Cines Históricos – Segunda Parte

De todos os cines de Madrid, o Bogart é seguramente um dos que possui a história mais complicada. Em 1907, foi construído um pavilhao para projeções conhecido como Salão Madrid. Em sua sala não havia a fila 13, e sim a 12-bis, para não perturbar os supersticiosos. Funcionou até 1920, quando foi praticamente demolido e reconstruído para acolher o Teatro Rei Alfonso, inaugurado no ano seguinte. Em 1924, voltou a ser utilizado unicamente como cinema, e um ano depois, sofreu uma nova transformação, convertendo-se em casas de espetáculos não aptos para todos os públicos, e logo depois num verdadeiro cabaré. Em 1933, volta a ser cinema, agora chamado de Panorama. Sob esta denominação, permaneceu 30 anos, um recorde para um local que havia mudado tantas vezes de nome e função. Em 1965, é fechado e neste mesmo ano retorna às representações teatrais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA mediado dos anos 70, entra em decadência e passa a exibir filmes de categoria S ou X. Mais uma vez muda de nome, agora adotando o nome da rua onde está situado, Calle Cadaceros, e começa a exibir filmes para a família, numa tentativa de ocultar seu passado próximo. Em 1986, finalmente passa a denominar-se Bogart. Pouco a pouco foi sendo esquecido, sucumbindo no ano 2000, para não reabrir mais. Atualmente, o edifício de tantas histórias se deteriora a olhos vistos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Cine Barceló é considerada uma das obras primas de Luis Gutiérrez  Soto, e um dos melhores representantes da arquitetura racionalista da cidade.

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Inaugurado em 1931, na sua terraça foi instalada uma tela para a exibição de filmes no verão, tal como sucedeu com o Cine Callao. Além do mais, construiu-se uma magnífica sala de festas. Nos anos 70, deixou de projetar filmes na terraça, talvez intimidado pelos olhares dos vizinhos dos edifícios situados nas proximidades, ou então devido ao ruído das ruas, que impediam o desfrute dos filmes.

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Em 1974, foi exibido seu último filme, transformando-se num curto espaço de tempo em teatro. Somente o salao de festas permaneceu aberto durante toda sua história. Durante os anos 80, abrigou a discoteca Pachá, um dos locais da moda, na noite madrilenha da época. O edifício conserva sua fisionomia exterior original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Cine Pavón foi inaugurado em 1925, obra de Teodoro Anasagasti. Destaca sua bela fachada em Art Decô.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm uma de suas esquinas, situa-se uma torre publicitária, um dos emblemas da sala.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi construído com uma dupla finalidade, servir tanto como teatro, como cinema. Atualmente, é a sede da Companhia Nacional de Teatro Clássico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO Cine Ideal é um dos mais antigos cines de caráter permanente da capital. Inaugurado em 1916, conserva suas vidreiras originais. Em 1932, foi adaptado para o teatro, principalmente zarzuelas e espetáculos musicais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1990, foi comprado pela empresa Yelmo Cines, que o reformou totalmente para transformá-lo num complexo de 8 mini salas, especializando-se nas versões originais dos filmes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Cine Renoir Retiro também foi construído por Luis Gutiérrez Soto, em 1940. Conserva a fachada original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA empresa Cinesa é a atual proprietária do antigo Cine Proyecciones, situado num belo edifício construído em 1932.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAÉ isso aí, espero que vocês tenham gostado desta série sobre os cines de Madrid. E, quando forem ao cinema, sobretudo se sao valentes sobreviventes, nao deixem de contemplá-los como o que realmente representam, patrimônio cultural de cada cidade, e que necessitam da ajuda popular, para que continuem existindo…

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Cines Históricos – Madrid

Além da Gran Vía, em muitos outros lugares da cidade existiam locais de projeçoes cinematográficas, pois houve uma época em que qualquer local era idôneo para a instalação de um cinematógrafo. Em alguns casos, antigos armazéns se transformavam em salas de filmes. A partir dos anos 40, os grandes cines instalados em edifícios estavam situados no térreo, possibilitando a utilização do imóvel para o aluguel residencial. Algumas pequenas ruas possuíam vários estabelecimentos, como a Calle Doctor Cortezo, próxima à Porta do Sol. Nela conviveram, a partir do primeiro terço do séc. XX, o Cine Ideal, o Teatro Calderón, o teatro-cine Fígaro e o grande Frontón de Madrid, lamentavelmente desaparecido. Veremos nest post, e no próximo, alguns dos cines históricos da capital espanhola.

O Cine Doré é considerado o mais antigo da cidade, ainda em funcionamento. Recebeu este nome de Gustav Doré, um desenhista que se tornou famoso por ter ilustrado a bíblia. Outra explicação para o nome, é que em muitas ocasiões o local era conhecido como Cine Do-Ré, em referência às notas musicais.

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O primeiro cine com tal nome foi levantado em 1912. Anos depois, foi reforçado o salão existente e dotado de melhores medidas de segurança, além da original fachada de inspiração Art Noveau. Já o interior foi decorado com elementos modernistas. Nos anos 30, era conhecido como o “cine dos melhores programas”, e logo depois foi colocada a palavra sonoro, ao término da frase…

Com a Guerra Civil, o bairro de Lavapiés, onde situa-se o cine, foi duramente castigado, e o cine entrou em decadência. Outros cines próximos, como o Monumental, constituíram, também, uma complicada concorrência para o Doré. Durante uma época, ganhou apelidos depreciativos, e transformou-se num local de segunda categoria.

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Dessa forma, fechou em 1963, depois de meio século de projeções. Em 1978, foi adquirido pela prefeitura, que quis construir uma zona verde no local, projeto que foi abandonado devido à histórica arquitetura do edifício. Um grupo de artistas, jornalistas, políticos e a própria opinião pública exigiram a reabilitação do cine, que finalmente foi transformado na sede da Filmoteca Nacional, tarefa que coube ao Ministério da Cultura. Uma grande reforma foi realizada devido aos 20 anos de abandono do edifício, reabrindo em 1989, com suas alegres pinturas e sua fachada original. Longa vida para o Cine Doré…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInaugurado em 1923, o Cine Monumental era um dos maiores e modernos da capital,e também um dos mais freqüentados. Foi construído por Teodoro Anasagasti que, junto com Luis Gutiérrez Soto, são considerados os arquitetos mais importantes dos cines madrilenhos.

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No início, funcionou apenas como cinema, e depois foi adaptado para representações teatrais. A partir dos anos 80, dedicou-se somente ao teatro, e atualmente se conhece como Teatro Monumental, sendo também a sede da Orquestra e Coro da Rádio e Televisão Espanhola. Abaixo, vemos uma de suas entradas laterais, e uma placa comemorativa, da época auge do estabelecimento.

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Construído como local teatral e cinematográfico, o Fígaro é um representante da denominada arquitetura racionalista, por sua simplicidade e funcionalidade. Inaugurado em 1931 como teatro, a partir do ano seguinte passou a projetar filmes, função que desempenhou até 1969. Em 2009, foi reformado, devolvendo-lhe boa parte de sua fachada original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro representante de edifício racionalista, o antigo Cine Salamanca exemplifica também a triste realidade dos cinemas que deixaram de existir e transformaram-se em lojas de roupas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInaugurado em 1935 e fechado em 1987, menos mal que o exterior se conserva, apesar de que o interior foi adaptado à sua nova função.

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O caso do Cine Madrid revela uma situação igualmente desalentadora. Localizado num edifício construído em 1898, fechou as portas em 2002 e, desde então, permanece esquecido e abandonado. Suas laterais conservam a decoração, reminiscências de glórias passadas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO antigo Cine Bilbao, situado na Calle Fuencarral, também foi golpeado por um trágico destino. Em 1993, sua cobertura externa, em mau estado, não suportou o peso excessivo do cartaz publicitário de um filme, e caiu sobre as pessoas que formavam uma fila para entrar no cine, causando várias vítimas mortais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO cinema foi fechado e no ano seguinte foi objeto de reformas, entre as quais uma sólida cobertura. Em 1995 foi reaberto com o nome de Cine Bristol, mas o estrago causado deixou sua marca, e o cinema foi fechado definitivamente anos depois. Neste caso, não foi suficiente a desesperada situação dos cines históricos urbanos para fechar mais um estabelecimento. A negligência humana se encarregou de realizá-lo, com conseqüências ainda mais graves.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post conheceremos outros cines históricos, e como vimos neste, o abandono e a esperança caminham lado a lado…

Broadway Madrilenha – Segunda Parte

Continuando nosso passeio pela Gran Vía, hoje conheceremos outros de seus cines históricos.

O Cine Callao, situado na praça homônima, foi o primeiro encargo do arquiteto Luis Gutiérrez Soto, que o realizou em 1926. Três anos depois, foi apresentado na sala o primeiro filme sonoro e falado em Espanha, “The Jazz Singer”.

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Contava com uma grande sala de café, posteriormente transformada numa luxuosa sala de bilhar. Sua terraça está desenhada para sessões cinematográficas ao ar livre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAChama a atenção sua bela fachada, ricamente decorada e restaurada em 1993, que lhe devolveu sua cor original. No entanto, não foi o que aconteceu com sua grande sala, que perdeu sua atmosfera do passado. Porém, sigue sendo um dos clássicos cines que permanece em vigor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABem em frente ao Cine Callao, está o edifício propriedade da Associação de Imprensa de Madrid. O arquiteto Pedro M. Otaño realizou em 1924 um exemplar projeto para este conjunto multifuncional, em que além dos escritórios e salas de recreio para os associados, foram instaladas residências para aluguel, várias lojas, restaurante, salas de festa e uma excepcional sala de cinema.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom 15 andares, foi durante a década de 30 um dos edifícios mais altos da capital. Inaugurado em 1930, nele vemos a influência da arquitetura norteamericana em sua fachada recoberta de tijolos. Nos anos 90, a grande sala foi reformada e dividida em 3 menores, que continuam funcionando. Desde 2010, vários de seus andares estão ocupados como a sede do Partido Socialista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO Cine Capitol chegou a ser o maior da cidade e o quinto de toda a Europa. Instalado no conhecido edifício Carrión, foi inaugurado em 1933.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMesmo durante a Guerra Civil, continuou exibindo filmes internacionais, transformando-se com o tempo na sala onde se apresentavam as estréias dos grandes filmes. Um dos míticos cines da Gran Vía, milagrosamente se conserva em seu estado quase original.

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O Cine Rex foi projetado inicialmente por Luis Gutiérrez Soto em 1943, como um edifício para acolher hotéis e lojas comerciais. O projeto foi modificado um ano depois para a instalação de uma sala de cinema, inaugurada em 1945. A princípio do séc. XXI, foi fechado e, desde então, permanece abandonado. Com o péssimo estado em que se transformou sua entrada, foi colocada uma placa metálica que impede a deterioração do local. Seu futuro é incerto, e tomara que não seja outro dos grandes cines que se converta em algo completamente alheio ao propósito para o qual foi criado.

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A Broadway de Madrid

Antes da construçao da Gran Vía, existiram nesta zona da cidade alguns locais de exibições cinematográficas, como os barracões que vimos no post anterior. Muitos deles foram expropriados com o aparecimento da avenida, mas a “semente” já estava plantada, transformando a Gran Vía na Broadway Madrilenha. Sua abertura provocou centenas de demolições, e as obras de construção se prolongaram durante mais de 20 anos. Foram construídas 14 salas cinematográficas, algumas delas consideradas as melhores do país. Devido à crise no setor, atualmente funcionam apenas 3 delas, e a história de seus cines é um verdadeiro mostruário do que realmente sucedeu, a nível global, com os edifícios cinematográficos.

O primeiro que vamos conhecer é o Palácio da Música. Construído em 1926 pelo arquiteto Secundino Zuazo Ugalde, foi um encargo da Sociedade Anônima Geral de Espetáculos (SAGE).

OLYMPUS DIGITAL CAMERATratava-se de uma grande sala, que combinava concertos, representações teatrais e projeçoes de filmes. Durante sua construção, ocorreram alguns incidentes, como o que ocorreu em 1925, quando as obras estavam avançadas e pouco faltava para a inauguração. O teto de um dos andares ruiu, destruindo praticamente todo o andar, e o muro que o separava do edifício vizinho, provocando a morte de uma de suas moradoras. Devido ao incidente, as obras foram paralisadas e apresentou-se um novo projeto em 1926, que reforçou as partes existentes, sendo finalmente inaugurado em 1928. O vestíbulo estava ricamente decorado, e na ante-sala demonstrava-se a suntuosidade do lugar, com o solo e as escadas feitos de mármore, tetos adornados com magníficos lustres, colunas construídas com materiais nobres, etc.

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A ampla sala se estreitava à medida que se aproximava do cenário. Diante dele, foi construído um fosso para a orquestra, já que naquela época o cine era mudo, necessitando de acompanhamento instrumental. Todas as poltronas estavam aveludadas. O local tinha capacidade para cerca de 2.000 espectadores, considerada uma das maiores salas européias.

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Em 1932, outro incidente definiu a história do palácio. Um incêndio sacudiu o cenário durante uma exibição, quando a sala encontrava-se lotada. Graças aos sistemas de evacuação e a saída rápida e ordenada do público, não houve vítimas mortais. No entanto, os danos materiais foram grandes e tomou-se a decisão de dedicar a sala unicamente ao cinema, fazendo com que desaparecessem todos os elementos destinados aos concertos, como os dois belos órgãos, situados nas laterais da sala. O palácio da música foi um dos pioneiros do cine sonoro no país.

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Entre 1942/1952, recuperou sua atividade musical, como sede da Orquestra Nacional de Espanha, mas sem abandonar as exibições cinematográficas. Em 1954, uma notícia curiosa contava que a sala havia sido convertida num ring  para luta de galos, acompanhada, é claro, de suas proibidas apostas.

Apesar das várias reformas realizadas no interior, sua fachada não sofreu nenhuma modificação, ao longo de sua história. Em 2008 fechou as portas, e 4 anos depois passou a ser propriedade da Bankia, que pretende vendê-lo para uso comercial…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Cine Avenida foi o segundo em ser construído na Gran Vía. Nasceu como teatro, e inaugurado em 1928. Foi erguido com fachadas de um elaborado estilo neobarroco, do qual destacam as altas pilastras de granito, e seus magníficos vitrais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASe o exterior era elegante, o interior não ficava atrás. Duas escadas de mármore branco contrastavam com o verde e o marrom utilizado nas paredes. Em um de seus andares funcionou uma das mais conhecidas salas de festas da Gran Vía, chamada Pasapoga, em referência aos sobrenomes de seus quatro proprietários: Patuel, Sánchez, Porres e García. No local, atuaram grandes nomes do cenário musical nacional e internacional, e funcionou de forma ininterupta como salão de festas, cabaret, discoteca, até seu fechamento em 2007, para não reabrir jamais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA sala de cine contava com mais de 1500 localidades, que exibiam as estréias mais esperadas do circuito. Em 1998, foi reformada com a divisão da grande sala em duas menores. Desta forma, perdeu por completo sua fisionomia original. Com a sala Pasapoga fechada há anos, chegou o fim para o Cine Avenida, que transformou-se numa loja de roupas. No entanto, a prefeitura “solicitou” a conservação dos antigos acessos às salas, vestíbulo e escadas, que podem ser admiradas em sua originalidade, isso sim, ao lado de manequins, e muita roupa…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das antigas entradas à sala de cinema, hoje tornou-se o acesso para a o mundo da moda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma parte dos murais que decoravam o recinto, e seu suntuoso teto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, veremos outros cines da Gran Vía…

O Cinema em Madrid

A partir de hoje, iniciamos uma série de posts que homenageiam o cinema, ou melhor, aos edifícios históricos que acolheram salas cinematográficas, espalhadas por toda a cidade de Madrid. No princípio do século passado, e cada vez mais, o cinema transformou-se na mais popular opção de entretenimento social, numa época em que não existiam os atuais meios de comunicação de massa. A produção cinematográfica entrou em sua época dourada e os cartéis publicitários dos grandes filmes decoravam as ruas, com as estampas dos grandes atores e atrizes do momento.

Filas quilométricas se formavam para os filmes mais esperados e premiados, em cujas amplas salas de esmerada decoração se refletia a importância que a sétima arte havia adquirido naqueles tempos. Renomados arquitetos foram contratados para a construção de solenes edifícios, muitos dos quais tornaram-se dignos representantes de movimentos artísticos e arquitetônicos, como o modernismo, a Art Decô, etc. Nada que ver com as pequenas e estandartizadas salas que vemos atualmente nos grandes centros comerciais…

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Em pleno século XXI, o acima exposto faz parte da lembrança daqueles que tiveram o privilégio de vivenciar esta glamourosa época, pois poucos são os cines históricos que ainda permanecem vigentes nas ruas de todas as cidades do mundo. O desaparecimento, o abandono, a transformação em lojas comerciais, acabaram por sepultar estas verdadeiras relíquias urbanas, que até um passado relativamente recente abarrotavam as ruas das grandes urbes e, que por si só, causavam a admiração dos cidadãos, com sua belas fachadas e esplendorosos interiores. As pessoas saíam de casa para ver filmes, e as salas de cinema eram um verdadeiro santuário, em que se vivenciava a tragédia, o drama, a aventura e a comédia, de forma superficial e também sob a tutela dos grandes gênios, que nos legaram verdadeiras obras de arte.

O mesmo progresso que possibilitou a aparição do cinema foi o responsável pela desaparição das grandes salas, com a chegada da televisão, do vídeo, do DVD, do computador e da pirataria. No entanto, algumas delas teimam em sobreviver, para a alegria dos cinéfilos, como eu. Antes de mostrar alguns deles, conheceremos um pouco sobre a história da chegada do cine em Madrid. Sucedeu em 1896, apenas alguns meses depois que os Irmãos Lumiére apresentassem oficialmente a máquina cinematográfica ao público francês no Gran Café de Paris, e três semanas depois da histórica primeira projeçao de um filme no Music Hall Koster&Bials, de Nova York. O acontecimento sucedeu quando um dos representantes dos irmãos Lumiére, um tal Sr.Promio, trouxe desde França o “Cinematógrafo Lumiére”, também conhecido como fotografias animadas, um invento que havia causado furor nas cidades por onde havia passado. O Sr.Promio arrendou na parte inferior do Hotel Rússia, situado na central Carrera de San Jerônimo, próximo à Porta do Sol, um pequeno espaço adaptado para a exibição de tão sofisticado invento.

Promio colocou 20 fileiras de cadeiras alugadas e uma pequena tela branca no fundo contra a parede, e na parte traseira instalou uma rudimentária cabine que cobria completamente o projetor, medida tomada para que ninguém tentasse copiá-lo. Na fachada do local, foi colocado um cartaz em que se podia ler: “Cinematógrafo Lumiére”. Sua inauguração ocorreu no dia em que se celebrava as festas do padroeiro da cidade, San Isidro, porém no dia anterior o esperto senhor realizou uma exibição somente para jornalistas e pessoas distinguidas da sociedade madrilenha. O Hotel Rússia já nao existe mais, mas o edifício ainda se conserva, e uma placa celebra o acontecimento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO assombro causado pelas imagens provocou aplausos entusiastas do público, como a de um trem que se aproxima da estação. No dia seguinte, manchetes nos principais jornais da cidade enalteciam o espetáculo, descrito como a maravilha do século, e que foi visto por um número crescente de pessoas. Os proprietários dos teatros da cidade começaram a temer por sua clientela, ao constatarem o grande sucesso que o cinema despertava. Ante tal situação, os próprios teatros começaram a incorporar projeções cinematográficas dentro de seus espetáculos.

Pouco depois, foram sendo construídos pequenos barracos de madeira, nos quais se realizavam as projeções, e Madrid assistiu a uma proliferação destes primitivos cinemas. Tais estabelecimentos podiam ser desmontados e transportados de um lugar a outro, fazendo com que o cinema pudesse ser visto por uma quantidade cada vez maior de pessoas, e em distintas regiões do país. Estes barracos também foram instalados em solares da capital, e uma pessoa realizava a divulgação do espetáculo a gritos, ou então através de órgãos musicais que moviam maravilhosos bonecos. Pinturas chamativas ao estilo francês adornavam as fachadas dos barracos. No entanto, nos seus primeiros anos, sucederam dezenas de incidentes causados principalmente pelo fogo, já que os filmes eram inflamáveis. Por esta razão, surgiram uma série de normas que deveriam ser respeitadas para a exibição dos filmes, como a existência de grandes e numerosas portas de evacuação e saída para o público, recobrimentos especiais para evitar a propagação do fogo, além, é claro, de uma cabine especial para as projeções. Com o tempo, os barracos foram sendo substituídos por edifícios construídos especialmente para a exibição cinematográfica, como aconteceu com o Cine Doré, do qual falaremos nos posts seguintes.

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Um dos principais pólos de concentração de cines em Madrid foi a Gran Vía, apelidada, não sem motivo, a Broadway Madrilenha.

Mas esta é uma história para nosso próximo post…

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Paseo de Grácia – Segunda Parte

Continuando nossa visita pelo Paseo de Grácia, hoje veremos outros edifícios de interesse que compoem a denominada Rota Modernista pela cidade de Barcelona.

Os arquitetos irmãos Joaquim e Bonaventura Bassegoda criaram um edifício partindo de uma idéia pouco convencional na época, a de unificar várias construçoes dentro de um único estilo. Assim nasceu a Casa Rocamora em 1914, uma das maiores de todo o Paseo de Grácia, cuja característica principal é a absoluta uniformidade estética exterior.

barcelona 432OLYMPUS DIGITAL CAMERAJoaquim Codina i Matalí foi o responsável pela edificação da Casa Malagrida entre 1906/1908, imóvel pertencente a Manuel Malagrida, um industrial catalão do ramo de tabacos, que fez fortuna na Argentina.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitos turistas passam desapercebidos pela Casa Vídua Marfá, construída entre 1901/1905 pelo arquiteto Manuel Comas i Thos. Parece que a Casa Milá, situada próxima, reclama todas as atenções do grande público…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo entanto, vale a pena contemplar a belíssima fachada do edifício, com ricos detalhes decorativos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA entrada ao interior é livre, pois sedia uma Escola Superior de RelaçõesPúblicas e Marketing e outra de Comunicação, Turismo e Empresa. Nada mais entrar no edifício, contemplamos a antiga entrada construída para as carruagens.

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Uma escada conduz a uma preciosa galeria composta por arcos, e uma cúpula que chama a atenção por seus belos vitrais.

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Apesar de não estar situada no Paseo de Grácia, a proximidade com a grande avenida justifica a inclusão da Fundação Antoni Tapiés, dedicada ao pintor espanhol. Fundada pelo próprio artista em 1984, foi aberta ao público 6 anos depois. Sua intenção foi criar um centro para o estudo e a promoção da Arte Contemporânea, e está sediada num edifício construído entre 1881/1885 pelo arquiteto Lluís Domènech i Montaner. Em sua parte superior, Tapiés realizou uma singular escultura que coroa toda a fachada do museu, e que tornou-se um verdadeiro símbolo da instituição.

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Paseo de Grácia – Barcelona

O Paseo de Grácia é considerada uma das avenidas mais conhecidas de toda a Espanha, devido à sua importância turística, representada por um conjunto de edifícios modernistas referentes da capital catalã. Situa-se em pleno centro da cidade, no denominado Eixample barcelonês, comunicando a Gran Via das Cortes Catalãs com a Avenida Diagonal. No que se refere ao aspecto imobiliário, o Paseo de Grácia ocupa o segundo posto de avenida mais cara de todo o país, superado apenas pela Av. Portal del Ángel, também localizada em Barcelona. Acolhe numerosas lojas de moda internacional e inúmeros hotéis, alguns deles de grande importância relacionada à sua arquitetura modernista.

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Inicialmente, a avenida era uma via que unia a cidade com a Vila de Grácia, então um bairro independente. Posteriormente, foram construídos jardins que a transformaram num local de ócio para a população e, finalmente, com a construção do Eixample, a partir de 1860, se levantaram os edifícios que a converteu num espaço residencial.

Entre 1900/1914, o Paseo de Grácia converte-se no local residencial preferente da sociedade burguesa de Barcelona, com a participação criativa de ilustres arquitetos modernistas.

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Antoni Gaudi, por ex., nela deixou duas de suas obras residenciais mais conhecidas, a Casa Milá (post publicado em 11/1 e 12/1/2013) e a Casa Batló (publicado em 17/3/2013). No entanto, a avenida reserva muitos outros exemplares do estilo, que integram a Rota Modernista.

Num espaço de 100m, conhecido como a Manzana de la Discórdia (quarteirão da discórdia), devido à rivalidade profissional existente entre os arquitetos, vemos 3 edifícios fundamentais do modernismo catalão:

A Casa Amatller, igual que sucedeu com a sua famosa vizinha, a Casa Batló, foi um edifício reformado que havia sido construído em 1875, e adquirido pelo industrial Antoni Amatller, que decidiu transformá-lo num palácio gótico urbano, com características dos palácios existentes no norte de Europa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara tanto, encarregou o arquiteto Puig i Cadafalch a construçao de uma fachada plana e escalonada, que alguns especialistas a consideram a “Apoteose das Artes Decorativas”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO projeto do edifício foi realizado entre 1898/1900, e desde 1976 integra a extensa lista de Monumento Histórico Artístico de Espanha. Infelizmente, sua visita interna não está permitida.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm pouco mais abaixo, encontramos a Casa Lleo Morera, também uma reforma de um edifício pré-existente, no caso construído em 1864.

barcelona 434A tarefa coube ao arquiteto Lluis Domènech i Montaner, que a realizou entre 1902/1905.

DSC00904Do mesmo arquiteto é a chamada Casa Fuster, finalizada em 1911. A família Fuster nela viveu até os anos 20, e no ano 2000 foi adquirida por uma rede de hotéis de luxo, que respeitou a originalidade da construção, motivo pelo qual foi declarado um imóvel protegido na categoria Hotel-Monumento.

barcelona 433DSC00930No próximo post, continuaremos com a matéria sobre o Paseo de Grácia.

Obs: A primeira foto deste post (panorâmica do Paseo de Grácia) foi tirada por Gilberto Rios, que vive em São Paulo, e realiza um interessante trabalho histórico-fotográfico sobre a capital paulistana, que pode e merece ser visto na seguinte página:

http://imagensdesaopaulo.hd1.com.br