foi realizada a finais do mesmo século, graças às intervenções feitas por Almanzor.

Nada mais entrar no interior, um imenso bosque de colunas de mármore, jaspe e granito recebe o extasiado visitante. A alternância de pedra e tijolo lhe confere sua singular bicromia.

O Mihrab, local sagrado de uma mesquita, é uma jóia feita de mármore e mosaicos bizantinos, decorados sobre um fundo de ouro e bronze, além de cobre e prata.

Abaixo vemos a suntuosa cúpula do Mihrab, belíssimamente decorada.

Em 1238, depois da reconquista crista, a mesquita foi convertida em catedral católica, e em 1523 se iniciou a construção de um templo renascentista no centro da mesquita muçulmana, durante o governo do rei Carlos V.

Apesar de terem respeitado as ampliações feitas anteriormente, se alterou o aspecto que tinha originalmente. Um comentário feito pelo próprio monarca 3 anos depois é significativo:

“Destruímos uma maravilha única no mundo, e colocamos em seu lugar algo que podemos ver em qualquer lugar…”.

Na foto que segue, uma imagem da torre campanário, cujo minarete construído por Abderraman II encontra-se em seu interior.

Podemos admirar atualmente um resumo histórico da arquitetura omeya de Espanha, além dos estilos gótico, renascentista e barroco da Catedral católica. A Mesquita-Catedral de Córdoba é um símbolo da fusão cultural, que durante quase 800 anos, marcou a história do pais, e junto com a Alhambra de Granada, é o expoente máximo da arquitetura de Al Andaluz.

Edifícios de Madrid – Parte 2

Com a construçao do Banco de Espanha na Calle de Alcalá, esta central  rua de Madrid, situada ao lado da Gran Via, se definiu como aquela em que as principais instituições financeiras do país instalaram suas sedes. Algumas delas representam verdadeiros cartões postais da paisagem urbana madrilenha.

A sede do BBVA (Banco Bilbao Vizcaya e Argentaria) foi construída pelo arquiteto Ricardo Bastida y Bilbao, cujo projeto foi o vencedor de um concurso público realizado em 1919.

O edifício possui uma fachada convexa e simétrica, compostos por enormes colunas e capitéis que lhe confere um aspecto clássico. As quatro esculturas situadas em sua parte superior foram esculpidas em mármore por Quintín de la Torre.

Porém, o que mais surpreende no edifício são as monumentais, emblemáticas e famosas quádrigas, realizadas por Higinio de Basterra.

Para sua elaboração, foram necessárias 25 toneladas de cobre, bronze, ferro e zinco. Inicialmente, estavam fundidas num metal fino de cor dourada, mas durante a Guerra Civil foram pintados de uma tonalidade escura para evitar que fossem uma referência aos aviões franquistas que bombardeavam Madrid.

Abaixo, uma foto tirada da terraça do Círculo de Belas Artes.

Situado em frente ao anterior, o edifício do Banco Espanhol de Crédito é um excelente exemplo de construção realizada nos finais do séc. XIX. Concebido para ser a sede da empresa de seguros americana Equitativa, é também conhecido como Palácio da Equitativa e foi projetado pelo arquiteto José Graces Riera.

Em 1920, foi vendido ao Banco de Crédito, que realizou algumas reformas, a cargo de Joaquim Saldaña, entre as quais a colocação de um cartel que indicasse o novo proprietário do imóvel.

Destacam, além de sua planta que parece a proa de um barco, seus elementos decorativos, como por exemplo os elefantes esculpidos que sustentam o balcão do primeiro andar. Na verdade, representam uma alegoria da fortaleza, seguridade e perpetuidade.

O edifício está coroado por uma pequena torre e o relógio. Atualmente, encontra-se vazio, e dizem que se transformará num Hotel de luxo…