Gijón Monumental – Parte 2

Hoje veremos outros lugares emblemáticos de Gijón, uma cidade que, turisticamente, oferece várias atrações para o visitante. No final do séc. XIX e começo do XX, Gijón foi o epicentro, em Asturias, de novas tendências artísticas que possibilitaram o aparecimento de vários edifícios vanguardistas, entre os quais merece destacar a Basílica do Sagrado Coração, cuja estátua no alto da igreja pode ser vista de vários pontos da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAGraças às suas grandes proporções, é conhecida como La Iglesiona (a grande igreja). Foi construída para os jesuítas entre 1918 /1922 pelo arquiteto catalão Juan Rubió y Bellver, discípulo e colaborador de Gaudí. Por isso mesmo, foi projetada segundo uma concepção modernista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior da igreja é belíssimo, principalmente por estar decorada por pinturas murais em sua cobertura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs vitrais foram magistralmente realizados pela famosa Casa Maumejeán, seguindo a estética modernista. Abaixo, vemos a imagem do Sagrado Coração e o Batismo de Cristo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm minhas “andanças” adoro perder-me voluntariamente e descobrir locais interessantes e propícios para a fotografia…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPasseando pela cidade encontrei-me com monumentos que homenageiam verdadeiros símbolos asturianos, como esta curiosa árvore feita com garrafas de Sidra reciclada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Sidra não é apenas uma bebida em Asturias, mas uma parte fundamental de sua cultura e folclore, sendo a primeira região produtora do país, responsável por 80% da produção nacional. Esta bebida alcoólica de baixa graduação (de 3 a 8%), é preparada com sumo fermentado da maçã. Seu nome provêm do latim, “Sicera“, que significa bebida embriagadora. Produzida em vários países da Europa, em Asturias e no norte da Espanha se consome a sidra natural. Nos demais lugares, se utiliza a sidra gasificada. Existe constância da produção no principado desde o séc. VIII, e são usadas somente variedades autóctonas, regulada pela Denominação de Origem Sidra de Asturias. Depois de fabricada, são armazenadas em tonéis, como vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra instituição de fundamental importância da cidade é o principal time de futebol local, o  Real Sporting de Gijón. Recentemente, a equipe subiu novamente para a Primeira Divisão da Liga Espanhola, e a cidade virou uma festa. O Sporting é o clube asturiano que mais temporadas disputou na máxima categoria do Futebol Espanhol, com 6 participações na Copa da UEFA, duas finais da Copa del Rey e um vice campeonato da Liga Espanhola (temporada 1978/1979). Seu estádio, El Molinón, foi fundado em 1905, sendo considerado o mais antigo de toda a Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntes da construção do estádio, existia um grande moinho no terreno, que acabou dando  nome à sede do clube. Com capacidade para 30 mil espectadores, foi reformado há poucos anos atrás. Bem perto do estádio situa-se o Parque de Isabel La Católica, uma das principais áreas verdes de Gijón.

20150722_182043O parque, projetado pelo arquiteto Ramón Ortiz em 1941, é uma das principais zonas de ócio da cidade,  e conta com várias e belas esculturas, entre as quais da própria rainha homenageada com seu nome.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do dia, fui conhecer o Mercado de Gijón, um exemplo da denominada Arquitetura de Ferro de finais do séc. XIX, e aproveitar para beliscar alguma coisa….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInaugurado em 1899, o Mercado de Gijón foi objeto de uma restauração que o converteu num centro comercial, além da tradicional função para a qual foi criado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizando a matéria, acabei me esquecendo de comentar que Gijón é o destino final da denominada Vía de la Plata, como é conhecida a calçada romana construída no séc I aC pelo Imperador Augusto. Uma das rotas mais importantes da Península Ibérica, interliga o sul e o norte da Espanha, entre Sevilha e a própria Gijón, sendo um elemento difusor da cultura romana.

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Gijón Monumental

No meu primeiro dia em Gijón, o tempo não estava muito convidativo para aproveitar a praia, assim decidi dar uma volta e conhecer os principais pontos da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPerto do meu hotel localizava-se a Igreja de San Lorenzo, que me surpreendeu por ter sido construída por Luis Bellido y González, um dos arquitetos fundamentais da passagem do séc. XIX para o XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInspirada no gótico espanhol, foi erguida entre 1896 e 1901, num inconfundível estilo histórico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO belo e cuidado jardim situado em frente da igreja embeleza ainda mais o lugar….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos monumentos mais conhecidos de Gijón é o Palácio de Revillagigedo, também denominado do Marquês de San Esteban del Mar de Natahoyo. O edifício é um exemplo da arquitetura palaciana realizada no Principado de Asturias no séc. XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO marquês ordenou sua construção em 1704, aproveitando a existência de uma torre medieval gótica (séc. XV, situada à direita da foto).

OLYMPUS DIGITAL CAMERALogo depois da construção do palácio, a família do marquês recebeu o título de Condes de Revillagigedo. A torre da esquerda foi edificada para manter a simetria do conjunto. Seu corpo central caracteriza-se por sua abundante decoração, em contraponto com a austeridade das torres. O palácio foi declarado Bem de Interesse Cultural em 1974.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAo lado do palácio encontra-se a Colegiata de San Juan Bautista, concluída 15 anos depois do palácio.

20150722_201944Um dos personagens históricos mais importantes do panorama cultural de Gijón foi o escritor, jurista, político e ilustrado espanhol Gaspar Melchor Jovellanos (1744-Gijón/1811-Puerto de Vega), que foi merecidamente homenageado com uma estátua.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO principal teatro da cidade também recebeu seu nome….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAReferente cultural de Gijón, o Teatro Jovellanos foi inaugurado em 1899 com o nome de Teatro Dindurra. Durante a Guerra Civil Espanhola, foi reduzido a escombros e reconstruído em 1939, já com o seu nome atual. Meu passeio pela cidade me levou à Plaza Mayor, cuja entrada está dominada por um belo edifício decorado com esgrafiados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo normalmente ocorre nas grandes praças maiores de Espanha, em Gijón o Edifício do Ayuntamiento (prefeitura)  preside a praça, ponto de encontro dos cidadãos da cidade e de seus filhos também…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO edifício foi construído em 1858 pelo arquiteto Andres Coello no estilo neoclássico. Depois de muito andar, resolvi repor as energias e para isso, nada melhor que um belo copo de vinho e uma porção de chorizo…para começar !!!

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Gijón – Principado de Asturias

Há dois meses atrás, decidi realizar uma viagem ao Principado de Asturias, uma comunidade espanhola que não conhecia muito bem. Minha primeira parada foi a cidade de Gijón, que cheguei depois de 4 horas viajando em ônibus. Na realidade, fugia também do calor sufocante do verão em  Madrid, por isso escolhi um local onde as temperaturas eram mais suaves…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADistante a menos de 30km da capital Oviedo, Gijón é a maior cidade de Asturias (norte da Espanha), com cerca de 275 mil habitantes. Situa-se no litoral da comunidade, e no idioma asturiano seu  nome se escreve Xixón.

20150723_190943A origem de seu nome provoca intensos debates entre os estudiosos. Segundo Miguel de Unamuno, origina-se do latim Saxum, que significa penhasco, uma  alusão  ao relevo rochoso onde se assentou o núcleo primitivo da cidade no séc. V aC, atualmente conhecido como Cerro de Santa Catalina.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste local, além de oferecer vistas espetaculares da cidade, acolhe também um dos  seus símbolos, uma enorme escultura feita de concreto chamada “Elogio del Horizonte”, realizada pelo artista Eduardo Chillida em 1990.

20150723_185641OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Escudo de Gijón representa o primeiro monarca do antigo Reino de Asturias, D.Pelayo, que segura uma espada na mão direita e a cruz da vitória na esquerda, uma referência a Batalha de Covadonga, quando os muçulmanos foram expulsos do reino.

20150722_201707Até época recente, Gijón era uma cidade eminentemente industrial, favorecida pelo porto e pela ferrovia existentes. Com a crise no setor siderúrgico e naval, transformou-se num belo e interessante centro turístico e universitário.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO achado de Dólmens na região, que remontam a mais de 5 mil anos, comprovam a antiguidade dos primeiros habitantes do lugar. Estes primeiros asturianos foram dominados pelo Império Romano, que deixou constância de sua passagem por Gijón nas Muralhas e nas Termas Romanas, que podem e devem ser visitadas (algo que infelizmente, não tive tempo de fazer…). Ao lado das termas, vemos uma estátua do Imperador Octávio Augusto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA época visigoda é obscura, não deixando rastros de sua presença. Gijón foi a capital dos domínios muçulmanos na costa do Mar Cantábrico, de 713 a 722 (neste último ano, foram derrotados por D.Pelayo na batalha acima citada). A partir de então, novamente os dados são escassos, e a cidade volta a aparecer documentada somente em 1270, quando o rei Alfonso X lhe concede a categoria de pueblo. Abaixo, vemos a popular Praia de San Lorenzo, situada no centro. Com 1550m, seu formato de concha propicia agradáveis passeios pela orla.

20150722_19072820150722_190933O séc. XIV marcou um período de lutas dinásticas no país entre Pedro El Cruel e Enrique de Trastámara, resultando devastadora para a cidade, que foi incendiada e arrasada. Os séculos XVII e XVIII representaram um momento de prosperidade, quando o porto foi habilitado para o comércio com o continente americano. A exploração do carvão  no séc. XIX permitiu uma outra fase de crescimento. O porto foi reconstruído em 1893, tornando-se o primeiro porto carvoeiro do país. Novas estradas e a abertura da ferrovia consolidaram sua imagem industrial. O advento da burguesia local estabeleceu uma onda construtiva, deixando sua influência e poder econômicos em belíssimos edifícios Modernistas e Art Decô. A seguir, vemos uma foto da Praia de San Lorenzo, com a Igreja de San Pedro ao fundo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Igreja de San Pedro se destaca na paisagem da Baía de San Lorenzo. Foi construída em 1955 pelos irmãos Francisco e Federico Somolinos sobre o antigo e principal templo da cidade, edificado no séc. XV e destruído durante a Guerra Civil. Abaixo, vemos uma imagem geral do interior e os belos mosaicos que o decoram.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANosso passeio por Gijón está apenas começando. Espero que vocês se surpreendam tanto quanto eu…

Residência de Estudantes – Madrid

A matéria de hoje está dedicada a uma das instituições culturais mais importantes de Madrid do século XX, a chamada Residência dos Estudantes. Fundada em 1910 pela Junta para a Ampliação de Estudos, tanto a residência, quanto a própria associação foram produtos das ideias renovadoras da Instituición Libre de Enseñanza (Instituição Livre de Ensino), criada em 1876 por Francisco Giner de los Ríos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua filosofia estava baseada na complementação do ensino universitário, através da criação de um ambiente cultural e de convivência adequados para os estudantes. Por isso, propiciou um diálogo permanente entre os diversos campos culturais, sejam artísticos ou científicos, atuando como um centro de recepção das Vanguardas Internacionais e transformando-se num foco difusor da modernidade no país.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir de 1915, sua sede definitiva estabeleceu-se na Colina de los Chopos, num conjunto de edifícios modernos de inspiração neomudéjar. Até 1939, foi considerado num dos principais núcleos da modernização científica e educativa da Espanha. Em seu período inicial, acolheu a grandes personagens da cultura espanhola, entre os quais Luis Buñuel (cineasta), Salvador Dalí (pintor) e Federico García Lorca (poeta), que conviveram num mesmo momento na Residência dos Estudantes. Com esse “time” podemos imaginar o grau de intercâmbio e criação artística que se desenvolveu no lugar. Outros residentes famosos, de equivalente importância na cultura do país foram, entre outros, Miguel de Unamuno (1864/1936: filósofo, poeta e dramaturgo), Manuel de Falla (1876/1946: compositor), José Ortega y Gasset (1883/1955: filósofo e político) e Santiago Ramón y Cajal (1852/1934: médico e cientista).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA liberdade que gozavam os residentes causava admiração em todos aqueles que a visitavam. Dispunha de uma rica biblioteca, com cerca de 16 mil livros, vários laboratórios e aulas de idiomas gratuitas. Abundantes também eram os concertos realizados em suas salas, hoje transformadas em locais para conferências.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO prestígio da Residência dos Estudantes se incrementou ainda mais quando grandes nomes da cultura internacional foram convidados para realizarem exposições, dar conferências ou simplesmente comer juntos aos famosos residentes. Algumas das personalidades convidadas foram Paul Valéry, Albert Einstein, Igor Stravinsky, Marie Curie, Le Corbusier, só para citar alguns.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe importância fundamental foi o trabalho editorial realizado na instituição, pois nela foram publicadas obras de Ortega y Gasset, Miguel de Unamuno, Antonio Machado, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom a Guerra Civil, as atividades na Residência dos Estudantes terminaram de forma abrupta. O edifício converteu-se em hospital durante a guerra, uma maneira de salvar suas instalações e a biblioteca. Depois, funcionou como orfanato e quartel. Durante a Ditadura de Franco, muitos dos principais professores foram forçados ao exílio. Em 1843, os livros da biblioteca foram levados a Universidade Complutense de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir de 1986, os edifícios foram restaurados a fim de recuperar o velho espírito e as atividades culturais do centro. Em 2007, a Residência dos Estudantes foi declarada Patrimônio Europeu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente uma fundação privada e regida pelo Conselho Superior de Investigações Científicas, dedica-se à recuperação da memória da denominada Idade de Prata da Cultura Espanhola (1868/1936), através de exposições frequentemente realizadas e atos públicos. Abaixo, finalizamos com uma foto de um dos edifícios que serviram como residência de tantos personagens capitais da Espanha do séc. XX, cujo legado perdura hoje e sempre…

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Bairro de Vallecas – Madrid

Depois de implantado o Ensanche de Madrid, a cidade tinha espaço para crescer, e de fato desenvolveu-se de maneira vertiginosa. Sua população quase triplicou entre 1900 e 1950, passando de 580 mil para 1.5 milhão de habitantes. Desta forma, a capital da Espanha acabou incorporando antigos povoados, que passaram a integrar os limites da própria cidade. Um deles foi a Vila de Vallecas, hoje um bairro de Madrid, que foi anexionado em 1950. O território se dividiu em dois distritos, Ponte de Vallecas, com cerca de 230 mil habitantes e a Vila de Vallecas, com aproximadamente 100 mil, cujas imagens vemos nesta matéria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAVallecas ficou conhecida por sua tradição obreira e contracultural, além de grande foco do esquerdismo, atuante principalmente durante a Ditadura de Franco, quando foi apelidada de Pequena Rússia. Ainda hoje, dá a sensação, ao percorrer as ruas do centro histórico, de estarmos num povoado do interior…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo seu centro histórico, situa-se um belo templo, a Igreja de San Pedro Advíncula.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADeclarada Bem de Interesse Cultural em 1995, a igreja foi projetada por Juan de Herrera em 1600. Sua torre, porém, somente foi erguida em 1775, pelo arquiteto Ventura Rodríguez.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAVale a pena pegar o metrô e descer na Estação Villa de Vallecas para conhecer este pedaço agradável da cidade…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo bairro encontramos também um time histórico do Futebol Espanhol, o Rayo Vallecano, fundado em 1924. O clube é um dos 4 times da Comunidade de Madrid que integram a Primeira Divisão da Liga Espanhola ( os demais são o Real Madrid, o Atlético de Madrid e o Getafe). Seu estádio localiza- se em Ponte de Vallecas (Puente de Vallecas).

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom capacidade para 15 mil espectadores, foi reconstruído em 1976 sobre um anterior estádio. No início, denominava-se “Novo Estádio de Vallecas“. Em 2004, porém, passou a chamar-se Estádio Teresa Rivero, em homenagem a primeira mulher eleita presidenta de uma equipe de futebol na história da Liga Espanhola. Durante a temporada de 2011, o letreiro com seu nome apareceu arrancado, deixando visível somente  “Campo de Futebol de Vallecas“. O Rayo Vallecano participa atualmente de sua décima oitava participação na primeira divisão, e na temporada de 2000/2001 conseguiu chegar à Copa da UEFA.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar do seus altos e baixos, o time caracteriza-se pelo alegre e ofensivo jogo que normalmente realiza, independente do adversário. Finalizo esta breve matéria, ressaltando o orgulho que seus habitantes sentem por terem nascido em Vallecas

Oratório do Cavalheiro de Grácia – Madrid

O primeiro trecho da Gran Vía guarda um verdadeiro tesouro artístico-arquitetônico, o Oratório del Caballero de Grácia (original em espanhol). Esta construção foi a “culpada” pelo fato do traçado da avenida não ter sido reto nesta parte de sua extensão, pois foi desviada para preservá-lo. Felizmente, houve o bom senso de respeitar este monumento da Arquitetura Neoclássica de Madrid. A pequena igreja possui duas entradas, uma pela Gran Vía, e outra pela rua que passa detrás, denominada Caballero de Grácia. Mas quem foi ele?

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJacobo de Grattis, seu verdadeiro nome, e não como indica  a placa da rua, foi um sacerdote italiano que nasceu em Módena em 1517, e faleceu em Madrid no ano 1619, vivendo, portanto, 102 anos. Sua vida esteve cercada por muitas lendas e mistérios. O que se sabe com certeza, é que veio a Madrid durante o reinado de Felipe II, como representante do Papa Gregório XIII. O título de cavalheiro lhe foi oferecido por uma das filhas do monarca espanhol. Como era muito rico, comprou várias casas na rua que leva seu nome. Organizava festas, ocasiões em que podia satisfazer sua fama de sedutor. Em um dos imóveis, viva Dona Leonor Garcés, uma bela mulher, esposa de um fidalgo aragonês. Jacobo se apaixonou por ela e tratou de seduzi-la, sem êxito. Tentou, então, raptá-la, através de narcóticos. Quando estava ponto de cometer o abominável ato, recebeu um sinal de Deus, e imediatamente mudou seus hábitos dissolutos por uma vida religiosa. Logo depois, foi ordenado sacerdote em Roma, e regressou a Madrid em pregando sua fortuna em obras de caridade, construindo colégios para órfãos, hospitais, etc. Fundou também a Associação Eucarística de Grácia no final do séc. XVI. Em 1654, foi construído um oratório para dita associação, com o dinheiro de sua herança. No séc. XVIII, a igreja apresentava péssimas condições, e a associação encarregou ao famoso arquiteto Juan de VIllanueva sua reconstrução. A sóbria fachada da Calle Caballero de Grácia foi construída entre 1828 e 1831. Nela vemos uma representação da última ceia de Leonardo da Vinci, realizada pelo artista José Tomás.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior desta pequena igreja é realmente maravilhoso. Juan de Villanueva foi capaz de criar uma sensação de monumentalidade num espaço bastante reduzido. As magníficas colunas de estilo coríntio criam a ilusão da existência de naves laterais, que na realidade são um produto da pequena separação das colunas com o muro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO templo possui planta basilical com uma nave, ábside e uma incrível cúpula oval, cuja decoração foi realizada pelo pintor Zacarias González Velázquez no séc. XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO pintor também realizou a decoração pictórica de vários retábulos, como o que representa São José com o Menino Jesus, de 1794.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a cobertura da nave e o órgão

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo altar, vemos um vitral sobre a Última Ceia elaborado pela prestigiosa Casa Maumejeán.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs restos de Jacobo de Grattis descansam no Oratório, e uma placa comemorativa assim o certifica…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFico devendo uma foto do Cristo da Agonia, escultura considerada uma obra prima do Barroco Madrilenho, que podemos admirar em seu interior. Desde a Gran Vía, vemos o ábside semicircular, guardado por um arco triunfal construído em 1991 por Javier Felduchi, que proporciona um aspecto único a este templo peculiar e, ao mesmo tempo, belíssimo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando passeamos pela Gran Vía, é difícil não reparar neste singular edifício religioso de Madrid. Recomendo que não se contentem com a impressionante fachada, pois sua visita interior nos revela uma joia neoclássica realizada por um dos grandes arquitetos espanhóis de toda sua história, Juan de Villanueva, responsável pelo projeto do Museu do Prado, da reconstrução da Praça Maior de Madrid, entre outras obras admiráveis.

A Construção da Gran Vía – Parte 2

A construção da Gran Vía foi realizada em 3 partes. No início da avenida, foi colocada uma maquete com a sua configuração, que ajuda a visualizar seu traçado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO primeiro trecho, que vai da Calle de Alcalá  a Rede de San Luís, finalizou-se em 1917, mas a obra definitiva só foi entregue em 1924. Abaixo, vemos uma imagem atual deste trecho.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom 373m de comprimento, inicialmente chamou-se Conde de Peñalver, em homenagem ao prefeito de Madrid que realizou todos os esforços possíveis para levar sua construção adiante. Durante a Guerra Civil, passou a chamar-se Calle de la CNT. Algumas das ruas que ocupavam o antigo espaço desapareceram, como a Calle de San Miguel, que vemos na foto abaixo, ao lado da Calle de Alcalá entre dois edifícios no lado direito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA maior parte das construções próximas também foram derrubadas, exceção feita ao Oratório do Caballero de Grácia, que felizmente foi respeitado, cuja história será o tema da próxima matéria. Para salvá-lo foi realizado um pequeno desvio no traçado da Gran Vía. Abaixo, vemos a primeira parte da Gran Vía  em 1928, e o tráfico na região um pouco depois de ser construída.

DSC00287OLYMPUS DIGITAL CAMERAO segundo trecho da Gran Vía vai da Rede de San Luís a Plaza del Callao. Iniciada em 1917, em 1922 já se encontrava pavimentada, e concluiu-se em 1924. Com 409m, foram introduzidas transformações mais violentas na região para que pudesse ser construída, em comparação com o primeiro trecho. Abaixo, vemos uma imagem atual  do segundo trecho.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo podemos observar, neste trecho a rua é mais larga, pois o projeto inicial incluía um boulevard central, que serviria de passeio para os cidadãos, algo que não chegou a concretizar-se jamais. Foi preferível que sua maior largura estivesse destinada ao aumento do tráfico rodado, que certamente se incrementaria com o tempo. A seguir, vemos obras realizadas em sua parte final, na Plaza del Callao, nos anos 20.

DSC07976Abaixo, a Plaza del Callao em 1931…

DSC00283No centro da praça, vemos uma coluna meteorológica adornada, que infelizmente não existe mais. Do lado esquerdo, o Cine Callao, construído por Luis Gutiérrez Soto entre 1926/1927, seguindo uma linha moderna e inovadora para a época. Fotos atuais da praça vemos na sequência.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAInicialmente, o segundo trecho chamava-se Avenida de Pi y Margall, em homenagem ao político catalão que tornou-se Presidente da Primeira República espanhola. Durante a Guerra Civil, denominou-se Avenida de Rússia. Finalmente, o terceiro trecho da Gran Vía, que vai da Plaza del Callao até a Praça de Espanha. Com uma extensão de 534m, sua construção ocasionou a demolição indiscriminada de todo o casario existente na região. As obras deste último trecho vemos na imagem abaixo, de 1929.

DSC07975As demolições iniciaram-se em 1925, e sua construção finalizou-se somente depois da Guerra Civil Espanhola em 1939. Um número maior de ruas desapareceram, e problemas com os desalojados atrasaram sua conclusão, pois resistiram ferozmente a sairem da região onde sempre haviam vivido. Para que tenham uma ideia, 121 edifícios foram derrubados, 21 ruas afetadas e 11 desaparecidas somente neste trecho da Gran Vía. Uma foto de 1930 vemos abaixo, e outra atual a seguir.

DSC07978OLYMPUS DIGITAL CAMERANo início, este último trecho foi denominado Avenida de Eduardo Dato. Durante a Guerra Civil, Avenida de México. Em 1939, toda a rua passou a denominar-se Avenida de José Antonio. Sua denominação atual, Gran Vía, apesar de ser seu nome popular durante todo o século XX, passou a ser oficial somente a partir de 1982, com a volta da democracia ao país. Este último trecho da Gran Vía é conhecido como a Broadway Madrilenha, devido a grande quantidade de casas de espetáculos que acolhe. Em 22/3/2013 e 25/3/2013, dediquei uma matéria somente sobre ela. Do ponto de vista arquitetônico, podemos considerar a avenida um verdadeiro museu referente às correntes vanguardistas do século passado, quando boa parte dos grandes arquitetos espanhóis do séc. XX deixaram sua assinatura nos projetos construtivos. Para ver alguns dos mais interessantes Edifícios da Gran Vía, vejam o post publicado em 14/2/2013, que será um bom complemento à matéria realizada ontem e hoje sobre sua construção.