Os “Viajes de Água” – Madrid

Apesar de sua importância histórica, o Rio Manzanares nunca pôde contribuir para a cidade com o elemento indispensável à vida, a água. Isso ocorreu devido à peculiar localização do Centro Histórico de Madrid, situado num barranco a 70 metros de desnível em relação ao rio, como podemos ver abaixo na imagem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFelizmente, Madrid é uma cidade que possui um abundante lençol freático, com uma grande quantidade de água subterrânea. Para poder aproveitá-la, se construiu uma rede de galerias ou minas de captação de água denominadas “Viajes de Água“. Este sistema estava formado por uma rede de tubos feitos de barro ou chumbo que conduzia a água até as fontes públicas da cidade, distribuídas pelo centro antigo. De origem árabe, esta técnica de abastecimento continuou sendo utilizada e ampliada durante o período subsequente à dominação árabe, principalmente depois que Madrid tornou-se a capital permanente do Reino no século XVI (1561) e o incrível crescimento populacional verificado a partir deste momento. O próprio nome árabe da cidade, Mayrit, significa local onde sao abundantes os canais subterrâneos de abastecimento de água, ou seja, os “Viajes de Água“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMadrid foi a única cidade que articulou seu abastecimento graças a este sistema. Sua técnica consistia, primeiro, em localizar uma zona aquífera, e depois, cavar poços que se comunicavam entre si mediante as galerias. Todas estas galerias se reuniam numa só, que conduzia a água até a cidade pelo desnível existente entre a área de captação (zona norte da cidade) e o centro histórico. O trajeto do líquido finalizava em uma fonte pública ou particular, na qual  jorrava livremente, sem que houvesse a existência de um meio regulador como as torneiras de hoje em dia. O abastecimento de água se complementava com os chamados “Viajes de Água Grossos“, assim denominado pela pior qualidade da água e o pior gosto que tinha, sendo usada para a agricultura e o consumo industrial. Além do mais, existia a água procedente dos poços situados nos pátios residenciais. O escasso nível de água do Rio Manzanares foi usado somente para a lavagem de roupa, como vimos nas matérias anteriores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs “Viajes de Água” foram os responsáveis pelo abastecimento de água de Madrid até mediados do século XIX, quando se inaugurou o Canal de Isabel II, que veremos em breve.Durante o reinado de Felipe II (segunda metade do século XVI), Madrid já se destacava pela qualidade de suas águas, distribuídas nas 15 fontes públicas existentes. A completa rede de “viajes” foi regulamentada em 1617 por um órgão recém criado denominado “Junta de Fuentes“, função até então exercida pelo Conselho de Madrid. As classes humildes acudiam às fontes, com seus cântaros e outros tipos de recipientes. Já a classe média e a aristocracia se asseguravam o consumo de água mediante o transporte feito através de carroças puxadas por jumentos. Outra possibilidade era a contratação  de funcionários que levavam água à domicílio, os chamados “Aguadores“.

dsc07974No século XVII haviam cerca de  mil aguadores que levavam água das fontes públicas aos domicílios. Seu ofício, como muitas outras atividades, foi regulamentado pelo poder público. Eles tinham, como mínimo, o direito à metade dos canos existentes numa fonte para poder encher seus recipientes. Por este motivo, ocorreram vários conflitos entre a população de baixa renda e os aguaderos, pois estes tentavam ocupar, sob multa, todos os canos e ganhar mais dinheiro. Como os “Viajes de Água” eram subterrâneos, atualmente podemos  observar sua existência através de indícios que provam sua presença, como esta rara tampa que ainda podemos ver numa das ruas da cidade (vemos escrito na parte inferior, Viaje Antiguo de Água e, na parte posterior, Ayuntamiento de Madrid, ou seja, a Prefeitura da cidade).

20150720_180345No próximo post, publicarei a segunda parte dos “Viajes de Água“…nao percam !!!!

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