Românico Espanhol – Escultura (Iconografia)

No post anterior, vimos que na Escultura Românica se representavam muitas cenas de caráter profano e do mundo cotidiano medieval. Na matéria de hoje, veremos as esculturas de temática religiosa que decoravam os templos em suas fachadas, capitéis, etc. Para compreendê-las, recorreremos à iconografia, a descrição dos temas e assuntos representados nas imagens artísticas, sua simbologia e os atributos que permitem identificar os personagens de cada cena. Inicialmente, veremos as variadas representações da imagem de Deus presentes nas Esculturas Românicas. A primeira delas é a da imagem divina conhecida como Pantocrátor, intensamente representada na Arte Românica, tanto na escultura quanto na pintura. Esta representação originou-se no Egito (século V), e difundida pela Arte Bizantina. Deus aparece em atitude triunfante, frequentemente sentado num trono como senhor todopoderoso do universo. Aparece de frente com a mão direita em posição de bendição, e na mão esquerda segurando as sagradas escrituras. Sua imagem está envolta numa mandorla, uma estrutura oval que enfatiza seu caráter divino.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPantocrátorClaustro da Catedral de Tarragona (Catalunha).

Cristo é acompanhado pela imagem dos Tetramorfos, a representação iconográfica de um conjunto formado por 4 elementos. A mais conhecida é a cristã, cuja tradição remonta ao Antigo Testamento (visão do profeta Ezequiel) e também no Apocalipse de São João, na qual aparecem um homem, um leão, um touro e uma águia. A partir do século V, estas figuras foram associadas aos 4 Apóstolos Evangelistas. O homem (às vezes representado também por um anjo) está relacionado com Mateus, pois seu Evangelho enfatiza a humanidade de Cristo. O leão associa-se a Marcos, pois no Evangelho deste apóstolo se enfatiza a dignidade e majestade real de Cristo. O touro (ou boi) está relacionado a Lucas, já que no Evangelho por ele escrito a ênfase recai no sacrifício da morte de Cristo. Finalmente a águia relaciona-se com o Apóstolo João, em cujo evangelho Cristo é descrito como a encarnação do logos divino. Na Igreja  Católica Ocidental, o Pantocrátor é também conhecido pela denominação em latim “Maiestas Domini“, que significa Cristo em majestade. Cristo, em outra de suas manifestações, aparece como Cordeiro, que se sacrifica para eliminar o pecado do mundo, portando a cruz do sacrifício.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACordeiroIgreja de Santa María del AzougueBenavente (Castilla y León).

A terceira forma como Deus é representado na Escultura Românica é conhecida como “Dextera Domini“, a mão direita de Deus Pai em posição de bendição. Constitui o símbolo do poder divino, que demonstra sua autoridade. Esta imagem não é exclusiva do Estilo Românico. Sua origem remonta ao Antigo Testamento, devido à proibição imposta pelo Judaísmo de se representar a imagem antropomórfica de Deus.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADextera Domini” – Igreja de San Pau del CampBarcelona (Catalunha).

Um dos elementos iconográficos mais frequentes na Arte Românica associados a Cristo é o Crismón (idioma espanhol), como se conhece a representação do monograma de Cristo, escrito com as duas primeiras letras de seu nome no idioma grego (X e P). Nas laterais, é acompanhado pelas letras alfa e ômega, a primeira e a última letra do alfabeto grego, simbolizando que Cristo é o princípio e fim de todas as coisas. O Crismón costuma ser sustentado por anjos.

DSC01450CrismónIgreja de San PedroHuesca (Aragón)

No Românico também aparecem casos em que o Crismón é associado à Santíssima Trindade, com a incorporação da letra S (P-Pai, X-Filho e S-Espírito Santo). O Crismón aparece por primeira vez nas moedas romanas acunhadas depois do Édito de Milão (313 dC), no qual o Imperador Constantino concedeu a liberdade religiosa e de culto à comunidade cristã. Outra representação comum na igreja latina são as letras IHS, as três primeiras letras do nome de Jesus no idioma grego. Abaixo, vemos duas representações de Cristo num mesmo local, o Cordeiro e o Crismón, na Basílica de San Prudencio (Armentia – País Vasco).

OLYMPUS DIGITAL CAMERABasílica de San PrudencioArmentia (País Vasco).

Em muitas igrejas românicas de titularidade mariana, ainda que não necessariamente, a Virgem Maria aparece como elemento escultórico nas fachadas principais das igrejas, cuja temática está vinculada ao ciclo do Nascimento de Jesus. Um exemplo é a Igreja de San Juan del Mercado de Benavente, em cuja fachada se representa o episódio bíblico conhecido como “Adoração dos Reis Magos“. A Virgem Maria aparece no centro da cena com o Menino Jesus no colo, e os Reis Magos na lateral (observem aqui mais um exemplo da hierarquia escultórica típica do Estilo Românico, na qual o personagem principal é esculpido em tamanho maior).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIgreja de San Juan del MercadoBenavente (Castilla y León).

A “Anunciação de Maria“, em que o Anjo Gabriel anuncia que Maria será mãe de Jesus, é um tema frequente na Escultura Românica, como vemos em uma das portas da Igreja de San Nicolás de Portomarín (Galícia).

OLYMPUS DIGITAL CAMERA“Anunciação” – Igreja de San Nicolás – Portomarín (Galícia).

Finalizamos a matéria com outra representação mariana habitual, a “Coroação da Virgem“, como podemos admirar num dos capitéis do Claustro do Monastério de Silos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA“Coroação da Virgem Maria” – Claustro do Monast. de Silos (Província de Burgos – Castilla y León).

 

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