Antonio Mingote – Madrid (Parte 2)

Neste segundo e último post sobre o desenhista Antonio Mingote, veremos o legado deixado pelo artista na cidade de Madrid. Por exemplo, na Calle Duquesa de Osuna, em 1993, Mingote realizou a decoração dos balcões de um edifício, com personagens que nos mostram várias situações cotidianas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASua obra pode ser admirada na Estação do Metrô do Retiro, que permite o acesso público ao famoso Parque do Retiro. Seus desenhos foram utilizados para decorar a plataforma da estação com azulejos, retratando cenas dentro do parque carregadas de grande humor e ironia, elementos essenciais de seu trabalho como humorista gráfico.

20190715_10335820190715_103305Mingote adorava passear pelo parque, e logo depois de decorar a estação em 1987, recebeu o título de Alcalde Honorífico do Parque do Retiro e a Medalha de Ouro da Comunidade de Madrid. Abaixo, vemos o diploma que lhe outorgava tal distinção, que pude fotografar durante a exposição em sua homenagem no Museu de História de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADentro do Parque do Retiro foi colocado um busto de Antonio Mingote, esculpido pela artista Alicia García Huertas

20160528_112028Outro mural realizado por ele podemos ver na Calle de la Sal, junto à Plaza Mayor de Madrid. Pintado em 2001, o mural retrata cenas da famosa novela “Fortunata y Jacinta“, do escritor Benito Pérez Galdós

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASua obra está relacionada também com os chamados Comércios Históricos de Madrid, aqueles estabelecimentos comerciais com mais de 100 anos prestando serviços à comunidade. Integram o patrimônio histórico da cidade, e a Prefeitura de Madrid decidiu no início do século XXI homenageá-los. Encarregou a Mingote o desenho de uma placa comemorativa, para que fosse colocada na calçada em frente ao estabelecimento histórico. Hoje em dia vemos centenas destas placas espalhadas, e a primeira foi outorgada em 2006 ao tradicional Restaurante Lhardy, fundado em 1839. Abaixo vemos o desenho de Mingote e uma foto do restaurante…

OLYMPUS DIGITAL CAMERA20190724_172828Outro comércio histórico, uma antiga fábrica de relógios situada em frente ao mural da Calle de la Sal, recorreu a uma estratégia interessante ao colocar um boneco que realiza movimentos simulando o concerto de relógios. Em determinadas horas do dia, podemos ver este singelo e bonito artifício publicitário. O desenho foi feito, é claro, por Antonio Mingote

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANa Plaza de las Cortes, impressiona pela beleza de sua fachada o edifício de seguros da Companhia Plus Ultra, construído no início do século XX. Tornou-se famoso graças a um carrilhão (carrillón, em espanhol) que em determinados horários do dia (12hs/15hs/18hs e 20 hs) podemos apreciar. Pela janela da fachada central do edifício saem 5 bonecos que representam personagens emblemático da cultura espanhola. Da esquerda para direita aparecem: o famoso toureiro Pedro Romero, uma Maja madrilenha (no século XIX eram as mulheres bonitas que se vestiam com trajes vistosos e que utilizavam um vocabulário tradicional dos bairros populares), o Rei Carlos III com uma espingarda, a Duquesa de Alba e o pintor Francisco de Goya.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACada personagem realiza movimentos simples que o caracterizam, ao som de uma música tocada pelo total de 18 sinos situados a cada lado do relógio. Dependendo do horário, são diferentes as músicas que escutamos. Os bonecos foram construídos por uma empresa especializada da Holanda e o carrilhão foi inaugurado em 1993 pela Infanta Pilar de Borbón, Duquesa de Badajoz. Os desenhos originais dos bonecos foram realizados por Mingote. Abaixo, vemos os bonecos em miniatura, também fotografados na exposição a ele dedicada…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo vídeo abaixo, vocês poderão assistir a uma “apresentação” do carrilhão. Com ele, finalizo esta matéria sobre Antonio Mingote, convidando a todos (as) que venham a Madrid e ver ao vivo sua importante obra artística….

Anúncios

Antonio Mingote – Madrid

Além do patrimônio histórico e cultural da Espanha, sempre que possível publico matérias sobre os personagens que colaboraram para seu desenvolvimento, muitos dos quais desconhecidos além da fronteira espanhola. Fazia tempo que almejava publicar um post em homenagem a Antonio Mingote (1919/2012), que com seus desenhos transformou a paisagem urbana de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMeu desejo concretizou-se com uma exposição a ele dedicado, no ano do centenário de seu nascimento, realizada no Museu de História de Madrid, denominada “Madrid se escreve com M de Mingote“. Abaixo, vemos este imprescindível museu da cidade e o cartaz publicitário da exposição…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAntonio Mingote, membro da Real Academia Espanhola, foi um cartunista, escritor e jornalista espanhol. Apesar de ter nascido em Sitges, na Província de Barcelona, deixou um legado artístico relacionado com a cidade de Madrid, onde faleceu em 2012, com 93 anos de idade. Aprendeu a desenhar de forma autodidata, iniciando sua carreira de humorista gráfico em 1946. Devido a sua intensa atividade neste campo e a qualidade artística dos desenhos, foi reconhecido não somente na Espanha, como também em diversas partes do mundo. Suas ilustrações foram reproduzidas em meios de comunicação de prestígio internacional, como o New York Times, entre outros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1948 publicou sua primeira novela, “Las Palmeras de Cartón“, e em 1953 iniciou uma colaboração com o Diário ABC, que continuou até seu falecimento em 2012. Também escreveu roteiros para o cinema e séries de televisão. De grande interesse foram os livros de divulgação histórica que publicou, como “História de Madrid“, escrito em 1961.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa exposição podemos admirar a maior parte dos desenhos originais que ilustram o livro. De um total de 185 ilustrações, foram expostas no museu 125, constituindo uma maneira divertida para compreender a história da cidade, criadas com o humor característico do artista. Seu estilo está impregnado de sutilezas e ironia, além da sensibilidade social. Aproveito para publicar alguns deles, como o desenho em que arqueólogos tentam decifrar a origem da cidade de Madrid

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro desenho curioso revela o apelido como são conhecidos os nascidos em Madrid, “Gatos“. A origem deste nome se remonta a época da Reconquista de Madrid pelo Rei Alfonso VI no final do século XI. Fundada pelos muçulmanos no século IX, durante pouco mais de dois séculos Madrid foi uma cidade islâmica. Se diz que quando a cidade foi conquistada pelo monarca castelhano, um de seus soldados começou a escalar a muralha árabe de 12 m de altura com tamanha agilidade e destreza, que o rei afirmou que mais parecia a um “gato“. A partir de então, todos começaram a chamá-lo de gato, assim como a todos os membros de sua família. Inclusive, parece que mudou seu sobrenome, incluindo seu novo apelido, que com o passar do tempo tornou-se ilustre em Madrid. Sua família ostentou um escudo de armas no qual aparecia um punhal (utilizado pelo soldado para escalar a muralha) e um muro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO soldado tornou-se tão famoso que, com o tempo, o termo “gato” identificava a qualquer pessoa valente de Madrid. Posteriormente, passou a ser relacionada a qualquer pessoa nascida na cidade. Abaixo, vemos a antiga muralha islâmica de Madrid, situada aos pés de sua bela catedral…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra teoria diz que o apelido “gato” se refere ao hábito dos nascidos na cidade de sair à noite, como os pequenos felinos…Na realidade, atualmente se consideram “gatos” autênticos aquelas pessoas cujos pais e avós, tanto maternos quanto paternos, tenham nascido em Madrid. Ou seja, cada vez se torna mais difícil encontrar um gato genuíno pela cidade…Abaixo, vemos outro desenho, em que Mingote retrata o “jogo de domingo” na Idade Média

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMadrid no ano 1500, com vistas da muralha árabe, e o antigo Alcázar, a fortaleza de origem islâmica que se incendiou em 1734, sendo substituído pelo atual Palácio Real de Madrid

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO êxodo rural que multiplicou a população da cidade, depois de tornar-se capital da Espanha a partir de 1561…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMingote retratou também monumentos que ainda se conservam no Centro Histórico de Madrid, como o Real Monasterio de La Encarnación, fundado no início do séculoXVII…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo e último post sobre Antonio Mingote, veremos o legado deixado pelo artista pelas ruas da cidade…

As Viagens do “Guernica”

Antes de abandonar Salamanca, tive a oportunidade de ver uma interessantíssima exposição sobre o quadro “Guernica“, a obra prima do mais influente artista do século XX, Pablo Ruiz Picasso (1881/1973). A exposição foi montada na Plaza de Anaya, situada ao lado das Catedrais de Salamanca, e foi organizada pelo Centro Cultural Caixa Forum, que está percorrendo várias cidades da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA O “Guernica” já foi o tema de um post publicado em 17/5/2012, junto com o museu onde se encontra exposto, o Museu Reina Sofía de Madrid, que vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns anos atrás, pude fotografar o “Guernica“, algo impensável atualmente, mesmo porque está proibido captar imagens do quadro.

DSC03525A exposição de Salamanca discorre sobre as viagens que o quadro realizou depois de ter sido pintado por Picasso, participando de diversas exposições internacionais antes de seu retorno a Espanha. Considerado uma das obras mais conhecidas, reproduzidas, admiradas e reinterpretadas da História da Arte, o “Guernica” transformou-se num verdadeiro ícone do século XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro foi realizado por Picasso entre maio e junho de 1937 e seu título é uma referência ao bombardeio da cidade basca de Guernica pela aviação alemã no dia 26 de abril deste ano, dentro do contexto da Guerra Civil Espanhola (1936/1939). Este ataque aéreo é considerado o primeiro realizado contra uma população civil da história das disputas bélicas. Na realidade, sua elaboração por parte de Picasso foi um encargo do governo republicano para ser exposto no Pavilhão Espanhol, montado durante a Exposição Internacional de Paris de 1937, com a finalidade de atrair a atenção pública à causa republicana. Abaixo, vemos uma foto do pavilhão, cujo projeto construtivo se deve aos arquitetos Josep Lluís Sert e Luis La Casa, e o quadro exposto no local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACom o final da Guerra Civil Espanhola em 1939 e o início do governo ditatorial do General Franco, Picasso manifestou o desejo que o quadro retornasse ao país somente depois que voltasse a ser uma nação democrática. Depois de sua exibição na Exposição Internacional de Paris, muitas outras foram realizadas no continente europeu, como a de 1938/1939 no Reino Unido, com grande êxito de público e organizada para arrecadar fundos para o Comitê de Ajuda aos Refugiados Espanhóis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante décadas, o quadro viajou por boa parte do mundo, antes de ser custodiado pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MOMA) a partir de 1958, onde permaneceu exposto até 1981. Abaixo, vemos o itinerário do “Guernica“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO processo de criação da obra foi plenamente documentado pelo pintor através de esboços preparatórios e também por fotografias realizadas por Dora Maar (1907/1997), uma artista plástica francesa que se tornou uma das mulheres da vida de Picasso. Este material constitui um dos melhores exemplos documentados do progresso de uma obra artística em toda a História da Arte Universal. Picasso realizou, num prazo de 6 meses, (antes, durante e depois da conclusão do quadro), uma série de 45 esboços que atualmente encontram-se expostos no Museu Reina Sofía de Madrid, junto com a famosa obra do artista de Málaga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO “Guernica“, um exemplo memorável da Arte Cubista, além de sua importância histórica e indiscutível qualidade artística, impressiona por seu tamanho (7.76m de comprimento x 3.49m de altura). Foi pintado utilizando-se somente as cores branca, negra e várias tonalidades de cor cinza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar do título da obra e suas circunstâncias históricas, não existe no quadro nenhuma referência explícita ao bombardeio da cidade de Guernica, pois trata-se de uma composição simbólica, e não narrativa, retratando o horror à guerra e os sofrimentos que infringe a todos os seres humanos. Por este motivo, o quadro converteu-se num símbolo de protesto antibélico, utilizado contra os vários confrontos do século passado…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgo que desconhecia e que pude orgulhosamente constatar, é que durante as viagens do “Guernica” pelo mundo, o quadro esteve presente no Brasil em 1953, durante a realização da II Bienal de São Paulo, como vemos na foto abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro serviu de motivo inspiratório a inúmeras obras em todo o mundo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, em 1981, o quadro retornou a Espanha, com uma ampla divulgação da imprensa, escrita e televisiva…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA chegada do “Guernica” no Aeroporto de Barajas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInicialmente, o quadro permaneceu no Casón del Buen Retiro, uma das dependências que faziam parte do destruído Palácio del Buen Retiro, originalmente construído dentro do Parque do Retiro, de propriedade real na época de sua construção, que ainda podemos contemplar passeando pela cidade.

DSC08622OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1982, o “Guernica” passou a ser exposto permanentemente no Museu Reina Sofía, considerado um dos centros de Arte Contemporânea de maior prestígio de todo o mundo, cuja visita, evidentemente, recomendo !!!!!

Touros: Críticas e Controvérsias

Neste último post sobre esta extensa série sobre o mundo dos touros na Espanha veremos que mesmo no país as críticas e em relação às touradas sempre estiveram presentes em vários momentos históricos, apesar da grande popularidade da prática taurina, gerando controvérsias no âmbito da sociedade espanhola. Antes, porém, gostaria de mencionar algumas expressões coloquiais utilizadas no cotidiano e seu significado e que se originaram da tauromaquia. Por exemplo:

– “Cada toro tiene su lidia“: significa que cada pessoa ou situação é distinta das demais e requer um tratamento diferenciado

-“Coger el toro por los cuernos“: enfrentar de forma decidida a um problema, resolvendo-o de uma vez por todas.

-“Quedar para el arrastre“: quando uma pessoa encontra-se esgotada fisicamente.

-“Darle cornadas al viento“: realizar atos ou emitir frases ou palavras totalmente inúteis, ineficazes ou banais.

-“El toro de cinco y el torero de veinticinco“: contundente expressao destinada a estabelecer que cada coisa deve ser realizada no momento adequado.

20151218_085226As primeiras proibições documentadas das touradas na Espanha partiram da Igreja Católica no século XVI, quando em 1567 o Papa Pio V decretou que os participantes e espectadores de uma tourada seriam excomungados. Em 1575, ante a reação das autoridades espanholas, o Papa Gregório XIII se viu obrigado a moderar o decreto, excluindo da excomunhão aos laicos e reservando a pena somente aos religiosos e sacerdotes. Enquanto os monarcas da Dinastia dos Habsburgos eram adeptos das corridas de touros, os reis da Dinastia Bourbônica desprezavam os espetáculos por considerarem indignos, pelo qual Felipe V proibiu em 1723 sua realização. Já o Rei Fernando VI apenas consentiu a prática das touradas em troca que seus ingressos fossem destinados a obras de caridade, como a construção de hospitais. Em 1771, Carlos III proibiu novamente as touradas. Posteriormente, diversas propostas antitaurinas foram abolidas, por serem consideradas antipopulares.

20170528_191642 No século XX, a era dourada das touradas na Espanha, durante o governo de Franco e mais tarde no período democrático, era possível assistir touradas ao vivo pela TV. Em 2006, a RTVE (Radio e TV Espanhola) proibiu a emissão de touradas ao vivo em horários considerados de proteção para a infância (entre 17 e 20hs). No entanto, algumas cadeias autônomas permanecem realizando transmissões ao vivo de touradas de forma regular, como o canal de TV de Castilla La Mancha. A maior parte das transmissões, no entanto, é realizada pelo canal pago “canal + toros”. Atualmente proibida em muitos países, em 2004 a cidade de Barcelona declarou-se antitaurina, depois de uma petição popular  e em 2010 o Parlamento da Catalunha proibiu as corridas de touros em toda a comunidade. Numa pesquisa realizada no começo do século XXI, 31% dos espanhóis se mostraram interessados em relação às touradas, enquanto 69% eram indiferentes. O perfil das pessoas que acompanham as touradas na Espanha é predominantemente masculino, dentro de uma faixa etária superior aos 45 anos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInvariavelmente, as reações às touradas variam da repulsa à fascinação que provocam, e atualmente muitos são os estrangeiros que presenciam as touradas, utilizadas como propaganda turística. É verdade que quase todos os toureiros são corneados ao menos uma vez por temporada. O toureiro Juan Belmonte foi corneado mais de 50 vezes em sua carreira profissional. Desde 1700, 42 toureiros perderam sua vida na arena, sem contar picadores e banderilleros. Por outro lado, mais de 3 mil touros morrem anualmente nas temporadas taurinas. Um dos espetáculos taurinos que mais controvérsias suscitam atualmente é o chamado “Toro de la Vega“, realizado na cidade de Tordesillas (Tordesilhas, em português, a mesma do famoso tratado assinado por Portugal e Espanha em 1494). Esta festividade foi mencionada por primeira vez em 1534 e realiza-se anualmente no mês de setembro dentro das celebrações em honra à padroeira da localidade, N.Sra de la Peña. Abaixo, vemos uma foto da cidade de Tordesillas

OLYMPUS DIGITAL CAMERANeste tipo de espetáculo taurino, os touros partem da Plaza Mayor da cidade, sendo conduzido pelos habitantes locais atravessando a ponte sobre o Rio Duero (que vemos na foto acima) até os campos, onde se realiza uma caça e perseguição aos animais. Caso os touros consigam escapar das investidas, recebem o indulto, isto é, sua vida é perdoada, algo que normalmente não sucede. No século XXI, o “Toro de la Vega” adquiriu um grande protagonismo nos meios de comunicação e junto às associações de proteção aos animais, que denunciaram o cruel sofrimento a que sao submetidos. Em 2016, se proibiu a morte dos touros durante os festejos. Abaixo, vemos um monumento em homenagem ao “Toro de la Vega“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQual o futuro das touradas e dos espetáculos taurinos na Espanha ? As próximas gerações permanecerao fiéis à tradição ou a maioria de seus habitantes serão partidários em abolir este tradicional costume espanhol ?

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta é uma pergunta difícil de responder e somente o tempo dirá qual será o comportamento dos espanhóis e a futura realidade dos espetáculos taurinos. Se atualmente as touradas não gozam do mesmo prestígio que teve em épocas passadas, ainda podemos considerar a Espanha como o País dos Touros

20190312_140058

 

Um Touro na Gran Vía de Madrid

No post de hoje comentarei sobre um dos acontecimentos mais insólitos produzidos na história da tauromaquia, ocorrido não numa praça de touros, e sim numa das avenidas mais importantes do centro de Madrid, a Gran Vía. No dia 23 de janeiro de 1928, uma manada de touros de lidia e várias vacas foram conduzidos a um corral na cidade de Madrid. Por incrível que pareça, um touro bravo e uma vaca escaparam dos cuidadores e começaram a percorrer as ruas mais importantes da cidade. Durante o percurso, o touro começou seu espetáculo atacando um táxi, perfurando o carro com seus chifre. A notícia de um touro bravo nas ruas da cidade espalhou-se rapidamente e muitos comerciantes, com medo de algo pudesse ocorrer, fecharam as portas de seus estabelecimentos. Algumas pessoas foram feridas, como uma senhora de 66 anos que foi lançada pelo ar durante o ataque do touro. Outras pessoas que tentaram ajudar a pobre vítima também foram atacadas e resultaram feridas. Logo depois, o animal chegou a uma zona popular, graças a um mercado existente. Ao ver o touro enfurecido, as pessoas entraram em pânico, dispersando-se em busca de refúgio, enquanto o touro investia contra os produtos comestíveis do local. Um vendedor de frutas tornou-se sua próxima vítima, sendo atacado por detrás e ficando inconsciente. Uma das rodas do carro ficou enganchada no chifre do touro, dando-lhe um aspecto grotesco enquanto prosseguia com seus ataques.

OLYMPUS DIGITAL CAMERALogo depois, o touro investiu contra um jovem de 16 anos, mas felizmente a roda enganchada protegeu o garoto, que foi salvo por outras pessoas sendo levado para fora do perigo, sofrendo feridas de pouca gravidade. O touro e sua acompanhante bovina detiveram os ataques e começaram a comer umas bananas espalhadas pela rua, quando finalmente decidiram vaguear pela Gran Vía, uma das ruas mais movimentadas do centro de Madrid. Ao ver o animal na grande avenida, os pedestres ficaram desesperados e alguns tentaram enfrentar-se ao touro, mas desistiram ao ver o tamanho e ferocidade do animal. O mais incrível do fato foi que um toureiro de 30 anos chamado Diego Mazquiarán, mais conhecido como “Fortuna“, passava naquele momento pela Gran Vía, junto com sua esposa. O toureiro não atravessava um bom momento naquela temporada taurina, e ainda se recuperava de uma lesão sofrida durante uma tourada. Fortuna apartou sua mulher e tirou seu abrigo, que passou a utilizar como muleta, realizando alguns passes e distraindo o animal. Em seguida, chamou um garoto e lhe pediu que fosse a sua residência, situada próxima à Gran Vía, e que trouxesse seu estoque (espada) de matar. Durante cerca de 15 minutos, o toureiro manteve o touro ocupado, enquanto a multidão que começava a concentra-se no local lhe incentivava aplaudindo-o.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs espectadores situados nos balcões e janelas dos edifícios da avenida presenciaram a dramática cena e a polícia foi incapaz de controlar o público atônito. Com a espada já na mão, o toureiro esperou que o touro se colocasse na postura correta e deu uma meia estocada, que não foi suficiente para acabar com a vida do animal. O clamor do público presente transformou-se em desespero generalizado quando o touro ferido se dirigiu a eles. Fortuna executou rapidamente alguns passes mais e finalmente realizou uma segunda estocada, desta vez mortal. A multidão enlouqueceu e todos levantaram seus lenços brancos em agradecimento ao toureiro, carregando-o pelos ombros e levado a uma cafeteria próxima, onde brindaram a façanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO público, em homenagem ao toureiro, realizou uma petição à Prefeitura de Madrid para que lhe fosse outorgada a Cruz da Beneficência, a medalha de maior importância que um civil poderia receber, e que afinal lhe foi concedida. A partir deste êxito inesperado, Fortuna em pouco tempo já tinha programado 18 novas touradas, mas sua carreira não se prolongou muito, pois faleceu apenas 8 anos depois do sucedido na Gran Vía. Fortuna foi incluído entre os toureiros que inauguraram a Plaza de Touros de Las Ventas, como podemos observar no cartaz de inauguração da praça, com seu nome inscrito entre os toureiros participantes (colocado abaixo da palavra “Espadas”).

IMG_3458No mesmo ano, em 1928, um outro torro escapou do corral, aparecendo na também central Calle de Atocha. Uma pessoa recebeu ferimentos graves e outras 4 foram feridas sem sérias consequências. Neste caso, como não havia nenhum toureiro matador presente no local, o animal foi abatido pela guarda civil com um disparo. Em 1973, um matador chamado Luis Segura, ajudado por seu irmão, tentou um logro publicitário ao matar um touro que supostamente se havia escapado e chegado à Plaza de España. Quando finalmente se soube que o animal havia sido colocado de forma proposital no lugar, o toureiro foi levado aos tribunais e acabou na prisão…Finalizo a matéria com uma foto atual da Gran Vía de Madrid

20190312_135920

Os Touros na Arte

Devido a importância que os touros e os espetáculos taurinos exerceram na cultura espanhola, foram retratados nas mais variadas expressões artísticas, como a pintura, escultura, artes decorativas, e também na literatura, na música e no cinema. Nesta série que estou realizando sobre o mundo dos touros na Espanha já publiquei diversas imagens em que os touros aparecem como objeto temático no mundo da arte. Neste post veremos algumas obras em que foram representados nos mais variados estilos e técnicas pictóricas, por diversos e reconhecidos artistas ao longo da história, e também por artistas anônimos. Um exemplo é o pintor e gravador espanhol Antonio Carnicero (1748/1814), que em 1790 realizou uma série de gravados sobre tauromaquia, alguns dos quais encontram-se expostos no Museu de História de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outro gravado em que se representa uma corrida de touros na Plaza Mayor de Madrid, realizado em 1791.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA O genial pintor Francisco de Goya realizou diversas séries de gravados sobre uma ampla variedade temática, que inclui os desastres da Guerra da Independência Espanhola, crítica social e inclusive sobre tauromaquia, já que foi um apaixonado pelas touradas (post publicado em 3/2/2016).

20150816_112346OLYMPUS DIGITAL CAMERAArtistas anônimos deixaram seu registro sobre o mundo dos touros, como no quadro abaixo, intitulado “Corrida de Touros em Cuenca“, realizado em 1661…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA temática taurina aparece também em cenas cotidianas, como neste quadro realizado pelo pintor e escultor Enrique Mélida y Alinari (1838/1892), intitulado “Jugando al toro“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro grande pintor espanhol, Pablo Picasso, explorou o forte simbolismo taurino para representar o horror da Guerra Civil Espanhola no seu famoso “Guernica“, uma das obras de arte fundamentais do século XX, que pode e deve ser contemplado no Museu Reina Sofia de Madrid.

DSC03525Quando estive na cidade de Jaén (Andaluzia) tive a oportunidade de visitar uma exposição sobre Arte Naif, em que os artistas retrataram o mundo taurino, como María Cruz Gutiérrez Segovia, em sua obra “Corrida de Touros“, realizada em 1987.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns artistas retrataram as festividades taurinas que se realizam nos povoados espanhóis, como Marta Rodríguez Salmones, em sua obra “Touros em Turégano“, de 1977…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu Catalina López Sevilla, em sua obra “Touros em Santisteban del Puerto“, de 1984…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo campo da escultura, muitos e renomados artistas como Mariano Benlliure, por exemplo, deixaram seu legado relacionado com a tauromaquia. O artista valenciano realizou o monumento funerário ao grande toureiro Joselito situado no cemitério de Sevilha. Vários outros toureiros foram homenageados com esculturas que foram colocadas em diversas praças de touros espalhadas pelo país, assim como os espetáculos que se organizam em todo o território espanhol. A seguir, vemos uma escultura que representa a tradicional festa da “Vaquilla del Ángel“, organizada na cidade de Teruel (Aragón), cujo início se remonta ao ano 1679.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO ambiente taurino também foi abundantemente recriado na tradicional música espanhola, como na Zarzuela e no Flamenco. Na literatura, em obras de escritores consagrados como Lope de Vega, Cervantes, Rafael Alberti, Vicente Blasco Ibáñez, somente para citar alguns. Nas denominadas Artes Decorativas, os touros aparecem como elementos que embelezam espaços vinculados à tauromaquia, como nas Tabernas, como tivemos oportunidade de salientar…

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

O Encierro de Pamplona

Um dos espetáculos taurinos mais conhecidos dentro e fora da Espanha, o Encierro de Pamplona é uma das festas mais populares do país, reconhecida como de Interesse Turístico Internacional. Os chamados Encierros constituem uma festa em que os touros correm pelas ruas das cidades e dos povoados do país, acompanhados por uma multidão de corajosos e, muitas vezes, inconsequentes cidadãos. Normalmente, finalizam o trajeto dentro da praça de touros da localidade. Abaixo, vemos uma foto antiga de um encierro realizado num povoado da Comunidade de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Encierro de Pamplona, capital e maior cidade da Comunidade de Navarra, realiza-se dentro do conjunto de festividades em honra ao padroeiro de Navarra, San Fermín, motivo pelo qual são também denominados Sanfermines. As festas começam com o lançamento de um pequeno foguete chamado chupinazo, que se organiza desde o balcão do edifício sede da Prefeitura de Navarra, às 12:00hs do dia 6 de julho. A multidão que se concentra na praça situada em frente ao Ayuntamiento aguarda ansiosa e com muito ruído o começo da festa. Abaixo, vemos o belo edifício do Ayuntamiento de Pamplona.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO encierro propriamente dito realiza-se pelas ruas do centro histórico da cidade, num trajeto de 849m, e os touros e os milhares de acompanhantes finalizam o percurso na Plaza de Toros de Pamplona, onde depois se organiza uma corrida de touros com os animais que participaram do encierro. Apesar de ser um espetáculo antigo, sua fama mundial é recente, divulgada ao mundo graças ao escritor americano Ernest Hemingway depois do lançamento de seu primeiro  livro de importância em 1926, intitulado “Fiesta” em espanhol e “The Sun Also Rises“, no original em inglês. Abaixo, vemos um monumento em Pamplona que homenageia o esperado acontecimento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua origem é medieval, estando relacionada com três fatos, os atos religiosos em honra a San Fermín, realizados antes do século XII, as feiras comerciais e as touradas, documentadas em Pamplona desde o século XIV. Na Idade Média, os pastores navarros traziam os touros dos campos até a Plaza Mayor de Pamplona, que servia de coso taurino, ao não existir então um local apropriado para as touradas. Na noite anterior à tourada, acampavam próximo à cidade e, ao amanhecer, os touros eram levados e acompanhados por gente que montados a cavalo ou à pé, ajudavam a que os animais fossem colocados nos currais (foto abaixo de Jim Hollander).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir do século XIX, as pessoas começaram a correr dos touros pela parte dianteira, ao invés de atrás, como habitualmente se realizava antes, transformando-se num costume popular. Antigamente a tradição se chamava “Entrada” e em 1856 passou a denominar-se “Encierro“. Durante a festa, a população da cidade, de aproximadamente 200 mil habitantes, se multiplica por 5 com a chegada de turistas estrangeiros. Muitos deles, depois de criar coragem com uma boa quantidade de cerveja, decidem correr junto aos touros, e os acidentes são inevitáveis…(foto de Jim Hollander).

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesde que existem registros oficiais, a partir de 1924, se contabilizam o falecimento de 15 pessoas no Encierro de Pamplona. Os touros realizam o trajeto em cerca de 4 minutos aproximadamente, estando proibido maltratar o touro durante o percurso, como puxar o rabo, subir em cima dele, etc. Os 6 touros participantes são acompanhados por outros 6 animais mansos que servem de guias para os demais e também para tranquilizar os touros bravos (foto abaixo de Jim Hollander).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo filme “Dia e Noite“, de 2010, protagonizado por Tom Cruise e Cameron Díaz, aparecem cenas do Encierro de Pamplona, mas que foram filmados em Sevilha (???)….No dia 14 de julho, às 24:00hs, realiza-se o encerramento das festividades. No Youtube existe uma grande quantidade de vídeos das Festas de San Fermín de Pamplona. Escolhi um para que possam ver a inauguração da festa…