A Catedral Compostelana

Esta série de matérias sobre Santiago de Compostela estaria incompleta, caso não publicasse posts sobre seu edifício mais famoso e importante, a Catedral, que preside o Centro Histórico da cidade, declarado Patrimônio da Humanidade em 1985.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConsiderada um dos templos mais importantes de todo o mundo, a Catedral Compostelana está dedicada ao Apóstolo Santiago, cujos restos descansam em seu interior. Este fato a converteu num dos principais centros de peregrinação da Europa desde a Idade Média, através do Caminho de Santiago. O sepulcro do Apóstolo, nomeado Padroeiro da Espanha, foi descoberto no século IX por um eremita chamado Pelayo, que comunicou o achado ao Bispo Teodomiro de Iria Flávia, atual município galego de Padrón. O bispo, por su vez, avisou da notável descoberta ao Rei Asturiano Alfonso II, que posteriormente converteu-se no primeiro peregrino documentado do caminho. O monarca ordenou a construção de uma pequena capela no local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADiante do crescente número de peregrinos e das reduzidas dimensões do templo, se construiu uma igreja maior no ano 829 e no final do século IX (899) uma outra igreja, de estilo pré-românico, construída pelo Rei Alfonso III, que se transformou gradualmente num importante local de peregrinaçao. Em 997, esta primitiva igreja foi destruída pelo General Almanzor, comandante do exército muçulmano do Califato de Córdoba, que respeitou, no entanto, o sepulcro do Apóstolo Santiago. Apesar disso, as portas e campanas da igreja foram levadas à Mesquita de Córdoba. Quando a cidade andaluza foi reconquistada pelo Rei Fernando III em 1236, foram transportadas por prisioneiros muçulmanos à cidade de Toledo, concretamente a sua notável catedral gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADestruída a igreja primitiva, durante o reinado de Alfonso VI e sob o patrocínio do Bispo Diego Peláez, se iniciou a construção da atual catedral, um dos edifícios de estilo românico de maior importância em toda Europa. Edificada basicamente com granito, as obras se detiveram em vários momentos, sendo finalizada em 1122 e consagrada por primeira vez seis anos depois. Seus principais arquitetos foram Bernardo El Viejo, seu discípulo Roberto e um grande arquiteto da Arquitetura Românica, o Mestre Esteban. A última etapa construtiva ocorreu a partir de 1168, quando o chamado Mestre Mateo realizou a cripta e o fabuloso Pórtico da Glória, considerado um dos expoentes máximos da Arte Românica. As obras finalizaram em 1211, ano em que a Catedral é definitivamente consagrada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAcima, vemos o aspecto da fachada principal românica da catedral, antes da reforma barroca realizada no século XVIII, que dá para a Plaza del Obradoiro. Esta imponente e maravilhosa fachada, além de outras partes da Catedral, como o mencionado Pórtico da Glória, está sendo restaurada para solucionar o processo de deterioração em seus elementos estruturais e decorativos, causado principalmente pela humidade, além de intervenções realizadas no passado que resultaram problemáticas. Além do mais, a fachada recebeu um necessário tratamento de limpeza. Abaixo, vemos duas imagens da fachada, antes da reforma, e outra atual.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs primitivas torres da fachada principal eram românicas, mas forma substituídas pelas atuais durante a reforma barroca. Abaixo, vemos a Torre do Relógio, situada no lado direito da fachada. Foi realizada em 1680 por Domingo de Andrade. O relógio é de 1831, e os sinos são réplicas, cujos originais foram colocadas no claustro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo exterior da catedral, a única fachada que conserva sua fábrica românica é a impressionante Fachada de las Platerías, construída pelo Mestre Esteban entre 1103 e 1117.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACaracteriza-se por sua riqueza escultórica, tanto nos capitéis, quanto nos tímpanos de suas duas portas. No tímpano da esquerda, vemos cenas relacionadas às tentaçoes de Cristo. No extremo direito aparece a representação de Eva com uma caveira, identificada como adúltera pelo Códice Calixtino (um pouco complicado de ver na foto…).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo tímpano da direita, vemos outras cenas historiadas, como a Epifania em sua parte superior. Na parte inferior, a cura do cego e episódios da Paixão de Cristo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns elementos decorativos foram colocados posteriormente (final do século XIX), como estes 6 meninos que faziam parte do coro de pedra situado na nave central da igreja e realizado pelo Mestre Mateo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro local destacável do exterior da catedral é a Porta Santa, cuja porta se abre somente nos denominados Anos Santos ou Jubilar, quando as festividades em honra ao Apóstolo Santiago (25 de julho) caem num domingo, algo que ocorre em intervalos de 5, 6 e 11 anos. Este privilégio foi concedido pelo Papa Calixto II em 1122.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANas laterais da porta, também foram colocadas, no século XVII, 24 figuras de personagens bíblicos, do Antigo e do Novo Testamento, que originalmente integravam o coro pétreo do Mestre Mateo. Em sua parte superior, vemos o Apóstolo Santiago, cuja imagem foi realizada em 1694 por Pedro del Campo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos esta primeira parte sobre a Catedral de Santiago de Compostela com a Fachada da la Azabachería, construída em 1758, substituindo a antiga Porta do Paraíso, pela qual entravam a maioria dos peregrinos.

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Castelo e Muralhas de Burgos

Apesar das transformações ocorridas nos últimos séculos, a Idade Média deixou um importante legado em Burgos, ainda visível num passeio pela cidade. Uma das principais construções deste período histórico é o Castelo, situado no Cerro de la Blanca ou das Flores, que a 75m sobre a própria cidade, era um local perfeito para a edificação de uma fortaleza militar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Castelo de Burgos foi construído durante o reinado de Alfonso III no ano de 884, coincidindo com a fundação da própria cidade. Está constituído por uma muralha com 2.30m de grossura com torres almenadas em seu entorno. Entre os séculos XI e XIII a fortaleza tornou-se a residência dos reis castelhanos. O castelo carece de Torre de Homenagem, um dos elementos mais emblemáticos dos castelos europeus medievais. Em seu lugar se construiu um palácio para o rei Alfonso X. Foi utilizado eventualmente como local de alojamento de personalidades importantes, encontros diplomáticos, celebrações da corte e também como prisão.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO recinto está formado por uma série de poços e galerias subterrâneas, cuja finalidade principal era prover de água os ocupantes do castelo, principalmente durante os assédios. Um destes poços possui quase 70m de profundidade. Abaixo, vemos uma das zonas onde se realizam trabalhos arqueológicos no local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo séc. XIV, passou a ser propriedade da nobreza, concretamente da família dos Stúñiga, que exerceu o governo da fortaleza até a chegada dos Reis Católicos. Posteriormente, funcionou como fábrica de pólvora e escola para artilheiros. No final do séc. XV ou princípio do XVI, o castelo foi reconstruído.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1736, sofreu um incêndio, mas durante a Guerra da Independência contra os exércitos de Napoleão os franceses reativaram suas funções militares, graças a sua estratégica localização. Antes de ser abandonado em 1813, as tropas do imperador francês explodiram o castelo. O acontecimento ocorreu sem que houvesse tempo para a evacuação total dos soldados, de modo que mais de 200 faleceram durante a sua destruição.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADa parte mais alta da fortificação, podemos contemplar toda a cidade de Burgos…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro elemento característico de toda a cidade medieval são suas muralhas, que em Burgos se conservam em algumas partes, como no recinto onde localiza o castelo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa época de sua fundação, os pequenos núcleos habitáveis existentes ao redor do castelo foram unidos por uma muralha no séc. IX. Os restos da muralha que se conservam atualmente pertence ao séc. XIII, quando o rei Alfonso X decidiu reconstruir a primitiva muralha em 1276, já que se encontrava em péssimas condições e deixavam fora boa parte dos novos bairros que surgiram nos séculos XII e XIII.

20150727_102333Uma boa forma de conhecer os restos preservados é percorrer o chamado Paseo de los Cubos, assim denominado pelas torres circulares que aparecem junto ao muro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cerca tinha a função principal de separar fisicamente a cidade, com seus foros e privilégios, do campo e aldeias circundantes, além de exercer o controle de impostos. No geral, possui de 8 a 10m de altura. A Muralha de Burgos foi declarada Monumento Histórico-Artístico por sua importância histórica. No próximo post, veremos as principais portas que a compunham e que sobreviveram a passagem dos séculos, algumas das quais se tornaram verdadeiros símbolos da cidade.

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Burgos – Castilla y León

Burgos é uma das cidades mais belas e interessantes da Comunidade de Castilla y León. A última vez que lá estive foi quando voltava de Asturias, e realizei uma parada estratégica na cidade para conhecê-la como se deve, com calma e tranquilidade para apreciar sua riqueza monumental, percorrendo suas ruas e visitando seus inumeráveis monumentos. O resultado é esta série sobre a cidade que hoje iniciamos. Motor industrial da região, Burgos é a segunda cidade mais populosa da comunidade com 170 mil habitantes, sendo superada apenas por Valladolid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADinâmica e cultural, Burgos é a capital da província homônima, com um patrimônio histórico e artístico dos mais relevantes. A cidade sempre foi uma das mais importantes do país, e este fato se deve, em parte, a sua excelente localização geográfica, entre o norte e o centro de Espanha e o leste e oeste pelo Caminho de Santiago, do qual faz parte. A Província de Burgos possui 3 locais declarados Patrimônio da Humanidade pela Unesco: o referido Caminho de Santiago, sua maravilhosa Catedral Gótica e a Serra de Atapuerca, local onde foram encontrados os primeiros povoadores do continente europeu em seus recintos arqueológicos.

20150727_113704A cidade surgiu no ano 884dC no denominado Cerro de San Miguel, quando o local foi povoado pelo Conde Diego Parcelos, que construiu uma pequena fortaleza militar, sob o mandato do rei Alfonso III. Antes do ano 1000, já havia se transformado numa pujante vila, consolidando-se como centro político do antigo Reino de Castilla. Desde 915, passa a ostentar o título de cidade e em 932 torna-se a capital do reino castelhano.

20150725_201049Burgos se converteu na residência habitual dos reis castelhanos e de destacados nomes da nobreza. Em 1075, passa a ser sede episcopal, possibilitando a construção da catedral no séc. XIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO auge do Caminho de Santiago na Idade Média fez com que a cidade  se desenvolvesse ainda mais. Por iniciativa real, se constrói os primeiros hospitais para os peregrinos, como o de San Juan, em 1085. Nos séculos seguintes, graças aos privilégios concedidos, transforma-se no centro de poder político de um amplo território. O séc. XIV foi um período de recessão econômica para Castilla, que se recupera nos séc. XV e XVI, quando Burgos atinge uma época dourada e sua população se duplica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cidade se consolida através da prosperidade alcançada por uma oligarquia composta pela nobreza e por uma rica classe de comerciantes, que exporta a produção de lã para muitas regiões europeias, principalmente Flandes. O resultado deste crescimento econômico é palpável nas construções góticas e renascentistas do período, tanto no nível religioso, quanto civil. Muitos artistas de excepcional talento se assentam na cidade, como Felipe Vigarny e Diego de Siloé, entre tantos outros, situando a escola burgalesa na cabeça da cultura espanhola da época.

20150726_164417A diminuição da demanda têxtil no resto da Europa, aliada a falta de uma infraestrutura que pudesse criar uma economia mais diversificada, foram os fatores de sua decadência. A mudança da capital para Madrid em 1561 também colaborou para seu declínio. No séculos XVII e parte do XVIII, a decadência se acentua, devido às  epidemias e  fome resultante, ocasionado o retrocesso da população à metade ( de 12 mil no final do séc. XVI, para 6 mil em 1631). A partir da segunda metade do séc. XVIII, coincidindo com o reinado de Carlos III, uma nova fase de expansão reativa o dinamismo da cidade. Prova disso é a estátua do monarca que preside a Praça Maior de Burgos, realizada em 1784 como forma de agradecimento ao rei que contribuiu para o ressurgimento da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir do séc. XIX, a cidade entra em seu período burguês, quando obras são realizadas para favorecer seu crescimento, como a derrubada de parte de sua muralha para a edificação de lugares de ócio para os cidadãos, como o Paseo de Espolón, que se converte num ponto de encontro e local referente de seus habitantes. Abaixo, vemos uma parte da muralha que se conserva.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA antiga cidade cresce, portanto, além de seu recinto amuralhado, modernizando-se. A população aumenta em decorrência da migração rural e a chegada da ferrovia em 1860 acentuou seu desenvolvimento industrial, que prosseguiu no séc. XX. Atualmente uma cidade de serviços, Burgos se orgulha de seu passado, mas não vive apenas dele, graças a inovações presentes em diversos setores, transformando a cidade num lugar com excelente qualidade de vida.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA rica história da cidade pode ser conhecida no Museu de Burgos, sediado em duas casas construídas no séc XVI, a pertencente a família dos Miranda e a de Iñigo Angulo, ambas construídas por Juan de Vallejo, mas com uma fachada bem contemporânea.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a Calle Lain Calvo, uma das principais vias comerciais da cidade.

20150727_124848A cidade é cortada pelo Rio Arlanzón, cujas margens podem ser percorridas em agradáveis passeios….

20150727_145647A partir do próximo post, vocês conhecerão o rico patrimônio histórico e artístico de Burgos. Espero que vocês desfrutem tanto quanto eu…

Museu Catedralício de Astorga

Uma visita à Catedral de Astorga nao estaria completa sem  conhecer o imprescindível Museu que integra o complexo catedralício, formado também pelo Arquivo Diocesano e Capitular e o Hospital de San Juan Bautista. O Museu Diocesano ou Catedralício situa-se nos espaços destinados anteriormente a escola da Catedral, Bibloteca e Arquivo. Foi projetado como tal em 1889, sendo inaugurado somente em 1954. Em suas numerosas salas, estao exposto mais de 500 peças de grande valor e qualidade  histórico-artística.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo post de hoje e no próximo, seleciono algumas das mais importantes. Prova da antiguidade da Diocese de Astorga, o sarcófago paleocrisiano é uma das peças mais antigas do museu (séc. III dC).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa foto de abaixo, vemos os bustos de alguns bispos que patrocinaram a construçao da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADa antiga Catedral Românica, se conservam algumas peças interessantes, como capitéis decorativos e esta cabeça românica, datada de finais do séc. XII e princípio do XIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs esculturas do período românico expostas estao bem conservadas, e nos permitem observar algumas de suas características principais. Com grande diferença, as esculturas da Virgem e de Cristo Crucificado foram as mais representadas a partir do séc. XII. A Virgem aparece sempre junto ao menino Jesus , como mae de Deus (Theotokos), como vemos na imagem a seguir, feita de madeira policromada no séc. XIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs Esculturas Românicas caracterizam-se pelo antinaturalismo, possuindo um forte caráter simbólico. Se busca, principalmente, a expressao do conteúdo religioso. As figuras se deformam intencionalmente para alcançar um impacto emocional. Sao rígidas, com ausência geral de movimento. A simplicidade, estilizaçao e frontalidade sao outras de suas características. Muitas destas peças guardavam relíquias, colocadas em sua parte posterior através de um pequeno buraco. Neste caso, seu valor e devoçao aumentavam substancialmente. Abaixo, vemos a imagem de N.Sra. la Blanca, também do séc. XIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACristo, na estética românica, aparece na maioria das vezes, na cruz. Esta representaçao é, provavelmente, de origem bizantina, expressando a vitória de Cristo sobre a morte e a salvaçao da humanidade. O corpo “repousa” sobre a cruz mediante 4 cravos, adotando uma postura simétrica. A cabeça aparece na posiçao frontal ou ligeiramente inclinada à direita, e os rosto apresenta uma expressao de absoluta serenidade. Na sequência, vemos um Calvário Românico de finais do séc. XII e início do XIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das peças mais interessantes é a Arca de Carrizo (segunda metade do séc. XIII), procedente do Monastério de Santa Maria de Carrizo, localizado na Província de León.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua funçao principal era de relicário, podendo ser colocada na parte frontal do altar. Na parte inferior, vemos as pinturas dos apóstolos, e na tampa, cenas da vida e paixao de Jesus Cristo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInegavelmente, uma das obras de maior valor artístico e histórico é a Arqueta de San Genadio, uma peça excepcional do Préromânico Asturiano. Este relicário foi um presente  oferecido pelo rei Alfonso III ao Bispo Genadio de Astorga, no séc. X. Apresenta uma grande riqueza iconográfica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das relíquias mais sagradas e desejadas na Idade Média por qualquer templo religioso era o Lignus Crucis, ou pedaço de madeira da cruz onde Cristo foi crucificado. O Museu da Catedral de Astorga possui um, protegido por uma estrutura de vidro, e colocada dentro de uma cruz feita com materiais preciosos.

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Sahagun – Castilla y León

A vila de Sahagun localiza-se na Provínvia  de León (Comunidade Autônoma de Castilla-León), às margens dos rios Cea e Valderaduey. Desde a época romana, apresentou grande vitalidade econômica e cultural, graças à sua privilegiada localização, que a comunicava com as demais localidades do império através da calçada romana e a denominada Via Trajana, que ligava Astorga a Zaragoza e Tarragona. A eleição geográfica do pueblo foi conseqüência da veneração que os habitantes tiveram aos santos mártires Facundo e Primitivo, legionários romanos convertidos ao cristianismo e que foram perseguidos e martirizados, e cujos restos foram jogados ao rio Cea. (séc.III dC).

Os cristãos recuperaram seus corpos e levantaram um antigo santuário consagrado a ambos (Domnos Sanctos, donde origina-se o nome da vila), sendo devidamente sepultados. A tradiçao atribui a Alfonso III a restauração da antiga igreja no ano 872 dC. Foi, porém, durante o reinado de Alfonso VI de León que a cidade e o monastério alcançaram o apogeu, devido à implantação dos denominados ritos cluniaenses com a chegada da Ordem de Cluny, que substitui os anteriores ritos visigodos (1080), e o impulso dado pelo monarca ao Caminho de Santiago, do qual Sahagun se tornou um dos locais imprescindíveis.

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O comércio se intensificou e a influência do monastério beneditino estendia-se a quase uma centena de outros conventos e igrejas da região. O próprio rei e quatro de suas esposas foram enterrados no monastério. No entanto, o sepulcro que continha seus restos foi destruído por causa de um incêndio em 1810 e seus restos mortais foram levados ao monastério das monjas beneditinas situado bem próximo às ruínas do antigo monastério. Abaixo, vemos uma foto deste monastério, e que pode ser visitado, pois também sedia um museu religioso.

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No séc. XVI, o monastério perde importância com a construção do Monastério Beneditino de Valladolid, e finalmente sua decadência é culminada com a desamortizaçao de Mendizábal no séc. XIX. O Monastério de San Bento possuía extraordinárias dimensoes, e atualmente se conservam apenas a Torre do relógio (a única preservada, das duas que existiam originalmente), que alberga a Capela de San Mancio, e o Arco de San Benito, um dos acessos à igreja do monastério. Construído em 1662, substituiu uma portada românica em ruínas, e representa ao modo de arco triunfal, um manifesto do poder do monastério e de sua fundação real. No primeiro corpo, vemos as imagens dos santos mártires, e em sua parte superior relevos que simbolizam o poder eclesiástico e monárquico, bem como as esculturas de Alfonso III e Alfonso VI. A seguir, vemos fotos das mencionadas estruturas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO patrimônio histórico-monumental de Sahagun, além de suas festividades anuais, a transformaram num destino turístico não só nacional, como também a nível internacional. Sua importância cultural é acentuada por ser um dos locais fundamentais do Caminho de Santiago. Os peregrinos que chegam à cidade podem hospedar-se no Albergue a eles destinado, situado na antiga Igreja da Trindade, que também funciona como Oficina de Turismo e auditório municipal. A igreja está documentada desde o ano 1221, e a aparência que hoje observamos é resultado de numerosas reformas iniciadas a partir do séc. XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERABem em frente, situa-se a Igreja de San Juan, cuja construção iniciou-se em 1627, e as vivas cores da fachada recordam o aspecto do estilo neoclássico colonial.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa imagem abaixo, vemos o contraste entre os estilos de ambos os templos.

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A cidade é reconhecida no campo da arquitetura por possuir dois dos mais renomados exemplos de templos mudéjares de todo o território espanhol. Construídas praticamente em totalidade por tijolos, são parte integrante do denominado Românico de Ladrillo (tijolo, em espanhol).

A Igreja de San Lorenzo é a parroquia da vila. Obra do séc. XIII, possui 3 ábsides e uma esbelta torre, composta por 4 corpos que reduzem de tamanho à medida que ascendem. O resultado é uma estrutura de grandes dimensões, mas com um aspecto de leveza.

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Em 2011, seu mal estado de conservação a incluiu na lista de monumentos em perigo do patrimônio espanhol.

Já a Igreja de San Tirso é uma das mais célebres construções mudéjares de todo o país. Levantada no séc. XII, desde 1931 é considerada Monumento Nacional, e atualmente sedia um pequeno museu de arte sacra.

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Sua torre é magnífica, e igual que a de San Lorenzo, eleva-se a partir do ábside, característica singular das igrejas de Sahagun. Formada por dois corpos, o primeiro é maciço, para sustentar o peso da estrutura superior, e o segundo é oco. A torre original derrubou-se em 1948, e sua reconstrução, finalizada em 1960, reproduz fielmente o desenho original.

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Outra de suas atrações é a Ponte Canto, de origem romana, pois fazia parte da calçada que unia as diversas províncias do império. Foi reconstruída em 1085 durante o reinado de Alfonso VI e reformada nos séc. XVI e XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa imagem que segue, vemos a típica vegetaçao das margens do rio Cea.

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Atualmente, Sahagun possui menos de 3mil habitantes, e seu número decresce de forma contínua, devido ao envelhecimento populacional, a baixa taxa de natalidade e a emigração a outras zonas mais desenvolvidas economicamente, como as cidades de León e Palencia.

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Toro – Castilla y León

A cidade de Toro, localizada no noroeste da península, pertence à Província de Zamora, Comunidade de Castilla y León. Banhada pelas águas do rio Duero, situa-se num cerro elevado.

Está identificada com a “Arcobala” que aparece nos textos antigos e que, juntamente com Salamanca, foi conquistada pelo general cartaginês Aníbal no séc. III aC. Antes da dominação romana, este território pertencia aos Vetones, um povo ibérico. Sua organização era basicamente militar, com uma classe guerreira e outra servil, dedicada à pecuária,  base de sua economia. A este povo se deve a cultura dos Verracos, por suas esculturas monolíticas, representando animais. Uma destas esculturas, um touro, esteve muito tempo junto à Colegiata de Santa Maria e, segundo uma teoria, pode ter originado o nome da cidade.

Depois da invaso muçulmana, foi reconquistada por Alfonso III (séc. IX). Mas foi somente com Alfonso VII que adquire importância, que não deixou de aumentar, até a época dos Reis Católicos.

Durante a Idade Média, tornou-se uma das mais prósperas cidades do Reino de León, principalmente por sua produção de vinho, famoso até os dias atuais.

Touro foi a sede das cortes reais em várias ocasiões, mas o acontecimento histórico mais relevante da vila foi sua participação na guerra pela sucessão do trono de Enrique IV de Castilla, entre Juana La Beltraneja e Isabel La Católica. Este conflito dividiu o Reino de Castilla, e contou também com a participação de Portugal e do Reino de Aragón. A cidade tomou parte por Juana, mas em 1476 as tropas isabelinas lograram a vitória na chamada Batalha de Toro, crucial para que chegasse ao poder.

Depois da morte de Isabel, seu marido, o rei Fernando El Católico, convocou as cortes na cidade em 1505, onde leu o testamento de Isabel e se proclamou rainha de Castilla a sua filha Juana. Diante de demonstraçoes de demência, foi nomeado regente seu pai, Fernando El Católico. A partir de então, inicia-se o declínio da cidade.

Atualmente, porém, Toro goza de uma intensa vida cultural, e seu vasto patrimônio é merecedor de muitos turistas que visitam a cidade. A porta de entrada de seu centro histórico é a Torre do Relógio, construída no séc. XVIII.

Diz uma lenda que na argamassa utilizada em sua construçao, foi usado vinho em vez de água, pois era mais barato utilizá-lo do que subir a água do rio Duero. A torre está situada sobre a antiga Porta do Mercado e foi levantada na época do rei Felipe V. O desenho do projeto foi obra de Joaquim Churriguera.

Depois de passar pelo arco da torre e descendo a rua, encontramos a Casa Consistorial, ou prédio da Prefeitura, de 1778.

Projetado pelo arquiteto Ventura Rodríguez, substituiu o antigo edifício, destruído por um incêndio. Na praça onde se situa, ocorrem as festas da cidade, com várias manifestações culturais.

A Igreja de San Salvador de Los Caballeros, é a típica construçao do Românico-Mudéjar, erguida com tijolos.

Do séc. XIII, a igreja pertenceu à Ordem Templária, até a extinção da mesma. Em 1929, foi declarada Monumento Histórico, o que evitou sua ruína. Atualmente, sedia o Museu de Arte Sacra, com uma bela coleção de esculturas medievais. Abaixo, vemos algumas delas, como este Cristo articulado pertencente ao séc. XIII.

No museu, encontramos belos sepulcros medievais esculpidos, como os de abaixo.

Na nave central, podemos admirar pinturas ao fresco de estilo mudéjar.

No ábside central, as pinturas que o decoram são posteriores, do séc. XVII. Devido às pinturas murais que acolhe em seu interior, o templo é conhecido também como San Salvador, El Pintado.

O Monastério de Sancti Spiritus, construído a partir de 1316, acolhe a freiras dominicanas e, no interior, acolhe o sepulcro de Beatriz de Portugal, seu maior tesouro. A instituição foi fundada pela infanta portuguesa D.Teresa Gil.

O Alcázar é o único resto conservado do antigo sistema defensivo da cidade. De planta quadrada, foi local de residência dos Reis Católicos e de Juan II de Castilla. Do protagonismo que teve durante a Batalha de Touro em 1766, no séc. XVI deixa de acolher os monarcas, iniciando sua decadência. Declarado Monumento Histórico-Artístico desde 1931.

No próximo post, seguiremos desvendando os segredos desta bela cidade…