Românico Espanhol – Bestiário Medieval

Qualquer pessoa que tenha a oportunidade de visitar um templo românico e observar atentamente sua decoração escultórica ou pinturas conservadas, se surpreenderá com a quantidade de animais representados nas esculturas e imagens pictóricas que adornam seus elementos arquitetônicos. Alguns animais serão prontamente identificados, enquanto outros atrairão a curiosidade do visitante por seu aspecto mitológico ou fantástico. Em conjunto, formam o que se conhece como o Bestiário Medieval. Sobre o Estilo Românico existe muita polêmica sobre se estas representações de animais são meramente decorativas ou de valor simbólico, embora a maior parte dos estudiosos afirmam seu destacado simbolismo, como tudo o que se refere a esta corrente artística.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Claustro da Colegiata de Santa Juliana (Santillhana del MarCantábria) – Aves.

O que não se discute é que os animais foram representados em muitas culturas da antiguidade, e a eles foram atribuídos virtudes e defeitos humanos, de acordo com suas características físicas e forma de comportamento. Muitos livros abordaram esta temática, e a obra que mais influiu na mentalidade do artista românico foi o “Phisiologus“, um livro muito popular na Idade Média, escrito em grego entre os séculos II e III dC, e considerado um autêntico manual zoológico e sua respectiva conotação simbólica. Tanto neste livro, como em muitos outros, se relatam histórias e fábulas em forma de parábolas sobre os animais, suas atitudes e os ensinamentos morais que foram adotados pelo Cristianismo como meio de instrução pedagógica moralizante. Alguns animais possuem valores positivos, outros negativos, e muitos são ambivalentes, ou sejam, encarnam ambos conceitos. Muitos animais são considerados Cristológicos, ou seja, associados à figura de Cristo, como o Cordeiro, relacionado ao sacrifício do salvador, ou a Pomba, considerada a terceira pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo. No geral, as Aves possuem um valor positivo, um anseio espiritual da alma humana por distanciar-se do terrenal, em busca de algo mais elevado. Em muitos casos, as Aves aparecem nas esculturas picando sobre suas próprias patas, sugerindo a dificuldade da alma humana para elevar-se devido às paixões e tentações mundanas. Uma ave muito representada no Românico é a Águia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAClaustro da Catedral de Tarragona (Catalunha) – Águia.

Considerada a rainha das aves, a Águia forma parte da heráldica (escudos e brasões) de muitos reinos e impérios. No Cristianismo Medieval, possui uma conotação positiva por sua majestuosidade e nobreza. Relaciona-se ao Batismo pela lenda que diz que a águia envelhecida se eleva em direção ao sol com a finalidade de queimar suas asas, caindo numa fonte de água na qual submerge para sair renovada. Também é associada à Ascenção de Cristo e à vitória sobre o Diabo, quando captura uma serpente (um animal demoníaco por excelência) para devorá-la. No Românico, aparece também como guardiã dos templos, presente nas fachadas das igrejas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACapitel do Monastério de San Pere de Gallicants (GironaCatalunha) – Águia.

O Peixe também foi associado como um símblo de Cristo, principalmente durante as primeiras etapas do Cristianismo, sendo que os cristãos utilizavam sua figura para reconhecerem-se entre si. Isso se deve que a palavra “Peixe” no idioma grego foi traduzida ao latim como “Ictus“, que coincide com a expressão “Jesus Cristo, filho de Deus Salvador“. Outro animal Cristológico é o Leão, o rei dos animais. Da mesma forma que a águia, aparece como protetor dos templos em sua fachada principal, avisando os fiéis que, ao entrarem na igreja, estão ultrapasando o âmbito terrenal e ingressando num recinto sagrado. Abaixo, vemos dois Leões guardando um Crismón, uma das representações de Cristo, que vimos nas matérias anteriores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Tímpano da Catedral de Jaca (Aragón)Leões.

Com exceção do Leão, os demais felinos possuem geralmente valores negativos, associados à ira e ao maléfico. Em muitas ocasioes, é difícil identificar precisamente o animal representado, como vemos abaixo, seguramente um felino…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIgreja de Santa María del AzougueBenavente (Castilla y León)Felino.

Outros animais vinculados à Cristo são o Pavão Real (como símbolo da ressureição, pois suas plumas voltam a crescer), a Ave Fênix (capacidade de renascer de suas próprias cinzas) e o Pelicano (segundo a lenda que diz que abria seu peito com o pico para alimentar seus filhotes com o próprio sangue, um vínculo com o sangue derramado por Cristo para salvar a humanidade). Já os animais terrestres, especialmente os Répteis, possuem valores negativos, associados ao mal, como a Serpente. O Sapo é associado frequentemente com a bruxaria, e representa o mal e o demoníaco por seu aspecto repugnante. Os Macacos estão relacionados às paixoes humanas irracionais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACapitel do Claustro do Monastério de Santo Domingo de Silos (P.Burgos)Macacos.

O Urso, animal frequente na Penísnula Ibérica em tempos passados, vincula-se ao inconsciente, às trevas e à escuridão por seu costume de habitar as cavernas e hibernar nos meses de inverno, além de ser um caçador, inclusive de seres humanos. Os Coelhos e Lebres possuíam uma má reputação por sua promiscuidade sexual, estando relacionados com o pecado da luxúria. O mesmo ocorre com o Camelo e o Dromedário, ainda que também constituem símbolos da humildade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPintura MuralErmita de San Baudélio (Castilla y león)Dromedário.

Outro animal demoníaco é o Bode

OLYMPUS DIGITAL CAMERAClaustro da Catedral de TarragonaBodes.

É muito comum a representação de lutas (uma obsessão do artista românico) entre homens e animais, simbolizando em última instância, o próprio conflito entre o bem e o mal, travado no interior de cada pessoa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACapitel da Igreja da Virgen de la PeñaSepúlveda (Prov. Segóvia – Castilla y León).

No próximo post, publicarei a segunda parte da matéria sobre o Bestiário Medieval, e seus animais fantásticos…

 

 

 

 

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