Na Torre da Catedral de Ávila

A Catedral de Ávila é outra das atrações históricas da cidade, e foi tema de uma série de 3 posts, publicados nos dias 21, 22 e 23/01/2017. Considerada a primeira catedral de estilo gótico na Espanha, foi edificada como templo e como fortaleza, já que o ábside da construção constitui um dos cubos da própria muralha de Ávila, algo inédito nos edifícios catedralícios, como vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão se sabe com precisão quando começou a ser levantada. A teoria mais aceita diz que data de mediados do século XII, cujo projeto foi realizado por um mestre francês chamado Fruchel, coincidindo com o processo de repovoamento de terras castelhanas por Raimundo de Borgoña, genro do Rei Alfonso VI. A parte construída por Fruchel, correspondente ao altar maior da catedral, se insere no estilo românico de transiçao ao gótico. Posteriormente, outros mestres finalizaram as obras da catedral (naves, capelas e o remate das torres) já no estilo gótico. Abaixo, vemos a fachada principal da Catedral de Ávila e seu impressionante aspecto de fortaleza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo vemos na imagem acima, se construiu apenas uma torre, a outra permaneceu inacabada. O primeiro corpo da torre campanário data do século XIII, assim como as naves da igreja. As bôvedas (teto) e o segundo corpo da torre campanário datam do século XIV. No século XV, finalmente se finaliza todas as obras da catedral. Abaixo, vemos uma foto de seu interior, destacando sua bôveda de crucería, característica da arquitetura gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesta última vez que estive em Ávila com o Marcelo, a Cristina e o Ernesto, tivemos a oportunidade de subir no alto da torre campanário, um passeio imperdível que proporciona visitar lugares de uma catedral que normalmente estão fechados ao público. Antes de chegar na parte mais elevada da torre, pudemos contemplar umas excelentes vistas da nave central da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA torre campanário possui 7 sinos (campanas, em espanhol), cada qual com seu nome de batismo, como “Maria Teresa”, “Platera”, devido à presença de prata em sua fabricação, ou “San Segundo”, em homenagem ao Santo Padroeiro de Ávila. Abaixo, vemos algumas delas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, uma foto da torre inacabada, que foi fechada com tijolos, mas que deixa à vista uma parte da construção de pedra…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA visita inclui um elemento que normalmente os visitantes não têm acesso, a estrutura de madeira construída como sustentação do telhado ou cobertura da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto curioso foi observar as diversas marcas de canteiros ao longo da construção. Estas marcas talhadas na pedra constituem uma espécie de assinatura dos trabalhadores que colaboraram na edificação da catedral. Cada um deles possuía uma marca diferente e, desta forma, podiam cobrar pelo trabalho realizado. As marcas de canteiros são habituais nas catedrais românicas e góticas. Abaixo, vemos algumas das que descobrimos no passeio…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto que me surpreendeu está relacionado com o antigo ofício dos campaneiros. Na realidade, este termo se refere a dois ofícios tradicionais, designando aqueles responsáveis pela fabricação dos sinos (elaboração do molde e posterior fundição do metal) e também às pessoas que realizavam os toques das campanas. Sempre pensei de como seria a vida destes trabalhadores que executavam este trabalho de tocar os sinos e, na visita à torre, muitas perguntas foram respondidas. A primeira questionava onde viviam e o mais curioso, é que residiam na própria torre, ao nível dos próprios sinos. A torre da Catedral de Ávila conserva maravilhosamente a casa do campaneiro. De estilo castelhano humilde, parece incrível que se manteve intacta. Os campaneiros nela viveram até os anos 50 do século XX. A residência possuía sala, alcobas, cozinha com chaminé, banheiro, etc…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA casa dos campaneiros foi construída aos pés da catedral, sobre a bôveda gótica. Para visitá-la, subimos os 113 degraus de uma escada em espiral, que salva a diferença entre o solo da catedral e sua cobertura. Nela se desenvolvia  a vida familiar dos campaneiros, sendo praticamente tarefa de todos seus membros realizar o toque das campanas, durante todo o dia. Frequentemente, o ofício passava de pai para filho, e as condições de vida eram extremamente duras, como nos explicou o guia que conduziu a visita. Em primeiro lugar, tinham que suportar um frio aterrador, numa cidade na qual as temperaturas normalmente atingem mínimas negativas, e muitos padeciam de doenças respiratórias. Além do mais, muitos campaneiros, depois de uma longa vida dedicada ao ofício, ficavam surdos com o forte som decorrente dos sinos. Em seus momentos de ócio, construíram pequenos jogos talhados nas pedras da torre (algo parecido com o atual jogo de damas), como vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs dificuldades de acesso a esta peculiar residência fizeram com que fossem criados mecanismos de abastecimento e comunicação com o mundo exterior. O sistema implantado na Catedral de Ávila se resume a uma corda atada a uma polea que se utilizava para para subir alimentos e água, além de outros objetos essenciais à vida, e para baixar tudo aquilo que já não servia. Abaixo, vemos o sistema desde o solo da catedral e em sua parte superior, junto à casa dos campaneiros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante séculos as campanas funcionaram como uma forma de comunicação social, anunciando festas, falecimentos e os atos litúrgicos, entre outros. O ofício de campaneiros data do período medieval em sua concepção atual. Atualmente, está em perigo de extinção com o desenvolvimento de métodos eletromecânicos para os toques de sinos e muitos aspiram que o toque manual seja declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. As campanas e seus variados sons constituem um maravilhoso universo, e seu estudo denomina-se Campanologia. Para saber mais sobre elas, ver as matérias publicadas em 6 e 7/3/2018, cujo tema foi o Museu das Campanas da belíssima cidade de Urueña, também situada na Comunidade de Castilla y León.

Caminhando pela Muralha de Ávila

Qualquer pessoa que tenha a oportunidade de conhecer a cidade de Ávila se impressiona por sua muralha, uma das estruturas de caráter defensivo de maior relevância em todo o continente europeu. A Muralha de Ávila foi o tema de dois posts publicados em 17 e 19/1/2017, e em minha recente visita com meus amigos brasileiros tivemos o privilégio de conhecer outra parte da estrutura que eu ainda não tinha visitado. Abaixo, vemos uma panorâmica da muralha, cuja foto foi tirada desde o chamado mirante dos Quatro Postes.

20160612_124733Esta incrível estrutura militar data do período românico, e segundo numerosos estudiosos é considerada a maior e mais conservada muralha desta época, sendo construída no final do século XI. De fato, trata-se da única construção defensiva da Europa Cristã que se conserva tal e como foi edificada originalmente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua construção foi realizada logo depois que a cidade foi reconquistada pelo Rei Alfonso VI de Castilla, que encarregou seu genro Raimundo de Borgoña (casado com a Infanta D.Urraca, filha do monarca) que repovoasse a cidade e construísse a muralha. A construçao durou apenas 9 anos, de 1090 a 1099, e segundo a tradição o projeto foi realizado por dois mestres da geometria, o romano Casandro e o francês Florín de Pituenga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Muralha de Ávila possui 2516 metros de perímetro, estando composta por 87 torres e 9 portas de acesso. Seus muros possuem cerca de 3m de grossura e sua altura alcança os 12m. Seu perímetro exterior pode ser percorrido à pé, algo que recomendo, pois o passeio nos permite observá-la de vários ângulos diferentes e compreender sua real dimensão. O mais interessante é que se pode percorrer a parte mais elevada da estrutura, num percurso de cerca de 1700 metros (entrada de 5 euros). Abaixo vemos uma grande maquete da muralha…

20161120_125219A parte superior de uma muralha se conhece como Adarve, uma estreita passagem onde os guardas que a protegiam realizavam o denominado caminho de ronda. O trecho principal que se pode caminhar possui 1400m, e já tinha realizado diversas vezes. O trecho menor, de 300 metros, percorri por primeira vez com meus amigos. O caminho não é contínuo devido à presença da Catedral de Ávila, cujo ábside faz parte da própria muralha, algo realmente insólito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO passeio pelo Adarve proporciona belíssimas vistas da cidade intramuros…

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OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara que fosse construída se utilizou pedra de granito de cores negra e cinza, e alguns materiais procedem de uma antiga necrópole romana, além de edifícios civis e das anteriores muralhas romana e do período visigodo. Podemos admirar também as vistas exteriores da cidade, com muitas das igrejas românicas que integram o excepcional patrimônio histórico desta cidade castelhana, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos elementos de maior destaque da Muralha de Ávila é a Porta do Alcázar, formada por duas grandes torres semicirculares unidas por uma ponte, singular e única entre as muralhas européias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATanto esta porta, quanto a similar Porta de San Vicente, encontram-se situadas num terreno plano. Por este motivo, estavam mais expostas ao ataque inimigo, de forma que foram melhor fortificadas. Abaixo e acima,vemos fotos da Igreja de San Pedro, de estilo românico e situada numa praça onde se celebram os grandes eventos festivos da cidade, além do mercado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs muralhas constituem um aspecto fundamental do urbanismo das cidades medievais e historicamente contribuíram de forma decisiva na distribuição do espaço urbano entre os diversos grupos sociais que nelas viviam. Representavam a separação do mundo civilizado, situado no interior da muralha, com o mundo selvagem. No campo viviam os camponeses, a classe social menos favorecida, e sobre eles recaiam 80% dos custos da infraestruturas urbanas, como a manutenção da própria muralha. Incrível, verdade ?

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Um Passeio por Ávila

Ávila é uma cidade da Comunidade de Castilla y León cujo patrimônio histórico-artístico surpreende a todos (as) aqueles (as) que a visitam. Seu centro histórico encontra-se rodeado por sua inigualável muralha medieval. A cidade conta com inúmeras igrejas românicas, além de sua catedral com formato de fortaleza. Nela nasceu uma das santas católicas de maior importância dentro do cristianismo, Santa Teresa de Jesús, com abundantes lugares associados à sua vida. Recentemente retornei à Avila com um casal de amigos brasileiros, apaixonados pela Espanha, o Marcelo e a Cristina, que me apresentaram a um novo amigo, o Ernesto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANosso roteiro pela comunidade incluiu, além de Ávila, outra cidade imprescindível, a também histórica Salamanca. Em Ávila permanecemos um dia inteiro, e nos hospedamos num excelente hotel localizado ao lado da Catedral de Ávila, situado num dos inúmeros palácios nobres da cidade, outra de suas atrações históricas. O chamado Palácio de los Velada foi construído no final do século XV e início do XVI, e sua fachada inclui uma esbelta torre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs Palácios de Ávila foram o tema de vários posts publicados em 25, 26 e 30/1/2017, mas desta vez tive o privilégio de hospedar-me num deles, pois foi convertido em hotel depois de uma cuidada restauração e inaugurado em 1995. Abaixo, vemos o pátio, transformado num local onde pudemos degustar as delícias de sua cozinha…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, outra imagem do interior do Palácio de los Velada, onde vemos alguns dos quartos do hotel.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAproveitamos nossa estadia para conhecer outros lugares que eu ainda não havia estado, como visitar os restos arqueológicos de fornos construídos no século XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstes fornos históricos tinham a finalidade de fabricar cerâmicas, um objeto imprescindível na vida cotidiana de antigamente. A exposição do museu ressalta sua importância, junto com várias peças de distintos períodos históricos. Abaixo vemos  exemplares da época romana (séculos IaC – VdC), conhecidas como “Terra Sigillata“, de tonalidade vermelha e decoradas em relevo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, cerâmicas do período medieval (séculos XI ao XVI)…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE cerâmicas modernas (XVI ao XVIII), uma época de grande prosperidade para Ávila, com uma grande quantidade de famílias nobres que se assentaram na cidade…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO recinto arqueológico está formado por um espaço retangular de 16x7m, com três fornos de 2.30m de diâmetro, cujo formato circular se insere dentro da tipologia árabe.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEstes fornos foram construídos num local pouco habitado da cidade intramuros, próximo ao Rio Adaja, que atravessa Ávila, como vemos a seguir junto com sua ponte medieval

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta fábrica onde o barro era cozido para a elaboração de cerâmicas permaneceu ativa até o século XVIII, quando esta atividade artesanal finalizou-se.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando a fábrica foi fechada, seu entorno foi preenchido com terra para a criação de uma horta. Os fornos foram descobertos em 1995, e depois de sua restauração com o objetivo de se inaugurar um museu, foi aberto ao público em 2014. A seguir, vemos fotos antigas que retratam a importância social das cerâmicas, bem como sua presença em obras pictóricas de pintores nascidos na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de visitar os fornos, percorremos uma parte da muralha aberta à visitação em sua estrutura mais elevada e subimos à Torre da Catedral, algo inédito em minhas frequentes visitas à cidade, que vocês poderão apreciar nas próximas matérias…

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Santuário de San Pedro Alcántara

Há cerca de 3 km de Arenas de San Pedro situa-se um dos monumentos de maior relevância da cidade, o Santuário de San Pedro Alcántara, o último convento fundado por seu santo padroeiro, em 1561.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara se chegar ao local, o ideal é percorrer o caminho à pé através de uma estrada muito frequentada pelos habitantes da cidade, que impressiona por sua beleza natural.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA construção do convento tinha como finalidade inicial a contemplação e a vida de penitência da comunidade de religiosos, dentro da linha de ascetismo proposta por San Pedro de Alcántara para os membros da Ordem Franciscana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO falecimento do santo em Arenas de San Pedro transformou o santuário num local de grande devoção e peregrinação para as milhares de pessoas que o visitam durante o ano. No dia 19 de outubro, recebe uma grande quantidade de pessoas que vêm de todas as partes da Espanha, para assistir a procissão com a imagem do santo pelos campos da região.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO santuário que vemos atualmente foi projetado pelo arquiteto Ventura Rodríguez, com a colaboraçao do Rei Carlos III no século XVIII. Se realizam visitas guiadas pelo interior do conjunto conventual, e várias são as dependências que se podem conhecer. De grande interesse é a Capela Real, parecida à Capela do Palácio Real de Madrid, também construída por Ventura Rodríguez. De planta octogonal, guarda os restos do santo numa urna situada no altar maior, e protegida por duas esculturas de alabastro, que representam a fé e a esperança.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtrás da urna, vemos a representação da apoteose do santo em sua ascensão ao céu, realizado pelo escultor Francisco Gutiérrez em 1773.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a cúpula da capela…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja conventual é a parte mais antiga do santuário (XVI), e conserva um retábulo dedicado ao santo. Abaixo, vemos a entrada da igreja…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE seu interior…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANa sacristia podemos admirar um móvel utilizado para guardar roupas litúrgicas que foi construído pelos Astecas, povo que dominou a zona central do México, e que acabou sendo submetido à conquista espanhola no século XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, vemos o claustro, adornado com pinturas relacionadas à vida do santo, além de uma coleção de cerâmicas de Talavera de la Reina do século XVIII, um dos maiores centros produtores de cerâmicas país.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO denominado Museu Alcantarino guarda uma série de documentos, objetos e obras artísticas relacionados com a vida do santo e também da época em que viveu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm outro espaço do santuário acolhe o Museu de Arte Sacra, que possui mais de 200 obras entre pinturas, esculturas, objetos e roupas litúrgicas, compreendendo o período  que vai desde o século XVI até o XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASua importante biblioteca possui um acervo de cerca de 18 mil livros, dos quais 165 pertencem ao século XVI e 325 ao século XVII. Em 1972, o Santuário de San Pedro de Alcántara foi declarado Monumento Histórico-Artístico Nacional, e constitui um motivo a mais para se conhecer a cidade de Arenas de San Pedro.

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San Pedro de Alcántara

Um dos personagens mais importantes da história de Arenas de San Pedro é justamente seu santo padroeiro, San Pedro de Alcántara (1499/1562), que aparece no nome da cidade. Este santo franciscano faleceu em Arenas, e próximo à cidade fundou um convento que acabou se tornando um centro de peregrinação, cuja história veremos no próximo post. Nasceu na cidade de Alcántara, pertencente à Comunidade de Extremadura, no ano de 1499, com o nome de Juan de Garavito y Vilela de Sanabria. Iniciou sua vida religiosa aos 16 anos de idade, quando decidiu ingressar num Convento Franciscano, momento em que muda seu nome para Pedro. Ordenado  sacerdote em 1524, ocupou vários cargos na instituição e realizou inúmeras viagens pela Península Ibérica com o objetivo de fundar novos conventos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitas destas viagens foram realizadas à pé, nas quais o santo deixava mostras de sua santidade. Caminhava dempre descalço, vestido com o hábito da ordem. Comia pouco e sempre olhava para o chão, de forma que os monges o conheciam somente por sua voz. Em 1537 realizou uma viagem à Portugal, que se tornou o início de uma relação com a família real portuguesa que se manteve até sua morte. Entre 1541 e 1543 fundou diversas instituições religiosas no país. Em 1559, publica em Lisboa o livro “Tratado de Oração e Meditação“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPedro de Alcántara acreditava que a Ordem Franciscana deveria retornar ao primitivo espírito de pobreza, elemento primordial desde que a ordem foi fundada por São Francisco de Assis no início do século XIII. Para tanto, realiza uma reforma que acabaria sendo aprovada pelo Papa Julio II em 1554. A partir deste momento, se esforça em fundar conventos reformados também em Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1560, o santo se encontrava em Ávila e teve a oportunidade de conhecer Santa Teresa. Entre ambos nasceu uma profunda e sincera amizade, e San Pedro passou a ser o conselheiro da santa , orientando-a para que iniciasse a Reforma Carmelita. Sua vida de penitência e mortificação impressionou a Santa Teresa, dedicando em sua Autobiografia três capítulos a Pedro de Alcántara. Abaixo, vemos um quadro em que ambos estão representados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAProvavelmente nesta viagem que realizou a Ávila, San Pedro de Alcántara conheceu em Arenas a Ermita de San Andrés del Monte, levantada no início do século XVI, e que se converteu no local escolhido para a fundação de um novo convento franciscano, atualmente conhecido com a denominação de Santuário de San Pedro Alcántara. Em 1562, fixa sua residência em Arenas, falecendo na cidade neste mesmo ano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa arte, o santo normalmente aparece representado calvo, imberbe e com a pele cheia de rugas, devido às muitas penitências a que se submeteu ao longo de sua vida. Vestido com o hábito franciscano, leva também um elemento distintivo da reforma, um rosário e o típico cordao com os três nós, simbolizando a obediência,  pobreza e a castidade. Também é frequente encontrá-lo em oração ou em êxtase, além de sua condição como escritor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1622, San Pedro de Alcántara foi beatificado, passando a ser o santo padroeiro de Arenas, e em 1669 foi canonizado pelo Papa Clemente IX. No próximo post, faremos uma “visita” ao Santuário de San Pedro, local onde foram tiradas as fotos publicadas nesta matéria.

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Castelo de Arenas de San Pedro

Um dos símbolos de Arenas de San Pedro, o castelo da localidade se destaca na paisagem urbana como um grande testemunho da história da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA fortaleza é conhecida como o Castelo del Condestable Dávalos, cuja construçao foi ordenada por Don Ruy López Dávalos, que ocupou  cargo de Condestable de Castilla no século XV, um cargo parecido ao de primeiro ministro. Foi edificado entre 1393 e1422 no estilo gótico, com o intuito do proprietário de ratificar seu domínio sobre estas terras que lhe form concedidos pelo rei Enrique III.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo entanto, o castelo nunca foi utilizado como uma fortaleza defensiva, apenas como residência nobre do proprietário. Além do mais, está localizado na parte baixa da cidade, ao contrário das construções defensivas que se situam no ponto mais elevado das cidades. O principal elemento construtivo do castelo é a pedra de granito. Possui uma planta quadrada e está formado por 4 torres circulares de 16 metros de altura cada, que foram colocados nas esquinas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo conjunto, o destaque fica por conta da Torre de Homenaje, de formato retangular e com 26 metros de altura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERALogo depois que a construção foi finalizada, o castelo passou a ser propriedade de Rodrigo Alonso Pimentel, II Conde de Benavente. Em 1430, o conde entregou o castelo a sua filha Doña Juana de Pimentel, depois de seu casamento com Don Álvaro de Luna (1390/1453), um personagem de grande importância na época. Vítima de uma conspiração organizada pela nobreza castelhana, foi decapitado na Plaza Mayor de Valladolid em 1453. Por este motivo, Juana de Pimentel acabou ficando conhecida para a posteridade como a “Condessa Triste“. Uma rua da cidade a homenageia…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm uma das salas da Torre de Homenaje podemos ver as principais personalidades relacionadas com a história do castelo, como a própria Juana de Pimentel e seu marido, representado ao lado do seu carrasco…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1460, Maria de Luna, filha do casal, se casou no castelo com D.Iñigo López de Mendoza, II Duque de Infantado. A partir de então, passou a ser propriedade desta importante família nobre. Abaixo, vemos o Pátio de Armas, que originalmente estava cercado por várias dependências, como armazéns, a cozinha, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do século XVII, o castelo se encontrava em péssimo estado, e no século XIX o Pátio de Armas se transformou numa prisão e depois no cemitério da cidade. Posteriormente, as tumbas foram levadas ao cemitério atual. Em 1853, o castelo foi adquirido pela Prefeitura de Arenas de San Pedro. A partir da década dos 70 do século passado, passou a ser utilizado como espaço para eventos culturais, concertos, exposições, etc. Pude admirar uma bela exposição de esculturas no interior da Torre de Homenaje.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs funcionários da Oficina de Turismo da cidade organizam visitas guiadas pelo castelo, proporcionando todas as informações sobre sua história e os acontecimentos mais relevantes ocorridos dentro de seus muros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADeclarado Monumento Histórico-Artístico em 1931, o castelo possui tanta importância em Arenas de San Pedro que passou a fazer parte do Escudo da cidade. O curioso é que o lema “Sempre incendiada e sempre fiel“, que aparece no escudo com o castelo sendo consumido pelas chamas, é uma mentira histórica, pois a fortaleza nunca chegou a ser incendiada. A cidade foi, sim, saqueada diversas vezes, mas um castelo pegando fogo ficaria mais interessante…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outras fotos deste belo castelo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERA

Arenas de San Pedro – Parte 2

No século XVIII, o pequeno município de Arenas de San Pedro converteu-se num local importante graças à presença de um membro da família real espanhola da época, o Infante Don Luis de Borbón y Farnésio (1717/1785), que estabeleceu  sua residência na cidade. Filho do Rei Felipe V (o primeiro monarca da dinastia bourbônica da Espanha) e de sua segunda esposa, Isabel de Farnésio, e irmão do Rei Carlos III, o infante Don Luis encarregou ao arquiteto Ventura Rodríguez (1717/1785), um dos mais renomados arquitetos do século XVIII no país, um grande palácio que ainda hoje podemos ver na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO infante havia sido desterrado da corte de Madrid depois de casar-se com Maria Teresa Vallabriga, considerado um matrimônio morganático, isto é, aquele que estabelece a união entre duas pessoas de classes sociais diferentes, impedindo que os filhos obtivessem títulos, privilégios e propriedades nobres. Anteriormente, o infante havia vivido num outro palácio, também construído por Ventura Rodríguez, numa cidade próxima a Madrid, Boadilla del Monte (ver post publicado em 19/3/2015), e posteriormente se mudou para Arenas de San Pedro. O palácio foi finalizado em 1783, mas a obra permaneceu inacabada, sendo que se construiu apenas a metade do projeto original, devido a sua grande envergadura e a avançada idade do infante.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEdificado no estilo neoclássico, destacam em sua arquitetura a simetria e proporção de suas linhas, além da sobriedade decorativa, elementos característicos do estilo. O infante Don Luis viveu poucos anos no palácio, coincidindo com uma época de grande prosperidade para a vila, e nele veio a falecer em 1785. Amante das artes e das ciências, o infante formou no palácio uma rica coleção de pintura e escultura, convocando diversos artistas famosos da época, como o grande pintor Francisco de Goya, que realizou um retrato do infante, sendo homenageado com o nome de uma praça situada ao lado do palácio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO infante criou também um Gabinete de História Natural e uma esplêndida biblioteca. Depois de seu falecimento, o palácio começou a ser esvaziado, processo que terminou em 1796. Em 1809, durante a Guerra da Independência Espanhola, o palácio foi ocupado pelas tropas francesas e transformado num seminário a partir de 1868, sendo destinado a este fim até 1972. Abaixo, vemos o esbelto pórtico de entrada do palácio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1988 o palácio foi adquirido pela prefeitura de Arenas de San Pedro, e passou a ser utilizado como local de exposições e, inclusive, para desfiles de moda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANum dos muros de um colégio da cidade, me chamou a atenção uma pintura, na qual foi representado o arquiteto Ventura Rodríguez, realizando o projeto do palácio…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de visitar o exterior do palácio, continuei minha caminhada em busca de outros lugares históricos, como o antigo Hospital de San Bartolomé, que acolheu a pobres e viajantes entre os séculos XVI e XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANuma das praças principais da cidade, vemos a Igreja de San Juan Bautista, que pertenceu ao desaparecido monastério carmelita fundado por Santa Teresa de Ávila no século XVI. Depois, passou a fazer parte de outro convento, pertencente à comunidade de religiosas da Ordem de Santo Agostinho, desde sua fundação em 1623 até o abandono do mesmo, provocado pela destruição do convento durante a ocupação francesa de 1809.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma geral da praça, com uma das inúmeras fontes históricas existentes na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara conhecer o patrimônio histórico da cidade, convém dar uma chegada em sua Oficina de Turismo, situada no edifício do Mercado de Abastos de Arenas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post sobre Arenas de San Pedro, vocês conhecerão um dos principais monumentos da cidade, seu imponente castelo…