Fórum Romano de Tarragona – Parte 2

Neste segundo post sobre o Fórum Romano de Tarragona veremos outros vestígios arqueológicos pertencentes ao incrível conjunto de restos romanos da antiga Tarraco que se conservam na cidade, declarados Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Como dito na matéria  anterior, o Fórum constituía o centro da vida pública de qualquer cidade romana, estando composto por seus principais edifícios administrativos, religiosos e jurídicos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta segunda zona pertencente ao Fórum Romano de Tarraco é visitável, mediante o pago de uma modesta entrada. Seus vestígios arqueológicos foram documentados por primeira vez na segunda metade do século XIX, com a derrubada das antigas muralhas renascentistas. Abaixo, vemos um busto em homenagem a Joan Serra i Vilaró, o primeiro em escavar as ruínas desta parte do Fórum Romano de Tarraco, em 1930.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO conjunto está formado por duas zonas separadas por uma rua e unidos por uma pequena ponte…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta é considerada a praça inferior do Fórum, ao estar situada numa zona mais baixa da cidade. Tinha umas dimensões impressionantes, de 318 m de comprimento por 175 m de largura, estando cercada em três de seus lados por uma complexa estrutura de pórticos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo Fórum situava-se o denominado Templo Capitolino, o principal de Tarraco, em homenagem à tríade romana formada pelas divindades Júpiter, Juno e Minerva. Sua parte conservada se restringe à sua fundação estrutural feita com o chamado cimento romano (Opus Caementicium).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma reconstrução gráfica idealizada do monumento…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro local imprescindível no Fórum Romano era a Basílica, um edifício de 3 naves separados por colunas, com finalidades administrativas, políticas e, principalmente, jurídicas, além de constituir um ponto de encontro social.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma sala central presidia o interior da Basílica, onde se reunia o senado local, ou Curia. Seu exterior estava formado por colunas de ordem coríntia, 14 delas dispostas em seu comprimento e 4 colunas em seu sentido lateral (14×4). Posteriormente, os cristãos utilizaram a estrutura das basílicas romanas para a construção de suas igrejas, motivo pelo qual muitas delas, principalmente catedrais, possuem uma planta basilical.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOs quarteirões das casas estavam delimitados por ruas de pedra com uma largura de 6 metros. O planejamento urbano das cidades romanas estava composto por duas ruas que se cruzavam perpendicularmente, o Decumano (sentido leste-oeste) e o Cardo (orientação norte-sul). O Decumano principal denominava-se Decumanus Maximus, que cruzava com o Cardo Maximus.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADentro desta zona do Fórum Romano de Tarraco se conservam também vestígios de casas e pequenos comércios. Abaixo, vemos uma cisterna que pertenceu a uma residência construída no século II aC, anterior portanto à própria construçao do Fórum.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cidade de Mérida (situada na Comunidade de Extremadura) foi, junto com Tarraco, uma das principais cidades romanas de Hispania. Antiga Emerita Augusta, foi a capital da Província da Lusitânia. Uma placa oferecida à cidade de Tarragona pela “hermana histórica” foi colocada dentro da área protegida do Fórum.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém de todos estes monumentos pertencentes ao seu passado romano que estamos vendo no blog, se conservam outros lugares icônicos da antiga Tarraco, situados a poucos quilômetros da cidade, como o Aqueduto. Construído no século I dC, originalmente tinha 15 km de extensão, dos quais foram preservados “apenas” 217 m de comprimento e 27 m de altura em sua parte central. Uma pena que não tive a oportunidade de visitá-lo…

Fórum Romano de Tarragona

Nas antigas cidades romanas, o denominado Fórum constituía o principal espaço públicos dentro de seu planejamento urbano. Nele encontravam-se os edifícios administrativos de maior importância, além de ser um local onde se situavam os edifícios jurídicos e de culto ao poder imperial, representando também um ponto de encontro social e de transações comerciais através das tabernas e mercados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Fórum Romano como espaço ordenado desenvolveu-se a partir das ágoras e acrópoles gregas, tornando-se parte integrante de todas as províncias romanas. Além de constituírem centros da vida pública, nele eram realizadas cerimônias triunfais. Nos períodos eleitorais, os candidatos usavam os degraus dos templos para seus discursos, contando com o apoio dos ouvintes. Na cidade romana de Tarraco, a chegada ao poder de Vespasiano no ano 70 dC ocasionou uma série de transformações na estrutura administrativa das províncias hispânicas. A concessão da cidadania latina a seus habitantes representou o fato primordial em sua reorganização e uma ampla reforma urbana realizou-se. No ano 73, iniciou-se na parte alta da cidade, correspondente ao atual Centro Histórico de Tarragona, a construção do Fórum Provincial, convertendo-se com o tempo no símbolo do poder de Roma no território. Seu monumental tamanho, de cerca de 18 hectares, o transformou no maior de todo o mundo imperial, e incluía o Circo Romano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Fórum Provincial de Tarraco foi estruturado em duas grandes praças porticadas que acolhiam os principais edifícios religiosos, culturais e administrativos da cidade. Estas praças estavam situadas em níveis de alturas diferentes, devido ao desnível do terreno. A praça superior, cujas imagens vemos acima, foi destinada ao culto imperial e possuía 153 m de comprimento x 126 m de largura. Estava cercada por pórticos em três de seus lados, estando presidida por um templo aos imperadores divinizados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta parte do Fórum situava-se o antigo templo dedicado a Augusto, cuja localização exata se desconhece, provavelmente próximo à catedral. Abaixo, vemos a atual Plaza del Pallol, que em época romana constituía a Praça da Representação do Fórum Provincial de Tarraco, conservando vários vestígios arqueológicos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Fórum Provincial de Tarraco foi utilizado até o século V dC, quando seus edifícios foram ocupados como residências privadas. A partir do século XII, a praça foi reurbanizada, definindo a estrutura urbana que se conserva atualmente, correspondente ao Centro Histórico de Tarragona, de origem medieval, portanto. Dentro do conjunto arqueológico da cidade, conservam-se as galerias (bôvedas) que faziam parte do Fórum, como a denominada Bôveda de Tecleta, assim chamada por uma escultura feminina feita de mármore branco no século I/II dC, provavelmente parte de um antigo monumento funerário. Este fato se explica porque foi encontrada no atual parque da cidade em 1992, uma zona que no período romano fazia parte de seu subúrbio e constituía uma área funerária.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta galeria acolhe uma excelente amostra de coleção epigráfica romana, que faziam parte de tumbas funerárias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma delas, com uma inscrição funerária de um liberto chamado Victor, que viveu no século II dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta bôveda correspondia à parte inferior da Praça de Representação do Fórum Provincial. Na sequência vemos a Bôveda Superior

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo centro podemos contemplar um dos sarcófagos romanos mais bem conservados da antiga Tarraco, o Sarcófago de Hipólito, datado do século III dC, e decorado com cenas relativas ao mito deste herói.

DSC02054No próximo post, publicarei a segunda parte da matéria sobre o Fórum Romano de Tarragona.

Circo Romano de Tarragona

Um dos destaques do Conjunto Arqueológico de Tarragona, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o Circo Romano é considerado um dos mais conservados de todo o Ocidente, ainda que boa parte de sua estrutura se encontre oculta debaixo dos edifícios pertencentes ao século XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi construído no século I dC pelo Imperador Domiciano, na parte inferior da parte alta da cidade, separando a zona imperial, representada pelo Fórum, dos bairros comerciais e residenciais. Tinha a particularidade de estar situado dentro das muralhas, algo pouco habitual neste tipo de construção, devido ao seu grande tamanho. O Circo Romano de Tarragona media 325 m de comprimento por 115 m de largura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASuas arquibancadas (gradas) estavam dispostas em 3 de seus lados, sendo que no outro lado situava-se a porta principal e o lugar de saída dos carros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs corridas de carros puxados por cavalos que se disputavam no Circo foram os espetáculos mais populares do mundo romano. Os condutores eram chamados de Aurigas, e normalmente pertenciam às classes menos favorecidas, frequentemente escravos ou libertos. Quando o carro era puxado por 2 cavalos denominavam-se bigas, e quando puxados por 4 cavalos, quadrigas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste tipo de espetáculos constituem uma das tradições mais antigas do Império Romano, estando documentados desde o século VIII aC. Os carros, sejam bigas ou quadrigas, tinham que dar 7 voltas na pista, dividida em duas pela denominada espina. O Circo Máximo de Roma foi o maior do mundo antigo, com capacidade para acolher 125 mil espectadores. O de Tarraco tinha capacidade para receber 25 mil pessoas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs Aurigas corriam por dinheiro e prestígio e muitos deles tornaram-se famosos por seu desempenho. Os cavalos também tinham nome e eram conhecidos pelo grande público. As denominadas esquadras, formadas pelos Aurigas e respectivos cavalos, eram propriedades de ricos empresários. Os melhores Aurigas foram venerados pelos torcedores de sua esquadra, e odiados pelos rivais. Abaixo, vemos um epitáfio construído pelos companheiros de um Auriga chamado Fuscus, de finais do século I dC, cuja inscrição o retrata como um personagem honrado e vitorioso.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo Circo Romano de Tarragona haviam tabernas onde se podia adquirir bebidas e comidas, além de locais para realizar as apostas. Os espetáculos duravam todo o dia e eram gratuitos, sendo realizados por influentes personalidades da cidade, que ocupavam cargos públicos de relevância.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das principais construções arquitetônicas do Circo Romano de Tarragona eram os túneis que permitiam o acesso dos espectadores à parte norte do recinto. Denominam-se Bôvedas, e uma das mais conservadas é a Bôveda de San Hermenegildo. Originalmente tinha aproximadamente 100 m de comprimento, dos quais se conservam a metade. O túnel situava-se paralelo à muralha e conectava com uma grande escalinata monumental existente em seu final. Seus muros laterais foram feitos de concreto, assim como o arco de meio ponto da cobertura. Em um de seus lados haviam 6 portas, também formada por arcos semicirculares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outra das bôvedas preservadas, com um comprimento de 93 m…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComunicada com o Circo através de galerias subterrâneas, a denominada Torre do Pretório integrava sua estrutura geral, e possibilitava o acesso da parte baixa da cidade com a zona do Fórum, através de uma série de escadas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConstruída no século I dC, teve vários usos durante a história, e foi denominada Palácio de Augusto em época romana. No século XII foi utilizado como fortaleza pelos normandos, e depois converteu-se num palácio para os Monarcas do Reino de Aragón.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVI transformou-se num quartel militar e sofreu danos em sua estrutura durante a conquista de Napoleão no início do século XIX. Depois, a torre foi usada como prisão, quando começou a ser denominada “Prisão de Pilatos“. Durante a Guerra Civil Espanhola do século XX, continuou sendo utilizada como local de confinamento. Durante 10 anos, cerca de 6500 inimigos do regime franquista foram presos e 60 faleceram no local devido às péssimas condições existentes. Uma de suas salas, de estilo gótico, foi reservada aos condenados à morte, e aproximadamente 650 prisioneiros dela saíram para serem executados, entre 1939 e 1945.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta sala conduz a uma terraça, com umas impressionantes vistas da cidade de Tarragona e também do Circo Romano

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Tarragona Romana: Teatro e Anfiteatro

No mundo romano, os espetáculos populares constituíam uma parte fundamental da vida cotidiana. O dito latino “Panis et Circenses” refere-se justamente ao controle popular exercido pelos Imperadores Romanos através da organização destes espetáculos. Em Tarraco, nome romano de fundação da cidade de Tarragona, não era diferente. Atualmente se conservam os três edifícios públicos construídos para esta finalidade, o Circo, o Teatro e o Anfiteatro. Neste post, veremos os dois últimos. O Teatro Romano de Tarraco foi o primeiro em ser construído, no final do século I aC, em época de Augusto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASituado próximo ao Fórum da Colônia, nele eram realizadas representações teatrais e foi construído aproveitando-se o desnível natural do terreno.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO Teatro Romano de Tarragona deixou de ser utilizado no século III dC, e posteriormente novos edifícios foram construídos com seus materiais. Ao contrário dos outros dois espaços, o Teatro encontra-se abandonado e não está aberto à visitação pública, pois carece de infraestrutura para tal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAJá com o Anfiteatro, a situação é completamente distinta, pois representa uma das principais atrativos do Conjunto Arqueológico de Tarragona, estando aberto aos visitantes. O primeiro que chama a atenção do Anfiteatro Romano de Tarragona é sua excepcional localização, junto ao Mar Mediterrâneo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEste tipo de edifício era usado para os espetáculos com animais ferozes, lutas de gladiadores e também como local de execução pública. Nele, no ano de 259 dC, foram martirizados o Bispo Fructuoso e dois de seus diáconos, como foi dito anteriormente, dentro do contexto da perseguição religiosa contra a comunidade cristiana, ordenada pelo Imperador Diocleciano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConstruído no século II dC, num local que havia sido uma área funerária, foi reformado em 221 dC. O Anfiteatro foi construído junto ao mar com a finalidade de facilitar o acesso público e também para o desembarque de animais. Tinha capacidade para 15 mil espectadores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século V dC perdeu sua função original e no seu recinto foi edificada uma Basílica Visigoda de 3 naves no final do século seguinte, para celebrar o martírio do bispo e dos diáconos. Ao seu redor, se construiu um cemitério com tumbas escavadas na arena e mausoléus funerários adossados à igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XII se ergueu, sobre os cimentos da antiga Basílica Visigoda, um novo templo sob a titularidade de Santa María del Milagro. Esta igreja de estilo românico manteve-se de pé até 1915. No entanto, conservam-se os restos de ambas igrejas.

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Tarragona Romana – Patrimônio da Humanidade

O Conjunto Arqueológico de Tarragona, referente ao seu passado romano, é considerado um dos mais importantes de toda a Hispania, razão pelo qual foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 2000. Representa o assentamento romano mais antigo de toda a Península Ibérica, com muitos monumentos conservados.

DSC02067Dois foram os critérios estabelecidos pela Unesco para que a Tarragona Romana recebesse esse almejado título. O primeiro deles: “Os restos romanos de Tarraco são de uma importância excepcional no desenvolvimento do planejamento urbano romano, servindo de modelo para as capitais provinciais do Império Romano“. Em segundo lugar: “Proporcionam um testemunho eloquente e incomparável de uma etapa significativa na história das terras mediterrâneas da antiguidade”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASua muralha é a construção mais antiga de toda a Tarraco Romana. Foi construída no final do século III aC, e ampliada no século II aC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente, a muralha romana tinha 3500m de perímetro, dos quais se conservam 1100m, que rodeia o Centro Histórico de Tarragona.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgumas das torres originais foram preservadas, como a chamada Torre de Minerva e a do Arcebispo. A muralha pode ser conhecida em sua totalidade num Paseo Arqueológico, cuja entrada vemos abaixo:

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, vemos uma das portas da muralha…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma foto da parte interior da muralha, junto ao centro histórico…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA muralha romana sofreu diversas modificações ao longo da história…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1368, se construiu uma nova muralha medieval denominada “La Muralleta“, cuja construção mais emblemática é a Torre de les Monges.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta torre de formato octogonal estava situada num dos extremos da Muralleta. Em 1530, diante do medo de um ataque marítimo, a torre transformou-se num ponto de vigilância costeira. Esta torre encontrava-se junto ao Circo Romano, que em breve veremos no blog, e sua fachada converteu-se no muro interno desta fortificaçao do século XIV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Muralleta estava composta por 4 torres, e esta é a única conservada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra modificação se realizou no século XVIII, em 1737, durante o reinado de Fernando VI. Uma antiga porta medieval, o chamado Portal de Sant Antoni, foi reformado no estilo barroco, adquirindo um aspecto de Arco de Triunfo. Em sua parte superior, foi colocado o escudo do monarca, que atualmente encontra-se bastante desgastado.

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Castelos e Fortalezas da Espanha

Poucas construções da Europa estão tão vinculadamente associadas a ela como seus Castelos e Fortalezas,  abundantes por todos os países constituintes do “Velho Continente”. De fato, poder admirar estes edifícios resulta sempre numa experiência inesquecível e jamais me canso de apreciá-los, apesar de viver na Espanha há 13 anos. Símbolo de uma época, o feudalismo, e uma etapa histórica, a Idade Média, o poder simbólico dos castelos permanecem ainda em vigor no imaginário coletivo.

DSC00704Poucos países europeus possuem uma quantidade tão grande de castelos quanto a Espanha. Basta dizer que o nome de duas de suas comunidades autônomas se relacionam diretamente com eles, Castilla La Mancha e Castilla y León. Por este motivo, e também pela importância histórica que desempenharam, decidi realizar uma série de posts sobre os Castelos e Fortalezas da Espanha, salientando diversos aspectos sobre estas magníficas construçoes. Abaixo, uma foto minha no Castelo de Coca (Província de Segóvia, Castilla y León), um dos castelos mais famosos do país.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO termo Castelo é originário do latim “Castellum“, diminutivo da palavra “Castrum“, que significa “lugar fortificado“. Da origem latina desenvolveram-se palavras em vários idiomas para designar estas estruturas, como o “Château” francês, o “Castello” italiano, e o “Castillo” espanhol. A partir do século XI em Portugal, a palavra “Castelo” passa a ser utilizada como sinônimo de estruturas defensivas. O termo “Castle” do inglês foi introduzido um pouco antes da conquista dos Normandos. Segundo o dicionário da Real Academia Espanhola, castelo significa “Uma praça forte, cercada por muralhas, baluartes, fossos e outras fortificações”. No dicionário Aurélio, a palavra também possui este significado, atribuindo-se também o sinônimo de “Residência nobre ou real fortificada”. Abaixo, vemos o belíssimo povoado aragonês de Uncastillo, com as ruínas de seu antigo castelo em sua parte mais elevada, e o Castelo de Molina de Aragón, situado neste povoado da Comunidade de Castilla La Mancha.

DSC01783OLYMPUS DIGITAL CAMERAFrequentemente, o termo “Castelo” é utilizado de forma genérica para muitos tipos de fortificaçoes edificadas com propósitos distintos. Um exemplo é o Castelo da cidade aragonesa de Jaca, que na realidade trata-se de um forte, como conhecemos no Brasil.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste tipo de estruturas militares possui, na Espanha, uma analogia com os castelos, da mesma forma que as palavras Alcázar, Atalaya, Torre e Alcazaba. Num período de constantes guerras entre países, e devido aos conflitos internos de cada região, as cidades medievais estavam fortificadas, e muitas de suas construções integravam o sistema defensivo, como as pontes, por exemplo. A seguir, vemos a Ponte de Alcántara, situada aos pés do famoso Alcázar de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA ponte romana de Córdoba, com suas torres defensivas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE a ponte medieval do povoado de Frías, localizado na Província de Burgos, Comunidade de Castilla y León. Ao fundo, vemos o Castelo da localidade…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs construções religiosas, muitas vezes, apresentam um aspecto de fortaleza, caso da Igreja Românica de Portomarín, situada na Galícia, que integra o patrimônio histórico do Caminho de Santiago.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO mesmo se pode dizer da Catedral de Ávila

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConventos e Monastérios de grande importância histórica foram devidamente fortificados, caso do Monastério de Poblet, situado na Catalunha e designado Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA necessidade de construir-se estruturas defensivas surgiu com o crescente acúmulo de riquezas e recursos, como os alimentos, por exemplo. Normalmente associados à Idade Média na Europa, as primeiras fortificações apareceram na zona do Crescente Fértil, no Vale do Indo, no Egito e na China, onde os assentamentos humanos estavam protegidos por grandes muros ou muralhas. Foi somente na Idade de Bronze que os chamados “Castros“, povoados fortificados, começaram a espalhar-se pelo continente europeu. Localizavam-se normalmente no alto de uma colina, e um muro cercava suas casas feitas de barro com telhados de palha. Na Espanha, se conservam muitos castros relacionados à cultura pré-romana dos celtíberos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs fortificações romanas incluíam desde simples obras de caráter temporário levantadas pelos exércitos de campanhas militares até impressionantes construções permanentes feitas de pedra, como o Muro de Adriano (Inglaterra) ou a Muralha de Lugo (Galícia), cuja maravilhosa estrutura se conserva ainda hoje, justamente declarada Patrimônio da Humanidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs castelos como tal surgiram na Europa depois da queda do Império Carolíngio no século X. Inicialmente edificados com terra e madeira, sua evolução arquitetônica fez com que fossem construídos em pedra, fato que colaborou decisivamente para seu aspecto robusto e imponente. Abaixo, vemos o castelo do bonito povoado de Morella, Província de Castellón, situada na Comunidade Valenciana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom a época das Cruzadas, os castelos espalham-se rápidamente por todo o Oriente Médio. Atualmente existem inumeráveis referências aos castelos em todos os campos artísticos, como elementos imprescindíveis para compreender a história da arquitetura,  como inspiração e relatos históricos na música, na literatura e na pintura, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, continuaremos descobrindo a história dos Castelos e Fortalezas da Espanha, cuja matéria está apenas começando…

Casa de las Conchas – Salamanca

Qualquer pessoa que caminhe pelo Centro Histórico de Salamanca se surpreenderá com a grande quantidade de palácios nobres existentes, que integram o patrimônio histórico da cidade declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Um dos que mais chamam a atenção do visitante é, sem dúvida nenhuma, a famosa Casa de las Conchas, assim denominada pela grande quantidade de conchas que aparecem como elemento decorador de sua fachada principal. 

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa segunda metade do século XV, com o final das lutas nobiliárias e a derrota definitiva dos muçulmanos com a conquista de Granada, sucedida durante o reinado dos Reis Católicos em 1492, as cidades tornam-se um espaço mais seguro. A nobreza abandona os castelos rurais e retornam ao mundo urbano, construindo palácios que se convertem no símbolo de seu poder. Neles se observan, no entanto, reminiscências das antigas fortalezas medievais, como as altas torres. Os muros, tanto exteriores, quanto interiores, se ornamentam com os brasões do proprietário, como ocorre com a Casa de las Conchas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm ano depois da descoberta do continente americano e da conquista de Granada, um alto funcionário do reino, Don Rodrigo Arias Maldonado, ordenou a construção deste original edifício, cujas obras finalizaram em 1517. Trata-se de um dos melhores exemplos da Aquitetura Gótica Civil da Espanha. No princípio, os Reis Católicos haviam ordenado a derrubada de vários palacetes nobres erguidos com torres, principalmente daquelas famílias que contestavam seu poder. Aqueles que apoiaram a monarquía foram favorecidos, como no caso de Don Rodrigo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExistem aproximadamente 300 conchas na fachada do palácio, e muito se especula sobre a presença deste elemento na decoração. Don Rodrigo, embaixador do rei em Paris e Lisboa, foi também catedrático na Universidade de Salamanca e membro da Ordem de Santiago, sendo que as conchas são consideradas um símbolo do Apóstolo Santiago. Sua presença demonstra o orgulho que sentia o proprietário por pertencer à ordem. Seu emblema, formado por 5 flores de lis, se combina com o de sua esposa Dona Juana, pertencente a família dos Pimentel, que também utilizava em sua heráldica as conchas como motivo principal. Sua presença na fachada seria, portanto, uma prova de amor. As conchas se destacam na fachada, junto com as janelas góticas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExistem várias lendas a respeito de tesouros ocultos que foram colocados debaixo das conchas pelos proprietários do palácio. No entanto, era comum na época colocar moedas de ouro na estrutura do edifício para atrair boa sorte. Outra lenda postula que a família escondeu umas jóias debaixo de uma das conchas, deixando documentada a quantidade escondida, mas não a concha escolhida. Aquele que tentasse desvendar o mistério e a localizaçao exata das jóias deveria aportar antecipadamente a quantidade estipulada como fiança. Se lograsse encontrar as jóias, ficaria com o tesouro descoberto e recuperaria a fiança. Do contrário, perderia a fiança…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior do palácio se organiza em torno a um pátio, algo habitual nos edifícios nobres. Nele convivem vários estilos artísticos, cuja coexistência marcou o final do século XV, pois o gótico, em sua última fase, na Espanha denominado Gótico Isabelino, se mistura com o Estilo Mudéjar, tradicional no país, como podemos observar no artesanato que decora o teto do nível superior do pátio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstes dois estilos artísticos se combinam com as novas formas renascentistas, enriquecidas por fantásticos personagens grotescos, abundantes no pátio sob o aspecto de gárgulas. Esta nova corrente importada da Itália foi trazida ao país pela nobreza e o clero, grande parte formada na Universidade de Salamanca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERATodo o pátio foi decorado com o escudo dos proprietários, como vemos a seguir. Ao fundo, aparece o Ernesto, que me foi apresentado pelos meus amigos Marcelo e Cristina, e que tive o prazer de sua companhia em Ávila e Salamanca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nível inferior do pátio está formado pelos denominados Arcos Mixtilíneos

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nível superior foi feito com mármore branco, possivelmente de Carrara. Abaixo, vemos a bela escada que conduz à parte superior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Casa de las Conchas também exerceu como função ser prisão da Universidade. Está situada em frente a Igreja de la Clerecía, cuja parte da fachada principal vemos desde o pátio…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1929, a Casa de las Conchas de Salamanca foi declarada Monumento Nacional e atualmente alberga a Biblioteca Municipal, além de converter-se num espaço para exposições culturais.

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