Estilo Românico na Espanha – Parte 2

O termo “Românico” como conceito para um estilo artístico foi utilizado por primeira vez em 1820 pelo historiador francês Charles de Gerville, relacionando-o a toda arte realizada desde a queda do Império Romano até o estilo gótico. Depois, a abrangência do Estilo Românico se restringiu, passando a designar somente a arte ocidental dos séculos XI ao início do XIII, ainda que mesmo atualmente existem controvérsias para determinar precisamente a amplitude temporal do estilo. Na Espanha, o Românico estendeu-se territorialmente por toda sua parte norte, até a linha marcada pelo Rio Tajo (Tejo, em português). No sul do país não se difundiu, já que esta zona estava ocupada pelos muçulmanos na época do desenvolvimento do estilo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIgreja Românica de San Pedro de Tejada (séc.XII-Província de Burgos)

O avanço do Românico se produziu basicamente na arquitetura religiosa, como vimos no post anterior. Desta forma as igrejas e monastérios foram as construções características associadas ao estilo, com uma grande quantidade de exemplos na Espanha. Existem escassos exemplos conservados da arquitetura românica relacionado a edifícios civis. O Palácio dos Reis, situado na cidade de Estela (Navarra), é um deles, que vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATradicionalmente, foram estabelecidas 3 fases para poder compreender a evolução do Românico na Espanha, desde seu início no século XI até o período final, no início do século XIII. O primeiro período é conhecido como Românico Lombardo, devido à influência produzida com a arquitetura que se estava realizando na Lombardia, região do norte da Itália. Esta influência estendeu-ae a outras zonas da Europa, como Suiça, sul da Alemanha e França. Na Espanha, seu foco principal foi a Catalunha, desenvolvendo-se a partir de finais do século X e, principalmente, durante o século XI (de 950 a 1075). A enorme atividade construtiva que se observou na Catalunha durante esta etapa ocorreu graças a iniciativa de um importante personagem deste período, o Abade Oliva, que favoreceu o renascimento da vida monástica. Exemplos de monastérios que foram construídos nesta época, e que podemos admirar atualmente, são os Monastérios de Ripoll e o Monastério de San Pedro de Roda, ambos situados na Província de Girona, Catalunha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMonastério de San Pedro de Roda, consagrado em 1022.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATorre do Monastério de San Pedro de Roda

As características construtivas associadas a esta fase inicial do Românico na Espanha são a utilizaçao do arco de meio ponto (semicircular), um dos principais elementos do estilo, e a ausência decorativa dos edifícios, principalmente a escultura. As torres apresentam um aspecto escalonado e a pedra era talhada, mas não polida. Abaixo vemos a Igreja de San Vicente de Cardona, construída entre 1029 e 1040, e edificada dentro do recinto defensivo desta cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA decoração exterior se limita a pequenos arcos tapados (arcos cegos), como podemos observar a seguir na Ermita de N.Sra de la Anunciada, considerada uma jóia do Românico Lombardo e o único exemplo completo da fase inicial existente na Comunidade de Castilla y León. Encontra-se no belo pueblo medieval de Urueña, na Província de Valladolid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA segunda fase do Românico Espanhol é conhecida como Românico Pleno, momento em que o estilo atinge seu ápice construtivo e sua época dourada. Compreende as últimas décadas do século XI e a primeira metade do XII. Apesar das diferenças regionais, o Românico converte-se num estilo homogêneo, difundido por toda a Europa. Se propaga devido à importância monástica da Abadia Beneditina de Cluny, situada na região de Borgonha, França. No caso da Espanha, difunde-se através do Caminho de Santiago, alcançando grande projeção no antigo Reino de Castela, atual Comunidade de Castilla y León, e por todo o norte da península. A Catedral de Jaca (Província de Huesca, norte de Aragón) foi um dos primeiros edifícios românicos construídos no Caminho de Santiago, servindo de modelo para muitos outros templos religiosos (entre 1063 e 1080).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa Península Ibérica, os reinos cristãos se consolidam e se abrem culturalmente ao resto do continente, processo favorecido pela desintegração do Califato de Córdoba e a formação dos denominados Reinos de Taifas, estados descentralizados que favorecerem o processo de Reconquista. Processos culturais, associados à época de consolidação do Românico, se produzem, como a expansão do monacato, a reforma e evangelização da igreja hispana e o auge do Caminho de Santiago. A monarquia promoveu a reforma dos monastérios, estimulando a vinda de monges provenientes da Abadia de Cluny, encarregados de reorganizar a vida religiosa e implantar a liturgia gregoriana. A seguir, vemos a Igreja de San Martín de Fromista, um dos tesouros do Românico Espanhol, situada na Província de Palencia, Comunidade de Castilla y León. Conserva-se completa, algo pouco habitual, devido às obras de restauração realizadas, e converteu-se no modelo de igreja românica de influência francesa no Caminho de Santiago.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA principal característica desta fase é o aparecimento da escultura monumental, presente em váris partes do edifício, e da pintura interior dos templos. Abaixo, vemos a decoração escultórica da porta principal da Igreja de Santiago, situada em pleno Caminho de Santiago, na cidade de Carríon de los Condes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutras construções emblemáticas desta fase do Românico Espanhol são a Basílica de San Isidoro de León e o Monastério de Santo Domingo de Silos. No entanto, a construção mais importante é a Catedral de Santiago de Compostela (Galícia), um notável exemplo das denominadas Igrejas de Peregrinação. Sua construção iniciou-se em 1075 e foi finalizada em 1022, aproximadamente. O interior manteve sua fábrica românica, mas a fachada principal foi reformada no período barroco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, a última fase do Românico Espanhol, que compreende a segunda metade do século XII e as primeiras décadas do século XIII, é denominda Românico Tardio ou Tardoromânico. A escultura continua sendo um elemento decorativo importante e, a partir do final do século XII, se combinam elementos característicos da incipiente arquitetura gótica (por este motivo também denominado Românico de Transição). Um exemplo é a Catedral de Lérida, situada na Catalunha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm fato fundamental relacionado a esta fase do românico foi a denominada reforma cistencience, realizada por um dos personagens mais importante do século XII, São Bernardo de Claraval, grande impulsor da Ordem do Císter. Segundo ele, a Ordem Beneditina, liderada pela Abadia de Cluny, se havia distanciado dos preceitos de austeridade pregados na Regra de São Bento, ostentando um luxo e uma riqueza decorativa que não concordava  com os postulados originais propostos pela regra. Segundo São Bernardo, o excesso decorativo distraía a atenção dos monges para sua tarefa essencial, de oração e meditação. Estabelece, pois, a ausência decorativa em forma de escultura figurativa nos monastérios e igrejas da Ordem Cistercience. Um exemplo é o impressionante Monastério de Poblet (Catalunha), declarado Patrimônio da  Humanidade pela Unesco, que foi fortificado para proteger a comunidade religiosa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta fase, portanto, observamos duas tendências opostas, uma com excesso decorativo, e outra caracterizada pela sobriedade. Nas últimas décadas do século XII, o estilo românico deixa de ser empregado somente em monastérios, catedrais e igrejas que fazem parte do Caminho de Santiago e se desenvolve nas demais zonas da península, principalmente no âmbito rural (Românico Rural). São construções modestas, feitas com materiais humildes e que apresentam uma carência escultórica, que quando existe, é muito rudimentar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIgreja de San Segundo – Ávila (Comunidade de Castilla y León)

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