A Catedral Compostelana

Esta série de matérias sobre Santiago de Compostela estaria incompleta, caso não publicasse posts sobre seu edifício mais famoso e importante, a Catedral, que preside o Centro Histórico da cidade, declarado Patrimônio da Humanidade em 1985.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConsiderada um dos templos mais importantes de todo o mundo, a Catedral Compostelana está dedicada ao Apóstolo Santiago, cujos restos descansam em seu interior. Este fato a converteu num dos principais centros de peregrinação da Europa desde a Idade Média, através do Caminho de Santiago. O sepulcro do Apóstolo, nomeado Padroeiro da Espanha, foi descoberto no século IX por um eremita chamado Pelayo, que comunicou o achado ao Bispo Teodomiro de Iria Flávia, atual município galego de Padrón. O bispo, por su vez, avisou da notável descoberta ao Rei Asturiano Alfonso II, que posteriormente converteu-se no primeiro peregrino documentado do caminho. O monarca ordenou a construção de uma pequena capela no local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADiante do crescente número de peregrinos e das reduzidas dimensões do templo, se construiu uma igreja maior no ano 829 e no final do século IX (899) uma outra igreja, de estilo pré-românico, construída pelo Rei Alfonso III, que se transformou gradualmente num importante local de peregrinaçao. Em 997, esta primitiva igreja foi destruída pelo General Almanzor, comandante do exército muçulmano do Califato de Córdoba, que respeitou, no entanto, o sepulcro do Apóstolo Santiago. Apesar disso, as portas e campanas da igreja foram levadas à Mesquita de Córdoba. Quando a cidade andaluza foi reconquistada pelo Rei Fernando III em 1236, foram transportadas por prisioneiros muçulmanos à cidade de Toledo, concretamente a sua notável catedral gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADestruída a igreja primitiva, durante o reinado de Alfonso VI e sob o patrocínio do Bispo Diego Peláez, se iniciou a construção da atual catedral, um dos edifícios de estilo românico de maior importância em toda Europa. Edificada basicamente com granito, as obras se detiveram em vários momentos, sendo finalizada em 1122 e consagrada por primeira vez seis anos depois. Seus principais arquitetos foram Bernardo El Viejo, seu discípulo Roberto e um grande arquiteto da Arquitetura Românica, o Mestre Esteban. A última etapa construtiva ocorreu a partir de 1168, quando o chamado Mestre Mateo realizou a cripta e o fabuloso Pórtico da Glória, considerado um dos expoentes máximos da Arte Românica. As obras finalizaram em 1211, ano em que a Catedral é definitivamente consagrada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAcima, vemos o aspecto da fachada principal românica da catedral, antes da reforma barroca realizada no século XVIII, que dá para a Plaza del Obradoiro. Esta imponente e maravilhosa fachada, além de outras partes da Catedral, como o mencionado Pórtico da Glória, está sendo restaurada para solucionar o processo de deterioração em seus elementos estruturais e decorativos, causado principalmente pela humidade, além de intervenções realizadas no passado que resultaram problemáticas. Além do mais, a fachada recebeu um necessário tratamento de limpeza. Abaixo, vemos duas imagens da fachada, antes da reforma, e outra atual.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs primitivas torres da fachada principal eram românicas, mas forma substituídas pelas atuais durante a reforma barroca. Abaixo, vemos a Torre do Relógio, situada no lado direito da fachada. Foi realizada em 1680 por Domingo de Andrade. O relógio é de 1831, e os sinos são réplicas, cujos originais foram colocadas no claustro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo exterior da catedral, a única fachada que conserva sua fábrica românica é a impressionante Fachada de las Platerías, construída pelo Mestre Esteban entre 1103 e 1117.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACaracteriza-se por sua riqueza escultórica, tanto nos capitéis, quanto nos tímpanos de suas duas portas. No tímpano da esquerda, vemos cenas relacionadas às tentaçoes de Cristo. No extremo direito aparece a representação de Eva com uma caveira, identificada como adúltera pelo Códice Calixtino (um pouco complicado de ver na foto…).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo tímpano da direita, vemos outras cenas historiadas, como a Epifania em sua parte superior. Na parte inferior, a cura do cego e episódios da Paixão de Cristo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns elementos decorativos foram colocados posteriormente (final do século XIX), como estes 6 meninos que faziam parte do coro de pedra situado na nave central da igreja e realizado pelo Mestre Mateo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro local destacável do exterior da catedral é a Porta Santa, cuja porta se abre somente nos denominados Anos Santos ou Jubilar, quando as festividades em honra ao Apóstolo Santiago (25 de julho) caem num domingo, algo que ocorre em intervalos de 5, 6 e 11 anos. Este privilégio foi concedido pelo Papa Calixto II em 1122.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANas laterais da porta, também foram colocadas, no século XVII, 24 figuras de personagens bíblicos, do Antigo e do Novo Testamento, que originalmente integravam o coro pétreo do Mestre Mateo. Em sua parte superior, vemos o Apóstolo Santiago, cuja imagem foi realizada em 1694 por Pedro del Campo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos esta primeira parte sobre a Catedral de Santiago de Compostela com a Fachada da la Azabachería, construída em 1758, substituindo a antiga Porta do Paraíso, pela qual entravam a maioria dos peregrinos.

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Santiago de Compostela

Minha viagem com o Marcelo e a Cristina pela Galícia finalizou de forma maravilhosa em Santiago de Compostela, cidade monumental cujos adjetivos escasseiam para definir sua beleza e importância histórica. Capital da Comunidade da Galícia, sede do governo e do parlamento galhego, meta última dos milhares de peregrinos que realizam o Caminho de Santiago, pois acolhe o sepulcro do Apóstolo Santiago, padroeiro da Espanha, e Patrimônio da Humanidade desde 1985, Santiago de Compostela é uma destas cidades que merecem ser visitadas ao menos uma vez na vida.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASuas origens estão intimamente relacionadas ao culto do apóstolo que lhe dá nome, pois até o descobrimento de seus restos no início do século IX, se pode dizer que a cidade não existia. O crescimento e importância desta cidade se deve à enorme quantidade de peregrinos que desde a Idade Média visitam a tumba do apóstolo, situado em sua impressionante Catedral Românica, que recebiam o apelativo genérico de “francos“, independente de seu local de origem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nome “Compostela” deriva da expressao latina “Campus Stellae“, que significa “Campo de Estrela“. Segundo a tradição medieval, no ano de 813 um eremita chamado Pelayo, alertado pelas estrelas que iluminavam o céu noturno num bosque denominado Libredón, encontrou os restos do Apóstolo Santiago e avisou ao Bispo Teodomiro de Iria Flávia sobre as relíquias do santo. A descoberta propiciou que o Rei Alfonso II de Asturias (760/842) realizasse a primeira peregrinação a este novo local sagrado para o Cristianismo, pois as outras rotas de peregrinação, como Roma, encontravam-se, naquele momento, num período de decadente, e Jerusalém estava sob o poder dos árabes. Abaixo, vemos a imagem do apóstolo que preside a incrível fachada barroca da Catedral de Santiago de Compostela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPouco a pouco a cidade começou a desenvolver-se devido a este protagonismo religioso, mas foi destruída pelo General Almanzor em 997, numa batalha situada dentro do processo de reconquista cristã das terras ocupadas pelos mouros. Almanzor, respeitou, no entanto, a tumba do apóstolo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra explicação para o nome da cidade vem da expressao “Composita Tella“, que significa “Tierras Hermosas“. A cidade foi reconstruída e fortificada a partir do século XI, momento em que se construiu uma nova muralha, além de transformar-se numa sede apostólica pelo Bispo Cresconio. Em 1075, o Bispo Diego Pelaéz ordenou a construção da Catedral Românica, que atualmente contemplamos apesar das reformas realizadas, principalmente em sua fachada principal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo ponto de vista político, destaca-se a coroação do Rei Alfonso VI (1040/1109) na catedral compostelana. Este monarca foi Rei de León, Castilla e da Galícia. Em 1181, o Papa Alexandro III concedeu o privilégio do Ano Santo Jacobeu. Nesta época foi redatado o famoso Códice Calixtino, um conjunto de textos que tornou-se uma fonte primordial para os peregrinos que realizavam o caminho, e que atualmente encontra-se protegido dentro da catedral, depois que foi roubado há poucos anos atrás e posteriormente reencontrado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra data fundamental para a cidade foi 1643, quando o Rei Felipe IV estabeleceu o Apóstolo Santiago como o Padroeiro da Espanha. A prosperidade alcançada fez com que se tornasse um grande centro artístico a partir da época barroca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo vemos a Plaza del Obradoiro, a principal da cidade, onde situa-se a fachada principal da Catedral, a Prefeitura, um maravilhoso Parador de Turismo e um dos edifícios de sua famosa Universidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Atualmente, Santiago de Compostela é uma cidade de serviços em virtude do intenso turismo religioso e cultural que possui. Sua economia destaca-se também pela indústria de telecomunicações e do setor madeireiro, além de centro universitário e sede administrativa do Governo Autônomo da Galícia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATive o privilégio de ficar 4 dias na cidade, e conhecer boa parte de seus monumentos, igrejas, praças, ruas e pontos de interesse turístico. A partir de hoje, inicio uma extensa série de matérias, onde os leitores (as) do blog poderão conhecê-la com mais profundidade.

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Palácios de Córdoba

Muitos sao os palácios existentes no Centro Histórico de Córdoba que podem ser visitados, aumentando ainda mais as opções turísticas desta incrível cidade da Andaluzia. Um exemplo é o Palácio de los Luna (original em espanhol), que mantêm sua estrutura do século XVI. Foi construído pelo arquiteto Hernán Ruiz “El Viejo”, que colocou em sua parte superior um mirante para os moradores da casa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom uma estrutura bem parecida, o chamado Palácio del Orive foi projetado pelo filho de Hernán Ruiz “El Viejo”, Hernán Ruiz II (outra vez ele…). Também é conhecido como Palácio de los Villadones, sendo que o arquiteto reformou a antiga residência senhorial desta família no estilo renascentista em 1560.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA fachada principal é um dos seus maiores destaques, estando composta por uma figura feminina e franqueada por dois leões, que representam a lealdade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs dependências interiores foram dispostas em torno a dois pátios. O principal está composto por colunas de épocas romana e árabe que foram reutilizados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO pátio principal possui dois níveis de altura. Acima, vemos o nível inferior, e abaixo, o superior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro exemplo das denominadas Casas-Pátio de Córdoba é a Casa de las Cabezas (original em espanhol), situada numa ruela de época muçulmana, chamada Calle de las Cabezas. Conhecida também pelo nome de Casa dos Siete Infantes de Lara, a história e as lendas enriquecem o legado deste palácio, cuja visita interior recomendo, pois atualmente é um museu que vale a entrada…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASegundo a tradição, este palácio pertenceu inicialmente ao grande general árabe Almanzor. A explicação de seu nome tem a ver com uma lenda que se considera uma das mais importantes da Literatura Castelhana do período medieval. Os Sete infantes de Lara eram os filhos de Gonzalo Gustioz. Um conflito com outra família rival fez com que fossem assassinados e suas cabeças foram entregues ao pai numa bandeja de prata no interior da casa. Depois foram colocadas sobre os sete arcos presentes na rua ao lado do palácio. Abaixo, vemos o pátio interior da casa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA visita ao palácio nos conduz a uma típica residência senhorial de tempos passados, com mobiliário de época em todas suas dependências.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do século XV, as casas senhoriais adquiriram uma característica que se conserva até os dias atuais, o desdobramento das dependências que as constituem. O andar de baixo, ao ser mais fresco, será utilizado durante os meses de calor, enquanto o andar superior passará a ser usado nos meses de inverno. Da mesma forma que o andar inferior da casa, sua parte superior possui todas as estâncias necessárias para a vida, inclusive uma cozinha de inverno.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto interessante da visita está relacionado a um costume originário de época muçulmana, o denominado estrado feminino, um espaço reservado exclusivamente às damas da casa, que se sentavam no solo para ler, conversar, etc. Segundo o poder econômico do proprietário, podiam estar revestidos de ricas sedas e requintadas almofadas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASegundo um autor espanhol do século XVII, Juan de Zabaleta, nas casas senhoriais chegaram a existir até três estrados distintos. Um deles se denominava “Estrado de Carinho“, situado no aposento que usavam as damas para dormir. Como viviam em dependências separadas, em determinadas ocasiões o senhor da casa podia aceder a esta dependência de uso feminino para oferecer seus carinhos…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm muitos palácios cordobeses o estilo mudéjar contribuiu para o adorno da residência, como vemos na porta de acesso ao subsolo, utilizado como local de depósito de queijos, vinhos, etc, devido a temperatura mais fresca do ambiente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO próximo post estará dedicado a um palácio de visita obrigatória em Córdoba, o famoso Palácio de Viana.

A Catedral de Córdoba

O conjunto da Mesquita-Catedral de Córdoba é resultado dos vários períodos históricos que passou a cidade, desde sua construção inicial como templo islâmico sobre a Basílica Visigoda de San Vicente a partir do século VIII, e suas reformas e ampliações nos séculos posteriores, até a incorporação do edifício catedralício em sua estrutura, depois que Córdoba foi reconquistada pelos cristãos no século XIII. Mas como ocorreu este processo?

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA chegada ao poder de Almanzor, primeiro ministro do governo do califa Hisham II, supôs a última reforma da Mesquita de Córdoba, como vimos no post anterior. Este personagem destacou-se por suas inúmeras incursões militares contra as cidades que faziam parte dos Reinos Cristianos, como Barcelona, Léon e Santiago de Compostela, somente para citar algumas. Como general que era, a influência e importância de Almanzor debilitou o poder do califa, originando uma guerra civil que provocou a desintegração do Califato de Códoba em 1013 e  seu desaparecimento em 1031. A partir deste momento, Al Andalus se transforma num conglomerado de estados independentes, denominados Reinos de Taifas. Esta descentralização facilitou o avanço cristão e o processo de reconquista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs contínuas guerras travadas entre os distintos Reinos de Taifas provocaram a interferência dos monarcas cristãos através da política de Parias, um tributo que os Reinos de Taifas começaram a pagar para não serem atacados ou em troca de proteção militar. A situação de debilidade frente aos cristãos ficou patente em 1085, com a reconquista de Toledo. Depois deste importante acontecimento, os Reinos de Taifas solicitaram o auxílio dos Almorávides e depois dos Almohades, que invadiram a península a partir do final do século XI. Estes povos estavam formados por uma classe guerreira que defendiam uma doutrina ortodoxa do Islã. No entanto, a vitória dos exércitos cristãos na famosa Batalha de Navas de Tolosa em 1212 deixou o caminho aberto para a reconquista. Abaixo, vemos um braseiro de época almohade, pertencente ao acervo do Museu Arqueológico de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns anos antes da batalha, em 1146, o Rei Alfonso VII protagonizou a primeira conquista de Córdoba, embora nao fosse a definitiva, e a dedicação da Mesquita de Córdoba como Catedral. A cidade é reconquistada definitivamente em 1236 pelo Rei Fernando III, depois de 6 meses de assédio.  Abaixo, vemos um quadro situado numa das capelas da catedral que celebra a Reconquista de Córdoba por Fernando III.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASomente depois da conversão da mesquita em catedral o monarca realizou sua entrada solene na cidade. Considerado um rei piedoso e compassivo, ganhou a simpatia de seus súditos pela humildade que demonstrava em suas ações. Costumava convidar as pessoas de poucos recursos para comer junto a sua mesa e visitava pessoalmente os feridos nas batalhas. Antes de empreender uma ação militar, tentava esgotar todas as possibilidades diplomáticas. Grande devoto da Virgem Maria, seu corpo está enterrado na Catedral de Sevilha, cidade que também reconquistou. Estimulou as ciências e a cultura, contribuindo para o aparecimento das universidades. Sua fama de santidade fez com que fosse canonizado em 1671, passando a ser chamado de Fernando III, “El Santo“. Foi o responsável da recuperação de grandes áreas ocupadas pelos muçulmanos, como o Reino de Murcia e boa parte da atual Andaluzia. Abaixo, vemos uma estátua do rei, situada no Real Alcázar Cristiano de Córdoba (original em espanhol).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMaravilhado com a Mesquita de Córdoba, Fernando III decretou sua conservação, e não houve alterações substanciais em sua estrutura. A maior modificação na antiga mesquita ocorreu no século XVI, quando se decidiu construir uma catedral em seu interior a partir de 1523, durante a etapa do Bispo Alonso Manrique. O eclesiástico era tio do Imperador Carlos I, que recebeu sua autorização para a construção da catedral. O processo construtivo não esteve isento de polêmica, entre os que consideravam oportuno construir um templo cristão no interior da mesquita e aqueles que eram contrários ao projeto. Um pouco depois, o próprio Imperador Carlos I se arrependeu, ao pronunciar uma frase que ficou famosa: “Destruímos o que era único no mundo, e colocamos em seu lugar algo que podemos ver em todas as partes”. Não obstante, a transformação de parte da mesquita em catedral possibilitou sua conservação, e atualmente podemos contemplar ambos templos nesta construção maravilhosa. Nas próximas matérias, publicarei fotos e informações referentes à Catedral de Córdoba.

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Mesquita-Catedral de Córdoba – Parte 2

Como vimos no post anterior, a Mesquita de Córdoba foi construída inicialmente durante o governo do Emir Abderramán I, no final do século VIII. No entanto, foi ampliada várias vezes nos séculos subsequentes, até atingir suas dimensões atuais, respeitando sempre a construção original. A mesquita de Abderramán I adotou uma planta basilical, inspirada nas mesquitas de Damasco e Jerusalém, que por sua vez foram influenciadas pelas construções gregas, romanas e bizantinas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua originalidade radica nos módulos construtivos baseados na superposição de uma arcada dupla que se eleva ao teto do edifício, marcando as reformas posteriores e contribuindo para o desenvolvimento da história da arquitetura. Sua planta apresenta 11 naves paralelas formadas por um conjunto de arcos duplos, como se fosse um bosque de colunas. É a denominada grande sala de orações da Mesquita de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA bicromia elaborada através da combinação de elementos construtivos com alternância do branco e do vermelho cria a ilusão de um espaço sem eixo definido, abrindo-se em todas as direções. Atualmente se conservam 856 colunas, das 1013 que chegou a possuir, e que foram derrubadas para a construçao da Catedral de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADiferentemente das demais mesquitas, caracterizadas pelo sentido vertical, como se fosse uma Basílica Romana, na Mesquita de Córdoba se adotou uma concepção horizontal. Abaixo, vemos uma imagem da planta da mesquita e o contraste da estrutura  verticalizada da catedral, que foi edificada em seu interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o próspero governo de Abderramán II (833/848), foi realizada a primeira ampliação da mesquita, aumentando o tamanho da sala de orações. No ano 961, durante o governo de Al Hakam II, se realiza a que é considerada a mais importante das reformas efetuadas no templo. Este califa solicitou o auxílio do Imperador de Constantinopla Nicéforo Focas, cujos trabalhadores ensinaram aos cordobeses a técnica bizantina dos mosaicos, que adornaram de maneira espetacular a mesquita.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO denominado Mihrab constitui o espaço mais sagrado de qualquer mesquita, e no caso da Mesquita de Córdoba nao é diferente. Construído durante as reformas realizadas por Al Hakam II, é a zona mais luxuosamente decorada da mesquita, porque orienta o fiel em direçao à Meca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMotivos florais e geométricos, além de inscrições do livro sagrado do Alcorão decoram este incrível espaço, com um requinte difícil de superar. Representa uma porta simbólica do absoluto, estando rematado por uma cúpula semiesférica excepcional, em formato de concha como símbolo da vida.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA última ampliação realizada corresponde ao período do General Almanzor, em 991 dC. Abaixo, vemos outra cúpula, cujas inovaçoes arquitetônicas puderam inspirar o florescimento da Arte Gótica, séculos depois.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos as chamadas marcas de canteiros dos trabalhadores que realizaram as ampliações referentes aos governos de Al Hakam II e Almanzor. Estas marcas representavam uma espécie de assinatura de cada artesão, e são comuns na arquitetura medieval das igrejas cristãs, principalmente do período gótico. Através destas marcas, cada trabalhador podia cobrar pelo trabalho realizado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo a matéria com mais fotos da Mesquita de Córdoba

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Museu das Campanas (Sinos) – Urueña

A outra grande atração cultural do povoado de Urueña é o museu dedicado às campanas ou sinos, que despertou em mim um grande interesse sobre o universo destes instrumentos sonoros, de grande transcendência não só para a história das religiões e das grandes civilizações do mundo, como também nas lembranças de qualquer pessoa. Quem não se recorda das badaladas dos sinos em sua pequena cidade natal ou mesmo para aqueles que viveram nas grandes cidades? Este curioso e didático museu abriu suas portas em 1995, graças a um convênio entre a Fundação Joaquín Díaz e a Empresa Quintana S.A., que forneceu as peças pertencente à extraordinária coleção de Manuel Quintana, formada por sinos fabricados entre os séculos XV e XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interesse por este objetos foi despertado através da paixão com que a funcionária do museu, chamada Aurora, transmitiu seus enormes conhecimentos sobre a história e os fatos interessantes relacionados aos sinos, com um entusiasmo contagiante. Dividirei com vocês um pouco deste conhecimento em duas matérias sobre o museu, onde abordarei temas associados à sua história e evolução, sempre mostrando peças que fazem parte do acervo desta instituição cultural e também de alguns exemplares de sinos de algumas igrejas da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO uso das campanas como instrumento sonoro está documentado desde a antiguidade, e já era utilizado no terceiro milênio aC pelos chineses e desde o segundo milênio pela Civilização Egípcia. Entre os romanos, as campanas eram utilizadas para convocar a população aos atos públicos, e também como instrumento lúdico. Os sinos adquirem grande importância na Civilização Cristã Ocidental ao ser incorporado nas torres das igrejas, com a função de chamar as pessoas a oração e ao culto religioso. Por este motivo, começou-se a equiparar seu som com a voz de Deus. Interpretado pela Igreja Católica como instrumento sonoro de comunicação e também como objeto sagrado, sua sonoridade constitui até os dias de hoje uma linguagem universal. Os sinos acompanham nossa vida desde tempos remotos, como vimos, e os principais fatos da vida, como nascimento, matrimônio e morte, foram celebrados por seu inconfundível toque.  Também os principais acontecimentos e festividades de cada cidade, além do perigo relacionados aos elementos naturais, como incêndios e tormentas, foram anunciados pelas campanas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASe acredita que foi a partir do século V dC quando as campanas começaram a ser instaladas nas igrejas. Tradicionalmente se atribui a San Paulino de Nola sua incorporação aos templos católicos. A cidade de Nola era a capital da região da Campania, situada no sul da Itália. San Paulino, bispo de Nola, tornou-se o padroeiro dos campaneros e as torres que passaram a alojar os sinos receberam o nome de Torre Campanário. No entanto, sua utilização receberá respaldo oficial da igreja somente no ano de 604, quando o Papa ordenou que as campanas fossem tocadas para avisar os fiéis do início dos cânticos canônicos realizados no interior das igrejas. Ao longo do século VIII se generalizou este costume e no século seguinte se produz a difusao total das campanas, sendo que cada paróquia deveria conter, ao menos, uma delas. Nos séculos XII e XIII, com a construçao das grandes catedrais e de suas imponentes torres, os sinos começaram a se destacar por suas grandes dimensões.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANetsa época, na Península Ibérica se travaram constantes enfrentamentos entre os muçulmanos e os cristãos, e as campanas passaram a ser consideradas como os objetos mais desejados para enaltecer uma vitória nos campos de batalha. Almanzor, um dos grandes generais árabes da história, ao chegar a Santiago de Compostela, se apoderou do grande sino da catedral compostelana e o levou consigo para ser instalado na Mesquita de Córdoba, neste período capital do Império de Al Andaluz. Posteriormente, com a reconquista de Córdoba pelos cristaos no século XIII, o monarca Fernando III o devolveu ao seu local de origem. Este costume de roubar as campanas das igrejas católicas e colocá-las nas mesquitas com o objetivo de transformá-la num objeto de iluminação foi muito comum na época, e mesmo hoje em dia muitos exemplares de sinos podem ser encontrados no interior de mesquitas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs campanas foram utilizadas também como forma de espantar os maus espíritos. O bronze, material empregado em sua fabricação, foi considerado em muitas culturas como um metal sagrado ao ser usado na elaboração de peças de culto. Por sua dureza e resistência constitui um símbolo de incorruptibilidade e imortalidade. No mundo católico, as campanas adquirem estas virtudes no momento em que são consagradas através o ritual da bendição, cuja finalidade era transformar um objeto profano em sagrado para o culto religioso. Num princípio, os sinos foram elaborados com ferro soldado, mas logo passou-se a utilizar o bronze, uma combinação de cobre e estanho. O denominado “Bronze Campana” está formado por uma mistura composta de 80% de cobre e 20% de estanho.

Maderuelo – Província de Segóvia

Depois de deixar Ayllón, nosso próximo destino foi outro povoado encantador, a vila de Maderuelo, localizada a poucos quilometros de Ayllón. Tal como esta, Maderuelo também figura entre os Pueblos Mais Belos da Espanha, e foi declarado Conjunto Histórico-Artístico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO mais impressionante da vila é sua localização geográfica, no alto de uma colina e rodeada pelo Embalse de Linares, um lago artificial com 690 hectares que foi declarado Reserva Natural.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMaderuelo foi construída num cerro rochoso com um recinto de muralhas que se adapta perfeitamente à forma do relevo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo alto de seu centro histórico, as vistas do lago impressionam…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar das poucas informações sobre sua história, se sabe que foi repovoada pelo Conde castelhano Fernán González no século X e posteriormente saqueada pelo exército do comandante árabe Almanzor. No século seguinte se construiu a muralha junto com o castelo e no século XII foi anexionada ao Bispado de Segóvia. Posteriormente, tornou-se um senhorio pertencente à família dos Luna e depois aos Marqueses de Villena (a partir do século XVI), como sucedeu com Ayllón.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA muralha defensiva estava constituída por 4 portas e um castelo integrado, que infelizmente desapareceu. A única porta sobrevivente é o chamado Arco da Vila.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMaderuelo possui somente 120 habitantes. A estrutura de suas casas se caracterizam pela irregularidade, predominantemente estreitas e com quarteirões alargados, adossados à muralha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm seu período de máximo esplendor, na Idade Média, Maderuelo chegou a ter 10 paróquias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, se conservam duas, ambas envoltas em mistério, pois se acredita que faziam parte de uma estrutura defensiva mais antiga. A Igreja de San Miguel é de origem românica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJá a Igreja de Santa María del Castillo destaca-se pela diversidade de estilos que apresenta. Preserva elementos da arquitetura califal, algo único na Província de Segóvia, pois parece que foi construída sobre a mesquita local. Parcialmente destruída por um incêndio no século XVI, foi reconstruída com materiais de outras construções da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAJunto ao Embalse de Linares, situa-se a Ermita de Vera Cruz, catalogada como Monumento Nacional em 1924.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta singela, mas famosa construção, foi erguida pelos templários sobre uma outra ermita de época visigoda. Seu interior estava totalmente decorado com Pinturas Românicas. Com a construção do Embalse, as pinturas foram levadas ao Museu do Prado, e hoje podem ser vistas na seção dedicada às pinturas de Estilo Românico do museu. Em seu local original,  as pinturas foram substituídas por cópias. Uma pena que a ermita estava fechada…

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