Românico Espanhol – Bestiário Medieval: Parte 2

Neste segundo post sobre o Bestiário Medieval, veremos algumas das abundantes representações de animais fantásticos que os escultores românicos empregaram na decoração das igrejas e monastérios na Espanha. Grande parte deste conjunto de híbridos, seres imaginários compostos de diferentes partes anatômicas de animais e cabeças humanas, procedem das civilizações orientais (Mesopotâmia, Egito, China, etc) e da incorporação de muitos deles na Mitologia Greco-Romana. O Bestiário Medieval estava composto, pois, por animais que faziam parte da experiência imediata das pessoas, que existiam na Europa naquela época, e dos animais fantásticos que foram representados em livros denominados Códices, iluminados por pinturas nos scriptorium dos antigos monastérios.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABestiário de San Petersburgo – Século XII (edição Facsímel).

Da mesma forma que os animais “comuns”, os seres fantásticos também possuiam um valor simbólico. Estes animais, apesar de sua aparência irreal e imaginária, vivam na mente medieval, possuindo uma existência real, mas permaneciam isolados nos confins do mundo. Eram associados a valores positivos, negativos e, em muitos casos, ambivalentes. Iniciamos a materia com a Serpente e sua representação monstruosa, o Dragão (serpente alada).  Ao contrário das civilizações orientais e nos locais onde se professavam as denominadas Religiões Telúricas (vinculadas à Deusa Terra), onde tinham uma conotação positiva e eram considerados animais venerados, no Ocidente ambos animais adquiriram um valor altamente negativo com o Cristianismo, quando foram associados ao mal e ao demoníaco. A Serpente aparece como elemento fundamental no Pecado Original e na expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Por outro lado, o Dragão, como símbolo maléfico, é derrotado pelo Acanjo Miguel e por São Jorge. Em muitas ocasioes, nas Esculturas Românicas, aparece uma águia devorando uma serpente, ou seja, Cristo vencendo o Demônio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAClaustro da Igreja de Sant Pau del Camp (Barcelona) – Serpente e o Pecado Original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAColegiata de S.ta Juliana (Santillana del Mar) – Arcanjo Miguel vencendo o Dragão.

Um dos animais fantásticos mais representados na Arte Românica, o Grifo é um animal híbrido composto por uma cabeça de Águia com corpo de Leão. Procede das culturas persa e assíria. Originalmente possuia um papel relacionado à vigilância dos templos, devido à força do rei dos animais e da visão incomparável das águias. Dentre os animais híbridos, é o único que possui um valor totalmente positivo, ao estar constituído pela união dos dois animais mais poderosos do ceú e da terra. Em determinados momentos históricos, esteve vinculado à figura de Jesus Cristo e como símbolo da sabedoria.

DSC09815Catedral de Ciudad Rodrigo (Castilla y León) – Grifo (lado esquerdo da foto).

Procedente do Egito, a Esfinge (cabeça humana num corpo de leão) sempre será recordada pelas Pirâmides de Gizé, onde aparece como guardiã e simbolizando os faraós. No Românico, aparece com o rosto feminino e, frequentemente, com asas de águia e patas de touro. Também exerce uma função de vigilante dos templos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACapitel da Igreja de San Martín de SegóviaEsfinge.

O Centauro, animal composto por cabeça e torso masculinos num corpo de cavalo, aparece em muitos episódios fundamentais dos mitos clássicos. No Românico, normalmente se representa com um arco e uma flecha disparando contra outros animais. Seu significado é ambivalente. Seu sentido positivo relaciona-se às flechas amorosas de Cupido, que transformam a alma e psique humana através do amor. O lado negativo designa a brutalidade animal das paixões e instintos humanos, quando não devidamente assimilados e controlados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIgreja Românica de Estella (Navarra) – Centauro disparando numa Nereida.

As Sereias foram amplamente representadas na Escultura Românica, que normalmente associamos composta por rosto e torso feminino com uma cauda de peixe. Na realidade, este animal fantástico é a Nereida, divindade protetora das águas e que na Mitologia Clássica englobavam o grupo das Ninfas. Eventualmente pode aparecer com o rosto masculino e frequentemente se representa com uma cauda simétrica, ou dupla. Está associada ao pecado da luxúria, e a sedução dos prazeres carnais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABasílica de San Vicente de Ávila (Castilla y León) – Nereida.

A verdadeira Sereia Mitológica estava formada por uma cabeça de mulher e corpo, asas, patas e caudas de ave. Na Mitologia Grega, atraíam com seus belos cantos os marinheiros com a intenção de devorá-los. Simbolizam, pois, a música ilusória e corrupta, em contraposição à musica divina e purificadora das Musas. Também foram vinculadas aos espíritos dos mortos. Na Escultura Românica possui um duplo significado, negativo como tentadora do pecado, e positivo como símbolo da alma.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAClaustro do Monastério de Santo Domingo de Silos (Castilla y León) – Sereias.

Muito parecida com as Sereias, a Harpia é uma criatura mitológica representada com o corpo e asas de aves, com uma cabeça masculina ou feminina. Frequentemente, aparece com uma cauda de escorpião ou serpente. Sua conotação negativa a relaciona ao maléfico e aos vícios, bem como ao remordimento e sensação de culpa que se segue à satisfação dos desejos da carne.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConcatedral de San PedroSória (Castilla y León)Harpia.

 

 

1 comentário Adicione o seu

  1. Pedro Pacheco disse:

    Qual seria o significado das serpes (dragões alados com 2 pernas)?

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