Na Torre da Catedral de Ávila

A Catedral de Ávila é outra das atrações históricas da cidade, e foi tema de uma série de 3 posts, publicados nos dias 21, 22 e 23/01/2017. Considerada a primeira catedral de estilo gótico na Espanha, foi edificada como templo e como fortaleza, já que o ábside da construção constitui um dos cubos da própria muralha de Ávila, algo inédito nos edifícios catedralícios, como vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão se sabe com precisão quando começou a ser levantada. A teoria mais aceita diz que data de mediados do século XII, cujo projeto foi realizado por um mestre francês chamado Fruchel, coincidindo com o processo de repovoamento de terras castelhanas por Raimundo de Borgoña, genro do Rei Alfonso VI. A parte construída por Fruchel, correspondente ao altar maior da catedral, se insere no estilo românico de transiçao ao gótico. Posteriormente, outros mestres finalizaram as obras da catedral (naves, capelas e o remate das torres) já no estilo gótico. Abaixo, vemos a fachada principal da Catedral de Ávila e seu impressionante aspecto de fortaleza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo vemos na imagem acima, se construiu apenas uma torre, a outra permaneceu inacabada. O primeiro corpo da torre campanário data do século XIII, assim como as naves da igreja. As bôvedas (teto) e o segundo corpo da torre campanário datam do século XIV. No século XV, finalmente se finaliza todas as obras da catedral. Abaixo, vemos uma foto de seu interior, destacando sua bôveda de crucería, característica da arquitetura gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesta última vez que estive em Ávila com o Marcelo, a Cristina e o Ernesto, tivemos a oportunidade de subir no alto da torre campanário, um passeio imperdível que proporciona visitar lugares de uma catedral que normalmente estão fechados ao público. Antes de chegar na parte mais elevada da torre, pudemos contemplar umas excelentes vistas da nave central da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA torre campanário possui 7 sinos (campanas, em espanhol), cada qual com seu nome de batismo, como “Maria Teresa”, “Platera”, devido à presença de prata em sua fabricação, ou “San Segundo”, em homenagem ao Santo Padroeiro de Ávila. Abaixo, vemos algumas delas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, uma foto da torre inacabada, que foi fechada com tijolos, mas que deixa à vista uma parte da construção de pedra…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA visita inclui um elemento que normalmente os visitantes não têm acesso, a estrutura de madeira construída como sustentação do telhado ou cobertura da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto curioso foi observar as diversas marcas de canteiros ao longo da construção. Estas marcas talhadas na pedra constituem uma espécie de assinatura dos trabalhadores que colaboraram na edificação da catedral. Cada um deles possuía uma marca diferente e, desta forma, podiam cobrar pelo trabalho realizado. As marcas de canteiros são habituais nas catedrais românicas e góticas. Abaixo, vemos algumas das que descobrimos no passeio…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto que me surpreendeu está relacionado com o antigo ofício dos campaneiros. Na realidade, este termo se refere a dois ofícios tradicionais, designando aqueles responsáveis pela fabricação dos sinos (elaboração do molde e posterior fundição do metal) e também às pessoas que realizavam os toques das campanas. Sempre pensei de como seria a vida destes trabalhadores que executavam este trabalho de tocar os sinos e, na visita à torre, muitas perguntas foram respondidas. A primeira questionava onde viviam e o mais curioso, é que residiam na própria torre, ao nível dos próprios sinos. A torre da Catedral de Ávila conserva maravilhosamente a casa do campaneiro. De estilo castelhano humilde, parece incrível que se manteve intacta. Os campaneiros nela viveram até os anos 50 do século XX. A residência possuía sala, alcobas, cozinha com chaminé, banheiro, etc…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA casa dos campaneiros foi construída aos pés da catedral, sobre a bôveda gótica. Para visitá-la, subimos os 113 degraus de uma escada em espiral, que salva a diferença entre o solo da catedral e sua cobertura. Nela se desenvolvia  a vida familiar dos campaneiros, sendo praticamente tarefa de todos seus membros realizar o toque das campanas, durante todo o dia. Frequentemente, o ofício passava de pai para filho, e as condições de vida eram extremamente duras, como nos explicou o guia que conduziu a visita. Em primeiro lugar, tinham que suportar um frio aterrador, numa cidade na qual as temperaturas normalmente atingem mínimas negativas, e muitos padeciam de doenças respiratórias. Além do mais, muitos campaneiros, depois de uma longa vida dedicada ao ofício, ficavam surdos com o forte som decorrente dos sinos. Em seus momentos de ócio, construíram pequenos jogos talhados nas pedras da torre (algo parecido com o atual jogo de damas), como vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs dificuldades de acesso a esta peculiar residência fizeram com que fossem criados mecanismos de abastecimento e comunicação com o mundo exterior. O sistema implantado na Catedral de Ávila se resume a uma corda atada a uma polea que se utilizava para para subir alimentos e água, além de outros objetos essenciais à vida, e para baixar tudo aquilo que já não servia. Abaixo, vemos o sistema desde o solo da catedral e em sua parte superior, junto à casa dos campaneiros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante séculos as campanas funcionaram como uma forma de comunicação social, anunciando festas, falecimentos e os atos litúrgicos, entre outros. O ofício de campaneiros data do período medieval em sua concepção atual. Atualmente, está em perigo de extinção com o desenvolvimento de métodos eletromecânicos para os toques de sinos e muitos aspiram que o toque manual seja declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. As campanas e seus variados sons constituem um maravilhoso universo, e seu estudo denomina-se Campanologia. Para saber mais sobre elas, ver as matérias publicadas em 6 e 7/3/2018, cujo tema foi o Museu das Campanas da belíssima cidade de Urueña, também situada na Comunidade de Castilla y León.

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Concatedral de Cáceres

O principal templo religioso de Cáceres, a Concatedral de Santa María La Mayor, situa-se logo depois de cruzarmos o Arco da Estrela, porta de entrada ao Centro Histórico da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstá situada na Plaza de Santa María, uma das mais belas da cidade, junto com vários palácios antigos conservados, que veremos no próximo post. Um dos símbolos de Cáceres, a Concatedral de Santa  María foi erguida provavelmente sobre uma anterior mesquita, algo habitual em muitas cidades da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja foi construída entre os séculos XV e XVI sobre uma anterior edificação do século XIII, combinando o estilo de transição do românico ao gótico com elementos renascentistas, como sua torre. Acima, vemos uma das duas portas góticas do templo. A seguir, vemos outra das características da arquitetura gótica, a presença das gárgulas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, uma panorâmica da igreja tirada do alto da Igreja de San Francisco, que em breve será o tema de outra matéria sobre Cáceres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte externa foi colocada uma escultura de um dos santos mais venerados de Extremadura, San Pedro de Alcántara, realizada pelo escultor contemporâneo Enrique Pérez Comendador.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior está formado por três naves cobertas com bôvedas de crucería, algo habitual das igrejas góticas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa nave central vemos um magnífico retábulo maior plateresco, talhado por Guillén Ferrant e Roque Balduque. Possui a cor própria da madeira sem que fosse policromada, pino de Flandes e cedro. Suas cenas retratam episódios da vida da Virgem Maria e de Jesus Cristo. No centro do retábulo vemos a Assunção da Virgem

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja possui uma grande quantidade de obras de arte, como a imagem gótica de um Cristo Negro, uma das mais veneradas da cidade, que sai em procissao durante a Semana Santa. A capela que o acolhe pertence aos séculos XIV e XV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, um curioso púlpito gótico feito em ferro forjado no século XV, procedente de um convento desaparecido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo solo da igreja vemos os sepulcros de importantes famílias nobres da cidade….

OLYMPUS DIGITAL CAMERABelas capelas adornam o interior da igreja, como a Capela da Virgem de las Dolores, do século XVI. O retábulo é barroco, de 1743. No centro aparece a Virgen de las Dolores. Nas laterais, São Vicente de Paula e São Pedro Alcântara. Fora do retábulo, as imagens de Santo Antônio de Pádua e Santa Rita de Cássia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, a Pia Batismal construída em 1552, ao lado de dois sepulcros góticos

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro objeto impressionante é a Custódia, realizada em 1643 pelo artista nascido na cidade Diego Rodríguez de Prado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, vemos o belo órgão da igreja…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1957, a antiga Igreja Paroquial de Santa María La Mayor recebeu o título de Concatedral, passando a dividir a sede episcopal com outro templo, a Catedral de Coria. Abaixo, vemos a bula papal concedida pelo Papa Pio XII ao templo de Cáceres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro detalhe interessante é que está permitido subir à torre….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1931, a Concatedral de Cáceres recebeu a designação de Monumento Histórico-Artístico por sua importância religiosa e histórica, e conhecê-la é um passeio obrigatório numa visita à cidade.

 

Catedral de S.Compostela: O Mestre Mateo

Esta última matéria sobre a Catedral de Santiago de Compostela está dedicada a um de seus maiores artífices, um dos grandes artistas de toda a Arte Medieval Européia, o Mestre Mateo. Quem alguma vez teve o privilégio de contemplar sua obra máxima, o chamado Pórtico da Glória, situado na entrada da catedral, pôde constatar sua beleza inigualável e a imensa influência que exerceu ao longo dos séculos. Devido ao processo de deterioração que se produziu durante os 8 séculos de sua existência, o conjunto está sendo restaurado desde já alguns anos, motivo pelo qual poderemos admirá-lo somente ao final da reforma, que está a ponto de finalizar. De qualquer forma, atualmente existem exposições sobre o trabalho do Mestre Mateo no Museu da Catedral e também no vizinho Palácio de Gelmírez, que possibilitam compreender melhor a obra do grande mestre e o trabalho de restauraçao que está sendo desenvolvido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Museu Catedralício complementa a visita do templo maior compostelano, motivo pelo qual vale a pena conhecê-lo. Possui um excepcional conjunto de escultura e pintura de várias épocas, além de restos arqueológicos encontrados na catedral, mas infelizmente nao se pode fotografar. Abaixo, vemos uma foto exterior do museu, situado em frente à Plaza del Obradoiro, ao lado da bela fachada barroca da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo balcão, situado em seu nível superior, as vistas da praça são impressionantes, bem como das casas do Centro Histórico de Santiago de Compostela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o lento processo construtivo da Catedral Românica, em 1168 o Rei Fernando II encarregou o Mestre Mateo com a incumbência de finalizar as obras de suas naves. Além do mais, construiu uma cripta para salvar o desnível da catedral com a Plaza del Obradoiro, sobre a qual ergueu o maravilhoso Pórtico da Glória, concluído em 1211, quando se realizou a consagração da catedral. Considerado um dos expoentes maiores da Arte Românica de finais do século XII e começo do XIII, suas inovaçoes arquitetônicas, escultóricas e iconográficas anunciam, com o naturalismo de seus personagens, o novo estilo que estava surgindo na França, o Gótico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO imenso pórtico possui três grandes arcos de meio ponto (semicirculares), correspondentes a cada uma das naves da catedral, e sua iconografia está baseada no Livro do Apocalipse. No Arco Central, aquele que desperta maior atenção por seu tamanho e características, aparece a figura de Cristo em Majestade, rodeado pelos símbolos dos 4 Evangelistas. O arco está dividido por uma coluna, denominada Parteluz, com uma grande riqueza escultórica. Está presidida pelo Apóstolo Santiago, titular do templo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEmbaixo da imagem do santo, vemos a Árvore de Jessé, que representa a genealogia humana de Cristo, por primeira vez representada na Arte Românica da Península Ibérica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte inferior do Parteluz, o Mestre Mateo se autorepresenta, dedicando sua obra ao Apóstolo Santiago. Uma inscrição possibilita  sua identificação, na qual está escrito “Architectus”. Esta escultura é também conhecida como o “Santo dos Croques“, devido a uma antiga tradição em que os estudantes da cidade golpeavam sua cabeça para adquirir sabedoria. Posteriormente, este gesto foi incorporado pelos peregrinos ao entrar na catedral, mas foi proibido para que a imagem não fosse prejudicada em sua estrutura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstátuas construídas a modo de colunas decoram o Pórtico da Glória, com personagens do Antigo e do Novo Testamento, como as que vemos abaixo, onde aparecem os chamados Profetas Maiores. Da esquerda para a direita, vemos Jeremías, Daniel, Isaías e Moisés. O naturalismo dos personagens, que observamos no sorriso de Daniel, constituem uma das principais inovações artísticas do Mestre Mateo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente as imagens estavam policromadas, para proporcionar um maior realismo. Ao ficarem expostas à humidade durante séculos, pois o Pórtico da Glória somente ficou protegido no século XVI, o colorido sofreu um grande desgaste. As figuras foram pintadas, total ou parcialmente, em várias ocasiões, e um dos objetivos do processo atual de restauração é devolver sua policromia. Abaixo, vemos a cabeça de um dos personagens representados…

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém no Arco Central, vemos a representação dos 24 anciãos do Apocalipse, cada qual com seu instrumento musical. Esta cena, comum na Arte Românica, tornou possível o conhecimento dos instrumentos utilizados na época, e hoje em dia podemos assistir concertos de música antiga realizado somente com instrumentos medievais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Mestre Mateo também realizou um excepcional coro feito de granito, que esteve na nave central da catedral até 1603, quando foi substituído por um coro de madeira. Em 1945, este coro foi levado ao Monastério de San Martín Pinario, que vimos recentemente no blog. Felizmente, podemos apreciar o coro pétreo, pois foi reconstruído no Museu da Catedral. Mais uma vez lamento a proibição das fotografias no local. Por este motivo, tirei uma foto de um livro, que está longe de fazer jus à beleza do coro, mas que pelo menos nos dá uma pequena idéia de sua grandiosidade e qualidade artística.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de derrubado, parte de suas peças foram reutilizadas em outras partes da catedral, principalmente em suas fachadas exteriores, como vimos nas matérias anteriores. A biografia do Mestre Mateo continua sendo um enigma. A fama que alcançou em vida e a transcendência de sua obra fizeram com que os estudiosos procurem documentar sua formação e aprofundar no conhecimento de seu trabalho. Abaixo, vemos uma cabeça masculina, provavelmente um personagem bíblico que fazia parte de uma estátua-coluna realizada pelo Mestre Mateo e seus indispensáveis colaboradores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs fotos da presente matéria foram tiradas em 2012, durante minha primeira visita à Catedral de Santiago, quando ainda podíamos ver em parte o Pórtico da Glória, cuja restauração estava iniciando-se. Outras foram realizadas em minha última viagem de 2018, que foram complementadas com imagens das exposições que podemos ver atualmente sobre o Mestre Mateo e também de livros de arte sobre a catedral. Recomendo que assistam o vídeo abaixo, onde podemos ver o Pórtico da Glória e seu processo de reabilitação.

O Botafumeiro da Catedral de S.Compostela

O templo sagrado da Catedral de Santiago de Compostela oferece inúmeras atrativos para o visitante, como sua arquitetura românica, o Sepulcro do Apóstolo Santiago, suas belíssimas fachadas e capelas, etc. Além do mais, um espetáculo digno de se ver tem, como protagonista, o chamado Botafumeiro, um grande incensário banhado de prata e com 1.60 m de altura. O movimento pendular que realiza pela nave transversal da catedral deixam incrédulos peregrinos e turistas que visitam a Catedral Compostelana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA tradição no uso deste instrumento de purificação remonta ao século XI, com a função de perfumar o ambiente interno da catedral, eliminando o mau cheiro provocado pelos centenares de peregrinos que, cansados e suados, chegavam a catedral para venerar o Sepulcro do Apóstolo Santiago. O Botafumeiro é posto em ação durante o culto das missas, logo após a comunhão, quando o hino do Apóstolo Santiago é tocado pelos órgãos barrocos da catedral, iniciando seu espetacular trajeto em frente ao altar maior. Durante o movimento que realiza, o instrumento quase chega a tocar o teto do transepto (nave transversal). Nos 90 segundos que dura sua trajetória, alcança uma velocidade de 68 km/h e chega a formar um ângulo de 82 graus sobre a vertical, descrevendo um arco de 65 m de amplitude sobre a nave e uma altura máxima de 21 m. No total, os espectadores contemplam 17 ciclos de vai e vem do instrumento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Botafumeiro aparece no Códice Calixtino, e o ritual que se realiza atualmente data, como mínimo, do século XII. O mecanismo que possibilita sua trajetória baseia-se no movimento de poleas e na lei do pêndulo, e foi realizado pelo Mestre Celma no final do século XVI. A corda que o sustenta é de material sintético e, antes que realize sua trajetória, se coloca carvão e incenso. O Botafumeiro vazio pesa 62 kg, mas chega aos 100 kg depois da colocação destes materiais. O início do espetáculo ocorre quando um funcionário da catedral empurra o instrumento para movê-lo de sua inércia. Depois, um grupo formado por 8 homens, conhecidos como “Tiraboleiros“, puxam cada um de sua respectiva corda para aumentar sua velocidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente existem dois incensários que se guardam na Biblioteca da Catedral, sendo o mais antigo de 1851. Nos oito séculos de existência, foram registrados alguns incidentes durante o espetáculo, como o ocorrido em 1499, quando o instrumento se desprendeu da corda e saiu voando, chocando-se contra o muro da catedral. Em 1622, a corda se rompeu e o Botafumeiro caiu contra o solo. No século XX, rompeu as costelas e o nariz de uma pessoa que se aproximou demais para admirá-lo….No Youtube existem vários vídeos onde se pode observar os preparativos do Botafumeiro e sua notável trajetória. Escolhi este de abaixo, vale a pena ver…

Interior da Catedral de Santiago de Compostela

Nas duas primeiras matérias sobre a Catedral de Santiago de Compostela comentei um pouco sobre sua história, arquitetura, fachadas externas e o claustro. No post de hoje, veremos os espaços mais emblemáticos de seu interior, como algumas de suas inúmeras capelas, iniciando pela Capela do Sancti Spiritus, que possui um belo retábulo barroco com a Virgem da Solidão (Virgen de la Soledad, em espanhol).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA denominada Capela de Mondragón foi fundada pelo canônigo Juan de Mondragón em 1521, estando decorada com um precioso conjunto escultórico de terracota que representa a lamentação do falecimento de Cristo, realizado por Miguel Perrín em 1526.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Capela de la Comunión foi realizada no estilo neoclássico, com um retábulo do século XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgumas das capelas existentes pertencem à época românica, quando se construiu a catedral. Abaixo, vemos a porta de uma delas, chamada da Corticela, ornamentada com uma cena da Epifania, de mediados do século XII, e realizada pelo atelier do Mestre Mateo. No centro, vemos uma imagem da Virgem Maria com o Menino Jesus.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Catedral de Santiago de Compostela possui dois belíssimos órgãos barrocos, um de frente para o outro, fabricados no início do século XVIII. Foram colocados no meio da nave central.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Capela Maior, originalmente românica, foi reformada no período barroco por Domingo de Andrade. Está formada por um baldaquino, uma estrutura formada por 4 colunas, que alberga o altar situado sobre o Sepulcro do Apóstolo Santiago.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO altar está presidido por uma imagem do Apóstolo Santiago, de pedra policromada e vestido como peregrino, pertencente ao século XIII. Uma escada na parte posterior permite que, finalmente, os peregrinos se aproximem à imagem do santo e realizem um emotivo abraço, dando por concluída a peregrinação do Caminho de Santiago. Apesar de  ter realizado apenas de forma parcial o caminho, fiz questão de realizar o gesto, e a emoção que senti não pode ser descrita com palavras…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADebaixo do altar encontra-se a cripta com o Sepulcro do Apóstolo Santiago, um dos locais mais sagrados do cristianismo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA urna de prata que guarda os restos do santo foi inspirada na Arte Românica, sendo fabricada por artesãos da cidade em 1885.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Catedral possui um Panteão Real onde se guardam diversas sepulturas de monarcas espanhóis, como os leoneses Fernando II ( 1137/1188) e Alfonso IX (1171/1230). Infelizmente, nao tive ocasião de vê-los. No entanto, pude contemplar o singelo sepulcro de Teodomiro, Bispo de Iria Flávia considerado o descobridor da tumba do Apóstolo Santiago.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uns dos vitrais do interior da igreja….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos o post com a parte interna da Porta Santa que, como dissemos anteriormente, se abre apenas nos Anos Santos, quando as festividades em honra ao Apóstolo de Santiago (25 de julho) caem num domingo. Como elemento decorativo, destacam as figuras que integravam o coro pétreo original, realizado pelo Mestre Mateo em 1200. Na parte superior, uma cruz com inscrições referentes à consagração da catedral. A porta de bronze foi realizada no século XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO próximo post estará dedicado a uma das grandes atrações da Catedral de Santiago de Compostela, o Botafumeiro

A Catedral Compostelana – Parte 2

A Catedral de Santiago de Compostela constitui um formidável exemplo do que se conhece como Igrejas de Peregrinação, que se desenvolveram ao longo do Caminho de Santiago no século XI, dentro do Estilo Românico. Uma outra igreja, que também faz parte da rota jacobea (como também se conhece o Caminho de Santiago) é a Basílica de Saint Sernin, situada na cidade francesa de Toulouse, construída na mesma época que a catedral compostelana (séculos XI e XII).

IMG_2321Estas grandes e monumentais construções possuem características comuns, que nos ajudam a compreender a arquitetura românica da Catedral de Santiago de Compostela. O interior possui uma planta de cruz latina, estando composta de 3 a 5 naves, sendo a central mais larga e alta que as laterais. A Catedral Compostelana possui 3 naves que alcançam os 100 m de comprimento e outra parte transversal, também com 3 naves, de 70 m de comprimento. Abaixo, vemos a planta da catedral, junto com o claustro de formato quadrado que complementa o conjunto, situado no lado direito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstas igrejas estão abovedadas, isto é, possuem uma estrutura arqueada que cobrem o espaço entre dois apoios, formando o teto do templo. A nave central está coberta por uma Bôveda de Cañón, frequentemente utilizada na Arquitetura Românica, que está formada por arcos de meio ponto ou semicirculares, como podemos ver abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPor outro lado, as naves laterais estão formadas por Bôvedas de Arista, que se originam pelo cruzamento entre duas Bôvedas de Cañón, formando uma cruz que divide em 4 compartimentos a própria bôveda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra característica das Igrejas de Peregrinação é a profusão decorativa através de um conjunto de esculturas de caráter religioso e simbólico, como vimos, por exemplo, na Fachada das Platerías, na matéria anterior. Os grossos muros da igreja possuem dois níveis. O formado pelas arquerias em sua parte inferior e a tribuna, em sua parte superior. Esta última estrutura permitia alojar uma grande quantidade de peregrinos, além de suportar as forças arquitetônicas transmitidas desde a bôveda da nave central, gerando uma maior estabilidade. Na Catedral de Santiago de Compostela, a tribuna rodeia todo o edifício.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAo redor da capela maior, encontramos um espaço denominado Girola, também conhecido como Deambulatório. No plano arquitetônico que inicia a matéria, podemos observar a girola como um alargamento das naves laterais. Esta solução construtiva possibilitou no período românico, o trânsito dos peregrinos pela igreja, sem prejudicar os cultos religiosos e para que pudessem contemplar as relíquias colocadas em suas várias capelas. Devido ao considerável peso das bôvedas, os muros são grossos, com poucas janelas para a iluminaçao interior, que se realiza principalmente através da cúpula da igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO claustro atual foi edificado em época posterior. De enorme tamanho, foi construído a partir de 1521 por Juan de Álava e Juan Gil de Hontañón. Como foi dito, possui uma forma quadrada, com 34 m de cada lado. Nele foi colocado os sinos que originalmente se situavam na Torre do Relógio, também vista no post anterior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo claustro da Catedral de Santiago podemos observar uma de suas principais funções, como local de enterramento, tanto através de sarcófagos talhados com esmero, quanto em tumbas colocadas no próprio solo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAVárias capelas foram situadas junto ao claustro. Abaixo, vemos uma delas com seu belo retábulo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das portas do claustro conduz ao Arquivo da Catedral, um local de visita proibida, pois nele se guarda um dos principais tesouros da cidade, o famoso Códice Calixtino.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste manuscrito iluminado de mediados do século XII constitui o exemplar mais antigo e completo que se conhece da obra “Liber Sancti Iacobi” ou “Livro do Apóstolo Santiago“, do qual existe 200 cópias. Reúne hinos, textos litúrgicos, relatos de milagres e episódios relacionados com o santo. Consta de 5 livros e 2 apêndices, num total de 225 folhas feitas de pergaminho. O quinto livro constitui uma guia para os peregrinos (a mais antiga que se conhece), com descrições da rota do caminho, conselhos, etc. Sua autoria, um sacerdote francês chamado Aymeric Picaud, está atualmente posta em dúvida. O códice começa com um comentário do Papa Calixto II, no qual relata, através de uma carta dirigida à Ordem de Cluny e ao Arcebispo de Compostela Diego Gelmírez, os testemunhos dos milagres realizados pelo Apóstolo Santiago. Em 2011, o códice foi roubado por um eletricista que havia trabalhado na catedral, mas felizmente foi recuperado um ano depois. Finalizamos a matéria com um facsímil do Códice Calixtino, uma reprodução exata do livro original…

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A Catedral Compostelana

Esta série de matérias sobre Santiago de Compostela estaria incompleta, caso não publicasse posts sobre seu edifício mais famoso e importante, a Catedral, que preside o Centro Histórico da cidade, declarado Patrimônio da Humanidade em 1985.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConsiderada um dos templos mais importantes de todo o mundo, a Catedral Compostelana está dedicada ao Apóstolo Santiago, cujos restos descansam em seu interior. Este fato a converteu num dos principais centros de peregrinação da Europa desde a Idade Média, através do Caminho de Santiago. O sepulcro do Apóstolo, nomeado Padroeiro da Espanha, foi descoberto no século IX por um eremita chamado Pelayo, que comunicou o achado ao Bispo Teodomiro de Iria Flávia, atual município galego de Padrón. O bispo, por su vez, avisou da notável descoberta ao Rei Asturiano Alfonso II, que posteriormente converteu-se no primeiro peregrino documentado do caminho. O monarca ordenou a construção de uma pequena capela no local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADiante do crescente número de peregrinos e das reduzidas dimensões do templo, se construiu uma igreja maior no ano 829 e no final do século IX (899) uma outra igreja, de estilo pré-românico, construída pelo Rei Alfonso III, que se transformou gradualmente num importante local de peregrinaçao. Em 997, esta primitiva igreja foi destruída pelo General Almanzor, comandante do exército muçulmano do Califato de Córdoba, que respeitou, no entanto, o sepulcro do Apóstolo Santiago. Apesar disso, as portas e campanas da igreja foram levadas à Mesquita de Córdoba. Quando a cidade andaluza foi reconquistada pelo Rei Fernando III em 1236, foram transportadas por prisioneiros muçulmanos à cidade de Toledo, concretamente a sua notável catedral gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADestruída a igreja primitiva, durante o reinado de Alfonso VI e sob o patrocínio do Bispo Diego Peláez, se iniciou a construção da atual catedral, um dos edifícios de estilo românico de maior importância em toda Europa. Edificada basicamente com granito, as obras se detiveram em vários momentos, sendo finalizada em 1122 e consagrada por primeira vez seis anos depois. Seus principais arquitetos foram Bernardo El Viejo, seu discípulo Roberto e um grande arquiteto da Arquitetura Românica, o Mestre Esteban. A última etapa construtiva ocorreu a partir de 1168, quando o chamado Mestre Mateo realizou a cripta e o fabuloso Pórtico da Glória, considerado um dos expoentes máximos da Arte Românica. As obras finalizaram em 1211, ano em que a Catedral é definitivamente consagrada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAcima, vemos o aspecto da fachada principal românica da catedral, antes da reforma barroca realizada no século XVIII, que dá para a Plaza del Obradoiro. Esta imponente e maravilhosa fachada, além de outras partes da Catedral, como o mencionado Pórtico da Glória, está sendo restaurada para solucionar o processo de deterioração em seus elementos estruturais e decorativos, causado principalmente pela humidade, além de intervenções realizadas no passado que resultaram problemáticas. Além do mais, a fachada recebeu um necessário tratamento de limpeza. Abaixo, vemos duas imagens da fachada, antes da reforma, e outra atual.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs primitivas torres da fachada principal eram românicas, mas forma substituídas pelas atuais durante a reforma barroca. Abaixo, vemos a Torre do Relógio, situada no lado direito da fachada. Foi realizada em 1680 por Domingo de Andrade. O relógio é de 1831, e os sinos são réplicas, cujos originais foram colocadas no claustro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo exterior da catedral, a única fachada que conserva sua fábrica românica é a impressionante Fachada de las Platerías, construída pelo Mestre Esteban entre 1103 e 1117.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACaracteriza-se por sua riqueza escultórica, tanto nos capitéis, quanto nos tímpanos de suas duas portas. No tímpano da esquerda, vemos cenas relacionadas às tentaçoes de Cristo. No extremo direito aparece a representação de Eva com uma caveira, identificada como adúltera pelo Códice Calixtino (um pouco complicado de ver na foto…).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo tímpano da direita, vemos outras cenas historiadas, como a Epifania em sua parte superior. Na parte inferior, a cura do cego e episódios da Paixão de Cristo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns elementos decorativos foram colocados posteriormente (final do século XIX), como estes 6 meninos que faziam parte do coro de pedra situado na nave central da igreja e realizado pelo Mestre Mateo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro local destacável do exterior da catedral é a Porta Santa, cuja porta se abre somente nos denominados Anos Santos ou Jubilar, quando as festividades em honra ao Apóstolo Santiago (25 de julho) caem num domingo, algo que ocorre em intervalos de 5, 6 e 11 anos. Este privilégio foi concedido pelo Papa Calixto II em 1122.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANas laterais da porta, também foram colocadas, no século XVII, 24 figuras de personagens bíblicos, do Antigo e do Novo Testamento, que originalmente integravam o coro pétreo do Mestre Mateo. Em sua parte superior, vemos o Apóstolo Santiago, cuja imagem foi realizada em 1694 por Pedro del Campo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos esta primeira parte sobre a Catedral de Santiago de Compostela com a Fachada da la Azabachería, construída em 1758, substituindo a antiga Porta do Paraíso, pela qual entravam a maioria dos peregrinos.

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