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A Judería de Toledo: Parte Final

A sociedade plural e tolerante de Toledo inicia sua decadência a partir do século XIV. Em 1391 ocorreram os primeiros ataques dos católicos contra a Judería Toledana. A convivência entre ambas comunidades se agravou quando o Rei Pedro I de Castilla, último monarca que protegeu a judeus e muçulmanos, foi assassinado por seu irmao Enrique de Trastámara durante a guerra civil travada em Castilla pelos direitos de sucessão ao trono. Nesta época, os monarcas castelhanos empreenderam um proceso para a construção de um estado moderno com a oposição da nobreza, que desejava manter seu poder. Estes viam na comunidade judaica colaboradores do poder real, que fez com que aumentasse o ódio dos inimigos que não desejavam o fortalecimento dos monarcas. Samuel Leví, tesoureiro maior de Pedro I, prestou inúmeros serviços para o rei. No entanto, devido aos problemas entre cristãos e judeus, o rei proibiu a construção de novas sinagogas, mas não pôde negar a seu amigo que edificasse a Sinagoga do Trânsito, pelo apoio recebido contra seu irmão Enrique, que almejava o trono. Apesar disso, o rei mandou prendê-lo e logo depois foi executado em 1361. Abaixo, vemos uma foto desta Sinagoga, atualmente sede do Museu Sefardí.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão se sabe exatamente quantos judeus viviam na Espanha na Idade Média, mas seguramente era o país com a maior população judaica da Europa. Em Toledo viviam cerca de 350 famílias, que representava a maior comunidade de Castilla. Em todo o país, existiam outras juderías importantes, como as de Sevilha, Barcelona, Zaragoza, Tudela, etc. Nos primeiros tempos da reconquista, os judeus gozaram de uma situação jurídica especial, pois os monarcas os consideravam uma propriedade real, pertencentes ao tesouro real, e por este motivo eram protegidos. Este fato possibilitou que os judeus tivessem acesso direto aos reis, e privilégios foram concedidos. Um deles constituía numa multa coletiva, aplicada a uma cidade quando aparecia um judeu morto e o assassino não era encontrado.

DSC09355Os cristãos não viam com bons olhos as doações realizadas pelos monarcas às comunidades judaicas, nem os privilégios que ostentavam. No século XIII entra em vigor a lei eclesiástica que proibia o empréstimo com juros (usura), justamente num momento em que vários membros da comunidade judaica se especializaram em negócios financeiros. O ambiente social se agravou com a chegada na Península Ibérica das idéias anti judaicas reinantes pelo resto do continente europeu, e a propaganda contra a comunidade cresceu por todas as partes. As acusações contra os judeus de terem envenenado a água e de profanar hóstias consagradas aumentaram com a peste negra que assolou o continente entre 1348 e 1350. Também no ano de 1391 chegou à Toledo San Vicente Ferrer, monge dominicano e anti judeu declarado, que exaltou os ânimos contra a população judaica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta época já existiam na Espanha judeus que se converteram ao catolicismo. A partir do momento em que começaram a ocupar cargos de importância se criou uma atmosfera de inimizade e ódio. Quando se descobriu que muitos deles mantinham seus antigos rituais hebraicos, iniciou-se uma guerra aberta contra as comunidades judaicas no país. Uma das mais importantes ocorreu em Toledo em 1449. Os ataques se sucederam e grande parte das 12 sinagogas da cidade foram destruídas, além de muitas das casas habitadas por judeus. Apenas se conservaram as duas sinagogas que vemos atualmente, a de Santa María la Blanca e a Sinangoga do Trânsito, pois foram transformadas em igrejas católicas. Abaixo, vemos uma imagem interior da Sinagoga de Santa María

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara solucionar o problema converso, os Reis Católicos obtiveram em 1478 uma bula papal autorizando a criação do Tribunal de Santo Ofício da Inquisição. Dois anos depois, foram nomeados os primeiros inquisidores, que começaram a atuar em Sevilha, e instigaram os monarcas para que a comunidade judaica fosse expulsa do país. Em 1480, foi promulgada uma lei real em Toledo que estabelecia novos bairros para a população judaica, situado fora do centro histórico da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, em 1492 os Reis Católicos decretaram o édito de expulsão dos judeus da Espanha. Num prazo de 4 meses, todos aqueles que não optassem pela conversão tiveram que deixar o país. Os bens comunitários, sinagogas e cemitérios, por exemplo, foram confiscados pelo tesouro real. A expulsão gerou uma série de problemas, originados pela falta de pessoas com boa preparação intelectual e mão de obra qualificada. Muitas foram as explicações dadas pelos estudiosos sobre a decisão dos Reis Católicos, como a própria ambição real, que desejavam confiscar os bens da comunidade judaica. Outra razão foi a luta entre a nobreza e as grandes somas de dinheiro que os reis e a própria nobreza deviam a financeiros judaicos. Os judeus que permaneceram no país, obrigados à conversão, tomaram esta atitude para não perder seus bens, mas continuaram a serem perseguidos, principalmente quando mantinham suas tradições na intimidade do lar. Os judeus conversos foram apartados do poder, já que lhes exigiam responder ao denominado estatuto de “Pureza de Sangue“, sendo obrigados a demonstrar que seus antepassados eram cristãos velhos. Abaixo, vemos tumbas hebraicas de época medieval na Sinagoga do Trânsito.

DSC09454Se desconhece o número de judeus que partiram para outras terras, principalmente Portugal, Países Baixos, sendo que muitos foram acolhidos pelo antigo Império Otomano. O édito de 1492 representou um grande acontecimento em toda a Europa. Espanha, a terra européia judaica por excelência, lhes expulsava de seu território. Somente em 1968 se reconheceu oficialmente a abolição do édito promulgado pelos Reis Católicos. A comunidade judaica voltou a viver no país, e atualmente existem 12 delas espalhadas pelo território espanhol, principalmente em Madrid, Barcelona, Valencia, Palma de Mallorca, etc. Abaixo, vemos uma homenagem de Toledo aos judeus que viviam na cidade e que foram confinados e assassinados nos campos de extermínio nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de 1492, o Bairro da Judería foi abandonado e ficou esquecido, mas muitas instituições religiosas católicas construíram conventos e monastérios em seu perímetro, como o Monastério de Santo Antônio, instalado em 1525 por uma comunidade de freiras franciscanas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOu o Convento de Carmelitas Descalças, a quinta instituição fundada por Santa Teresa de Ávila em seu processo de renovação da Ordem Carmelita (1569), que encontrou abrigo na Judería de Toledo….

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A Judería de Toledo: Parte 4

Desde suas origens, a Judería de Toledo foi um bairro residencial, pois a atividade comercial se desenvolvia no centro da cidade. Ainda que os judeus podiam viver em qualquer parte da cidade, a maioria preferiu viver na zona oeste do recinto de muralhas da cidade, no local designado à comunidade judaica durante a dominação árabe. No bairro não existia uma muralha própria que o protegesse, estando composto por ruas estreitas e sinuosas, algumas delas sem saída.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma de suas ruas principais é a atualmente denominada Calle del Ángel, uma das artérias mais antigas de Toledo e que separava a judería com o resto da cidade. No meio da rua vemos um cobertizo, curiosas estruturas urbanas abundantes no centro histórico de Toledo (matéria publicada em 19/7/2017).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nome desta rua se deve a uma pequena estátua gótica, decorada com um leão, situada na mesma. Uma lenda diz que uma dama da corte ficou doente e que um anjo lhe apareceu anunciando sua cura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa Judería Toledana existiam estabelecimentos próprios para os banhos públicos e rituais (chamados Miqvés), e hoje em dia se conserva um deles na Calle del Ángel, que pode ser visitado. Infelizmente, nunca tive sorte, pois sempre que vou à cidade o encontro fechado. Este banho foi construído entre os séculos XI e XII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs casas do bairro judeu, como as demais da cidade de Toledo, contava com um ou dois andares acima do térreo, além de uma parte subterrânea, aqui na Espanha denominada sótão. Normalmente, no interior das residências havia um pátio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma destas partes subterrâneas pode ser vista no Museu de El Greco, e sua estrutura lembram covas onde se instalaram armazéns de depósito e também um importante banho ritual.

DSC09382Normalmente possuíam um formato quadrado com cúpula octogonal, e podiam ser utilizados como reserva de água para os banhos ou como um local de banhos propriamente dito. Estas galerias constituem os únicos restos conservados do palácio que Samuel Leví, tesoureiro maior do Rei Pedro I, mandou construir a mediados do século XIV.

DSC09385Outra rua importante da Judería de Toledo é a atual Calle de San Juan de Dios, no século XV chamada de Calle de la Judería

OLYMPUS DIGITAL CAMERADentro dos limites da Judería Medieval existiam dois castelos, os chamados velho e novo. Infelizmente se conservam apenas ruínas, e poucas as informações referentes a eles. O Castelo Velho situava-se próximo à Sinagoga de Santa María La Blanca, e atualmente no local onde se localizava existe um hotel, que exibe restos do castelo em seu interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJá o Castelo Novo situava-se próximo à Ponte de San Martín, e atualmente podemos observar um muro e duas das torres da antiga fortaleza.

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A Judería de Toledo: Parte 3

Depois que a cidade de Toledo foi reconquistada pelo monarca Alfonso VI em 1086, a boa convivência entre cristãos, árabes e judeus prosseguiu. Muitos dos muçulmanos mais ricos preferiram, no entanto, mudarem-se para a Andalucia, zona que ainda era governada por dirigentes árabes. Os que permaneceram na cidade passaram a ser denominados Mudéjares, que realizaram diversas construçoes para os reis castelhanos, contribuindo para o desenvolvimento do estilo mudéjar na cidade, uma de suas principais características e o estilo por excelência encontrado em Toledo. Abaixo, vemos um exemplo deste tipo de arquitetura encontrado na Judería de Toledo, a Igreja de Santo Tomé, famosa por acolher em seu interior o famoso quadro de El Greco, “O Enterro do Senhor de Orgaz”, tema de matérias publicadas em 28/1 e 29/1/2015. 

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA comunidade judaica prosperou porque alguns de seus membros foram nomeados para cargos de relevância dentro da corte, como conselheiros, médicos, astrólogos, financiadores etc, concedendo importantes benefícios para a sociedade judaica. Uma das personalidades mais famosas da Judería de Toledo foi Samuel Leví, tesoureiro maior do Rei Pedro I de Castilla.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASamuel Leví foi o responsável pela construção de uma das sinagogas mais importantes de Toledo no século XIV (1357), denominada Sinagoga do Trânsito. Em 1971 passou a ser sede do Museu Sefardí, e representa um exemplo vivo da passagem da comunidade judaica pela Espanha e outra amostra do Mudéjar Toledano. Abaixo, vemos uma foto exterior deste templo de visita obrigatória…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma imagem do interior da Sinagoga do Trânsito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Judería de Toledo chegou a contar com 12 sinagogas e 5 centros de estudo, dados que refletem a importância da comunidade na cidade castelhana. A outra sinagoga que se conservou, construída no final do século XII e declarada Monumento Nacional, é a Sinagoga de Santa María La Blanca, considerada a Sinagoga Maior de Toledo (matéria publicada em 27/6/2012).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Sinagoga de Sofer constituiu outro dos templos judaicos de importância, segundo as fontes documentais. No entanto, desta sinagoga se conservam apenas ruínas, que podem ser vistas em frente à Escola de Artes e Ofícios (publicado recentemente, em 22/7/2017), junto com restos arqueológicos referentes ao sistema hidráulico de época romana. Um pequena fonte de água identifica os restos conservados e na parte subterrânea podemos ver as ruínas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém das comunidades árabes e judia, a comunidade cristã se incrementou de forma notável depois da reconquista de Toledo. Num primeiro momento, os antigos mozárabes (católicos que viveram sob o poder muçulmano) conservaram suas tradições e continuaram utilizando o idioma árabe para a escritura de documentos. Numerosos grupos chegaram à cidade oriundos do norte da península, Portugal, França e da Europa Central. Este conjunto de culturas distintas estabeleceram laços de convivência, mas eram regidos por suas próprias leis. A sexta feira, por exemplo, era o dia sagrado para os muçulmanos, o sábado para os judeus e o domingo para os católicos. Seus rituais eram diferentes, e sua forma de vestir e de se alimentar também. Apesar disso, os membros das três culturas passeavam pelas mesmas ruas, compravam nos mesmos estabelecimentos comerciais, existindo relações de amizade e amor entre eles. É neste período em que se manifesta o auge cultural da cidade, culminando na fundação da famosa Escola de Tradutores de Toledo pelo Rei Alfonso X “El Sábio” (reinou entre 1241 e 1264), uma instituição na qual se reunia os grandes sábios das três comunidades. Foram eles que realizaram a tradução do árabe e do hebreu para o latim das grandes obras filosóficas e científicas da antiguidade clássica. Também nesta época se completa a configuração urbana herdada dos árabes, formada por um labirinto de ruas com construções mudéjares que propiciaram uma certa uniformidade à paisagem de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a Porta del Cambrón, considerada a porta de acesso à Judería de Toledo. De origem muçulmana (séculos X e XI), seu nome se deve à presença no local de plantas espinhosas denominadas cambroneras, mas sempre foi conhecida como a Porta dos Judeus.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASeu aspecto atual é o resultado de reformas realizadas entre 1572 e 1577 durante o reinado de Felipe II, quando foi rebatizada como Porta de Santa Leocádia, padroeira da cidade, cuja imagem preside a porta, debaixo do escudo de Felipe II.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir vemos uma foto da parte externa da Porta del Cambrón

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A Judería de Toledo: Parte 2

Na matéria de hoje, veremos um pouco da histórica presença da comunidade judaica na Espanha, durante as várias etapas por qual passou o país, e as relações travadas com os diversos povos que governaram o território durante mais de mil anos. As fotos publicadas foram tiradas na Judería de Toledo. Parece que os judeus se assentaram em grande número na Europa Ocidental a partir do século III dC. Os primeiros textos que comentam a presença da comunidade judaica na Península Ibérica datam do século II aproximadamente, quando muitos judeus foram vendidos como escravos a famílias romanas assentadas em Hispania. Muitos outros chegaram à Europa depois da expulsão dos judeus de Jerusalém por parte do Imperador Vespasiano e de seu filho Tito, ocorrida logo após a destruição do Templo de Salomão em 70 dC. Em território espanhol, a sinagoga mais antiga, encontrada em Elche, data do século IV dC. Também desta época é o testemunho mais antigo da presença judaica em Toledo, uma lâmpada decorada com um Menorah.

DSC09446Toledo é uma cidade historicamente conhecida pela tolerância em relação a povos de outras culturas. Sua origem se remonta ao período visigodo, entre os séculos VI e VII, quando foi a capital do Reino, na qual coexistiram três sociedades culturalmente distintas: a Visigoda, cujos reis eram adeptos do Arrianismo, a comunidade Hispano-Romana, que representava a maior parte da população, que eram católicos, e a judaica, que viviam num bairro próprio, embrião do que mais tarde seria a Judería de Toledo. Apesar de ocuparem o mesmo espaço urbano, cada um destes grupos eram regidos por suas próprias leis, que proibiam inclusive os casamentos mixtos.

DSC09277OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar das diferenças culturais, estes grupos conviveram durante um tempo sem grandes conflitos. A situação mudou quando os visigodos abandonaram o Arrianismo (doutrina considerada herética pela igreja católica oficial, pois negava o dogma da Santíssima Trindade) e o Rei Recaredo se converteu ao Catolicismo no III Concílio de Toledo, realizado em 589 dC. A partir deste momento, a religiao católica passa a ser oficialmente a religião estatal, produzindo uma maior união entre os visigodos e a antiga população hispano romana, em detrimento da comunidade judaica. Severas limitações foram impostas aos judeus, como a obrigação de educar seus filhos como se fossem cristãos e a proibição de realizarem seus ritos ancestrais. Em 694 dC, durante o IV Concílio de Toledo, o Rei Égica ordenou submeter a comunidade judaica à escravidão, requisitando todos seus bens, dando-lhes apenas a alternativa à conversão ao catolicismo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADevido a esta repressão imposta pelos governantes visigodos, algumas teorias afirmam que a comunidade judaica facilitou a conquista muçulmana a partir do século VIII, vendo estes povos como aliados diante de sua precária situação. Devido a tolerância dos muçulmanos, tanto cristãos quanto judeus puderam conservar seus costumes e tradições, pois da mesma forma que o Islamismo, o Catolicismo e o Judaísmo eram credos monoteístas e se baseavam na Bíblia, livro sagrado respeitado pelo Islã. Evidentemente, as práticas religiosas foram toleradas desde que aceitassem as leis estabelecidas pelo poder muçulmano, como a obrigação de pagar impostos e de viverem em locais separados, além da impossibilidade de ocuparem cargos de importância.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASe pode afirmar que enquanto durou o domínio muçulmano, as três religiões conviveram de forma pacífica, originando o título de Toledo como Cidade das Três Culturas. Os cristaos passaram ser chamados de Mozárabes e seguiram praticando seus rituais nas 6 paróquias para o culto católico espalhadas por Toledo. Os judeus aumentaram sua riqueza e ampliaram o perímetro de seu bairro. Graças a esta prosperidade, muitos judeus imigraram à cidade desde vários lugares da península e mesmo da Europa.

DSC09459Abaixo, vemos uma típica rua da Judería de Toledo….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitos nomes das ruas pertencentes à Judería de Toledo recordam a presença judaica na cidade…

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A Judería de Toledo

Uma das grandes atrações da cidade de Toledo é seu antigo bairro judaico, aqui na Espanha conhecido como Judería. De fato, a Judería de Toledo é considerada uma das mais importantes do país em relação à sua importância histórica, número de pessoas que acolhia e o grau de conservação de seus edifícios mais significativos. Andar por suas ruas estreitas é como uma viagem no tempo, e caminhar sem planejamento fixo é o melhor que podemos fazer para conhecê-la, descobrindo detalhes que de outra forma passariam desapercebidos e sentindo o verdadeiro encanto que emana deste fascinante lugar da cidade castelhana, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

DSC09278DSC09353Na realidade, o urbanismo desta parte de Toledo não se distingue do resto da cidade, cujo traçado atual se originou em época árabe. A Judería situa-se na zona oeste, como podemos ver nesta maquete, no lado esquerdo.

DSC09455Abaixo, vemos uma panorâmica da Judería….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJá a imagem a seguir nos mostra uma parte do bairro a partir do outro lado do Rio Tajo

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs limites da Judería de Toledo foram demarcados por símbolos associados à cultura e religião judaicas em 2012, como vemos na foto abaixo.

DSC09664É comum observar estes símbolos pelas ruas do bairro judaico de Toledo, confirmando que estamos dentro de seus limites. O primeiro deles é o logotipo da Rede de Juderías Espanholas (muitas das cidades do país conservam antigas juderías). Seu formato representa a Península Ibérica feita com uma palavra hebraica que significa Sefarad, o nome que a comunidade de judeus deu para esta terra, que foi a sua moradia durante quase 1500 anos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos símbolos fundamentais do judaísmo, o Menorah é um candelabro de 7 braços, que foi inicialmente elaborado por Moisés a pedido de Deus, representando a perfeição divina associada ao número sete. Feito de ouro maciço, estava situado no antigo Templo de Salomão.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro símbolo que pode ser visto em forma de azulejo é a palavra hebraica “Jai“, que significa vida, felicidade e abundância.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExistem também referências em inglês colocadas nas ruas sobre o bairro.

DSC09445Muitas das construções mais emblemáticas de Toledo situam-se em pleno bairro judeu, como o Museu de El Greco (matérias publicadas em 1/2 e 3/2/2015), pintor que realizou suas melhores obras na cidade, e que viveu na judería…

DSC09371Outro monumento fundamental da cidade, o Monastério de San Juan de los Reyes (matéria publicada em 29/6/2012) foi construído por ordem da rainha Isabel I no final do século XV, para celebrar a vitória na Batalha de Toro em 1476, que lhe converteu em Rainha de Castilla, também se localiza no bairro. Erguido no estilo Gótico-Isabelino, sua função principal era de panteão funerário dos Reis Católicos, mas depois da conquista de Granada em 1492, os monarcas acabaram sendo enterrados na Capela Real desta cidade. Isabel I ofereceu a titularidade do monastério a São João Evangelista, seu padroeiro pessoal e santo ao qual tinha especial devoção.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Judería de Toledo possui excelentes mirantes com vistas formidáveis da cidade, como o denominado Mirante de Santa Ana, que oferece belas panorâmicas do Rio Tajo e da Ponte de San Martín….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma excelente forma de conhecer os segredos da Judería Toledana é conversando com o simpático proprietário de uma livraria, dedicada exclusivamente à História dos Judeus tanto da cidade como de outras partes do mundo, sua cultura e religião.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANos próximos posts, contarei de forma mais aprofundada a história da Judería de Toledo, suas sinagogas medievais e outros aspectos relacionados aos judeus da Espanha.

Escola de Artes e Ofícios de Toledo

O visitante que chega por primeira vez a Toledo observará que a cidade possui um certa homogeneidade arquitetônica, que se reflete em suas construções mais emblemáticas, como suas belas igrejas. Esta particularidade urbana se deve ao estilo mudéjar, abundante na cidade e seu estilo artístico por excelência. O Mudéjar é considerado a grande aportação espanhola à História da Arquitetura, e desenvolveu-se a partir do século XII, estendendo-se até o século XVI. Se caracteriza predominantemente pelo emprego do tijolo, não só como material construtivo, mas também como elemento decorativo. Outra de suas principais características é a utilização de elementos arquitetônicos associados à Arte Muçulmana, como o Arco de Ferradura, por exemplo. Abaixo, vemos a Igreja de Santiago Mayor, construída no estilo mudéjar.

DSC09136Em algumas construçoes mudéjares se utilizaram como elemento decorativo a cerâmica vidriada. A palavra Mudéjar está relacionada com a populaçao muçulmana que permaneceu na Espanha, mesmo depois da reconquista cristã. Um dos ofícios tradicionais da comunidade era justamente a construção, e os reis espanhóis admiravam sua arquitetura e arte. Desta forma, os mudéjares começaram a realizar edifícios para os reis espanhóis, incorporando elementos de sua própria arquitetura. Abaixo, vemos a Paróquia de Santa Leocádia de Toledo, erguida no estilo mudéjar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do século XIX apareceu na arquitetura uma corrente que propunha a revalorização dos chamados estilos históricos europeus, como o românico, gótico, etc. Evidentemente, na Espanha começaram a surgir edifícios que de uma certa forma interpretavam a antiga tradiçao mudéjar, que foram denominados neomudéjares. Um exemplo deste tipo de arquitetura podemos apreciar em várias Praças de Touros espalhadas pelo país. Em Toledo, um exemplo desta atividade construtiva está representada pela Escola de Artes e Ofícios.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das amostras mais significativas da arquitetura toledana de finais do século XIX, a Escola de Artes e Ofícios foi projetada pelo arquiteto Arturo Mélida, sendo que sua construção iniciou-se em 1882, durante o reinado de Alfonso XII.

DSC09362O edifício somente foi concluído em 1931, quando no país reinava o monarca Alfonso XIII, filho do anterior. Esta bela construção situa-se em pleno Bairro da Judería, o antigo bairro da comunidade hebraica, que será o tema dos próximos posts que publicarei.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa fachada do edifício principal vemos representado o Escudo dos Reis Católicos

OLYMPUS DIGITAL CAMERATodos os elementos do estilo mudéjar podem ser vistos no edifício, como a abundância de tijolo, a cerâmica vidriada e as características da Arte Muçulmana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém observamos a presença de novos materiais que passaram a ser usados na arquitetura a partir do final do século XIX, como o ferro forjado, empregado em sua decoração.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADSC09367Abaixo, vemos uma foto do teto na entrada da Escola de Artes e Ofícios

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO edifício foi construído sobre terrenos antigamente ocupados pelo Monastério de San Juan de los Reyes, construído na época dos Reis Católicos e parcialmente destruído durante a invasão francesa de início do século XIX.

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Posada de la Hermandad – Toledo

Bem próximo à Catedral de Toledo situa-se um curioso e antigo edifício, a Posada de la Hermandad, cuja bela fachada de pedra impressiona a todos aqueles que passam pelo local. Estamos na Calle de la Hermandad, cujo nome é uma referência a uma instituição criada na Idade Média, a Santa Hermandad.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Santa Hermandad foi criada durante o reinado do monarca Alfonso VIII (1158/1214) com a finalidade de defender a população da cidade contra os bandidos. Possuía jurisdição para deter, julgar e executar os réus acusados de cometer delitos na cidade. Os Reis Católicos encontraram nesta instituição um excelente instrumento para restabelecer a ordem e a justiça e em 1476 foi estendida a todo o reino, sendo denominada a partir deste momento como Hermandad Nueva ou Santa Hermandad. A fachada deste edifício, que foi a sede desta espécie de polícia medieval, se conserva intacta, apresentando uma grande riqueza decorativa, presidida pelo Escudo dos Reis Católicos, Fernando de Aragón e Isabel de Castilla. O edifício data do século XV, e foi construído junto a um conglomerado de residências medievais em torno a um pátio. A Posada de la Hermandad é considerada a única construção não religiosa da época que se conserva em Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante os reinados da Dinastia Austríaca dos Habsburgos, a Santa Hermandad manteve seu prestígio, e no século XVII incorporou uma série de calabouços em sua parte subterrânea, que podem ser visitados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o século XVIII, a Santa Hermandad entrou em decadência e em 1835 a Rainha Isabel II assinou um decreto que estipulava sua abolição. Posteriormente, o edifício foi utilizado como prisão, residência particular, escola de idiomas, arquivo e museu. Atualmente, como dependência municipal, realizam-se atos culturais e exposições temporais. Tive a oportunidade de ver uma interessantíssima, dedicada às Catapultas e Máquinas de Assédio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Catapulta teve um papel fundamental na construção das muralhas defensivas, a partir do século IV aC. A Balística havia alcançado um grande desenvolvimento, tornando possível lançar projéteis a uma longa distância com uma incrível precisão. Concentrando em um único ponto sucessivos disparos, se conseguia debilitar o sistema defensivo de uma cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFilón de Bizancio afirmava que uma muralha deveria ter uma largura mínima de 5 metros, para poder resistir o impacto das pedras e que era aconselhável manter estas máquinas a uma distância de ao menos 150m da fortificação. Recomendava também a construção de fossos e outros tipos de obstáculos para reforçar a defesa e dificultar a conquista das cidades. Um dos tipos mais simples de máquinas de guerras antigas é o denominado Trabuco de Torção, considerada a mais poderosa da Idade Média (acima e abaixo).

OLYMPUS DIGITAL CAMERASucessor das Catapultas, as origens do Trabuco se remontam ao século III aC, onde foram fabricados inicialmente na China. No século VI chegou ao mediterrâneo e foi decisivo para a expansão do Império Muçulmano. Os cristãos copiaram o artefato dos árabes e o utilizaram nas cruzadas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAVitruvio, o grande engenheiro e arquiteto romano do século I aC, descreve Catapultas capazes de lançar pedras de 160 kg a uma distância de 400m. Alguns modelos lançavam também flechas com grande precisão, como as chamadas Catapultas de Arco Flexível.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste tipo de Catapulta foi desenhado baseando-se nos arcos da época. Seu grande inconveniente era que, na medida em que o arco aumentava de tamanho, o esforço para aplicar a tensão também aumentava consideravelmente, diminuindo sua manejabilidade. A solução encontrada foi suprir a força humana  por artefatos mecânicos incorporados à máquina. Abaixo, vemos outro tipo de máquina utilizada na antiguidade, a Balesta

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Utilizado pelos romanos, o Ariete Móvil constituiu uma das armas mais poderosas de seu temível exército (quem não viu uma destas armas nos filmes de época, em que o grande tronco de madeira central era empurrado com toda a força para derrubar as portas das muralhas…).

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