A Juderia de Segóvia

Na época medieval, Segóvia foi habitada por uma comunidade judaica que cumpriu um importante papel histórico no desenvolvimento da cidade. No entanto, o legado material que se conserva de sua presença é somente uma sombra daquilo que um segoviano podia contemplar em pleno séc. XV. Segóvia foi repovoada por Raimundo de Borgonha, genro do rei Alfonso VI, no séc. XI e desta época sao escassos os documentos relacionados aos judeus que viviam na cidade. A primeira notícia da existência de uma comunidade hebrea data de 1215, apesar de que foi somente em 1287 quando aparece documentado o nome do primeiro judeu, Salomón de Ávila. Já no séc. XIV, existe constância de uma próspera comunidade formada entre 50 e 100 famílias firmemente assentadas em Segóvia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADa mesma forma que em outras comunidades judaicas existentes no Reino, a Aljama (ou Juderia, o bairro onde viviam os judeus) de Segóvia encontrava-se sob a proteçao direta da monarquia castelhana. Mediante o pagamento de impostos, os judeus reconheciam a soberania e a vassalagem ao monarca, os quais, por sua vez, protegiam a comunidade através de oficiais encarregados de administrar a justiça. A história menciona também a estreita relaçao que mantiveram os judeus com a Catedral de Segóvia, pois a igreja e os bispos eram proprietários de muitos imóveis que eram alugados pelos judeus. Inclusive, muitos deles participaram nas reformas realizadas no templo catedralicio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma crise na Baixa Idade Média (1391/1419) acarretou uma grave mudança no convívio entre judeus e cristaos, devido a uma onda de ataques aos bairros judaicos de várias cidades do país (Toledo, Córdoba, Cuenca, etc). Até entao, os judeus viviam espalhados pelo perímetro urbano de Segóvia, mas em 1412 se promulgaram leis restritivas à comunidade judaica castelhana, proibindo o desempenho de certas atividades profissionais e establecendo uma segregaçao social, obrigando-os a viverem em bairros separados (cabe ressaltar que o mesmo sucedeu com os mouros). Assim, nasceu a Primeira Juderia de Segóvia. Sua situaçao piorou ainda mais quando vários judeus foram acusados de profanar a hóstia sagrada, bem como através dos discursos do frade dominicano Vicente Ferrer, que exigia a conversao ao catolicismo de todos os judeus habitantes do reino. Abaixo, vemos a Ermita  del Santo Cristo de la Cruz, construída no local de pregaçao do mencionado religioso.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADessa forma, surgiu um novo grupo social, forrmado pelos judeus conversos, também denominados cristaos novos. Apesar deste panorama sombrio, a Aljama de Segóvia situava-se entre as mais prósperas naquele momento. Na primeira metade do séc. XV, durante o reinado de Enrique IV, a populaçao judaica se recupera, pois o monarca estabele sua residência no Alcázar da cidade, aceitando servidores judeus e conversos no seu entorno particular. Entao, alguns judeus passaram a conviver com cristaos fora da juderia, em outras zonas da cidade. Em 1474, a filha de Enrique IV, Isabel I foi proclamada Rainha de Castilla y León em Segóvia, e um judeu chamado Abrahan Seneor desempenhou um papel destacado no acesso da rainha ao trono.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de casar-se com Fernando de Aragao, o casal real passou a ser reconhecido como os Reis Católicos, que adotaram um programa de governo com drásticas consequências para os judeus. Novamente, a comunidade foi isolada num bairro próprio, a denominada Segunda Juderia de Segóvia (1481). Muitos conversos seguiam praticando abertamente suas antigas crenças, e para combater esta prática os Reis Católicos obtiveram uma autorizaçao do papa Sixto IV para o estabelecimento do Tribunal da Inquisiçao na Espanha, três anos antes de serem isolados na segunda juderia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA A presença do Tribunal da Inquisiçao provocou uma verdadeira convulsao social na cidade, contribuindo para o aparecimento de tensoes entre as diferentes comunidades. Ao mesmo tempo, os monarcas mantiveram com firmeza os interesses da comunidade judaica. A oposiçao religiosa e social contra eles teve seu centro no Monastério Dominicano de Santa Cruz, cujo prior, o frade Tomás de Torquemada, foi nomeado em 1483 Inquisidor Geral pelos Reis Católicos. Paralelamente, dentro da própria juderia, surgiram conflitos ocasionados pela divergência de interesses dos próprios dirigentes da comunidade e seus demais integrantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 31 de Março de 1492, os monarcas católicos promulgaram, de forma inesperada, uma lei que concedia aos judeus um prazo de 4 meses para que se convertessem ao catolicismo, ou entao abandonar o reino. A conversao mais significativa foi a do financeiro Abrahan Seneor, acima mencionado, que foi batizado no mesmo ano com o nome de Fernán Pérez Coronel no Monastério de Guadalupe, numa cerimônia presenciada pelos próprios Reis Católicos, que foram seus padrinhos. Aqueles que nao quiseram renunciar à sua fé, tiveram que vender seus bens, casas e prepararam-se para sua imediata saída de Segóvia. A antiga juderia se converteu, entao, no chamado bairro novo, agora habitado por cristaos. Um censo realizado em 1510 contabilizou a existência de 788 conversos na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma imagem geral da Juderia de Segóvia, situada no lado direito da Catedral, que vemos no centro da foto.

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