As Corridas de Touros – Parte 2

Nesta segunda matéria sobre as Corridas de Touros, veremos as partes que constituem o espetáculo taurino. Para tanto, contarei com fotos antigas que foram consideradas pioneiras do fotojornalismo na Espanha e que retratam um período de glória das touradas no país, além de outras fotos coloridas, realizadas por Jim Hollander.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs corridas de touros se dividem em três partes denominadas “Tercios“. Depois que o presidente da tourada mostra o lenço branco, ocorre o desfile dos participantes do espetáculo, como vimos no post anterior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA primeira parte denomina-se “Tercio de Varas“, e nela os “Picadores” entram no ruedo montados à cavalo, protegidos com roupas especiais que evitam episódios mortais com estes animais, algo que frequentemente ocorria no passado. Este costume passou a ser obrigatório a partir de 1928. Durante muito tempo, os “Picadores” eram considerados personagens de grande relevância numa tourada (foto abaixo de Hauser y Menet – 1900).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta primeira parte da tourada, os “Picadores” com uma vara longa debilitam a fortaleza física dos touros, sem causar-lhe um dano excessivo. (foto abaixo de Jean Laurent – 1880).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs “Picadores” iniciam sua retirada da arena depois que o presidente considera que o castigo recebido pelo touro foi suficiente. Começa, então, o segundo tercio com a entrada dos “Banderilleros“, portando umas lanças menores feitas de madeira chamadas “Banderillas” (foto abaixo de Ruiz Vernacci – 1910).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta parte é tão antiga quanto as próprias touradas, e já no final do século XVII se utilizavam as banderillas para castigar o touro. Nos dois primeiros tercios, os picadores e banderilleros recebem o veredito do público sobre suas atuações em forma de palmas, vaias ou o silêncio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA última parte da tourada é formada pelo “Tercio de Muletas“, com a entrada do toureiro matador. Antes de sua estocada, o golpe mortal efetuado com sua espada, o toureiro realiza uma série de passes, como vemos na foto acima e abaixo (foto de Alfonso, na qual parece o famoso toureiro Juan Belmonte na Plaza de Toros de Madrid).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA qualidade de uma estocada é valorizada de acordo com alguns critérios: o local exato de inserção da espada, o ângulo que forma a espada com a coluna vertebral do animal e o grau em que a espada penetra na pele do touro. Se considera a “estocada perfeita” quando a espada forma um ângulo de 45 graus, e a morte do animal deve ser instantânea. Este momento crucial exige muita precisão por parte do toureiro. Abaixo vemos novamente a Juan Belmonte realizando uma estocada na Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid em 1934 (foto de Baldomero).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando o touro finalmente é arrastado da arena, chega o momento em que o público se manifesta sobre a atuação do toureiro, que pode variar muito, mas é sempre ruidosa. Caso a opinião geral seja unânime, o público lhe dedica uma grande ovação. Caso seja suficientemente intensa, o toureiro dá uma volta inteira na arena. Se o público considera uma atuação extraordinária, solicitará uma orelha ao toureiro e, em raras oportunidades, ambas orelhas. Abaixo, vemos um cartaz feito de azulejo na Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid, no qual aparecem o nome dos toureiros que foram congratulados com as duas orelhas desde a inauguração da praça em 1931, algo difícil de suceder.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando o touro demonstra uma bravura extraordinária, por uma petiçao do público ou do próprio toureiro, o animal recebe um indulto, isto é, sua vida é perdoada e o touro passa a ser utilizado como reprodutor. Este fato propicia um grande prestígio para a ganaderia na qual o touro foi criado. Finalizado o espetáculo, os grande triunfadores aguardam o prêmio mais cobiçado, saindo carregado pela multidão pela “Porta Grande” da Plaza de Toros (foto abaixo: Juan Belmonte na Plaza de Toros de Toledo em 1918, imagem de Baldomero).

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As Corridas de Touros

Depois de publicar matérias sobre os personagens principais de uma tourada, o touro e o toureiro, no post de hoje comentaremos sobre o espetáculo em si, sua organização e demais participantes. A Tourada ou Corrida de Touros é um dos espetáculos taurinos existentes, um evento que consiste em “lidiar” touros bravos, a pé ou a cavalo, num recinto fechado construído para tal finalidade, a Plaza de Toros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo espetáculo moderno realizado à pé, suas normas foram fixadas no século XVIII na Espanha, sendo que a tourada finaliza com a morte do touro. Também é praticada, devido a influência espanhola, em países sul-americanos como México, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. Na Europa, além da Espanha, se realizam touradas em Portugal (onde geralmente não se mata o touro) e no sul da França, com  destaque para  a cidade de Arles, onde se organizam touradas no antigo anfiteatro romano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs Corridas de Touros se classificam segundo a idade dos touros em “Becerradas“, “Novilladas” e as touradas propriamente ditas. Durante o espetáculo participam diversas pessoas com incumbências definidas, que seguem um rígido protocolo tradicional. O Toureiro é também conhecido como diestro, matador ou espada, e realiza a parte principal da tourada matando o touro com seu “estoque“. Geralmente, num evento taurino se “lidiam” 6 touros (quase sempre da mesma ganadería) por parte de 3 matadores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma tourada é gerenciada pelo Presidente, geralmente um representante municipal e nomeado pela máxima autoridade civil da província onde se realiza o espetáculo. Conta com assessores que normalmente são um toureiro já retirado e uma pessoa do setor veterinário, também aposentado. Sua função principal é velar pelo regulamento da tourada em todos seus aspectos e manter a ordem dentro do recinto. Ordena o início da tourada e a mudança de tercios (como se conhecem as três partes que compõem uma tourada e que veremos no próximo post), além de conceder prêmios para os matadores (orelha e/ou rabo). Para tanto, conta com um jogo de lenços de cores variadas, através dos quais indica ao público as decisões pertinentes no decorrer da tourada. O público pode expressar aceitação ou desacordo com as decisões que foram tomadas através de palmas e vaias, respectivamente. Para dar início ao espetáculo, o presidente mostra um lenço branco, e começa o desfile de todos os participantes da corrida.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs pessoas que prestam auxílio ao toureiro matador são conhecidas como subalternos, e o conjunto do toureiro com os subalternos se chama quadrilla. Está composta por pessoas que atuam em determinados momentos da tourada, como os “Picadores“, que montados num cavalo, utilizam uma vara longa com uma parte metálica na ponta denominada “Puya“. Seu objetivo é castigar o touro, provar sua bravura e detectar as características do animal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs denominados “Banderilleros” atuam no segundo tercio de uma tourada. Utilizam as “banderillas“, um pau cilíndrico feito de madeira com 70 cm de comprimento e decorados com papéis coloridos. Na ponta se coloca uma espécie de arpão para ser cravado na pele do touro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa terceira e definitiva parte de uma tourada, o toureiro matador é auxiliado pelo “Mozo de Espadas“, que colabora diretamente com o toureiro…

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O Toureiro

Depois de publicar uma matéria sobre os touros de lidia, chegou a hora do outro participante imprescindível de uma tourada, o Toureiro. Para aprender o ofício de torear, os aspirantes devem ingressar numa Escola de Tauromaquia, local onde se obtém o diploma e também o grau de doutorado (também existente no mundo dos touros). Este título se consegue com muito esforço e dedicação, sendo que o toureiro deve ser capaz de combinar a técnica com a arte, algo que nao se aprende, pois o talento é inato e fundamental para que o toureiro se destaque.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA origem destas escolas é antiga, estando relacionada com os matadouros municipais, como o velho matadouro de San Bernardo de Sevilha, que se converteu num local de aprendizagem para os futuros toureiros. Foi também em Sevilha que o Rei Fernando VII criou a primeira Escola de Tauromaquia, com o curioso nome de “Gimnasio de Tauromaquia“, em 1830. Esta primitiva escola teve uma vida efêmera, pois foi clausurada depois do falecimento do monarca, em 1834. A escola de Madrid “Marcial Lalanda“, situada na Casa de Campo, favoreceu a criação de outras escolas pela Espanha e no exterior, contribuindo para a elaboração dos regulamentos que regem a festa taurina. Outra escola de importância é a Escola de Tauromaquia de Ronda, belíssima cidade da Andaluzia e considerada o “Berço do Toreo Moderno“. Abaixo, vemos uma foto da Plaza de Toros de Ronda

20150923_115451Outro aspecto fundamental do mundo dos touros é a roupa tradicional utilizada pelos toureiros. Feita de seda, caracterizam-se pelos adornos de ouro e prata que a embelezam. O conjunto da vestimenta do toureiro denomina-se “Vestido de Torear“, também chamado de “Traje de Luzes“, pelo colorido e brilho de seus elementos decorativos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgumas das partes que compoem o vestido: a “Taleguilla” constitui uma peça fundamental, uma calça muito ajustada que vai da cintura até a metade da panturrilha. As camisas são sempre brancas e as meias, de cor rosa, invariavelmente. O “Chaleco” é a peça que vai sobre a camisa, curto e com muitos bordados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs “Zapatillas” ou o sapato de toureiro, devem ser negros com sola antideslizante. O tradicional chapéu negro utilizado pelos toureiros denomina-se “Montera“, possuindo um grande significado na comunicação do toureiro com o público e as autoridades presentes no espetáculo taurino. A peça mais luxuosa é o denominado “Capote de Paseo“, normalmente bordado com seda e ouro e geralmente decorado com motivos religiosos de devoção do toureiro matador.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO “Vestido de Torear” deve ser, em seu conjunto, cômodo, funcional e elegante. A espada, ligeiramente curva, utilizada pelo toureiro  para matar o touro denomina-se “Estoque“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm meio tradicional para a divulgação das touradas, os chamados “Cartazes Publicitários” constituem, muitas vezes, verdadeiras obras de arte, realizados por artistas famosos da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstes cartazes possuem uma função essencialmente informativa, com o local onde a tourada será realizada, a data e hora, além do nome dos toureiros participantes. Um “Bom Cartaz” indica que os toureiros participantes gozam de um grande prestígio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs cartazes antigos também são uma interessante fonte histórica, pois muitas vezes podemos observar as mudanças históricas ocorridas numa determinada cidade. Abaixo, vemos o cartaz da inauguração da Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid, em 1931.

IMG_3458Finalizo a matéria com outros cartazes que se exibem no Museu Taurino de Ronda….

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A Praça de Touros

Hoje em dia, as touradas são realizadas normalmente nas Praças de Touros, um estádio especialmente construído para esta finalidade. Antigamente, porém, as touradas eram realizadas nas Plazas Mayores de cada cidade, como aconteceu com a Plaza Mayor de Madrid, que foi o placo de diversas corridas de touros ao longo de sua história.

DSC02000Abaixo, vemos um quadro realizado por um artista anônimo em 1679, que nos mostra uma tourada realizada na Plaza Mayor de Madrid

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra Plaza Mayor famosa onde se celebravam touradas ( e em determinadas ocasiões continuam celebrando-se) é a Plaza Mayor de Chinchón, um pintoresco povoado da Comunidade de Madrid

OLYMPUS DIGITAL CAMERAP5310018.JPGAs primeiras Praças de Touros da Espanha foram construídas a partir do século XVIII. Algumas ainda se conservam, como as de Ronda, Sevilha e Aranjuez, sendo notáveis as diferenças entre estas praças históricas e as modernas, que possuem cobertura retráteis e aperfeiçoadas tecnologias. Abaixo, vemos uma foto da Plaza de Toros de Ronda, uma das mais importantes do país.

20150923_114119Do ponto de vista normativo, os espetáculos taurinos podem ser realizados em Praças de Touros permanentes, portáteis (podem ser desmontadas e montadas em outros locais), além de outros recintos adequados, como as mencionadas Praças Maiores de cada povoado ou cidade. As praças permanentes se classificam tradicionalmente em três categorias, de acordo com o número de espetáculos que se realizam anualmente. As mais importantes, as de primeira categoria, constituem as praças situadas nas capitais das províncias espanholas que recebem mais de 15 espetáculos anuais. Abaixo, vemos a Praça de Touros de Málaga

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma Praça de Touros possui vários espaços indispensávies para que uma tourada possa ser realizada. O enfrentamento entre o touro e o toureiro é realizado numa arena circular denominado ruedo, cujo diâmetro deve oscilar entre 30 e 45 metros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO “Chiquero” é o local onde permanecem os touros antes de sua entrada na arena…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma Praça de Touros possui várias portas com funções específicas. A chamada “Porta  de Torriles” é aquela pela qual o touro entra na arena…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA “Porta de Arrastre” é aquela pela qual sai o touro morto da arena. A denominada “Porta Grande” é a porta principal da praça, pela qual em certas ocasiões sai o toureiro triunfante carregado pela multidão. Abaixo, vemos a “Porta Grande ” da Plaza de Toros de Las Ventas, em Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATodas as praças possuem um local chamado “Burladeros“, feitos de madeira e situados em vários pontos da arena, cuja função é servir de refúgio. Suas reduzidas dimensões tornam impossível a entrada dos touros neste lugar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs praças mais importantes do país possuem um local exclusivo para a Família Real, o denominado “Palco Real“, como vemos a seguir, situado na Plaza de Toros de Las Ventas

DSC00288Outro lugar importante de uma praça de touros é a capela, onde os toureiros pedem proteção divina antes de entrar no ruedo…

20150923_113943Pela legislação atual, as praças de touros devem obrigatoriamente possuir uma enfermaria, com equipamentos adequados para salvar a vida de um toureiro, no caso de ferimentos graves. Historicamente, nem sempre o regulamento foi cumprido, e muitos foram os toureiros que faleceram porque a enfermaria não preenchia os requisitos necessários. A seguir, uma foto externa da enfermaria da Plaza de Toros de Valencia

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs principais praças de touros do país possuem também um Museu Taurino, onde são expostos objetos, retratos de toureiros famosos que participaram em touradas no local, sua história, etc…

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O Touro de Lidia

O touro é o grande protagonista das touradas ou corridas de touros, junto com seu temível adversário, o toureiro.  O touro criado para sua apresentação nas touradas é chamado Touro de Lidia, e é criado nas chamadas ganaderías bravas, fazendas que se dedicam especialmente a esta finalidade. O touro nasce e cresce nos campos, nas denominadas dehesas, com abundantes pastos e árvores, principalmente encinas e robles. Dentre todo o pessoal especializado das ganaderías, destaca o “conocedor“, técnico agropecuário que conhece de forma pormenorizada os animais, sua genealogia e as características de sua raça.

20160611_164531Os touros bravos ou de lidia são classificados de muitas maneiras, principalmente por sua aparência (cor da pele, as manchas que possui, as características do tronco, patas, etc) e pelo formato dos chifres, além de seu tamanho e idade, entre outros aspectos. Desde seu nascimento e morte na Plaza de Toros, os touros constituem um dos animais melhor identificados e controlados que existem. Para que vocês tenham uma idéia, possuem cartão sanitário, com o registro de todas as incidências destacáveis de sua vida em relação à sua saúde. Este controle é realizado há séculos, e nos arquivos das grandes ganaderías a documentaçao existente a respeito dos touros que criam é enorme.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO antepassado do atual touro, o Uro, desapareceu dos bosques e campos da Europa no século XVII. Devido a criação seletiva dos touros de lidia, o touro selvagem sobreviveu na Espanha durante os últimos séculos. A principal diferença entre um touro selvagem e um domesticado é a forma de reação quando se sentem ameaçados. O touro bravo atacará de forma contínua enquanto algo ou alguém se move diante dele. No entanto, alguns estudos e ecologistas questionam a validade do touro de lidia como uma raça específica, devido a que as características dos animais e sua seleção varia de uma ganadería a outra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA bravura é a essência da Tauromaquia, motivo pelo qual os pecuaristas espanhóis tratam de aperfeiçoá-la através de técnicas modernas como a inseminaçao artificial, por exemplo. Durante os 4 primeiros anos de sua vida, os touros levam uma vida tranquila nas ganaderías, onde todas suas necessidades são satisfeitas, até o momento decisivo quando são levados à arena. Apesar de que um touro bravo nunca viu um toureiro na vida, seu instinto o leva a atacar o objeto ou pessoa que se move, independente de sua cor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm touro é capaz de matar até seus últimos momentos, como comprovou o toureiro matador José Cuberos Sánchez “YiYo” em 1985. No auge de sua carreira e popularidade, e com apenas 21 anos, deu uma estocada no touro e este reagiu com seus cornos, perfurando mortalmente o coraçao do toureiro. Depois, um monumento foi levantado em frente à Plaza de Toros de Madrid para recordar o acontecimento.

IMG_3454Muitos touros atingiram o status de celebridade pela bravura fora do comum demonstrada nas touradas. Em 1869, um touro chamado “Gordito” recebeu 30 varas e matou 21 cavalos. Em 29/3/1877, o touro “Churrero” chegou a Madrid com destino a Zaragoza, e conseguiu escapar da Estação do Norte de Madrid, ferindo a 6 pessoas e atropelando a muitas outras mais. Lamentavelmente, teve que ser abatido por um oficial do Ministério da Marinha. O touro “Barbudo” foi o responsável pela cornada que tirou a vida do toureiro Pepe-Hillo, e sua famosa bravura chamou a atenção do genial pintor Francisco de Goya, que imortalizou num gravado o instante de sua morte.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADentre as ganaderías que se tornaram célebres pela bravura de seus touros, destacam a de Victorino Martín, criada em 1912 e cujos animais alcançaram altas cotas de popularidade, e a de Eduardo Miura, fundada em 1848 e considerada das mais admiradas e temidas, pois seus touros acabaram com a vida de ilustres toureiros, como Manolete, El Espartero e Dominguín, entre outros…

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A Evolução das Touradas

Como vimos na matéria anterior, a prática das touradas se remonta a muito tempo atrás. Antigamente, viajavam pelos povoados da Espanha os “matadores” ou “toreadores” que realizavam um espetáculo à pé de forma mais ou menos rudimentar, divertindo o público e cobrando pelo serviço. Em 1542, se realizaram em Barcelona festividades em homenagem ao Rei Felipe II que incluiu jogos com touros. Abaixo, vemos um retrato do monarca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVII, o famoso escritor Miguel de Cervantes relata a existência de locais destinados à criação de touros bravos para as touradas no seu “Don Quixote de La Mancha”. Foi somente na segunda metade do século XVIII quando se produziram na Espanha uma série de novidades relacionadas à prática  das touradas, que originaram as corridas de touros no sentido moderno que hoje conhecemos. A primeira delas foi que o toureiro a pé substituiu o toureiro a cavalo. Os protagonistas dos espetáculos constituem gente humilde que passaram a profissionalizar-se e a cobrar dinheiro por sua atuação.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta época surgem as primeiras ganaderías bravas (fazendas destinadas especialmente à criaçao de touros de lídia, ou seja, para as corridas) e se começa a selecionar touros para as touradas. Também são construídas as primeiras Plazas de Toros como um local permanente destinados às touradas. Abaixo, vemos a Plaza de Las Ventas, em Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, se escrevem as primeiras “Tauromaquias”, obras que fixaram as técnicas e normas que passaram a definir a “Arte de Torear”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExistiam duas correntes regionais cuja combinação deu origem ao Toreo Moderno, a escola vasco-navarra e a andaluza. A primeira se caracterizava pelos saltos realizados pelos toureiros, sem grande sofisticaçao. Desta variedade de tourear deixou uma impressionante documentação gráfica o genial pintor Francisco de Goya, que era um apaixonado pelas touradas, presenciando muitos espetáculos.

20150816_112339Já a escola andaluza utilizava capas para enganar o touro. Durante décadas, ambos estilos disputaram a supremacia do público, saindo vitorioso o modelo andaluz.

20150816_112313Se considera o toureiro Francisco Romero o “Pai do Toreo Moderno” e Ronda, sua cidade natal (Província de Málaga, Andalucía), o berço da “Arte de Torear”. Fundador de uma célebre dinastia de toureiros, Francisco Romero dividiu as corridas de touros em tres partes chamadas tercios (tercio de varas, de banderillas e de morte), que permanece vigente até os dias atuais. Seu neto Pedro Romero é conhecido até hoje como um dos principais toureiros da história. Abaixo, vemos uma estátua em Ronda que homenageia a Pedro Romero

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOs toureiros Pepe-Hillo e Costillares foram outros grandes nomes deste período inicial que triunfou na Espanha, finalizando com a Guerra da Independência Espanhola no início do século XIX. Terminada a guerra e com o desaparecimento destas figuras lendárias, as festas taurinas entram num período de decadência. Ganha um novo impulso com a chegada de outros toureiros de renome a partir de 1830, como “Paquiro”, conhecido como o “Napoleão dos Toureiros” e Rafael Guerra “Guerrita”, que dominaram o panorama taurino no final do século. Abaixo, vemos a histórica Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERA No final do século XIX, se proibiram na Argentina as corridas de touros (até então um país com grande tradição taurina) sem que voltassem a ser praticadas até os dias atuais. No Chile, as touradas foram abolidas décadas antes, em 1823, junto com as brigas de galos e a abolição dos escravos. Durante o começo do século XX, toureiros mexicanos se destacaram, como Rafael González “Machaquito” e Ricardo Torres “Bombita”.

20170528_191642A denominada época dourada das touradas estendeu-se de 1910 a 1920, com nomes como Juan Belmonte, um dos toureiros mais populares da história, e José Gómez “Joselito”, com quem travou uma das maiores rivalidades conhecidas entre toureiros profissionais. Graças a eles, a popularidade das touradas alcançou cotas nunca antes vistas, e que não foi superada  jamais na sociedade espanhola. Somente em 1919, Juan Belmonte participou de 119 touradas, uma cifra recorde até então. Ambos toureiros se consideram os diestros (termo sinônimo a toureiro) mais importantes do Toreo Moderno. Belmonte como o criador da estética e Joselito como um toureiro total, dominador de todas as técnicas e aspectos da tauromaquia, desde o impulso que deu à construção de novas Plazas de Toros a detalhes relativos à seleçao de touros bravos, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois da Guerra Civil Espanhola (1936/1939), se produz outro ressurgimento do mundo taurino, especialmente graças a Manolete, que para muitos foi o toureiro mais vertical da história. Sua morte em 1947 na Plaza de Toros de Linares comoveu a nação. Abaixo, vemos uma placa comemorativa ao grande toureiro na Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid.

IMG_3459O universo taurino sobreviveu apaixonadamente com outra rivalidade histórica, protagonizada pelos toureiros Dominguín e Antonio Ordóñez. As décadas de 70 e 80 do século passado foram o período de maior expansão comercial das touradas, e muitas foram organizadas mundo afora, inclusive nos EUA, com a participaçao de “El Cordobés” e um matador americano, John Fulton. As novas figuras do mundo taurino apresentam uma grande diversidade de estilos, como o colombiano César Rincón e o espanhol José Tomás, que em 2008 bateu o recorde que durava 36 anos na Plaza de Toros de Madrid, ao cortar 4 orelhas de dois touros, uma façanha considerada épica. Finalizo a matéria com uma foto minha na Plaza de las Ventas de Madrid, dando uma de toureiro…

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Espanha – O País dos Touros

Poucos aspectos da cultura tradicional espanhola estão tão associados à imagem do país no estrangeiro como as touradas, aqui denominadas Corridas de Touros. Muitos de meus clientes me perguntam se atualmente as touradas continuam sendo realizadas na Espanha, e ficam surpresos quando a resposta é afirmativa. Se surpreendem ainda mais quando lhes comento que o desenlace final do espetáculo é a morte do touro. Apesar do desprezo de parte da sociedade espanhola e as críticas das associações de proteção à vida animal, o mundo dos touros continua gozando de saúde em boa parte do país, e o título de País dos Touros permanece em vigor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs touradas constituem a expressão mais famosa, embora não seja a única, das festividades relacionadas com os touros. Particularmente, eu nunca presenciei uma tourada, pela crueldade do espetáculo e também porque não tenho “estômago” para vê-la. No entanto, reconheço sua importância como patrimônio cultural do país e tenho curiosidade por todos os aspectos relacionados à Tauromaquia, termo que designa a “Arte de lidiar Touros, tanto à pé, quanto à cavalo”. Em minhas viagens pelo país, sempre que posso visito as Plazas de Toros das cidades espanholas, os estádios construídos especialmente para os espetáculos taurinos, por sua importância histórica e arquitetônica e também por sua estética. Num sentido mais amplo, a tauromaquia envolve todo o processo prévio à realização das touradas, desde a criação dos touros, a confecção das vestimentas dos toureiros, a exibição de cartazes publicitários, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADecidi, pois, realizar uma extensa série de posts abordando os mais variados aspectos da tauromaquia, desde as origens das touradas, passando pelas escolas mais importantes da arte de tourear, os toureiros mais famosos, as praças de touros de maior relevância, fatos curiosos e trágicos, além das críticas e controvérsias que sempre existiram envolvendo a prática dos espetáculos taurinos.

20190130_084655Neste post inicial, abordarei a origem das touradas e sua evolução histórica, que terá sua continuação na próxima publicação. O touro sempre foi um animal simbólico relacionado ao poder divino e à fertilidade, aparecendo um muitas culturas e em sua mitologia, como o famoso Touro de Creta e a lenda do Minotauro. As lutas rituais entre homem e animal representam o desejo humano de dominar a natureza. O antecedente direto do touro, o Uro, pastava pelas paisagens do continente europeu há milênios atrás e sua figura foi imortalizada por artistas pré-históricos na famosa Caverna de Altamira, situada na Cantábria, região norte da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMatanças rituais com touros já eram realizadas na Mesopotâmia e na mencionada Ilha de Creta. Na Grécia antiga se praticavam sacrifícios rituais em honra a Zeus, a principal divindade da cultura helena. Em época romana, o Imperador Júlio César introduziu nos jogos circenses a luta entre o touro e o matador, armado com espada e escudo. A origem das corridas de touros na Espanha se remonta à cultura greco-latina que foi introduzida dentro do processo de romanizaçao da Península Ibérica, quando o atual território espanhol passou a ser uma província do Império Romano, denominada Hispania. Abaixo, vemos os denominados “Touros de Costitx“, peças taurinas esculpidas em bronze entre os séculos V e III aC e encontrados na Ilha de Mallorca, comprovando a importância simbólica dos touros dentro da cultura pré-romana na Espanha, e expostos no Museu Arqueológico Nacional de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs romanos introduziram na cultura local os jogos e lutas com feras, nas quais o touro era um animal frequente nos espetáculos, existindo constância de seu enfrentamento com outros animais selvagens, como leões, ursos, e também com humanos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a época visigoda e muçulmana existem poucas fontes informativas referentes à prática de espetáculos taurinos. No entanto, a persistência das festividades em períodos históricos posteriores levam a crer que o costume de realizar-se touradas permaneceu intacto ao longo do tempo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA primeira Corrida de Touros oficialmente documentada celebrou-se em Ávila no ano 1080 e, desde então, passaram por períodos gloriosos e também momentos em que foram proibidas sua realização. Existem notícias sobre festas com touros em Cuéllar (Província de Segóvia) em 1215, quando o bispo local proibiu que os clérigos assistissem aos espetáculos. Em Pamplona, capital do Reino de Navarra e famosa pelo Encierro de San Fermín, onde os habitantes da correm junto com os touros pelas ruas da cidade, as primeiras notícias relacionadas com a realização de espetáculos taurinos remontam ao ano de 1385.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm pouco antes, no século XIII, o Rei Alfonso X “El Sabio” proibiu que os jogos com touros se celebrassem por dinheiro, indicando a existência de uma incipiente profissionalidade entre a sociedade da época.

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