Colegiata De Santa Maria – Toro (Parte 2)

Os templos medievais nao apresentam geralmente, nos dias de hoje, o aspecto com que foram inicialmente concebidos. A maioria das portadas góticas que sobreviveram, por ex., se apresentam com a pedra desnuda, sem a policromia original. Sua preservação se deve a um pórtico, claustro ou qualquer outra edificação que a isolasse das inclemências metereológicas. Foi o que aconteceu na Colegiata de Toro. A denominada Portada da Majestade é uma das poucas em território espanhol que conserva sua policromia de época gótica.

Seu excelente estado de conservação atual é resultado tanto do pórtico construído, quanto dos muros que foram levantados, originando uma capela no séc. XVII que ficou separada do templo principal. As restaurações efetuadas no final do século passado também contribuíram para que se mantivesse íntegra. Nestes trabalhos, foi recuperada a policromia original. Caso a parte foi a Virgem que preside o parteluz, onde se identificaram até 14 camadas de pintura, sendo que a que vemos atualmente corresponde a realizada no séc. XVI. Também durante as restaurações, descobriram uma inscrição, segundo a qual foi um tal de Domingo Pérez o pintor da estrutura, durante o reinado de Sancho IV.

Construída no séc. XIII, a Porta da Majestade possui um formato gótico, embora em seus detalhes esteja constituída por elementos do românico que o precede. A portada tem à Virgem como personagem principal.

No Tímpano, vemos a cena que representa a coroação de Maria por Cristo e em sua parte inferior, Maria está em seu leito de morte, rodeada pelos apóstolos e por dois anjos que levam sua alma.

O programa iconográfico contido na portada é riquíssimo. Está composta por 7 arquivoltas, cada qual representando imagens distintas. Partindo da arquivolta interior, de baixo para cima, a primeira representa anjos com incensários. Na segunda, reis e apóstolos. Na terceira, mártires. A quarta está constituída por personagens eclesiásticos. A quinta arquivolta recebe a santas da igreja e a sexta, reis músicos.

A mais importante porém, é a superior ou externa, em que representa um notável programa do Juízo Final, com cenas do Paraíso, do Inferno e do Purgatório, algo não habitual naquela época. Em sua parte central, vemos a Cristo e a seus lados, Maria e São João, além de 4 anjos com os atributos da paixão (coluna, clavos, cruz, lança e coroa de espinhos).

No costado deste grupo, se distribuem os justos e pecadores. Abaixo, vemos os primeiros.

Na imagem acima, observamos os justos sendo chamados pelo anjo que toca uma trompeta. Abaixo, os pecadores sendo levados por  figuras demoníacas.

Finalizando o conjunto de estátuas, vemos nas laterais, de uma lado, da esquerda para direita, a um Anjo, os profetas Isaías e Daniel e o rei Salomão.

Do outro lado, também da esquerda para a direita, o Rei David, talvez o profeta Jeremias, o profeta Ezequiel e o Arcanjo Gabriel.

Abaixo, um detalhe da portada.

Além dos relevos incluídos na Porta da Majestade, destacam outras 4 esculturas góticas, também policromadas, situadas nos pilares das naves. São elas:

O arcanjo Gabriel contém uma folha na qual se lê a saudação de Ave Maria. Em sua parte inferior, está representado o nascimento de Eva.

São João Evangelista, com motivos vegetais em sua parte inferior.

O apóstolo Santiago, que também aparece na parte inferior, entre duas figuras orantes.

Uma Virgem gestante carrega uma cinta na qual aparece uma abreviação da frase latina “Ecce Ancilla Domini”, que significa “Eis aqui a escrava do Senhor”. Em sua parte inferior está representado o pecado original. Feita aproximadamente no ano 1300, a policromia original é do séc. XVI.

Em relação à escultura funerária, existe um sarcófago junto a entrada da sacristia com um cavalheiro, do séc. XV.

Na capela maior, encontra-se o sarcófago das famílias Fonseca e Ulloas, esculpidos no séc. XVI.

Abaixo, vemos fotos da nave central e do órgão barroco.

A sacristia contém várias obras de arte, entre as quais um calvário renascentista feito de marfim de grande qualidade artística.

Nas fotos que seguem, vemos a parte interior do cimbório e vários retábulos que decoram o templo.

Finalizamos comentando que a Colegiata de Santa Maria vale, por si só, uma viagem á cidade de Toro. Porém, a vila surpreende por seus inúmeros lugares de interesse, como pudemos comprovar nesta série de publicaçoes dedicadas a ela.

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Colegiata de Santa Maria – Toro

Na Idade Média era comum a existência de grupos religiosos que auxiliavam os bispos em suas funções e viviam de forma similar aos monjes em torno aos monastérios. Esta comunidade de clérigos ou colégios situavam-se em templos que não possuíam o caráter catedralício, e que recibiam o nome de Colegiatas.

A Colegiata de Santa Maria La Mayor de Toro adquiriu esta conotação até mediados do séc. XIX, mas é difícil precisar a partir de quando obteve tal distinção. Alguns autores afirman que desde a época dos Reis Católicos, outros desde sua origem.

A verdade é que se ignora quase toda sua história primitiva. As datas de sua construção tampouco são precisas. Um indício sería a primeira documentação bibliográfica em que aparece o templo, datado de 1139. Porém, a maioria dos estudiosos confirmam que se trata de uma data muito antiga para o estilo arquitetônico da construção. Provavelmente, se refere a um templo anterior, que foi substituído pela colegiata.

Atualmente aceita-se como válida que foi erguida na segunda metade do séc. XII. O que se sabe com certeza é que os trabalhos de construção avançaram com muita lentidão, pois em 1240 consta que ainda não havia sido concluída. Muito mais rapidamente se ergueu a Catedral de Zamora, que serviu de modelo para a Colegiata de Toro.

De estilo românico de transição ao gótico, trata-se de um edifício espetacular, que foi escassamente modificado depois de terminada.

O cruceiro, local onde se encontram as naves que conformam a planta de cruz latina de uma igreja, habitualmente situado aos pés do altar maior, é um ponto geométrico importante dentro da arquitetura do templo. Os arquitetos freqüentemente o utilizavam para a construção de uma estrutura denominada cimbório, que eleva a altura do teto e propicia uma iluminação especial ao interior. Geralmente sua base é quadrada, octagonal ou redonda. Quando possui forma esférica, é denominada de cúpula.

Entre finais do séc. XII e princípios do XIII, 3 templos localizados num entorno geográfico próximo incorporaram este elemento: a Catedral de Zamora, a Catedral Velha de Salamanca e a Colegiata de Toro. Em conjunto, são conhecidos como os “Cimbórios do Duero”, e sua principal influência é de origem bizantina. A seguir, vemos algumas fotos do cimbório da colegiata.

Na cabeceira do templo, existem 3 ábsides, dos quais o central é o maior.

O rosetón é uma estrutura usada tanto no românico, quanto no gótico, e seu simbolismo o vincula à Virgem Maria. A colegiata possui vários deles.

A Colegita possui 3 portadas de interesse. Duas delas estão situadas no exterior, são de estilo românico e foram realizadas aproximadamente em 1170. A portada meridional é mais simples, cuja decoração se limita a motivos geométricos e vegetais.

Já a portada septentrional, pela qual normalmente entramos na igreja, é muito mais complexa. Sem dúvida, é uma das estruturas românicas mais belas do estilo em toda a Província de Zamora. Está formada por várias arquivoltas, sendo que a interior está formada por ornamentos vegetais e anjos esculpidos de meio corpo. Na seguinte, ao lado de um Cristo bendizendo, aparecem 14 anjos com incensários. A terceira também está decorada com motivos vegetais e, na última, aparecem os 24 ancioes do Apocalipse, tocando instrumentos musicais, ao lado de Cristo, sua mãe e um santo de barba.

A última porta está situada no interior do edifício, conhecida como a Porta da Majestade. De estilo gótico, é uma das mais notáveis de todo o país, e dela falaremos no próximo post, quando veremos o interior da colegiata. Um abraço a todos (as)…

Toro – Castilla y León (Parte 2)

Ao largo de sua história, Toro contou com tres recintos defensivos, representados por suas respectivas muralhas. Da primeira, nao se conserva praticamente nada. Entre os restos da segunda, está o Arco do Postigo, que junto com a Porta do Mercado representavam as duas entradas à cidade. Sobre o arco que se construiu na Idade Média, existe uma capela dedicada a N.Sra. La Antigua e em sua parte superior, vemos um relevo da Anunciaçao.

A chamada Porta da Corredera fazia parte do terceiro recinto defensivo. Levantada no começo do séc. XVII para receber o rei Felipe III, tinha uma funçao meramente decorativa, simulando um arco triunfal.

A Igreja de San Lorenzo El Real é outro exemplo de construçao Românica-Mudéjar que se encontra na cidade. Erguida no séc. XII, possui apenas uma nave, e no interior podemos admirar o sepulcro gótico de Pedro de Castilla e sua esposa Beatriz de Fonseca.

O Retábulo gótico, do séc. XV, foi executado por Fernando Gallego.

Abaixo, vemos fotos da nave central e do ábside, além do coro, com destaque para seu artesanato de madeira no estilo mudéjar.

Na foto que segue, vemos uma bela imagem que decora o recinto.

A ponte que cruza o rio Duero foi edificada com pedra arenítica. Consta de 22 arcos e sua origem é incerta. Sua parte principal pertence ao séc. XIII, sendo reformada em séculos posteriores.

A pesca ainda é uma atividade praticada pelos habitantes da cidade.

A Igreja de San Sebastian de Los Caballeros acolhe uma importante coleçao de pinturas murais, procedentes do Monastério de Santa Clara. Datam do séc. XIV e estao assinadas por uma mulher, Teresa Díez. Se ignora, no entanto, se ela foi a autora ou a promotora das obras.

Abaixo, vemos uma imagem do interior da igreja e do retábulo que possui.

Um pouco afastada do centro histórico da vila, a Ermita de N.Sra Del Canto guarda em seu interior a venerada imagem da padroeira da cidade.

A ermita foi construída no séc. XIII, mas muito reformada em épocas posteriores.

As próximas publicaçoes estarao dedicadas ao principal monumento artístico e histórico de Toro, a magnífica Colegiata de Santa Maria. Nao percam…

Toro – Castilla y León

A cidade de Toro, localizada no noroeste da península, pertence à Província de Zamora, Comunidade de Castilla y León. Banhada pelas águas do rio Duero, situa-se num cerro elevado.

Está identificada com a “Arcobala” que aparece nos textos antigos e que, juntamente com Salamanca, foi conquistada pelo general cartaginês Aníbal no séc. III aC. Antes da dominação romana, este território pertencia aos Vetones, um povo ibérico. Sua organização era basicamente militar, com uma classe guerreira e outra servil, dedicada à pecuária,  base de sua economia. A este povo se deve a cultura dos Verracos, por suas esculturas monolíticas, representando animais. Uma destas esculturas, um touro, esteve muito tempo junto à Colegiata de Santa Maria e, segundo uma teoria, pode ter originado o nome da cidade.

Depois da invaso muçulmana, foi reconquistada por Alfonso III (séc. IX). Mas foi somente com Alfonso VII que adquire importância, que não deixou de aumentar, até a época dos Reis Católicos.

Durante a Idade Média, tornou-se uma das mais prósperas cidades do Reino de León, principalmente por sua produção de vinho, famoso até os dias atuais.

Touro foi a sede das cortes reais em várias ocasiões, mas o acontecimento histórico mais relevante da vila foi sua participação na guerra pela sucessão do trono de Enrique IV de Castilla, entre Juana La Beltraneja e Isabel La Católica. Este conflito dividiu o Reino de Castilla, e contou também com a participação de Portugal e do Reino de Aragón. A cidade tomou parte por Juana, mas em 1476 as tropas isabelinas lograram a vitória na chamada Batalha de Toro, crucial para que chegasse ao poder.

Depois da morte de Isabel, seu marido, o rei Fernando El Católico, convocou as cortes na cidade em 1505, onde leu o testamento de Isabel e se proclamou rainha de Castilla a sua filha Juana. Diante de demonstraçoes de demência, foi nomeado regente seu pai, Fernando El Católico. A partir de então, inicia-se o declínio da cidade.

Atualmente, porém, Toro goza de uma intensa vida cultural, e seu vasto patrimônio é merecedor de muitos turistas que visitam a cidade. A porta de entrada de seu centro histórico é a Torre do Relógio, construída no séc. XVIII.

Diz uma lenda que na argamassa utilizada em sua construçao, foi usado vinho em vez de água, pois era mais barato utilizá-lo do que subir a água do rio Duero. A torre está situada sobre a antiga Porta do Mercado e foi levantada na época do rei Felipe V. O desenho do projeto foi obra de Joaquim Churriguera.

Depois de passar pelo arco da torre e descendo a rua, encontramos a Casa Consistorial, ou prédio da Prefeitura, de 1778.

Projetado pelo arquiteto Ventura Rodríguez, substituiu o antigo edifício, destruído por um incêndio. Na praça onde se situa, ocorrem as festas da cidade, com várias manifestações culturais.

A Igreja de San Salvador de Los Caballeros, é a típica construçao do Românico-Mudéjar, erguida com tijolos.

Do séc. XIII, a igreja pertenceu à Ordem Templária, até a extinção da mesma. Em 1929, foi declarada Monumento Histórico, o que evitou sua ruína. Atualmente, sedia o Museu de Arte Sacra, com uma bela coleção de esculturas medievais. Abaixo, vemos algumas delas, como este Cristo articulado pertencente ao séc. XIII.

No museu, encontramos belos sepulcros medievais esculpidos, como os de abaixo.

Na nave central, podemos admirar pinturas ao fresco de estilo mudéjar.

No ábside central, as pinturas que o decoram são posteriores, do séc. XVII. Devido às pinturas murais que acolhe em seu interior, o templo é conhecido também como San Salvador, El Pintado.

O Monastério de Sancti Spiritus, construído a partir de 1316, acolhe a freiras dominicanas e, no interior, acolhe o sepulcro de Beatriz de Portugal, seu maior tesouro. A instituição foi fundada pela infanta portuguesa D.Teresa Gil.

O Alcázar é o único resto conservado do antigo sistema defensivo da cidade. De planta quadrada, foi local de residência dos Reis Católicos e de Juan II de Castilla. Do protagonismo que teve durante a Batalha de Touro em 1766, no séc. XVI deixa de acolher os monarcas, iniciando sua decadência. Declarado Monumento Histórico-Artístico desde 1931.

No próximo post, seguiremos desvendando os segredos desta bela cidade…