A Construção de uma Catedral

Ao contemplar uma Catedral Gótica, seja de qual país for, nos assombram sua beleza arquitetônica, sua grandiosidade interior e a harmonia de seu traçado. O processo construtivo destes monumentos da humanidade foram extremamente complexos, e muitas delas tardaram séculos em finalizar-se. Guerras, epidemias, fome, falta de verba foram fatores que prolongavam sua construção, de forma que frequentemente encontramos outros estilos artísticos que foram incorporados à catedral na medida em que o processo construtivo se desenvolvia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACatedral de Sao Patrício – Dublin (Irlanda).

Habitualmente, as Catedrais Góticas foram construídas substituindo templos românicos anteriores. Como as Catedrais Góticas eram maiores, se fazia necessária a compra de casas e edifícios das imediações para posterior derrubada dos imóveis. Normalmente sua construção era patrocinada pelo bispo de uma localidade, para que a diocese obtivesse um maior prestígio, tanto maior quanto mais imponente a obra. A construção começava pela cabeçeira e inicialmente se edificava o Altar Maior, para que o templo pudesse celebrar sua consagração e tornar a figura do bispo impulsor uma personalidade histórica.

IMG_2310Igreja Gótica de Saint Nazarie – Carcassone (França).

Um dos principais aspectos que valorizavam e davam prestígio a uma catedral recém construída eram as relíquias, que gozavam de grande devoção na Idade Média. Geravam um maior número de visitantes e peregrinos, além de possibilitarem doações reais e da classe nobre. A Catedral de Chartres exibia relíquias relacionadas à Virgem Maria. A Catedral de Colônia (Alemanha) era conhecida pelas relíquias dos Reis Magos. A Saint Chapelle de Paris foi construída entre 1239 e 1246 como um imenso relicário feita de pedra e vidro, com a finalidade de acolher relíquias associadas à Paixão de Cristo, como fragmentos da Santa Cruz e uma coroa de espinhos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExterior da Saint Chapelle de Paris.

Os primeiros arquitetos do período gótico (séculos XII e XIII) constituem personagens desconhecidos. Em sua maioria, eram de origem francesa, e foram eles os responsáveis pela difusão do Estilo Gótico para além das fronteiras de seu país. Ao longo do século XIII, o período clássico do Estilo Gótico, alcançaram grande prestígio e status social. O arquiteto, habitualmente chamado de Magister, devia realizar um demorado processo de aprendizagem antes de poder ocupar o cargo, e somente os mais hábies e preparados eram capazes de alcançar o grau superior de Mestre. Sua carreira começava cedo, entre os 13 ou 14 anos, na condição de aprendiz, etapa que durava cerca de 5 anos. Depois, se convertiam em oficiais, momento  em que podiam realizar trabalhos especializados, nas canteiras ou como escultores. Aqueles que almejavam o grau de mestre deveriam seguir estudando, adquirindo amplos conhecimentos de matemática, geometria, filosofia, álgebra, gramática, retórica e teologia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Catedral de Orleáns (França).

Além do mais, os mestres tinham que adquirir notáveis habilidades nos trabalhos artesanais, e ser o responsável em dirigir e eventualmente corregir o trabalho de carpinteiros, canteiros, escultores, pintores, vidreiros, etc, de forma que fossem igualmente competentes na organização do trabalho. Frequentemente, as técnicas construtivas eram passadas de pai para filho, e os mestres guardavam consigo os segredos de sua arte, formando uma verdadeira linhagem de arquitetos. Se sabe que muitos dos mestres construtores das Catedrais de Chartres, Paris, Burgos e León na Espanha, eram parentes e formavam parte da mesma “dinastia”. Apesar de aprenderam o ofício dentro de sua própria família, muitos mestres se aperfeiçoavam nas chamadas escolas catedralícias, base das futuras universidades, e viajavam para outros lugares para o intercâmbio de conhecimentos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACatedral de Blois (França).

A prática do ofício do mestre arquiteto seguia rituais próprios. Era ele quem decidia onde se colocava a primeira pedra da catedral (pedra fundacional), normalmente na base da futura cabeçeira do templo e contando com a presença do bispo e inclusive do monarca. Também era o responsável pela colocação da última pedra da construção (pedra angular). Em certo modo, seu trabalho de construir a “Casa de Deus” na terra era equiparável ao trabalho divino no céu, pois se considerava uma Catedral Gótica como um microcosmo, a representação da obra de Deus na terra. Por este motivo, os mestres se consideravam a si mesmos como pessoas eleitas, o que não raramente provocava uma certa aversão dos demais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIgreja de São Nicolás – Blois (França).

As capacidades de muitos mestres foram reconhecidas com o privilégio de poderem ser enterrados na própria catedral que ajudaram a edificar, cujos túmulos são facilmente identificados por apresentaram em forma de escultura os instrumentos de seu ofício. Num primeiro momento, os mestres arquitetos eram itinerantes e depois passaram a formar associações ou grêmios. Durante a construção de uma catedral, os talhadores das pedras (maçon, em francês) eram os primeiros em realizar seu trabalho, enquanto os mestres vidreiros eram os últimos em intervir na obra. Durante os meses frios do inverno, as obras eram interrompidas, ocasião na qual se realizavam trabalhos em lugares fechados, como esculpir a pedra e preparar as lâminas de vidro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERARoseta Gótica (França).

A partir do século XII, a sociedade medieval desenvolveu-se em vários campos que levaram a descoberta de novos aparatos construtivos, que favoreceram a construção das elevadas Catedrais Góticas, como máquinas capazes de elevar blocos de pedra a cotas mais altas, além de complexas plataformas, rodas e sistemas de poleas sofisticadas. Em todo este imprescidível trabalho de apoio à construção, as tarefas dos carpinteiros eram fundamentais, já que a madeira, além da pedra, constituia um material essencial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACatedral de Caen (França).

No início do século XII, os bosques eram abundantes por toda a Europa. No entanto, o crescente desmatamento para ampliar os campos de cultivo necessários para uma população em aumento fez com que a madeira se convertesse num bem escasso. Os arquitetos tiveram que adaptar-se a esta nova condição, utilizando vigas de menor tamanho e ordenando a busca de madeira no norte do continente, onde os bosques ainda eram numerosos. Ao contrário, a pedra era abundante, mas seu trabalho requeria uma maior especialização e o uso de resistentes ferramentas feitas de ferro, um material carro na época. Para economizar os custos, principalmente de transporte, as pedras eram talhadas na própria canteira, depois de sua extração. Logo eram levados ao exterior da catedral, onde os maçons realizavam a parte mais minuciosa e sutil do talhado da pedra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIgreja de Santa Maria – Lubeck (Alemanha).

 

 

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