Museu do Azeite – Illescas (Parte 2)

Neste segundo post sobre o Museu do Azeite de Illescas veremos outros aspectos deste produto de grande tradição na Espanha, destacando principalmente seu método tradicional de fabricação. Para a comercialização do produto, e dependendo de sua qualidade, existem três tipos de azeite: O Azeite de Oliva Virgem Extra é aquele de máxima qualidade, sendo obtido diretamente das azeitonas unicamente através de procedimentos mecânicos. O seu grau de acidez não pode superar 0.8 %. O Azeite de Oliva Virgem segue os mesmos parâmetros de qualidade do anterior. A diferença é que não pode superar os 2 % de acidez. Por último, o Azeite de Oliva é obtido a partir do refinamento dos azeites que não alcançaram os critérios de qualidade dos demais (não pode superar o 1% de acidez).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs componentes principais das azeitonas constituem o azeite (23%), açúcares (19%), água (de 50 a 60%), celulose (6%) e proteína (menos de 2%). Sua cor pode variar do amarelo/dourado ao verde mais acentuado, dependendo dos pigmentos predominantes da azeitona no momento da colheita. No início, será mais verde devido à presença de clorofila. Na medida em que fica mais madura, perde clorofila, tornando-se mais amarelada. A variedade de Azeitona predominante na região de Illescas é a Cornicabra, ligeiramente amarga e um pouco picante. A Comunidade de Castilla La Mancha é a maior produtora da Espanha deste tipo de azeitonas. Abaixo, vemos uma foto da Almazara (fábrica onde se elabora o azeite) de Illescas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos motivos para a criação do Museu do Azeite na cidade foi o excelente estado de conservação das máquinas da Almazara, que seguia o padrão tradicional de fabricação do azeite de oliva. Evidentemente, o primeiro passo para a obtenção do azeite é a colheita das azeitonas de sua árvore, a Oliva ou Oliveira. Realizava-se manualmente com um golpe que se dava na árvore com uma vara flexível. Depois, separavam-se as azeitonas procedentes da mesma daquelas caídas no solo. Na Espanha, a colheita é realizada entre outubro e dezembro. Em seguida, efetua-se o transporte das azeitonas à Almazara.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa chegada das azeitonas na Almazara, inicialmente se separavam as azeitonas defeituosas das normais, que passavam por distintos processos de fabricação. A segunda etapa envolve processos de limpeza da azeitona, com o objetivo de eliminar folhas, pequenos talhos e pó, através de ventiladores de ar. Em seguida, se procede à lavagem das azeitonas com água para eliminar barro ou possíveis pedras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois, a azeitona é triturada por um moinho com o objetivo de facilitar a extração do azeite. O moinho da Almazara de Illescas está praticamente em desuso por sua baixa rentabilidade em relação aos atuais métodos utilizados. Por outro lado, é considerado um moinho de grande importância histórica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO rompimento da azeitona efetuada pelo moinho produz uma pasta que é pressionada para a saída do azeite. As gotas de azeite se aglutinam formando uma etapa oleosa com a finalidade de separar a água, a pele, a pulpa e o osso da fruta. Em seguida, se realiza um processo intermediário de separação dos componentes sólidos e líquidos, momento no qual é obtido o azeite de máxima qualidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA separação do azeite dos demais componentes realiza-se tradicionalmente pelo método de prensado. O método clássico é o que se realizava na Almazara de Illescas. A pasta oleosa é colocada sobre discos porosos feitos de fibra, colocados uma encima do outro. Os discos se colocam numa prensa, liberando a parte líquida da pasta. Atualmente esta parte do processo de fabricação do azeite é realizada pelo método de centrifugação, com a pasta sendo colocada num cilindro horizontal que gira a grande velocidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA próxima etapa do processo é a decantação, que se baseia na diferença de densidade, realizado em depósitos comunicados entre si nos quais o líquido permanece em repouso. Uma vez terminado e antes de ser engarrafado, o  azeite é filtrado para eliminar possíveis materiais indesejados em suspensão.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO azeite é armazenado e posteriormente envasado. Abaixo, vemos outras imagens do interior da Almazara de Illescas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos a matéria um um poema de Federico García Lorca denominado “Paisaje“, no qual o grande poeta rende uma homenagem aos campos de cultivo da Oliva, que podemos admirar em boa parte do território espanhol.

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Museu do Azeite – Illescas

Quando viajamos, muitas vezes no surpreendemos positivamente quando conhecemos algo que não esperávamos encontrar. Isso foi exatamente o que sucedeu comigo quando visitei o Museu do Azeite, situado em Illescas. A cidade situa-se numa zona plana com pequenas ondulações, um terreno propício para o cultivo da oliva. Foi a primeira vez que tive a oportunidade de conhecer um museu dedicado a um produto de grande tradição na Espanha, o Azeite de Oliva, e pude observar o processo tradicional de fabricação, as origens do cultivo da oliva, curiosidades a respeito da árvore e seu fruto, a azeitona, a história do museu, tudo isso com a ajuda das atentas e simpáticas funcionárias do museu. Na Espanha, as instalações onde se obtém o azeite de oliva denomina-se Almazara e foi em um destes locais onde se inaugurou o Museu do Azeite de Illescas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Almazara de Illescas está incluída dentro do patrimônio industrial e etnográfico da cidade, estando sediada numa típica construção castelhana do século XX. O lugar chama-se “El Molino del Marqués“, apesar de nunca ter sido propriedade de um marquês. O moinho, construído sobre um anterior que foi derrubado, é de mediados do século XX,  estando situado num local que compreendia três propriedades diferentes. Uma delas incluía o pátio, a fábrica de azeite, armazéns e um palomar (uma pequena construção que serve como “residências de palomas”, isto é, de pombas). Em outra situava-se a horta, jardins, a casa do proprietário e outras dependências.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERA Em 1947, a Almazara foi adquirida por uma família de Madrid e os últimos proprietários realizaram as gestões administrativas para que o local fosse vendido à Prefeitura de Illescas, em 2003. A partir deste momento, o local foi adaptado para sediar um Centro Turístico e Cultural, que inclui o Museu do Azeite, além de outros espaços, como Oficina de Turismo e salas onde podemos realizar atividades culturais relacionadas a gastronomia, artesanato e artes cênicas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Oliva ou Oliveira, uma árvore pertencente a família das Oleáceas, foi cultivado por primeira vez durante o período inicial do desenvolvimento da agricultura, há 7 mil anos atrás na região da Ásia Menor. Adaptou-se bastante bem às condições climáticas e de relevo na zona mediterrânea, que desde então tornou-se o principal centro de produção de azeitonas e do azeite de oliva. Foram os fenícios que levaram seu cultivo às costas do sul a Península Ibérica ao longo do século XI aC. Com a chegada dos romanos, sua expansão levou o cultivo a todas as partes do império. Os primeiros documentos escritos conhecidos sobre a Oliva constituem tábuas de barro de época micênica, realizadas durante o reinado do Rei Minos (2500 aC). Na Bíblia encontramos inúmeras referências a ela, bem como na Mitologia Clássica. A oliva cultivada é uma espécie de tamanho médio, de 4 a 8m de altura, dependendo da variedade. Possui um tronco grosso, como podemos ver no exemplar abaixo, cuja foto tirei no Parque Municipal de Illescas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma oliveira pode permanecer viva e produtiva durante séculos. Suportam altas temperaturas no verão, se possuem suficiente humidade no solo, e temperaturas de até 12 graus negativos no inverno. Sua fruta, a azeitona, e o azeite produzido possuem uma grande quantidade de efeitos benéficos para o organismo, pois facilitam o processo digestivo, são antioxidantes e previnem doenças cardiovasculares. Possui um valor calórico de 167 calorías para cada 100g.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Azeite de Oliva é considerado um azeite vegetal de uso predominantemente culinário, mas também tradicionalmente e ainda hoje empregado para usos cosméticos, medicinais, nas cerimônias religiosas e na iluminação. Quase um terço da polpa da azeitona está composta pelo azeite. Por isso, desde a antiguidade foi extraído através de uma pressão realizada por um moinho. Atualmente, cerca de 90 % da produção mundial de azeitona está destinada para a fabricação do azeite. A Espanha é o maior produtor mundial de Azeite de Oliva, produzindo quase a metade do total, seguido pela Itália e a Grécia. Abaixo, vemos algumas das variedades de azeitonas produzidas no país, dentro das mais de 260 cultivadas nos solos espanhóis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATradicionalmente, se armazenava o Azeite de Oliva em cântaros de cerâmica. Hoje em dia, os recipientes mais utilizados são feitos de garrafas PET, vidro, lata e papel revestido. Recomenda-se sempre a utilização de embalagens opacas que não permitam a entrada de luz, para que o sabor do azeite não seja alterado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cor do Azeite de Oliva não constitui um parâmetro nem é indicativo de sua qualidade. Por este motivo, durante as provas de degustação do produto, utilizam-se copos de cristais de cor azul translúcido, para que nao se possa distinguir sua cor e se deixe influenciar por ela, realizando a valorização de sua qualidade de forma adequada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo todo produto tradicional comercializado no país, como o Jamón e o Vinho, entre outros, existe um órgão regulador da qualidade do azeite de oliva, denominado “Denominación de Origen“. Na região de Illescas, chama-se D.O.Montes de Toledo, com uma grande quantidade de municípios produtores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, publicarei a segunda parte desta matéria sobre o Museu do Azeite de Illescas, enfatizando o processo de elaboração tradicional do produto…

Illescas – Segunda Parte

O motivo principal de minha visita à cidade de Illescas foi conhecer o Hospital Santuario de Nuestra Señora de la Caridad, o monumento mais famoso deste município castelhano. Minha curiosidade era poder admirar o legado que o grande pintor El Greco deixou para a posteridade neste lugar, sob a forma de vários quadros de temática religiosa, que ainda adornam suas dependências. No início do século XVI, o Cardeal Cisneros, um dos personagens religiosos mais importantes da Espanha, solicitou uma permissão à vila de Illescas para a construção de um convento  para a Ordem Franciscana no local que antigamente ocupava um monastério beneditino erguido por San Ildefonso (santo padroeiro de Toledo) no século VII. Em troca, o cardeal ordenou que fosse construído um hospital beneficente no local mais central do povoado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIniciado no início do século XVI, o hospital foi levantado junto com uma capela, onde se colocou uma imagem da Virgem da Caridade. Constituído por dois andares, sendo o inferior destinado às dependências hospitalarias e hospedagem e o superior para as tarefas administrativas, o edifício se conserva integralmente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa segunda metade do século XVI, o Hospital chegou a ser o mais frequentado de toda a Espanha. No ano de 1600 foi inaugurado o Santuário em homenagem a N.Sra da Caridade, que se comunica com o hospital através de um acolhedor pátio. De estilo renascentista, a igreja foi projetada por Nicolás Vergara El Joven, o mais importante representante da arquitetura toledana do século XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATanto o hospital, quanto o santuário, albergam inúmeros tesouros artísticos, com destaque para os quadros pintados por El Greco, como o retábulo maior em honra à Virgem da Caridade, realizado em 1603, e outros com temas relacionados à Virgem Maria. Sua importância radica em que permanece no mesmo local onde os quadros foram realizados, e não num museu, como normalmente ocorre com as obras de El Greco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente o hospital e o santuário são administrados pela Funcave, uma fundação que permanece realizando as finalidades benéficas da instituiçao, de caráter social, sanitário, educativo e religioso. Sua origem se remonta ao final do século XIX, quando Don Manuel de Vega y López realizou um donativo para que a instituição pudesse manter seus objetivos originais. No pátio podemos ver um busto em sua homenagem, além de uma placa comemorativa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO local possui também um interessante museu inaugurado em 2005, com pinturas, esculturas e objetos litúrgicos. Lamentavelmente as fotos, tanto das obras de El Greco, como do interior do santuário, estão proibidas, de forma que abaixo adiciono o site da fundação, onde vocês poderão apreciar os quadros do famoso pintor:

Depois de realizar uma visita guiada a este interessantíssimo lugar de Illescas, ainda tive tempo de conhecer outros monumentos da cidade, como o Ayuntamiento da cidade, e um belo parque…
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Na hora de almoçar, escolhi um restaurante que pertence a um hotel da cidade, com um atraente Menú que incluía uma Parrillada de Verduras de primeiro prato, Lombo de Lubina com um delicioso molho de segundo e morango com chantilly de sobremesa, além de pão, azeitonas e vinho, com um custo total de 20 euros…
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Depois do almoço, fui conhecer o Museu do Azeite, um lugar que vale a pena visitar, e que será o tema do próximo e último post sobre Illescas

 

Illescas – Castilla La Mancha

Minha grande curiosidade pelo patrimônio histórico e artístico da Espanha me levou desta vez a conhecer a cidade de Illescas , situada na Comunidade de Castilla La Mancha. Localizada apenas a 40 km do centro de Madrid, Illescas encontra-se a meio caminho entre a capital do país e Toledo. Esta localização estratégica possibilitou que a cidade adquirisse uma grande importância histórica ao longo dos séculos, transformando-se na terceira maior cidade da Província de Toledo, com cerca de 30 mil habitantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASegundo os restos arqueológicos encontrados, Illescas esteve habitada desde a pré-história. Também existiu um povoado celtíbero desde finais do século V ao II aC, e no período romano contou com um povoamento. Em época árabe, se construiu um Alcázar (fortaleza defensiva) que foi tomado pelo Rei Alfonso VI logo depois de ter sido reconquistada em 1085. O mesmo rei foi o responsável por sua reconstrução e repovoamento. Com  crescimento da vila, Alfonso VI ordenou sua fortificação, através da construção de uma muralha formada por 5 portas de acesso. A única que se conservou é o denominado Arco de Ugena, por onde se realizava a fiscalização e o controle de mercadorias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACom o tempo, Illescas passou a ser propriedade do Arcebispado de Toledo, condição que manteve até 1575, quando se submete a jurisdição real. Abaixo, vemos o escudo da cidade

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIllescas conta com um importante patrimônio religioso, com destaque para a Igreja Paroquial de Santa María

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEdificada entre os séculos XIII e XVI, apresenta uma curiosa combinação de estilos, devido às distintas etapas construtivas de sua dilatada história.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente construída no estilo românico-mudéjar, seu aspecto atual data de uma reforma realizada nos séculos XV e XVI. Sua esbelta torre mudéjar é uma maravilha…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja, por sua importância histórica, foi declarada Monumento Nacional em 1920. Abaixo, vemos detalhes mudéjares da torre…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa praça onde se localiza a igreja apreciamos também uma farmácia histórica, fundada em 1888.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro edifício religioso que integra o patrimônio histórico de Illescas é o Convento de la Concepción de la Madre de Dios, fundado por uma bula papal em 1514, cuja iniciativa de sua construção se deve a um dos personagens religiosos mais relevantes da história da Espanha, o Cardeal Cisneros, que teve um papel fundamental no desenvolvimento da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, publicarei a segunda matéria sobre esta cidade castelhana…

A Judería de Toledo: Parte Final

A sociedade plural e tolerante de Toledo inicia sua decadência a partir do século XIV. Em 1391 ocorreram os primeiros ataques dos católicos contra a Judería Toledana. A convivência entre ambas comunidades se agravou quando o Rei Pedro I de Castilla, último monarca que protegeu a judeus e muçulmanos, foi assassinado por seu irmao Enrique de Trastámara durante a guerra civil travada em Castilla pelos direitos de sucessão ao trono. Nesta época, os monarcas castelhanos empreenderam um proceso para a construção de um estado moderno com a oposição da nobreza, que desejava manter seu poder. Estes viam na comunidade judaica colaboradores do poder real, que fez com que aumentasse o ódio dos inimigos que não desejavam o fortalecimento dos monarcas. Samuel Leví, tesoureiro maior de Pedro I, prestou inúmeros serviços para o rei. No entanto, devido aos problemas entre cristãos e judeus, o rei proibiu a construção de novas sinagogas, mas não pôde negar a seu amigo que edificasse a Sinagoga do Trânsito, pelo apoio recebido contra seu irmão Enrique, que almejava o trono. Apesar disso, o rei mandou prendê-lo e logo depois foi executado em 1361. Abaixo, vemos uma foto desta Sinagoga, atualmente sede do Museu Sefardí.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão se sabe exatamente quantos judeus viviam na Espanha na Idade Média, mas seguramente era o país com a maior população judaica da Europa. Em Toledo viviam cerca de 350 famílias, que representava a maior comunidade de Castilla. Em todo o país, existiam outras juderías importantes, como as de Sevilha, Barcelona, Zaragoza, Tudela, etc. Nos primeiros tempos da reconquista, os judeus gozaram de uma situação jurídica especial, pois os monarcas os consideravam uma propriedade real, pertencentes ao tesouro real, e por este motivo eram protegidos. Este fato possibilitou que os judeus tivessem acesso direto aos reis, e privilégios foram concedidos. Um deles constituía numa multa coletiva, aplicada a uma cidade quando aparecia um judeu morto e o assassino não era encontrado.

DSC09355Os cristãos não viam com bons olhos as doações realizadas pelos monarcas às comunidades judaicas, nem os privilégios que ostentavam. No século XIII entra em vigor a lei eclesiástica que proibia o empréstimo com juros (usura), justamente num momento em que vários membros da comunidade judaica se especializaram em negócios financeiros. O ambiente social se agravou com a chegada na Península Ibérica das idéias anti judaicas reinantes pelo resto do continente europeu, e a propaganda contra a comunidade cresceu por todas as partes. As acusações contra os judeus de terem envenenado a água e de profanar hóstias consagradas aumentaram com a peste negra que assolou o continente entre 1348 e 1350. Também no ano de 1391 chegou à Toledo San Vicente Ferrer, monge dominicano e anti judeu declarado, que exaltou os ânimos contra a população judaica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta época já existiam na Espanha judeus que se converteram ao catolicismo. A partir do momento em que começaram a ocupar cargos de importância se criou uma atmosfera de inimizade e ódio. Quando se descobriu que muitos deles mantinham seus antigos rituais hebraicos, iniciou-se uma guerra aberta contra as comunidades judaicas no país. Uma das mais importantes ocorreu em Toledo em 1449. Os ataques se sucederam e grande parte das 12 sinagogas da cidade foram destruídas, além de muitas das casas habitadas por judeus. Apenas se conservaram as duas sinagogas que vemos atualmente, a de Santa María la Blanca e a Sinangoga do Trânsito, pois foram transformadas em igrejas católicas. Abaixo, vemos uma imagem interior da Sinagoga de Santa María

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara solucionar o problema converso, os Reis Católicos obtiveram em 1478 uma bula papal autorizando a criação do Tribunal de Santo Ofício da Inquisição. Dois anos depois, foram nomeados os primeiros inquisidores, que começaram a atuar em Sevilha, e instigaram os monarcas para que a comunidade judaica fosse expulsa do país. Em 1480, foi promulgada uma lei real em Toledo que estabelecia novos bairros para a população judaica, situado fora do centro histórico da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, em 1492 os Reis Católicos decretaram o édito de expulsão dos judeus da Espanha. Num prazo de 4 meses, todos aqueles que não optassem pela conversão tiveram que deixar o país. Os bens comunitários, sinagogas e cemitérios, por exemplo, foram confiscados pelo tesouro real. A expulsão gerou uma série de problemas, originados pela falta de pessoas com boa preparação intelectual e mão de obra qualificada. Muitas foram as explicações dadas pelos estudiosos sobre a decisão dos Reis Católicos, como a própria ambição real, que desejavam confiscar os bens da comunidade judaica. Outra razão foi a luta entre a nobreza e as grandes somas de dinheiro que os reis e a própria nobreza deviam a financeiros judaicos. Os judeus que permaneceram no país, obrigados à conversão, tomaram esta atitude para não perder seus bens, mas continuaram a serem perseguidos, principalmente quando mantinham suas tradições na intimidade do lar. Os judeus conversos foram apartados do poder, já que lhes exigiam responder ao denominado estatuto de “Pureza de Sangue“, sendo obrigados a demonstrar que seus antepassados eram cristãos velhos. Abaixo, vemos tumbas hebraicas de época medieval na Sinagoga do Trânsito.

DSC09454Se desconhece o número de judeus que partiram para outras terras, principalmente Portugal, Países Baixos, sendo que muitos foram acolhidos pelo antigo Império Otomano. O édito de 1492 representou um grande acontecimento em toda a Europa. Espanha, a terra européia judaica por excelência, lhes expulsava de seu território. Somente em 1968 se reconheceu oficialmente a abolição do édito promulgado pelos Reis Católicos. A comunidade judaica voltou a viver no país, e atualmente existem 12 delas espalhadas pelo território espanhol, principalmente em Madrid, Barcelona, Valencia, Palma de Mallorca, etc. Abaixo, vemos uma homenagem de Toledo aos judeus que viviam na cidade e que foram confinados e assassinados nos campos de extermínio nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de 1492, o Bairro da Judería foi abandonado e ficou esquecido, mas muitas instituições religiosas católicas construíram conventos e monastérios em seu perímetro, como o Monastério de Santo Antônio, instalado em 1525 por uma comunidade de freiras franciscanas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOu o Convento de Carmelitas Descalças, a quinta instituição fundada por Santa Teresa de Ávila em seu processo de renovação da Ordem Carmelita (1569), que encontrou abrigo na Judería de Toledo….

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A Judería de Toledo: Parte 4

Desde suas origens, a Judería de Toledo foi um bairro residencial, pois a atividade comercial se desenvolvia no centro da cidade. Ainda que os judeus podiam viver em qualquer parte da cidade, a maioria preferiu viver na zona oeste do recinto de muralhas da cidade, no local designado à comunidade judaica durante a dominação árabe. No bairro não existia uma muralha própria que o protegesse, estando composto por ruas estreitas e sinuosas, algumas delas sem saída.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma de suas ruas principais é a atualmente denominada Calle del Ángel, uma das artérias mais antigas de Toledo e que separava a judería com o resto da cidade. No meio da rua vemos um cobertizo, curiosas estruturas urbanas abundantes no centro histórico de Toledo (matéria publicada em 19/7/2017).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nome desta rua se deve a uma pequena estátua gótica, decorada com um leão, situada na mesma. Uma lenda diz que uma dama da corte ficou doente e que um anjo lhe apareceu anunciando sua cura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa Judería Toledana existiam estabelecimentos próprios para os banhos públicos e rituais (chamados Miqvés), e hoje em dia se conserva um deles na Calle del Ángel, que pode ser visitado. Infelizmente, nunca tive sorte, pois sempre que vou à cidade o encontro fechado. Este banho foi construído entre os séculos XI e XII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs casas do bairro judeu, como as demais da cidade de Toledo, contava com um ou dois andares acima do térreo, além de uma parte subterrânea, aqui na Espanha denominada sótão. Normalmente, no interior das residências havia um pátio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma destas partes subterrâneas pode ser vista no Museu de El Greco, e sua estrutura lembram covas onde se instalaram armazéns de depósito e também um importante banho ritual.

DSC09382Normalmente possuíam um formato quadrado com cúpula octogonal, e podiam ser utilizados como reserva de água para os banhos ou como um local de banhos propriamente dito. Estas galerias constituem os únicos restos conservados do palácio que Samuel Leví, tesoureiro maior do Rei Pedro I, mandou construir a mediados do século XIV.

DSC09385Outra rua importante da Judería de Toledo é a atual Calle de San Juan de Dios, no século XV chamada de Calle de la Judería

OLYMPUS DIGITAL CAMERADentro dos limites da Judería Medieval existiam dois castelos, os chamados velho e novo. Infelizmente se conservam apenas ruínas, e poucas as informações referentes a eles. O Castelo Velho situava-se próximo à Sinagoga de Santa María La Blanca, e atualmente no local onde se localizava existe um hotel, que exibe restos do castelo em seu interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJá o Castelo Novo situava-se próximo à Ponte de San Martín, e atualmente podemos observar um muro e duas das torres da antiga fortaleza.

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A Judería de Toledo: Parte 3

Depois que a cidade de Toledo foi reconquistada pelo monarca Alfonso VI em 1086, a boa convivência entre cristãos, árabes e judeus prosseguiu. Muitos dos muçulmanos mais ricos preferiram, no entanto, mudarem-se para a Andalucia, zona que ainda era governada por dirigentes árabes. Os que permaneceram na cidade passaram a ser denominados Mudéjares, que realizaram diversas construçoes para os reis castelhanos, contribuindo para o desenvolvimento do estilo mudéjar na cidade, uma de suas principais características e o estilo por excelência encontrado em Toledo. Abaixo, vemos um exemplo deste tipo de arquitetura encontrado na Judería de Toledo, a Igreja de Santo Tomé, famosa por acolher em seu interior o famoso quadro de El Greco, “O Enterro do Senhor de Orgaz”, tema de matérias publicadas em 28/1 e 29/1/2015. 

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA comunidade judaica prosperou porque alguns de seus membros foram nomeados para cargos de relevância dentro da corte, como conselheiros, médicos, astrólogos, financiadores etc, concedendo importantes benefícios para a sociedade judaica. Uma das personalidades mais famosas da Judería de Toledo foi Samuel Leví, tesoureiro maior do Rei Pedro I de Castilla.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASamuel Leví foi o responsável pela construção de uma das sinagogas mais importantes de Toledo no século XIV (1357), denominada Sinagoga do Trânsito. Em 1971 passou a ser sede do Museu Sefardí, e representa um exemplo vivo da passagem da comunidade judaica pela Espanha e outra amostra do Mudéjar Toledano. Abaixo, vemos uma foto exterior deste templo de visita obrigatória…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma imagem do interior da Sinagoga do Trânsito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Judería de Toledo chegou a contar com 12 sinagogas e 5 centros de estudo, dados que refletem a importância da comunidade na cidade castelhana. A outra sinagoga que se conservou, construída no final do século XII e declarada Monumento Nacional, é a Sinagoga de Santa María La Blanca, considerada a Sinagoga Maior de Toledo (matéria publicada em 27/6/2012).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Sinagoga de Sofer constituiu outro dos templos judaicos de importância, segundo as fontes documentais. No entanto, desta sinagoga se conservam apenas ruínas, que podem ser vistas em frente à Escola de Artes e Ofícios (publicado recentemente, em 22/7/2017), junto com restos arqueológicos referentes ao sistema hidráulico de época romana. Um pequena fonte de água identifica os restos conservados e na parte subterrânea podemos ver as ruínas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém das comunidades árabes e judia, a comunidade cristã se incrementou de forma notável depois da reconquista de Toledo. Num primeiro momento, os antigos mozárabes (católicos que viveram sob o poder muçulmano) conservaram suas tradições e continuaram utilizando o idioma árabe para a escritura de documentos. Numerosos grupos chegaram à cidade oriundos do norte da península, Portugal, França e da Europa Central. Este conjunto de culturas distintas estabeleceram laços de convivência, mas eram regidos por suas próprias leis. A sexta feira, por exemplo, era o dia sagrado para os muçulmanos, o sábado para os judeus e o domingo para os católicos. Seus rituais eram diferentes, e sua forma de vestir e de se alimentar também. Apesar disso, os membros das três culturas passeavam pelas mesmas ruas, compravam nos mesmos estabelecimentos comerciais, existindo relações de amizade e amor entre eles. É neste período em que se manifesta o auge cultural da cidade, culminando na fundação da famosa Escola de Tradutores de Toledo pelo Rei Alfonso X “El Sábio” (reinou entre 1241 e 1264), uma instituição na qual se reunia os grandes sábios das três comunidades. Foram eles que realizaram a tradução do árabe e do hebreu para o latim das grandes obras filosóficas e científicas da antiguidade clássica. Também nesta época se completa a configuração urbana herdada dos árabes, formada por um labirinto de ruas com construções mudéjares que propiciaram uma certa uniformidade à paisagem de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a Porta del Cambrón, considerada a porta de acesso à Judería de Toledo. De origem muçulmana (séculos X e XI), seu nome se deve à presença no local de plantas espinhosas denominadas cambroneras, mas sempre foi conhecida como a Porta dos Judeus.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASeu aspecto atual é o resultado de reformas realizadas entre 1572 e 1577 durante o reinado de Felipe II, quando foi rebatizada como Porta de Santa Leocádia, padroeira da cidade, cuja imagem preside a porta, debaixo do escudo de Felipe II.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir vemos uma foto da parte externa da Porta del Cambrón

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