A Catedral de Valencia: Parte 2

Um dos elementos mais famosos da Catedral de Valencia é sua espetacular torre campanário, considerada também um dos monumentos mais representativos da cidade. A torre é conhecida com o nome de Micalet (idioma valenciano) ou então Miguelete, pois sua campana principal está dedicada a São Miguel, o anjo protetor da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe formato octogonal e com 51m de altura, a torre é uma verdadeira obra prima do Gótico Valenciano. Foi construída a partir de 1381 por Andreu Juliá e em 1414 seu último corpo foi decorado por Pere Balaguer, um arquiteto valenciano muito ativo na cidade no século XV. A torre está constituída por 4 partes, sendo que as três primeiras não possuem adornos. A campana dedicada a San Miguel é uma das maiores da Espanha, com um peso de 8 toneladas. Além dela, existem outros 11 sinos, que são tocados manualmente. O mais antigo de todos chama-se Catalina, e data de 1350.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo longo de sua história, a torre serviu como albergue de refugiados, torre vigía e lugar para anunciar eventos públicos. A entrada e saída de barcos do Porto de Valencia, por exemplo, era anunciada do alto da torre. Inicialmente, a torre estava separada da igreja, mas as reformas realizadas no século XV permitiram que finalmente se unisse ao conjunto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVIII, a catedral foi renovada, dotando-a de um aspecto neoclássico, afetando tanto sua estrutura, quanto os elementos ornamentais. Um exemplo é a parte conhecida como Girola, que rodeia o altar maior, e as capelas que integram seu espaço.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Girola é a parte mais antiga da catedral, pois por ela iniciou-se sua construção. Originalmente, as 8 capelas existentes na Girola eram góticas, mas foram reformadas no estilo neoclássico em 1771. Situada na parte traseira do Altar Maior (Trasaltar), a Capela da Ressurreição é uma das mais importantes. Sua construção foi ordenada pelo Cardeal Rodrigo de Borja, futuro Papa Alejandro VI e realizada por Gregorio de Biguerny.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa foto acima, vemos as pinturas situadas na parte superior da capela. A capela permanece fechada por um portão, mas pude realizar uma foto do relevo da ressurreição, realizado no estilo renascentista em 1510.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEmbaixo do relevo foi colocado uma das principais relíquias da catedral, o braço incorrupto de San Vicente Mártir, Diácono de Zaragoza, e que morreu martirizado em Valencia no ano 304 dc. Abaixo, vemos uma imagem da denominada Virgen del Coro, pertencente ao século XV, fase final do gótico. Esta Virgem é invocada pelas mulheres gestantes na véspera do parto, e existe uma tradição para que caminhem pela catedral 9 vezes, recordando os 9 meses que a Virgem Maria esperou para o nascimento de Jesus Cristo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA denominada Capela do Santo Cálice é considerada a mais famosa, estando situada na antiga Sala Capitular. A capela conserva seu traçado original gótico e sua cobertura, ambos do século XIV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASua fama se deve a que acolhe uma das relíquias mais veneradas do cristianismo, o Santo Cálice. Sua história se remonta ao século I, e supostamente teria sido o cálice utilizado por Jesus Cristo na última ceia. Estaríamos, portanto, diante do famoso Santo Graal. Segundo a tradição aragonesa, Sao Pedro levou o cálice a Roma. Devido às perseguições realizadas contra os cristãos, o Papa Sixto II entregou a relíquia a San Lorenzo, seu diácono, que ordenou que o levassem à Huesca, cidade situada na Comunidade de Aragón, Espanha. Nesta cidade, permaneceu até o ano 712, quando foi levado ao Monastério de San Juan de la Peña, situado na Província de Huesca, para que ficasse protegido dos invasores árabes. Depois, chegou a Zaragoza e foi doado  ao rei aragonês Martín I, em 1399. O Santo Cálice esteve sob o poder dos monarcas aragoneses até que em 1437 o Rei Alfonso El Magnánimo o levou à Valencia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1972, a Catedral de Valencia foi novamente reformada, e os elementos clássicos foram removidos (com exceção da girola e a maior parte das capelas nela situadas), devolvendo-lhe sua primitiva forma gótica. Finalizamos a matéria com o Altar Maior, presidido por um retábulo renascentista que permanece guardado dentro de um armário.

OLYMPUS DIGITAL CAMERARealizado entre 1492 e 1507, o retábulo está composto por 6 pinturas duplas, ou seja, estão pintados em ambos lados, totalizando 12 pinturas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outras imagens da Catedral de Valencia….

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A Catedral de Valencia

Depois da reconquista de Valencia, êxito alcançado pelo monarca Jaime I em 1238, as mesquitas da cidade foram convertidas ao culto cristão e muitas delas foram transformadas em paróquias. O mesmo aconteceu com a Mesquita Mayor, a principal da cidade. A partir de 1262, foi sendo derrubada e em seu lugar se iniciou a construção da Catedral da Assunção de Nossa Senhora. O processo construtivo foi rápido, de forma a  “marcar o território” ocupado pelo novo rei cristão, e foi patrocinado pela burguesia local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa realidade, este foi sempre um local sagrado, pois a Mesquita Mayor foi edificada sobre uma anterior Basílica Visigoda, que por sua vez foi construída sobre um templo romano dedicado a Júpiter ou Diana. O estilo predominante da catedral é o gótico, pois sua estrutura básica pertence  aos séculos XIII e XIV. Como é habitual, outros estilos foram sendo incorporados com a passagem do tempo, na medida em que se realizavam reformas e ampliações. Um exemplo desta variedade corresponde às 3 portas de acesso ao templo. A mais antiga de todas é a Porta de Almoina, que dá para a praça de mesmo nome, também chamada de Praça do Arcebispo. De estilo românico, foi edificada nos primeiros anos das obras e muitos estudiosos afirmam que foi construída para eliminar rapidamente a parte mais sagrada da mesquita, o Mihrab, já que este se localizava justamente onde foi colocada a porta.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADe estilo gótico francês é a belíssima Porta dos Apóstolos. Iniciada em 1303, foi realizada pelo mestre Nicolás Autun. Em sua parte lateral, vemos as esculturas dos 12 apóstolos, e no tímpano a representação da Virgem Maria com o Menino Jesus nos braços, e rodeada por anjos músicos. Nas arquivoltas, vemos uma grande quantidade de santos, anjos e profetas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANicolás de Autun empregou uma pedra de baixa qualidade e, como resultado, a porta teve que ser restaurada várias vezes. Em 1960, se procedeu a uma nova intervençao e as estátuas originais foram retiradas e guardadas no Museu Catedralício devido ao seu péssimo estado de conservação, e foram substituídas por cópias, que vemos atualmente. Diante da Porta dos Apóstolos se reúne todas as quintas feiras às 12hs o Tribunal das Águas, instituição secular de administração e justiça relacionada ao direito e utilização da água nos campos da cidade. Abaixo, vemos uma panorâmica da catedral com a Porta dos Apóstolos ao fundo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo lado da Porta dos Apóstolos se construiu, no século XVI, uma tribuna com três níveis denominada Arcada Nova. De estilo renacentista italiano, servia como um palco para a contemplaçao de espetáculos públicos que se realizavam na praça. No século XX, seu telhado foi retirado, acentuando seu formato parecido ao de um teatro romano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA última porta preside a fachada principal da catedral, denominada Porta de Hierros (Ferros, em português), por estar cercada por um portão feito deste material. De estilo barroco, foi realizada pelo escultor de origem alemã Konrad Rudolf a partir de 1703 e finalizada por seus discípulos Francisco Vergara e Ignacio Vergara, em 1713.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta porta possui um notável interesse artístico por seu atrevimento construtivo, dentro do contexto espanhol da época. Isso porque é considerada um dos poucos exemplos da arquitetura barroca italiana da Espanha, com formas ondulantes e em movimento, ao estilo dos italianos Bernini e Borromini. Quando se construiu, pretendia criar uma ilusão de ótica, proporcionando uma maior sensação de espaço num local de dimensões reduzidas. Possui 3 corpos diferenciados, e abaixo vemos o emblema da Virgem com a glória dos anjos, feito por Ignacio Vergara.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra obra prima gótica da Catedral de Valencia é o elegante cimbório, que ilumina o altar maior da igreja, magistral tanto em seu aspecto exterior, quanto interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA catedral possui duas passagens exteriores que comunicam com outras dependências, como o Palácio do Arcebispo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, continuaremos conhecendo a bela Catedral de Valencia

Valencia Gótica

A Arte Gótica adquiriu um grande protagonismo em Valencia nos séculos XIV e XV, fruto do grande desenvolvimento alcançado pela cidade nesta época como centro mercantil. Num passeio por seu centro histórico, muitos foram os edifícios construídos neste estilo, tanto no plano religioso, quanto civil, como vimos na matéria anterior sobre a Lonja de Valencia. Outro exemplo da arquitetura gótica adaptada ao uso civil constitui o Edifício da Generalitat Valenciana, isto é, a sede do governo regional da Comunidade Valenciana. A Generalitat teve como origem a necessidade da Coroa para recadar impostos e logo o edifício passou a sediar o organismo representativo do Reino antes às cortes. Sua construção iniciou-se em 1421, e no século seguinte se colocou uma torre, já no estilo renascentista. Na foto vemos o edifício iluminado, pois estive na cidade em plena época natalina.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém pertencente ao Estilo Gótico Valenciano, o Almudín foi construído no princípio do século XV como um local de armazenamento e venda de trigo. Seu nome provém da palavra árabe Almud, uma medida relacionada aos graos. Considerado monumento histórico-artístico, desde 1996 funciona como um centro cultural. Vemos o edifício na foto abaixo, à esquerda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAValencia conta com inúmeras igrejas góticas, apesar que as reformas subsequentes alteraram a fisionomia de muitas delas. A primeira que visitei foi a Igreja de San Agustín, que fazia parte do antigo Convento dos Frades da Ordem de Santo Agostinho.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO templo foi gravemente afetado, tanto na Guerra da Independência contra os franceses, quanto na Guerra Civil Espanhola do século XX. Por este motivo, a igreja teve que ser restaurada em 1940. Abaixo, vemos algumas fotos de seu belo interior, com destaque para um ícono bizantino situado no altar maior, denominado Nossa Senhora de Grácia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo Bairro da Catedral situa-se a Igreja de Santa Catalina, edificada a partir do ano 1300, num momento em que se começaram a construir templos católicos sobre as antigas mesquitas árabes. Recebeu este nome por um desejo expresso do Rei Jaime I, em honra a sua filha a Infanta Catalina.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1548, a igreja sofreu um grande incêndio, e foi parcialmente reconstruída. Entre 1688 e 1705, se construiu a torre campanário, obra de Juan Bautista Viñes, considerada uma das obras primas do Barroco Valenciano, e um dos símbolos da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1936, a igreja foi assaltada e incendiada. Na década de 50 foi restaurada, devolvendo-lhe seu aspecto gótico original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABem em frente à Lonja de Valencia, na Praça do Mercado, se localiza a Real Paróquia de los Santos Juanes (São João Batista e São João Evangelista). Erguida sobre uma mesquita árabe, sofreu diversas remodelações ao longo de sua história. Erguida originalmente no século XIII, foi reconstruída nos séculos XIV e XV devido aos vários incêndios que foi vítima.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVII e começo do XVIII, adquiriu seu aspecto barroco atual, sendo que sua parte exterior apresenta uma fachada a modo de retábulo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm sua parte central vemos uma escultura da Virgem do Rosário, realizada por Jacopo Bertesi. Sobre ela, a torre do relógio (imagem acima).

OLYMPUS DIGITAL CAMERASe intitula Real depois da visita que a Rainha Isabel II realizou ao templo em 1858. Em 1947, recebeu o título de monumento histórico-artístico. Uma pena que permaneceu fechada durante minha estadia, esta que é considerada uma das igrejas mais belas de Valencia

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo a matéria com o Real Convento de Santo Domingo, construído durante o reinado de Jaime I. Ampliado nos séculos XIV, XV e XVI, foi sede das Cortes do Reino de Valencia e nele se realizou o casamento de Felipe III com Mariana de Áustria. Lamentavelmente, também não pude visitá-lo e contemplar seu claustro gótico…

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A Lonja de Valencia: Patrimônio da Humanidade

A prosperidade econômica e a estabilidade monetária alcançada por Valencia no século XV a transformou numa das maiores potências econômicas do Mediterrâneo. Este período é considerado o século de ouro da cidade no plano demográfico, cultural e artístico. Com cerca de 75 mil habitantes em 1483, converteu-se na cidade mais importante da península, através do seu grande porto marítimo e o desenvolvimento das atividades mercantis. O edifício mais importante desta época é ainda hoje um dos referentes da cidade, a Lonja dos Mercadeiros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma lonja é um local de reunião de comerciantes, e a Lonja de Valencia é considerada uma das obras mais importantes da arquitetura gótica civil de toda a Europa. Simboliza a pujança e riqueza da cidade no século XV, um exemplo perfeito da Revolução Comercial que se propagou por todo o continente, além do crescimento social e o prestígio alcançado pela burguesia valenciana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConcebida como um verdadeiro templo dedicado ao comércio, foi construído em apenas 15 anos, entre 1483 e 1498, pelo mestre Pere Compte. A lonja situa-se na Praça do Mercado, centro vital da cidade desde a época árabe. Nela se realizaram corridas de touros, execuções públicas, etc. Sua função de mercado data do reinado de Jaime I, mas foi com Pedro IV de Aragón que adquiriu um caráter comercial permanente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara que pudesse ser realizada sua construção, foram adquiridas e posteriormente derrubadas 25 casas. O edifício se assemelha aos castelos medievais, por seu imponente aspecto de fortaleza. A estrutura está repleta de figuras simbólicas e personagens grotescos, e somente em relação às gárgulas, se contabilizam 28 delas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos o Escudo do Reino de Aragón, franqueado por anjos, colocado numa das esquinas exteriores do edifício.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Lonja de Valencia consta de 4 partes. Na torre situa-se o calabouço, onde eram confinados aqueles que roubavam os comerciantes e os proprietários de estabelecimentos menos honrados…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma de suas dependências mais espetaculares, a denominada Sala de Contrataçao deslumbra por sua beleza gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO espaço está formado por duas fileiras de colunas helicoidais de 16 m de altura, que lhe proporcionam um aspecto semelhante a um bosque de palmeiras. Por sua vez, o teto da sala está composto por espetaculares bôvedas de crucería.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente, o edifício recebeu o nome de Lonja da Seda, pois nele se realizavam as transações relativas ao comércio da seda, cuja indústria era a mais potente da cidade. No século XIV, existiam muitos comerciantes que se dedicavam à sua fabricação, principalmente judeus, e mais tarde conversos, que se agruparam em 1465 numa confraria chamada “Virgem da Misericórdia“. Por este motivo encontramos uma capela a ela dedicada no interior da Lonja. O século XVIII representou o momento de maior esplendor do comércio da seda, com cerca de 25 mil pessoas que trabalhavam em sua indústria. A partir de 1790, a atividade entrou em decadência, mas a Lonja de Valencia mantêm o nome de Lonja da Seda até hoje, uma homenagem a esta indústria pioneira. A seguir, vemos o Pátio de los Naranjos (Pátio das Laranjas, em português).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma escada situada no pátio conduz a outra dependência do edifício, a Sala do Consulado do Mar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Consulado do Mar foi uma instituição criada em 1238, onde os juízes celebravam sessões relacionadas a assuntos marítimos e mercantis. Abaixo, vemos a belíssima sala, também decorada com um magistral teto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Lonja de Valencia foi declarada Monumento Nacional em 1931, e em 1996 recebeu o título de Patrimônio da Humanidade, concedido pela Unesco, por sua importância histórica, excelente estado de conservação e exemplo único do Gótico Civil Europeu.

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As Torres de Valencia

Antes da reconquista de Valencia no século XIII por Jaime I, a cidade contou com dois recintos de muralhas, um construída durante a época romana e outro no período da dominação árabe. No século XIV se ergueu um novo sistema defensivo durante o reinado de Pedro IV de Aragón, construído entre 1356 e 1370. Esta muralha medieval possuía 4 km de perímetro e estava composta por 13 portas, das quais 4 monumentais e 9 portas pequenas. A muralha foi derrubada em 1865 para que a cidade pudesse ser ampliada além de seus limites, mas se conservam duas das grandes torres de acesso ao seu interior. O acesso principal à cidade se dava pela denominada Torre dos Serranos, uma imponente construção que ainda é um dos referentes da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA torre foi construída entre 1392 e 1398 pelo mestre de obras Pere Balaguer, que se inspirou nos modelos da arquitetura militar gótica de Gênova, na Itália. Além de sua função defensiva, era usada como entrada para cerimônias oficiais, como a vinda de embaixadores e monarcas de outros países. Seu nome se originou porque este era o caminho de entrada da cidade desde a Comarca dos Serranos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe planta pentagonal, a Torre dos Serranos encontra-se num excelente estado de conservaçao. Em 1586 transformou-se em prisão militar para nobres e cavalheiros. Durante a Guerra Civil Espanhola, travada entre 1936 e 1939, converteu-se num depósito previamente adaptado para proteger as obras de arte do Museu do Prado de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1931, a Torre dos Serranos foi declarada Monumento Histórico-Artístico. A parte interna da torre desempenhou outras funções, além de proteger a cidade, como a celebração de festas e atos públicos. As festividades mais famosas de Valencia, conhecidas como Fallas, se inauguram justamente na Torre dos Serranos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA outra torre pertencente à Muralha Medieval de Valencia que se conserva é a robusta Torre de Quart. Foi edificada entre 1441 e 1460 pelos mestres Pere Compte e Francesc Baldomar, que se inspiraram nos sistemas defensivos de Nápoles. Sua denominação se explica porque ela conduzia à cidade de Quart de Poblet, desde onde seguia o caminho ao antigo Reino de Castilla.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém característica da arquitetura militar gótica, a Torre de Quart está composta por duas torres gêmeas. Desde o século XVII até 1952, foi utilizada como prisão militar e armazém de pólvora. Durante muito tempo foi chamada de Torre da Cal, já que por ela entrava este material na cidade. Esta magnífica construção suportou diversos ataques durante sua história, como os efetuados durante a Guerra da Sucessão Espanhola (século XVIII), a Guerra da Independência (XIX) e a Guerra Civil do século XX. Podemos observar na torre as marcas que deixaram os canhões de Napoleão durante os ataques efetuados à cidade durante a Guerra de Independência.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs portas da cidade fechavam à noite, e muitos viajantes, quando chegavam a Valencia, tinham que dormir à esmo fora do recinto de muralhas. Em 1931, a Torre de Quart também recebeu o título de Monumento Nacional por sua importância histórica. A torre pode ser visitada e do alto de sua estrutura almenada as vistas do centro da cidade impressionam.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO processo de construção da muralha ocorreu em virtude da denominada Guerra entre os 2 Pedros, um conflito entre os Reinos de Castilla e  Aragón, que envolveu os monarcas Pedro I de Castilla e Pedro IV de Aragón (1356 e 1369). O rei aragonês tinha como objetivo principal incorporar o Reino de Murcia à Coroa de Aragón, além de dominar o Mediterrâneo, em disputa com o Reino de Castilla e sua aliada, a cidade de Gênova. Por outro lado, o reino castelhano encontrava-se num período de intensa crise social, devido ao conflito entre Pedro I e seu irmão bastardo Enrique de Trastámara, também pretendente ao trono castelhano. A guerra iniciou-se com o ataque aragonês a barcos genoveses. Ao final da batalha, não houve nenhum vencedor claro, pois as aspirações de Pedro IV não se concretizaram e Pedro I de Castilla acabou sendo assassinado e destronado por Enrique de Trastámara.

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Valencia Árabe

Com a queda do Império Romano, a cidade de Valencia caiu sob o domínio dos visigodos em 497 dc. Pouco se conhece deste período histórico na cidade. No Museu de Almoina se conservam tumbas monumentais de finais do século VI, pertencentes à época visigoda. Possuíam um caráter familiar e coletivo, sendo que em algumas delas foram encontrados os restos de mais de 30 indivíduos. Foram construídas com grandes blocos de pedra e decoradas com motivos relacionados ao cristianismo. As sepulturas continham também ricas peças em forma de colares, anéis, pulseiras, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi com a chegada dos árabes em 718dc que a cidade alcançou um primeiro período de prosperidade. Permaneceram  mais de 500 anos, e passou a denominar-se Balansiya. Entre suas contribuições à cidade mencionamos o moderno sistema de plantio, numa zona de escassa pluviometria. No século X, alcançou uma população estimada em 15 mil habitantes, tornando-se a cidade mais populosa da zona oriental de Al Andaluz, nome com que se conhece o território árabe na Espanha. No século XI, durante o período conhecido como Reino de Taifas, no qual surgiram várias cidades independentes depois da desintegração do Califato de Córdoba, a cidade obteve um notável crescimento. Um excepcional conjunto de muralhas foi erguido. Apesar das reforma e ampliaçoes realizadas, o sistema defensivo permaneceu de pé até 1865. Ainda hoje podemos contemplar algumas de suas imponentes portas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo ano de 1094, El Cid conquista Valencia, depois de 8 meses de assédio, mas foi novamente retomada pelos árabes pouco tempo depois. A cidade é definitivamente reconquistada pelo Rei Jaime I, chamado de El Conquistador, e sua façanha foi celebrada em toda a Europa, já que o Papa Gregório IX havia outorgado à empresa um caráter de cruzada. Em 1238 entrava vitorioso na cidade, depois de realizar um pacto com o rei mouro Zayyan. Contou com o apoio das Ordens Militares do Templo, de Calatrava e do Hospital.No Edifício da Prefeitura de Valencia (Ayuntamiento) podemos ver um de seus objetos históricos de maior importância, o denominado Pendão da Reconquista, içado pelos árabes para indicar sua rendição às tropas de Jaime I.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar de reconquistada, Jaime I teve que lutar contra os interesses das nobreza catalã e aragonesa, que pretendiam converter as terras conquistadas numa prolongação de seus territórios. Para impedi-lo, o monarca transformou a cidade num reino singular,criando uma nova unidade política e jurídica unida à Coroa de Aragón. Com a  outorgação dos Foros de Valencia, os reis que lhe sucedessem ao trono estariam submetidos às leis próprias dos valencianos. A cidade torna-se, deste modo, num estado soberano, mesmo estando incorporado ao Reino de Aragón. Além dos Foros, se redatou um código marítimo, considerado o mais antigo do continente. No entanto, algumas instituições criadas pelos árabes foram mantidas, como o famoso Tribunal das Águas, encarregado de regular sua utilização. Desde 1247, a cidade passou a ter moeda própria, o Real Valenciano. Abaixo, vemos o busto de Jaime I, também colocado no interior do Edifício da Prefeitura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABoa parte da população árabe abandonou a cidade após a reconquista, e os que nela permaneceram (conhecidos como mudéjares) passaram a viver num bairro próprio, a Morería, situado fora das muralhas. Muitas das mesquitas existentes foram transformadas em igrejas católicas. Um bom exemplo da arquitetura mudéjar de Valencia corresponde aos chamados Banhos do Almirante, por estarem situados no Palácio Gótico dos Almirantes de Aragón. Apesar de sua aparência árabe, foram construídos em 1313.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstes banhos possuíam um caráter civil e sua funcionalidade e sistema construtivo foram herdados das antigas termas romanas. Divididos em salas fria,temperada e quente, é um dos poucos banhos desta época que se mantiveram ativos desde sua criação até o século XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADesde a época romana, Valencia sempre se orgulhou de ter um excelente sistema de saneamento, que foi ampliado e aperfeiçoado com o tempo. Graças a ele, a cidade transformou-se numa das mais limpas de toda a Espanha. Em 1944, os Banhos do Almirante foram declarados Conjunto Histórico-Artístico. Fechados para o uso público em 1959, pouco depois funcionou como uma academia de ginástica. Em 1985 foi adquirido pelo governo que o restaurou, sendo aberto para a visitação pública.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos as características aberturas situadas no teto, que proporcionam iluminação ao interior do banho, exemplos da arquitetura árabe destes espaços públicos.

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A Valencia Romana

Valencia, capital da Comunidade Valenciana, está localizada na região leste da Espanha. Um de seus grandes atrativos, que lhe proporcionam uma importante fonte econômica, estão representados por suas convidativas praias, frequentadas por turistas nacionais e estrangeiros, transformando a cidade numa das mais visitadas do país. Além do mais, conta com um rico patrimônio histórico, artístico e cultural, e seu centro antigo é um dos maiores de toda a Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir do post de hoje, iniciarei uma grande série sobre esta que é a terceira cidade do país, somente superada por Madrid e Barcelona. Valencia possui aproximadamente 800 mil habitantes, e sua zona metropolitana alcança mais de 1.5 milhao de habitantes. A cidade transformou-se no início do século XXI num foco da arquitetura contemporânea, com a construção do complexo da Cidade das Artes e das Ciências.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Habitada originalmente por uma tribo ibérica, os Edetanos, a história da cidade inicia-se em pleno período romano, precisamente no ano 138ac, quando o cônsul Junio Bruto decide fundar uma nova cidade para acolher 2 mil soldados, recebendo o nome de Valentia Edetanorum. Podemos descobrir as origens da cidade no Museu de Almoina, que acolhe uma extensa zona arqueológica com as ruínas que foram encontradas no centro histórico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm sua época romana, Valencia contava com grandes edifícios públicos, como as Termas. Construídas no século II ac, estão consideradas como uma das mais antigas de todo o mundo romano, e seus restos podem ser vistos no museu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAinda hoje, Valencia é uma cidade de estrutura urbana herdada dos romanos. A zona mais importante da urbe romana estava constituída pelo Forum, que aglutinava seus edifícios de maior importância. Construído no século I dc, seu espaço formava uma grande praça, onde se desenvolvia a vida religiosa, comercial e jurídica da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANele se encontravam os edifícios públicos vinculados ao governo municipal, estando delimitado por um conjunto de pórticos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cidade estava cercada por uma grande muralha, localizada numa estratégica posição junto ao Rio Turia. Adquiriu uma maior relevância no século III dc, com a destruição da cidade de Sagunto, então capital imperial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das peças mais curiosas que podemos contemplar no museu é este objeto feito de vidro, um dos mais destacados feitos com este material de toda a Hispania. Encontrado em Valencia, possuía uma função litúrgica. Realizada em Roma no século IV dc, o recipiente foi fabricado com grande qualidade, e recebeu elementos decorativos com temas relacionados à simbologia católica. É considerado o objeto relacionado ao cristianismo mais antigo da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm seu período romano, Valencia foi o cenário de um dos martírios mais importantes do cristianismo primitivo, o de San Vicente Mártir. Diácono de Cesaraugusta, hoje Zaragoza, chegou a Valencia com o objetivo de difundir o cristianismo, no século IV dc. Esta época coincide com a perseguiçao realizada contra os adeptos da nova religião, promovida pelo Imperador Diocleciano, que condenou San Vicente à morte. Abaixo, vemos uma estátua do mártir numa das inúmeras pontes que cruzam a cidade.

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