Românico Espanhol – Pintura (Códices)

A Pintura Românica desenvolveu-se também através dos livros iluminados, ou códices. Muitos destes excepcionais livros foram elaborados em época anterior ao Estilo Românico, enquanto outros foram realizados dentro do período que estamos tratando. Dentro do primeiro grupo, mencionamos os manuscritos carolíngios e otomanos, além dos anglo-irlandeses. Um dos mais famosos, o Livro de Kells (Book of Kells) foi elaborado por monges irlandeses no ano 800, no povoado de Kells, e atualmente é considerado um dos mais suntuosos manuscritos realizados na Idade Média, de grande beleza e com uma excelente técnica de elaboração. Peça fundamental do Cristianismo Celta, foi redigido em latim, e contêm os 4 Evangelhos do Novo Testamento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERALivro de Kells – Edição Facsímel.

O Livro de kells encontra-se permanentemente exposto na Biblioteca do Trinity College em Dublin, capital da Irlanda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATrinity College – Dublin.

Na segunda metade do século XI, em torno da Abadia de Cluny (França), os livros iluminados (também denominados miniaturas) começaram a ser decorados dentro da estética românica, apesar de estarem relacionados com estas obras anteriores, desenvolvendo características próprias, como a decoração das letras iniciais de cada capítulo (letras capitulares). Com o tempo, estas pinturas foram adquirindo uma maior liberdade, distanciando-se do texto e apresentando cenas de caráter profano. Os motivos zoomorfos chegam a substituir as letras. Também passa a ser frequente utilizar a página inicial com a letra decorada no centro e rodeada pelo texto. As cenas retratadas nos códices são normalmente de cunho religioso e acompanham o simbolismo das demais Artes Românicas, estabelecendo-se uma relação formal entre o texto e a imagem. Mesmo não sabendo ler, o crente podia conhecer o conteúdo do texto através das imagens explicativas, didáticas e de fundo moralizante.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABeato de San Miguel de La Escalada (ano 945) – Biblioteca Pierpont Morgan (N.York)

Na Península Ibérica, gozaram de muita popularidade os livros conhecidos como Beatos, um códice iluminado especificamente hispano, escritos entre os séculos X e XIII. O primeiro e mais importante deles, o Beato de Liébana, foi escrito por um monge do Monastério de Santo Toribio, situado no belo Vale de Liébana, no interior da Cantábria, no ano 786. Este vale, situado aos pés do Parque Nacional dos Picos de Europa, foi povoado por cristãos refugiados que haviam vivido em territórios sob dominação muçulmana, os chamados Mozárabes, em espanhol. A fama do Beato de Liébana na Idade Média se deve não só ao seu conteúdo religioso, abangendo aspectos políticos e de geografia. Neste livro fundamental, são realizados comentários sobre o último livro da Bíblia, o Apocalipse, redatado pelo Apóstolo João no século I. Suas explicações sobre as revelações do Apóstolo João calmaram o espírito inquieto dos cristãos da época, preocupados pelas desgraças de seu tempo e o medo a que o fim do mundo finalmente chegasse. Na Espanha, este mal estar espiritual estava personificado pela invasão muçulmana no início do século VIII e o final do Reino Visigodo Cristão. O monge de Liébana foi o primeiro espanhol que cita ao Apóstolo Santiago como Padroeiro da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACópia do Beato de Liébana – Monast. de Santo Domingo de Silos (final do século XI).

Durante o período românico, foram realizadas várias cópias do manuscrito original, escrito no final do século VIII. A todas as cópias dos Comentários do Apocalipse de São João se denominam de maneira simplificada Beatos. Mais importante que o texto original são as pinturas que o acompanham, que se referem ao próprio tema do Apocalipse, e não aos comentários, realizadas com expressividade, com um intenso cromatismo e carga dramática. Atualmente se conservam 31 Beatos, sendo que alguns dos principais são o Beato de San Miguel de Escalada, que faz parte do acervo da Pierpont Mogan Library de Nova York, e o Beato do Monastério de Santo Domingo de Silos, pertencente à British Library. A Biblioteca Nacional de Madrid conserva vários outros exemplares originais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACópia do Beato de Liébana – Monastério de las Huelgas (ano 1220).

No geral estes textos eram copiados nos scriptorium dos monastérios espalhados por toda a Europa. Esta atividade tipicamente medieval pode ser observada no filme “O Nome da Rosa“, baseado no livro do escritor italiano Umberto Eco e protagonizado por Sean Connery. Os livros eram preparados em folhas de pergaminho e os desenhos das ilustrações (iluminação) eram executados pelos iluminadores, que realizam sua obra depois da escritura, conservando um espaço nas folhas para a posterior decoração. Episodios da Bíblia e da vida dos santos eram frequentemente representados, e nos espaços secundários ou nas margens se incluiam elementos vegetais, animais e geométricos. O processo de elaboração consistia em preparar o pergaminho com uma camada de bílis de boi e clara de ovo ou mel. Depois se utilizava um lápis de chumbo para o esboço do desenho, seus contornos e linhas. Em seguida, os desenhos eram coloridos com as tintas disponíveis. Uma vez finalizada e seca a página, se aplicava uma mixtura de goma arábica e clara de ovo para conferir brilho ao desenho. No século XII, tornam -se frequentes as narrativas de influência bizantina, esquemáticas e pouco realistas, às vezes com conteúdo profano. Entre os códices hispanos desta épca, destacam diversas Bíblias, como as realizadas no Monastério de San Juan de La Peña (Aragón), de San Isidoro de león, a Bíblia de Ávila, e o famoso Códice Calixtino, com a conhecida guia do peregrino do Caminho de Santiago de Compostela, cujo original de se encontra na Catedral de Santiago de Compostela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACódice Calixtino – Edição Facsímel – Palácio Episcopal de Astorga.

 

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