Românico Espanhol: Simbolismo na Arquitetura

Atualmente existe um grande interesse pela Arte Românica, não só entre os historiadores, mas também entre o público em geral, tanto por sua estética quanto por sua riqueza simbólica, uma de suas principais características. Uma das doutrinas folosóficas que mais influenciaram o Estilo Românico foi o Neoplatonismo, inicialmente uma corrente não cristã, originada no século III no Egito. Seu principal difusor foi o filósofo Plotino. Apesar de ser uma doutrina pagã, influenciou vários teólogos da Igreja Católica, entre os quais Santo Agostinho, que assimilou seus conteúdos incorporando-os ao cristianismo. Seus ensinamentos adquiram um grande protagonismo na Idade Média, influenciando o cristianismo ocidental e oriental.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIgreja Românica em Pedraza, belo povoado da Província de Segóvia.

Veremos muitas destas influências filosóficas no românico, principalmente relacionadas à escultura e pintura. A partir do século V, as igrejas cristãs medievais (bizantinas, préromânicas, românicas e góticas) foram edificadas segundo uma orientação fixa, normalmente no sentido leste-oeste. Enquanto a entrada da igreja deveria estar posicionada ao Ocidente, o altar, sua parte mais sagrada, estava orientada ao Oriente, ou seja, em direção ao lado onde aparecem os primeiros raios do sol.  Este fato está vinculado à própria essencia de Cristo quando diz “Eu sou a luz do mundo, aquele que me segue não andará nas trevas e terá a luz de minha vida.” Além do mais, na Idade Média existiam consideraçoes geográficas e teológicas que enalteciam o Oriente, pois consideravam que o paraíso terrenal encontrava-se no extremo oriental do mundo e que Jerusalém representava seu centro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInterior da Igreja Românica de San Martín de Fromista (Castilla y León)

Da mesma forma que sua orientação, a localização dos templos também não era arbitrária. Muitas igrejas foram construídas em lugares onde anteriormente se erguiam templos de grande tradição católica. Um exemplo é a Basílica de San Vicente de Ávila, uma das jóias do Românico Espanhol, edificada sobre o local onde a tradição diz que foram martirizados os irmãos Vicente, Sabina e Cristeta, durante a perseguição religiosa instituída no Império Romano antes que o catolicismo se tornasse sua religião oficial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABasílica de San Vicente (Ávila – Castilla y León)

Para compreender o Estilo Românico, é fundamental comentar que o divino, transcedental ou a realidade invisível eram representados de maneira simbólica, em todas suas manifestações artísticas (arquitetura, escultura e pintura). A Arquitetura Românica simboliza a união entre o terrenal e o divino através das formas geométricas simples, o quadrado, o círculo e a cruz. As propriedades simbólicas do círculo relacionam-se com a perfeição e homogeneidade, e sua ausência de distinção ou divisão (possui infinitos lados, sem ângulos retos). Por isso, tendem a representar o céu devido à forma circular dos astros, principalmente o sol, e tudo o relacionado ao divino, celestial e espiritual. A diferença do círculo, o quadrado possui uma orientação fixa ao possuir 4 lados. Suas propriedades simbólicas estão relacionados a estabilidade, imobilidade e como figura estática, representando o terrenal e o material. Esta relação entre o quadrado e o círculo pode ser observada na construção circular das cúpulas em relação ao formato quadrangular da nave. Na arquitetura, para que se tornasse possível a conversão do quadrado em círculo, se utilizavam as trompas, situadas em cada ângulo reto do quadrado, como vemos abaixo na cúpula da Catedral de Jaca (Comunidade de Aragón).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Cruz, pelo fato de poder estar inserrida tanto no círculo, quanto no quadrado, e porque seus braços se cuzam num centro que é o mesmo para ambos, constitui a síntese entre a união do céu e da terra (vale a pena recordar a forma em cruz na planta das igrejas). Outro elemento arquitetônico de grande poder simbólico é a torre. A morada de Cristo estava no “alto” (O Altíssimo) e as torres simbolizavam o eixo cósmico ascendente que pretendia unir o céu com a terra.

P8050185.JPGAcima, torre da Catedral de Siguenza  (Comunidadde de Castilla La Mancha). Abaixo, a torre da Igreja de San Esteban, em Segóvia (Castilla y León).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA fachada principal da igreja alcançou uma importância primordial na paisagem urbana do período medieval, ao constituir-se no ponto visual culminante da construção. A porta principal de acesso ao interior das igrejas se trasnformou no elemento arquitetônico que simbolizava a passagem do mundo profano exterior ao ambiente sagrado do interior, estando profusamente ornamentadas.

Soria5Fachada principal da Igreja Românica de Santo Domingo (Sória – Castilla y León)

Outro local de grande conotação simbólica nos templos religiosos, principalmente nas catedrais e monastérios, é o Claustro, normalmente de planta quadrada ou retangular. Nos monastérios, serve como eixo no qual se distribuem as dependências constituintes, como refeitório, dormitório dos monges, sala capitular, cozinha, etc. Através de seu perímetro, os monges caminhavam com a bíblia na mão, refletindo sobre os ensinamentos de Cristo. Ou seja, era um local para a meditação interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAClaustro da Colegiata de Santa Juliana (Santillana del Mar – Cantábria)

Outra função utilitária do claustro era como um local de enterramento, como podemos ver abaixo, no Claustro da Catedral de Girona (Catalunha).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo plano simbólico, o claustro está relacionado com a obra fundamental de Santo Agostinho, a ” A Cidade de Deus“, no qual o teólogo descreve a Jerusalém Celestial como um lugar repleto de árvores frutíferas , água abundante e pura, etc. Na maioria dos casos, o pátio que cerca  seu perímetro está composto por árvores e um poço de água no centro, representando a manifestação terrenal da ideia do paraíso celestial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAClaustro da Catedral de Roda de Isábena (Aragón)

O material principal utilizado na Arquitetura Românica era a pedra de sillar, principalmente nas construções mais importantes, um paralelepípedo obtido pelos trabalhadores em sua extração. Depois de extrair a pedra bruta das canteiras, era talhada e sua superfície polida, para que ficassem perfeitas. O mestre de obras era um personagem anônimo, ainda que existem casos em que, orgulhosos de sua obra, assinassem seu nome na própria construção, caso do Mestre Mateo, responsável pelo fabuloso Pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela. Outros, sem nome conhecido, foram identificados pela região onde trabalhavam, como o Mestre de Cabestany, Mestre de San Juan de la Peña, etc. Apesar disso, deixaram constância de seu trabalho nas denominadas marcas de canteiros, que podemos observar tanto nos templos românicos, quanto nos góticos. Também denominados signos lapidários, constituem uma grande variedade de figuras que representam a “assinatura” ou marcas pessoais de cada trabalhador, referente ao seu nome (em forma de sua letra inicial ou monograma), crenças particulares (objeto simbólico ou alegórico), status social e profissão ou a época em que a obra foi realizada (signos astrológicos). Muitos associam estas marcas a uma sabedoria oculta e mágica, mas a hipótese mais aceita diz que ao “assinarem” a obra, poderiam cobrar o salário pelo trabalho realizado. Abaixo, vemos marcas de canteiros na Catedral de Ávila.

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