Mudéjar em Calatayud – Parte 2

Dando continuidade a matéria sobre o estilo mudéjar em Calatayud, hoje veremos a principal igreja da cidade, a Colegiata de Santa María la Mayor. Este templo foi incluído, junto com a Paróquia de San Andrés, na lista dos monumentos mudéjares da Comunidade de Aragón declarados Patrimônio da Humanidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Colegiata de Santa María está documentada desde o séc. XII. Foi edificada sobre a mesquita maior de Calatayud. Depois da reconquista da cidade, a mesquita foi consagrada como templo católico, sob a advocaçao da Virgem Maria, em 1249. Porém, desta igreja primitiva não se conserva nada. O templo atual substituiu o anterior, construído em diversas épocas. Do estilo mudéjar, se conservam a torre, o ábside e o claustro. A torre da colegiata é o principal elemento identificativo de Calatayud. Com 70m de altura, é considerada a torre mais alta de Aragón, sendo levantada entre os séc. XIV e XV.

20150813_100522OLYMPUS DIGITAL CAMERADe notável beleza é a fachada, realizada a modo de retábulo, dentro da estética renascentista. Este conjunto arquitetônico-escultórico é considerado um dos melhores e mais preservados conjuntos platerescos de toda a comunidade (estilo renascentista espanhol caracterizado pela grande ornamentação).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta impressionante porta foi esculpida em 1528 por Juan de Talavera e o francês Esteban de Obray. Aberta num arco de meio ponto, sua rica iconografia está decorada por cabeças de querubins, personagens grotescos, motivos florais, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA cena principal está formada, em sua parte superior, por um relevo que representa  a Pentecostes. Embaixo, vemos a Anunciação da Virgem, franqueada por anjos. Nas laterais, aparecem as figuras de São Pedro (com a Bíblia) e São Paulo (com a espada).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACompletando a cena, na parte lateral inferior foram representados 3 santos de cada lado. Abaixo, vemos a São Prudêncio, São Roque e Santa Lúcia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior da igreja é barroco, mas atualmente não pode ser visitado devido as obras de restauração que estão sendo feitas. A Colegiata de Santa María foi declarada Monumento Nacional em 1984. Outro templo de importância em Calatayud que preserva elementos mudéjares é a Igreja de San Pedro de los Francos. Foi construída logo após a reconquista como paróquia para os francos que chegaram para repovoar a cidade. Como nas demais igrejas, o mudéjar, neste caso de maior simplicidade, também se conserva na torre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta igreja possui uma grande importância histórica, pois nela se celebraram as cortes em 1461, quando foi proclamado o Príncipe Fernando, depois chamado de ·”El Católico“, como herdeiro do monarca Juan II. Construída no séc. XIV, a torre sofreu, ao longo dos séculos, uma incrível inclinação. Por isso, em 1840 demoliram a parte onde se situava os sinos, com a justificativa de proteger a segurança da família real que se encontrava hospedada justo em frente da igreja, no denominado Palácio do Barão de Wassage, herói da Guerra da Independência. A fachada da igreja é gótica , de grande simplicidade. Sua localização, numa rua estreita, dificulta a obtenção de imagens gerais, que ofereçam um panorama completo de sua estrutura.

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Mudéjar em Calatayud

O maior legado artístico da cidade de Calatayud para a posteridade é o estilo mudéjar, presente em muitas das construções religiosas do centro histórico, principalmente em suas admiráveis torres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe fato, Calatayud é considerada uma das “capitais” do Mudéjar Aragonês, junto com Daroca (post publicado em 15/10/2013), Teruel (20/10/2013) e Zaragoza (9/10/2012). Mudéjar, como já foi dito em várias ocasiões, é a denominação que receberam a população de cultura, tradição e religião muçulmana que permaneceram vivendo na Espanha depois da Reconquista dos Reis Cristãos. Até 1610, quando os mouros foram expulsos do país, muitos muçulmanos mantiveram seus costumes nos lares das cidades que apresentavam uma comunidade importante de indivíduos que professavam a religião islâmica. Alguns eram hábeis construtores, incorporando elementos da tradição arquitetônica árabe nos edifícios religiosos cristãos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir do séc. XIII, surgiram originais modelos construtivos, baseado na combinação de materiais como o tijolo (em espanhol, ladrillo), utilizado como elemento construtivo e decorativo, o gesso, a madeira e a cerâmica. A beleza e particularidades do Mudéjar Aragonês foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade em 2001, como um testemunho da convivência entre distintas culturas e a criação de uma arte exclusiva do território espanhol. A Província de Zaragoza conta com uma grande quantidade de construções deste estilo único. Provavelmente, a igreja mais antiga de Calatayud é a Paróquia de San Andrés, uma das primeiras fundadas depois de ser reconquistada pelo monarca Alfonso I “El Batallador”. É bem possível que se trata de um templo originário de uma antiga mesquita, que acabou sendo transformada em igreja católica.

20150813_100412No séc. XVI a igreja foi ampliada, momento em que se edifica sua bela torre octogonal mudéjar. Formada por 3 corpos, é um típico exemplo de torre alminar, elemento característico da arquitetura islâmica presente nas mesquitas, cuja função principal é a chamada dos fiéis à oração diária (também denominado de Minarete). Aqui observamos a importância do tijolo dentro do contexto construtivo, transformando-se no material principal da arquitetura mudéjar. Normalmente, os materiais usados no estilo mudéjar são de fácil obtenção e baixo custo. Porém, os artesãos islâmicos foram capazes de transformar estes simples materiais em obras artísticas de grande plasticidade, compostas por formas geométricas que se repetem, arcos entrecruzados (denominados de Sebka), motivos vegetais, etc.

20150813_100435A Igreja de San Juan El Real, apesar de ter sido construída somente no séc. XVIII (entre 1774 e 1777), adotou formas arquitetônicas inspiradas do mudéjar, que podemos observar em sua torre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste templo foi construído para a Companhia de Jesus, nome pelo qual se conhece a Ordem dos Jesuítas, que se estabeleceram na cidade em 1584.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADevido a problemas estruturais, as igrejas mudéjares de Calatayud estão sendo submetidas a um importante processo de restauração em seu interior, de modo que não pude visitá-las por dentro. A exceção foi justamente a Igreja de San Juan, cuja visita realizei logo após chegar à cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANesta igreja, o pintor aragonês Francisco de Goya, com apenas 20 anos, realizou as pinturas representativas dos 4 Padres da Igreja Católica Ocidental nas partes laterais da cúpula. Fico devendo imagens das mesmas (na foto acima, podemos ver, mas não contemplar, duas delas, no alto da imagem). Abaixo, observamos a parte lateral da nave central e seu belíssimo órgão.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, veremos a segunda parte da matéria sobre o Mudéjar em Calatayud, com destaque para a Colegiata de Santa Maria.

Um Passeio por Calatayud

Em 1967, Calatayud foi declarada Conjunto Histórico-Artístico, graças a conservação e importância de seus monumentos. Hoje veremos alguns deles, num passeio pelo centro da cidade. Da antiga muralha medieval, se preservam algumas portas, como a Porta de Zaragoza, uma das principais vias de acesso ao seu interior, que foi reconstruída no séc. XVII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJá a Porta de Terrer impressiona por seu aspecto monumental. Construída no séc. XVI, está formada por duas torres cilíndricas, feitas de tijolo. Na parte inferior, vemos dois brasões, um representando a Dinastia dos Áustrias e o outro da própria cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABem em frente a esta bela porta, situa-se a Fonte dos Oito Canos, construída também no séc. XVI para trazer água a cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgumas residências nobres antigas ainda se conservam, apesar da passagem dos séculos. Uma delas é o Palácio de los Sese, um palácio renascentista do séc. XVI, realizado ao estilo aragonês.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAHistoricamente, uma das principais ordens religiosas que se instalaram em Calatayud foi a dos jesuítas, com o objetivo de criar centros de estudos superiores. O chamado Seminário de Nobres foi levantado com este fim no séc. XVIII. Com a posterior expulsão dos jesuítas da Espanha, o edifício passou a exercer outras funções, como Hospital Municipal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm pequeno monumento serve de homenagem a uma das manifestações culturais mais características da Comunidade, a Jota Aragonesa. Este gênero musical é encontrado em boa parte do pais, mas em Aragón adquiriu fama internacional por suas particularidades. Tal como se conhece atualmente, a jota foi criada no séc. XVIII ou princípio do XIX, e hoje em dia faz parte do folclore aragonês. Ao lado de uma típica dançarina de jota, vemos alguns dos monumentos da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASegundo algumas teorias, a jota originou-se na cidade de Valência. Por este motivo, existe uma pequena inscrição junto ao monumento, que devido ao pequeno tamanho não se pode ler, mas que diz o seguinte:

” La jota nasció en Valencia, Se crió en Aragón, Calatayud fue su cuna (berço), A la orilla (nas margens) del Jalón ( o nome do rio que atravessa a cidade)”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA jota se expressa através da combinação de dança, canto e interpretação instrumental. É acompanhada por castañuelas, e os participantes se vestem com trajes típicos. Um lugar que não poderia faltar em Calatayud é a Praça de Touros. O Coso Taurino, como muitas vezes se denominam estes espaços, da cidade foi construído em 1877.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADe forma octogonal, sua construção foi inspirada na arquitetura mudéjar, de cuja importância na cidade falaremos na próxima matéria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de visitar a cidade, uma boa dica é conhecer uma das paisagens mais belas da comunidade aragonesa, o famoso Monastério de Piedra. Situado a pouca distância do centro de Calatayud, este monastério cistercense do séc. XII está localizado numa reserva natural de grande beleza. O Rio Piedra, num paciente processo de erosão, formou grutas e um relevo acidentado, responsável pela enorme quantidade de cachoeiras no local. Além do mais, é possível hospedar-se no próprio monastério e ver as ruínas do antigo convento cistercense. Um passeio imperdível…

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Castelo de Ayub – Calatayud

Poucos anos depois da invasão muçulmana da Península Ibérica  (ano 711), os árabes se assentaram na atual Comunidade de Aragón, onde construíram um dos recintos fortificados mais importantes da península. O Castelo de Ayub, como foi denominado, deu origem ao nome da nova cidade fundada ao redor da fortaleza, Calatayud.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAErguido na parte mais elevada da cidade, o Castelo de Ayub é considerado um dos recintos defensivos de época muçulmana mais antigos que se conservam, não só da Península Ibérica, como de todo o mundo islâmico.

20150813_094122Este castelo se encontra em seu estado puro, sem qualquer tipo de restauração, ainda que esteja deteriorado devido a própria erosão dos materiais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA parte mais antiga está formada por duas torres octogonais e o muro que as une.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do séc. IX, durante o governo do quarto emir de Córdoba, Muhammad I, o recinto foi ampliado, alcançando um perímetro de 4 km e unido por muralhas de até 15m de altura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém do Castelo de Ayub, o mais importante por sua estratégica posição e tamanho, foram construídos outros 4 castelos: do Reloj (relógio), de Doña Martina, de la Peña e da Torre Mocha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO sistema defensivo acabaria sendo constantemente refortificado em épocas posteriores, em virtude das guerras civis que assolaram o reino na Idade Média, como por exemplo, no séc. XIV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA20150813_091928As vistas da cidade de Calatayud desde o Castelo de Ayub são formidáveis, devido à sua localização no alto do cerro que cerca a mesma. No próximo post, faremos um passeio pelas ruas e praças desta cidade aragonesa, descobrindo seus encantos e principais pontos de interesse.

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Bílbilis Romana- Parte 2

Na matéria de hoje, veremos alguns aspectos relacionados às manifestações artísticas produzidas na antiga cidade celtíbera-romana de Bílbilis, que podemos encontrar no Museu de Calatayud, bem como alguns dos principais monumentos do local. O Fórum, por exemplo, foi construído durante o reinado de Augusto e finalizado no de Tibério. Considerado o centro social e político das cidades romanas, nele se localizam os principais edifícios públicos do espaço urbano, além de ser um símbolo de poder e da cultura romana. No caso de Bílbilis, foi edificado no alto de um cerro, de modo que fosse visível desde a calçada romana que interligava Caesaraugusta (atual Zaragoza) com Emérita Augusta (atual Mérida). Abaixo, vemos uma foto onde se situava o foro nas ruínas de Bílbilis e sua representação idealizada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm edifício imprescindível em qualquer urbe romana é o Teatro, um dos principais locais de divertimento da população. O Teatro de Bílbilis possuía um caráter comarcal, pois sua capacidade de 4500 espectadores era superior ao número de habitantes da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABílbilis contava também com as habituais termas (construídas no séc. I dC), um local utilizado não só como zona de ócio, como também de encontro social. As esculturas adornavam os principais edifícios, e algumas que foram recuperadas representavam a retratos de imperadores, como vimos no post anterior. No Museu de Calatayud, podemos admirar outras obras escultóricas encontradas em Bílbilis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs grandes edifícios se complementavam com uma rica ornamentação,  principalmente com capitéis jônicos (primeira foto abaixo) e coríntios (segunda foto), feitos em pedra calcária.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOs muros, tanto dos edifícios, quanto das casas de famílias mais favorecidas economicamente, estavam decorados com pinturas ao fresco ou placas de mármore, em muitos casos importadas da Itália, Grécia, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs pinturas conservadas possuem uma extraordinária riqueza e variedade de cenas. O estado de conservação é excelente, e a maioria se inserem dentro do estilo das pinturas encontradas em Pompéia. Abaixo, vemos as pinturas que decoravam as paredes de um cubiculum, um dormitório de uma casa romana, datadas em 50 aC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, vemos a representação de um pavão real.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO solo era embelezado com mosaicos

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO latim foi utilizado como um meio para transmitir e unificar a cultura romana através dos povos conquistados. Em Bílbilis, sua presença se manifesta de diversas formas, como nos escritos do poeta Marco Valério Marcial, nas inscrições monumentais de mármore encontradas no Fórum e nos túmulos de seus habitantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA inscrição acima, traduzida, diz: “Aqui jaz Lucio Cornelio Samio, liberto de Filomuso, natural de Aquae (atual cidade de Alhama de Aragón)”. O latim também foi empregado nas inscrições realizadas em moedas, através das quais foi possível conhecer os nomes dos magistrados da cidade. Junto ao latim, generalizado desde a época de Augusto, apareceram letras e elementos gráficos da língua ibérica em objetos cotidianos e nos materiais de construção, indicando a sobrevivência do idioma e dos costumes indígenas, que paulatinamente foram desaparecendo. Alguns elementos de culto privado, encontrado nas casas, nos permitem conhecer alguns ritos religiosos, como vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa foto acima, na parte superior esquerda, aparece a figura de Hércules, feita em bronze. Ao lado, uma pequena estátua de uma divindade oriental. Peças de cerâmica representam figuras femininas (Vênus?) e masculinas. Na parte inferior esquerda, vemos um caduceu, que portava a imagem de Mercúrio, também realizada em bronze. Com a desintegração do Império Romano, alguns séculos passaram até a chegada dos árabes no séc. VIII, que finalmente fundaram a cidade de Calatayud, com a construção de um imponente recinto defensivo, cuja história veremos no próximo post.

Bílbilis Romana

A pouca distância de Calatayud se encontram os restos do antigo povoado de Bílbilis, o mais antigo assentamento humano da região. Infelizmente não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente este sítio arqueológico de fundamental importância relativa ao passado ibérico e sua subsequente dominação romana. No entanto, no Museu de Calatayud, que também funciona como Oficina de Turismo, situado no local onde antes se erguia um antigo Convento Carmelita do séc. XVI, uma exposição permanente me permitiu conhecer os restos arqueológicos encontrados nas ruínas e compreender seu passado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente, Bílbilis era um povoado celtíbero. Os celtas, provenientes da Europa Central, em sucessivas migrações entraram em contato com os povoadores autóctonos da península, os iberos (destes povos indígenas surgiu o termo Península Ibérica, que compreende os países que a compõem, Portugal e Espanha). A partir de 195 aC, os romanos conquistaram progressivamente o Vale do Rio Ebro, e seu domínio se estendeu pelas localidades desta zona, inclusive a antiga cidade de Bílbilis. A cidade impressiona por sua localização, elevada sobre três cerros a 700m de altitude. Apesar do complicado relevo, soube adaptar-se às ladeiras dos montes que a cercavam, conhecidos com os nomes de Santa Bárbara, San Paterno e Bámbola.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASuas ruas e espaços públicos foram construídos em terraços, comunicados entre si por meio de rampas e escadas. A partir de finais do séc. I aC e primeira metade do séc. I dC, a cidade passou por profundas transformações, que lhe proporcionaram o aspecto de uma típica cidade romana, cujo modelo urbano foi importada da capital do império, Roma. Este processo ocorreu entre os reinados dos imperadores Augusto e Tibério, responsáveis pela edificação dos grandes monumentos identificadores da arquitetura romana, como o Forum, o Teatro, as Termas, etc. Abaixo, vemos as instalações do Museu de Calatayud, com alguns dos restos escultóricos encontrados nas ruínas de Bílbilis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o reinado de Augusto, a cidade recebeu o nome de Municipium Augusta Bílbilis e seus habitantes passaram a ser considerados cidadãos romanos. Seu mais ilustre habitante, o poeta Marco Valério Marcial, deixou constância em seus escritos sobre as virtudes da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, vemos uma escultura que representa o retrato oficial do Imperador Augusto, encontrada no Teatro de Bílbilis e esculpida em mármore grego.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua população está estimada entre 3.500 e 4 mil habitantes, e a cidade estava cercada por uma grande muralha defensiva. Possuía uma ampla rede de cisternas e fontes públicas para o abastecimento de água, um verdadeiro êxito arquitetônico devido a acidentada localização da cidade. As casas estavam compostas por até 3 andares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom a desintegração do Império Romano, a cidade entra em decadência. A partir do séc. II dC este processo se acentua e no século V se encontra completamente desabitada. Bílbilis sofre inúmeros ataques destrutivos ao seu patrimônio, e as pedras de suas construções são utilizadas para os edifícios da cidade de Calatayud. A Praça de Touros, por exemplo, possui em sua base materiais procedentes da antiga cidade romana. As ruínas de Bílbilis receberam o título de Monumento Histórico-Artístico em 1931, devido a importância de seus restos para a  compreensão da antiga Hispania, nome pelo qual se denomina o período em que o atual território espanhol foi uma província do Império Romano. As escavações arqueológicas oficialmente iniciaram-se em 1917, e prosseguem atualmente. Abaixo, vemos uma imagem dos estudos iniciais realizados no Teatro Romano de Bílbilis, entre os anos de 1975 e 1976.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post veremos com mais detalhes alguns dos aspectos da vida da cidade,  seus principais monumentos e os restos conservados das diversas manifestações artísticas procedentes das ruínas arqueológicas.

Calatayud – Comunidade de Aragón

Calatayud é, tanto no plano histórico quanto no econômico, uma das principais cidades da Comunidade de Aragón. Situada na Província de Zaragoza, dista aproximadamente 90 km da capital aragonesa, estando comunicada pelos trens de alta velocidade que unem Madrid e Barcelona. Sem contar as chamadas capitais de província da comunidade (Zaragoza, Teruel e Huesca), Calatayud é a única cidade que conta com mais de 20 mil habitantes (21 mil, no senso realizado em 2014).

20150813_092026Sua localização na confluência dos rios Jiloca, Jalón e Ribota condicionou sua longa história, representando um lugar de passagem entre as principais rotas que comunicavam o Vale do Rio Ebro e a zona central do país. Abaixo, vemos o Rio Jalón, que atravessa a cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs primeiros habitantes da cidade, os celtíberos, se assentaram a 4 km da atual cidade de Calatayud, num povoado denominado Bílbilis, que foi posteriormente conquistada pelos romanos, transformando-se numa importante cidade. Até hoje, os nascidos em Calatayud são chamados de bilbilitanos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo entanto, Calatayud “aparece no mapa” com a chegada dos árabes em 716, quando foi construído o Castelo de Qual at Ayub, que deu o nome à cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo séc. XI, Calatayud transformou-se numa das maiores cidades da Taifa de Zaragoza. Foi reconquistada em 1120 pelo rei Alfonso I “El Batallador”, quando então recebeu o foro. Desde 2006 celebram-se as festas chamadas “Las Alfonsadas“, quando a cidade volta a ter um aspecto medieval, recriando os acontecimentos que sucederam durante o processo da reconquista. A necessidade de repovoamento do território depois de reconquistada fez com que o foro da cidade fosse respeitoso com as minorias. A partir de então, passaram a conviver junto com os cristãos, os judeus e os mouros. Abaixo, vemos o atual aspecto da antiga Judería da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA presença judaica em Calatayud foi simultânea com a dominação islâmica. Se assentaram principalmente na parte alta, próximo às fortalezas da cidade, criando ruas sinuosas e estreitas. Como Aljama, isto é, como bairro judeu, se constituiu no séc. XII. No final do séc. XIII, a população judaica estava formada por quase 200 famílias, uns 900 habitantes aproximadamente (um número significativo na Idade Média), convertendo a Judería de Calatayud na mais importante de Aragón, depois da comunidade judaica de Zaragoza. Os judeus permaneceram na cidade até o edito de expulsão promulgado pelo Reis Católicos em 1492. Os que não se converteram foram obrigados a emigrar a outros países. Já os judeus conversos permaneceram na cidade, mantendo seus ritos, crenças e tradições na clandestinidade. Em Calatayud, como em grande parte das cidades que chegaram a possuir importantes bairros, os judeus desenvolveram uma importante atividade comercial, artesanal e científica, neste caso principalmente relacionada com a medicina.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs mouros habitaram um bairro próprio, a Morería, até que foram expulsos em 1610. Abaixo, vemos uma foto da antiga morería, reconhecível pelo nome da rua com um desenho da lua em quarto crescente, símbolo do islã.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA convivência entre estas três culturas produziu uma das artes mais originais do continente europeu, embora seja exclusivamente espanhola, o Mudéjar. Em Aragón, este estilo adquiriu características próprias, que lhe valeram o reconhecimento da Unesco como Patrimônio da Humanidade em 2001. Calatayud é, junto com Zaragoza, Teruel e Daroca, uma das capitais do mudéjar aragonês, e algumas das igrejas da cidade formam parte da lista de monumentos mudéjares da comunidade que foram protegidos pela Unesco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACalatayud ostenta o título de cidade desde 1366. O principal ponto de encontro de seus habitantes é a medieval Plaza de España, que originalmente era o local onde se realizava o mercado.

20150813_101406Nela também se realizavam corridas de touros, como sucedeu com a maioria das praças maiores do país. A maior parte das casas que vemos atualmente foram construídas nos séc. XVII e XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO principal edifício da praça é a Casa Consistorial, sede da Prefeitura de Calatayud, uma construção renascentista do séc. XVI e reformada no XIX.

20150813_101418 Calatayud faz parte do Caminho de El Cid, que vimos recentemente no blog. Nos próximos posts veremos com mais profundidade a história dos principais monumentos desta bela e importante cidade aragonesa.