Monastério de Uclés – Parte 2

Como comentei no último post, o Monastério de Uclés teve uma grande importância histórica na Espanha por ter sido a sede da Ordem de Santiago, uma das principais ordens militares e religiosas do país. A Ordem de Santiago foi fundada no século XII (ano de 1170) no antigo Reino de León, precisamente na cidade de Cáceres, atual Comunidade de Extremadura. Inicialmente, seu objetivo primordial era proteger os peregrinos que realizavam o caminho a Santiago de Compostela, onde se encontra o sepulcro do Apóstolo Santiago, santo padroeiro da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom o tempo, a Ordem de Santiago acabou participando do processo de expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica, tendo um papel relevante nas guerras de reconquista. No Monastério de Uclés vivía o grande mestre da ordem, bem como muitos dos cavalheiros que pertenciam à instituição. O emblema da ordem era a Cruz de Santiago, que podemos observar em distintos locais do monastério, como no pátio…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu na sacristía….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERATrata-se de uma cruz vermelha que simula uma espada com forma de flor de lis na empunhadura. Os cavalheiros da ordem  levavam a cruz estampada num estandarte e em sua capa branca. A espada representa o espírito guerreiro do Apóstolo Santiago e sua forma de martírio, pois foi decapitado com uma espada. Simboliza também “tomar a espada” em nome de Cristo. Abaixo, vemos a cruz numa das capelas da igreja do Monastério de Uclés, na qual podemos ver exposições sobre a história da ordem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Ordem de Santiago enriqueceu graças ao grande território que se estendia sobre seus domínios, principalmente pela região que atualmente conhecemos como Castilla La Mancha. Chegou a possuir mais propriedades que as ordens de Alcántara e Calatrava juntas, outras ordens importantes do país. Sua rápida propagação se deve a que suas regras eram menos rígidas que as demais, sendo a única em que os cavalheiros membros tinham o direito de casar. Além de suas amplas propriedades na Espanha, a Ordem de Santiago possuía terras em Portugal, França, Itália, Hungria e também na Palestina. Abaixo, vemos a sacristía do Monastério de Uclés, transformada numa capela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1493, os Reis Católicos incorporaram as ordens militares-religiosas à Coroa da Espanha. Atualmente, constituem uma organização nobiliária religiosa e honorífica. Na sequência, vemos um quadro do Apóstolo Santiago retratado como peregrino…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, a bela escada de acesso ao nível superior do pátio construído como se fosse um claustro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE um quadro da Imaculada Conceição que decora uma das paredes do interior do monastério.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto a ser salientado neste monastério é a grande quantidade de estilos artísticos que apresenta em sua construção, como vimos na matéria anterior. Sua fachada principal pertence ao século XVIII, e foi realizada por Pedro de Ribera, um dos maiores arquitetos barrocos da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi concebida como se fosse um autêntico retábulo feito de pedra, caracterizado por uma rica decoração.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1836, com o processo desamortizador dos bens eclesiásticos, a Ordem de Santiago teve que abandonar o monastério. No começo do século XX, o Monastério de Uclés transformou-se num colégio de educação secundária e depois num colégio de noviciados pertencente aos padres agostinhos. Em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, foi saqueado, convertendo-se num hospital. Com o término do conflito, acolheu uma penitenciária para presos políticos até 1943, em cujo período faleceram centenas de presos republicanos pelas más condiçoes a que eram submetidos, além da prática da tortura. Finalmente, com o fechamento da prisão, foi transformado num seminário.

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Monastério de Uclés – Prov. Cuenca

Antes de iniciar o primeiro post de 2020, gostaria de desejar um maravilhoso ano a todos vocês, repleto de harmonia, saúde e amor !!!! No final de 2019 realizei outras excursões organizadas por meus professores de história de Madrid e acompanhado por um grupo de 50 pessoas, sempre em busca de lugares de grande interesse histórico e artístico pela Espanha. O local escolhido numa delas incluiu uma cidade romana e um monastério que fazia tempo que tinha vontade de conhecer, situado na cidade de Uclés, que faz parte da Província de Cuenca, uma das províncias integrantes da Comunidade de Castilla La Mancha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs monastérios (mosteiros, em português) constituem instituições religiosas habitadas por monges em clausura. Também podem ser denominados Abadias (quando regidos por um abade) ou prioratos (dirigidos por um prior). O Monastério de Uclés, de grande importância histórica e religiosa no país, está situado no alto de um cerro, a cujos pés encontramos o povoado que dá nome ao monastério. Nesta pequena colina havia antigamente um castro celtíbero (pequeno povoado onde viviam tribos celtas que entraram em contato com os povos iberos, autóctonos do território espanhol). Séculos depois, os muçulmanos construíram no local uma fortificação, da qual se conservam apenas três torres e parte de sua muralha defensiva dupla.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO Monastério de Uclés faz parte de um grande complexo de construções realizadas em distintos períodos históricos, iniciando-se na época muçulmana e alcançando uma enorme importância como fortaleza propriedade da Ordem de Santiago, que o utilizou como sua sede principal, depois que a cidade de Uclés foi reconquistada pelo Rei Alfonso VIII, que acabou doando a antiga fortaleza a esta ordem religiosa da Espanha no ano de 1174.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Com o tempo, foram edificadas várias dependências nas quais viviam os membros da Ordem de Santiago, que se uniram à fortaleza inicial. Estas ampliações afetaram principalmente o sistema defensivo da fortificação, que em sua maior parte foi destruído. O Monastério de Uclés, tal como o conhecemos hoje, foi construído a partir de 1529, durante o reinado do Imperador Carlos I. Sua importância arquitetônica e artística se comprova pelos vários estilos da construção, relacionados ao prolongado tempo necessário até a finalização do conjunto monacal. Inicialmente, utilizou-se o estilo plateresco, que formou parte da primeira etapa do Renascimento na Espanha, caracterizado pela riqueza dos elementos decorativos. O projeto foi realizado por um arquiteto chamado Enrique Egas, de grande fama neste período.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos o imenso pátio em forma de claustro do monastério, composto por 36 balcões distribuídos ao longo de seu perímetro. Foi construído no século XVII e apresenta dois níveis construtivos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do século XVI se construiu a igreja no estilo herreriano, caracterizado pela austeridade decorativa. Este estilo deve seu nome ao arquiteto Juan de Herrera, famoso por ter sido o responsável principal do projeto do Monastério de El Escorial, situado próximo a Madrid. Por esta razão, o Monastério de Uclés é considerado como “El Escorial de La Mancha“. A igreja finalizou-se em 1602.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo interior da igreja foram sepultados vários membros relevantes da Ordem de Santiago, como Rodrigo Manrique e seu famoso filho, o poeta Jorge Manrique.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja possui apenas uma nave e um coro elevado. Em sua nave única se abrem capelas comunicadas entre si, onde podemos apreciar exposições sobre a Ordem de Santiago, além de várias obras artísticas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Retábulo Maior que presidia o Altar Maior era de estilo clássicos com tendências barrocas, mas foi danificado durante a Guerra Civil Espanhola do século XX, e posteriormente reconstruído. O quadro central do retábulo foi realizado pelo pintor real Francisco Rizzi no século XVII, sendo recentemente restaurado. Nele aparece o Apóstolo Santiago, santo padroeiro da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, publicarei a segunda parte da matéria sobre o Monastério de Uclés

 

 

San Clemente – Parte 2

A cidade de San Clemente possui um importante patrimônio histórico digno de conhecer-se. Seus principais edifícios encontram-se nas proximidades de sua Plaza Mayor. Uma destas construções, que reflete a importância da localidade, é o Pósito, um depósito de cereais para ser utilizado em época de produção insuficiente, que somente encontramos em cidades de relevância histórica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConstruído no século XVI, posteriormente foi usado como prisão e quartel da guarda civil. Em sua fachada, vemos os escudos da Casa Real dos Áustrias e o próprio escudo de San Clemente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar do nome, o chamado Arco Romano pertence ao período barroco, servindo de passagem à parte histórica da cidade.  Abaixo, vemos do lado direito o Pósito e, à esquerda, a Igreja Paroquial de Santiago.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPassando pelo arco, encontramos a Real Audiência, também do século XVI. Atualmente é a sede da Prefeitura de San Clemente. Do edifício original, conserva a arcada inferior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADois dos edifícios mais notáveis da cidade pertencem ao estilo renascentista. A Igreja Paroquial de Santiago constitui uma extraordinária obra, que inclui elementos góticos e barrocos em sua estrutura e decoração interna.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO templo possui duas portas principais, em uma das quais foi representado o Apóstolo Santiago.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO projeto da igreja é atribuído ao grande arquiteto renascentista Andrés de Vandelvira (1505/1575). O interior está formado por 3 naves com enormes pilares de sustentaçao e cúpulas estrelhadas. Possui um impressionante retábulo maior barroco, que foi construído segundo o formato do original, queimado durante a Guerra Civil Espanhola do século XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo centro do retábulo, vemos a figura de Santiago Matamouros, montado num cavalo branco cujas patas destroçam a cabeça de um guerreiro muçulmano. Em uma das capelas da igreja vemos uma excepcional cruz feita de alabastro, de 3 metros de altura,  considerada uma verdadeira jóia artística do final do século XV. Seu autor é desconhecido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA sacristia da igreja exibe uma coleção de várias peças interessantes, como as que vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Antiga Casa Consistorial de San Clemente é um verdadeiro orgulho para seus habitantes, pois é considerada uma das mais belas de toda a Comunidade de Castilla La-Mancha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASituada na Plaza Mayor, é uma obra prima do Renascimento Espanhol. Foi edificada no século XVI, durante o  reinado de Felipe II.  Está composta por dois níveis de arcadas e uma torre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO último arco de sua parte inferior serve de passagem para a rua lateral, como vemos na imagem acima. Foi projetado por Domingo de Zalvide e sua construção se estendeu de 1566 a 1622. O edifício apresenta uma curiosa decoração de personagens, estando coroado pelo Escudo Monárquico dos Áustrias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAHoje em dia, funciona como arquivo histórico local e museu, além de um centro de exposições. Tanto a igreja quanto a antiga Casa Consistorial foram declarados Bem de Interesse Cultural em 1992.

Apóstolo Santiago – Parte 2

O Apóstolo Santiago, um dos 12 apóstolos de Jesus e Padroeiro da Espanha, foi chamado de Santiago Maior para diferenciá-lo de outro discípulo de mesmo nome, que passou a ser conhecido como Santiago Menor, por ser mais jovem. A origem do nome Tiago deriva indiretamente do latim Iacobus, por sua vez uma latinização do nome hebraico Yaakov, em português Jacó. Com o decorrer do tempo, o nome evoluiu em diversas denominações segundo os distintos idiomas:  Jakob em alemão, James em inglês, Giacomo em italiano e Jacques em francês. Na Catalunha é conhecido como Jaume ou Jaime.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir do século XI, os peregrinos que realizavam o Caminho de Santiago, com destino final em Santiago de Compostela, se converteram num fenômeno de massa a nível europeu. Esta famosa rota de peregrinaçao foi impulsionada por monarcas, como o Rei Alfonso VI, e também pela importante Ordem Beneditina de Cluny (França), que introduziu na Península Ibérica a liturgia romana e fixou o traçado do Caminho de Santiago, que atravessa o norte da Espanha. Este fato foi fundamental para transformar a imagem do apóstolo em Santiago Peregrino, uma de suas principais manifestações no campo iconográfico e artístico. A influência do Caminho de Santiago na configuração das lendas associadas ao apóstolo é enorme. Um de seus principais atributos, que permitem identificá-lo, é a espada com a qual foi martirizado (decapitado) e o livro, símbolo da doutrina evangélica. Como Santiago Peregrino, normalmente aparece com um chapéu de aba larga, bastão de caminhante, e a Concha de Vieira, outro de seus símbolos principais. Acima e abaixo, vemos representaçoes de Santiago como Peregrino, em esculturas pertencentes ao Museu do Caminho de Astorga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAté princípios do século XVI, o Apóstolo Santiago é representado com seus atributos de Peregrino, mas conservando suas características de apóstolo, como o livro, a vestimenta e os pés descalços. Outra faceta fundamental do apóstolo é como defensor da fé católica dentro do processo de Reconquista da Espanha, um santo guerreiro. Segundo a tradição, durante as batalhas entre os muçulmanos e os cristãos ao longo dos séculos em território espanhol, milagrosamente aparecia o Apóstolo Santiago num cavalo branco, com a espada na mão, auxiliando o exército cristão a derrotar o inimigo. Os mouros aparecem aplastados sob as patas do cavalo do apóstolo. Um exemplo é a Batalha de Clavijo, ocorrida na atual região da Rioja, no ano de 844. Abaixo, vemos um quadro que retrata a Batalha de Clavijo, situado na Igreja de Santiago de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesta forma, nasce a representação de Santiago Matamoros, uma das mais habituais relativas ao santo, sendo que é assim representado por primeira vez no ano 1230. Sempre segundo a tradição das lendas a ele associadas, o Apóstolo Santiago também interviu em outra batalha fundamental, a das Navas de Tolosa, ocorrida no século XIII. Abaixo, vemos uma escultura de Santiago Matamoros do século XVIII, presente na Catedral de Santiago de Compostela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA mesma cena aparece na fachada da Igreja de Santiago em Logroño, capital da Rioja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra cena constante é o transporte de seu sepulcro, puxado por bois. Na Capela de Santiago da Catedral de Segóvia, vemos um retábulo com esta representação. Na parte central vemos Santiago Peregrino e, na parte superior, Santiago Matamoros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesde o século IX, os reis cristãos reconheceram o Apóstolo Santiago como Padroeiro da Espanha, e estabeleceram o Voto de Santiago, que consistia numa oferenda obrigatória que as terras reconquistadas deveriam realizar anualmente como bens à Catedral de Santiago de Compostela, graças ao auxílio recebido pelo apóstolo na reconquista. Sua figura teve também um papel inspirador na Conquista da América, onde foi declarado padroeiro de várias cidades latino americanas, como Santiago do Chile, Santiago de Cuba e Caracas, entre muitas outras. Abaixo, vemos a Igreja de Santiago de Medina de Rioseco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1630, durante o reinado de Felipe IV, o Papa Urbano VII declarou o Apóstolo Santiago como o único Padroeiro da Espanha. Abaixo, vemos a estátua equestre do monarca, situada na Plaza del Oriente de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos símbolos mais famosos associados ao Caminho de Santiago e ao apóstolo é a Concha de Vieira, um molusco abundante na Galícia. Sua origem é duvidosa, mas uma lenda conta que o apóstolo salvou um cavalheiro que caiu no mar, sendo coberto por conchas. O que se sabe com certeza é que os peregrinos que chegavam à Santiago de Compostela recebiam, como prova da realização do caminho, um diploma feito de pergaminho que comprovava a façanha, e colocavam no seu sombreiro uma Concha de Vieira. Portar a concha passou a ser considerado um tributo ao apóstolo. Na capital galega e por todo o Caminho de Santiago, é habitual ver a concha,  que vemos representada na arquitetura, junto a Catedral de Santiago de Compostela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Concha de Vieira marca também a rota do caminho, como vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XII, com o intuito de proteger os peregrinos e também para colaborar no processo de Reconquista, foi criada a Ordem Militar de Santiago. Seu símbolo é uma cruz vermelha simulando uma espada, uma referência ao seu caráter guerreiro e ao seu martírio. Às vezes, o Apóstolo é representado como um cavalheiro, com a espada e um estandarte branco, com a Cruz da Ordem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Cruz de Santiago aparece, de forma curiosa, numa das sobremesas tradicionais da Galícia, que podemos provar por todo o país, a Torta de Santiago. Sua origem é remota, provavelmente do século XVI. Feita de amêndoas e ovos, em 1924 uma confeitaria de Santiago de Compostela decidiu enfeitar o dôce com a Cruz de Santiago

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo a matéria sobre o Apóstolo Santiago com outra igreja dedicada ao santo, em Ávila..

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Apóstolo Santiago

Como complemento às matérias dedicadas a minha recente viagem realizada pela Galícia, decidi publicar uma pequena série de dois posts sobre o personagem fundamental destas terras, e motivo principal da existência de muitas das cidades que pertencem ao Caminho de Santiago, como a própria Santiago de Compostela. Refiro-me ao Apóstolo Santiago, o Santo Padroeiro da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos 12 apóstolos de Jesus Cristo, Santiago (em português São Tiago) nasceu provavelmente na Galileia, e foi um dos filhos de Zebedeu e Salomé. Seu irmão, São João Evangelista, também fez parte do círculo íntimo de Jesus. Ambos o conheceram às margens do Mar da Galileia, quando pescavam junto com Simão Pedro e seu irmão André. Pedro, e os irmãos João e Tiago, formaram o trio de discípulos preferidos de Jesus e foram testemunhos diretos de alguns dos principais episódios da vida de Cristo. Depois da morte e ascensão de Jesus, Santiago começou a anunciar a nova fé e se encontrava em Jerusalém quando foi vítima da perseguição contra os cristãos promovida por Herodes Agripa, Rei da Judeia e neto de Herodes O Grande, que decapitou o santo pelas costas no ano 44. Santiago tornou-se, portanto, o primeiro apóstolo que foi martirizado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste pequeno resumo de sua vida constitui o ciclo evangélico da vida do santo. Com seu martírio em Jerusalém e seu posterior sepultamento em terras galegas, iniciou-se uma das maiores devoções a um santo cristão graças aos milhares de peregrinos que, desde a Idade Média, realizam o Caminho de Santiago para venerar seu sepulcro na Catedral de Santiago de Compostela. A tradição de seu enterramento na Galícia se fundamenta em vários textos que adquirem sua forma definitiva no século XII, como a “História Compostelana”, escrito em 1139 por ordem do Bispo Diego Gelmírez de Santiago de Compostela, e o Códice Calixtino, onde se relata os acontecimentos mais importantes de sua vida. Depois de predicar na região da Judeia, veio a Espanha para seguir com seu papel evangelizador. O primeiro em admitir a evangelização do apóstolo na Península Ibérica foi o famoso Beato de Liébana em seus comentários sobre o Apocalipse, redatado em 776. Foi ele também o primeiro em referir-se ao Apóstolo Santiago como Padroeiro da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos episódios mais importantes da vida de Santiago na Espanha ocorreu na cidade de Zaragoza, quando no ano 40 a Virgem Maria, em “carne mortal”, ou seja, em vida, apareceu ao apóstolo no alto de uma coluna feita de jaspe, conhecida como Pilar. Como testemunho de sua presença, o apóstolo ergueu uma pequena capela, que com o passar dos séculos originou a construção da Basílica do Pilar, um dos centros de devoção mariana mais antigos e importantes do mundo, onde ainda hoje se venera a Coluna do Pilar. A denominada Virgem do Pilar foi declarada a Santa Padroeira da Espanha e do mundo hispânico. Abaixo, vemos uma foto da bela Basílica do Pilar de Zaragoza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois do martírio do santo em Jerusalém, seus restos foram trazidos por dois de seus discípulos, Atanasio e Teodoro, num barco à Galícia. Então, ambos discípulos começaram a procurar um local santo para seu enterramento, e foram recebidos pela Rainha Lupa, perversa governante da Galícia, que os enviou a uma de suas propriedades, onde prometeu bois para o transporte do sepulcro. No entanto, ao chegarem ao local, viram que se tratava de touros bravos. Também encontraram com um feroz dragão que esculpia fogo. Os discípulos, em vez de se assustarem, fizeram o sinal da cruz e, milagrosamente, o dragão explodiu e os touros se transformaram em bois mansos. Retornaram ao palácio da Rainha Lupa que, arrependida, se converteu ao cristianismo e transformou seu palácio numa igreja. Este fato foi mencionado no livro “A Lenda Dourada”, escrito em 1264 por Jacobo de la Vorágine. Abaixo, vemos uma pintura que retrata o episódio, que faz parte do acervo do Museu do Caminho, sediado no magnífico Palácio Episcopal de Astorga, projetado pelo arquiteto modernista Antoni Gaudí.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO sepulcro do santo foi enterrado na cidade de Iria Flávia, atual Padrón, e abandonado no século III devido às perseguições religiosas na época em que o território formava uma província do Império Romano, conhecida como Hispania. Perdida a memória exata do local onde foi enterrado o santo, segundo a lenda uma luz misteriosa apareceu ao eremita Pelayo indicando o local do sepulcro. O Bispo Teodomiro de Iria Flávia foi comunicado e descobriu o sepulcro de mármore do santo e de seus dois discípulos numa antiga necrópole da cidade. Este local, indicado por uma estrela, recebeu o nome de “Campus Stellae“, ou “Campo da Estrela“, origem da cidade de Santiago de Compostela. Na época do Rei Alfonso II “El Casto” (791/842), se difunde por toda a península a notícia da descoberta do sepulcro do santo, fato que originou uma das maiores rotas de peregrinação de todo o mundo cristão, o Caminho de Santiago. Abaixo, vemos o Apóstolo Santiago na fachada da igreja a ele dedicado, em Medina de Rioseco, cidade da Comunidade de Castilla y León.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEvidentemente, na Espanha existem muitos templos dedicados ao seu santo padroeiro. Abaixo, vemos a Igreja de Santiago de Madrid

OLYMPUS DIGITAL CAMERA A Igreja de Santiago de Málaga, onde foi batizado Pablo Picasso em 1881…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm muitas capelas existentes nas Catedrais da Espanha vemos sua figura, como na Capela Funerária de Santiago da Catedral de Toledo, em sua parte superior…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu na Capela de Santiago, pertencente à Catedral de Segovia

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Catedral de S.Compostela: O Mestre Mateo

Esta última matéria sobre a Catedral de Santiago de Compostela está dedicada a um de seus maiores artífices, um dos grandes artistas de toda a Arte Medieval Européia, o Mestre Mateo. Quem alguma vez teve o privilégio de contemplar sua obra máxima, o chamado Pórtico da Glória, situado na entrada da catedral, pôde constatar sua beleza inigualável e a imensa influência que exerceu ao longo dos séculos. Devido ao processo de deterioração que se produziu durante os 8 séculos de sua existência, o conjunto está sendo restaurado desde já alguns anos, motivo pelo qual poderemos admirá-lo somente ao final da reforma, que está a ponto de finalizar. De qualquer forma, atualmente existem exposições sobre o trabalho do Mestre Mateo no Museu da Catedral e também no vizinho Palácio de Gelmírez, que possibilitam compreender melhor a obra do grande mestre e o trabalho de restauraçao que está sendo desenvolvido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Museu Catedralício complementa a visita do templo maior compostelano, motivo pelo qual vale a pena conhecê-lo. Possui um excepcional conjunto de escultura e pintura de várias épocas, além de restos arqueológicos encontrados na catedral, mas infelizmente nao se pode fotografar. Abaixo, vemos uma foto exterior do museu, situado em frente à Plaza del Obradoiro, ao lado da bela fachada barroca da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo balcão, situado em seu nível superior, as vistas da praça são impressionantes, bem como das casas do Centro Histórico de Santiago de Compostela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o lento processo construtivo da Catedral Românica, em 1168 o Rei Fernando II encarregou o Mestre Mateo com a incumbência de finalizar as obras de suas naves. Além do mais, construiu uma cripta para salvar o desnível da catedral com a Plaza del Obradoiro, sobre a qual ergueu o maravilhoso Pórtico da Glória, concluído em 1211, quando se realizou a consagração da catedral. Considerado um dos expoentes maiores da Arte Românica de finais do século XII e começo do XIII, suas inovaçoes arquitetônicas, escultóricas e iconográficas anunciam, com o naturalismo de seus personagens, o novo estilo que estava surgindo na França, o Gótico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO imenso pórtico possui três grandes arcos de meio ponto (semicirculares), correspondentes a cada uma das naves da catedral, e sua iconografia está baseada no Livro do Apocalipse. No Arco Central, aquele que desperta maior atenção por seu tamanho e características, aparece a figura de Cristo em Majestade, rodeado pelos símbolos dos 4 Evangelistas. O arco está dividido por uma coluna, denominada Parteluz, com uma grande riqueza escultórica. Está presidida pelo Apóstolo Santiago, titular do templo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEmbaixo da imagem do santo, vemos a Árvore de Jessé, que representa a genealogia humana de Cristo, por primeira vez representada na Arte Românica da Península Ibérica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte inferior do Parteluz, o Mestre Mateo se autorepresenta, dedicando sua obra ao Apóstolo Santiago. Uma inscrição possibilita  sua identificação, na qual está escrito “Architectus”. Esta escultura é também conhecida como o “Santo dos Croques“, devido a uma antiga tradição em que os estudantes da cidade golpeavam sua cabeça para adquirir sabedoria. Posteriormente, este gesto foi incorporado pelos peregrinos ao entrar na catedral, mas foi proibido para que a imagem não fosse prejudicada em sua estrutura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstátuas construídas a modo de colunas decoram o Pórtico da Glória, com personagens do Antigo e do Novo Testamento, como as que vemos abaixo, onde aparecem os chamados Profetas Maiores. Da esquerda para a direita, vemos Jeremías, Daniel, Isaías e Moisés. O naturalismo dos personagens, que observamos no sorriso de Daniel, constituem uma das principais inovações artísticas do Mestre Mateo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente as imagens estavam policromadas, para proporcionar um maior realismo. Ao ficarem expostas à humidade durante séculos, pois o Pórtico da Glória somente ficou protegido no século XVI, o colorido sofreu um grande desgaste. As figuras foram pintadas, total ou parcialmente, em várias ocasiões, e um dos objetivos do processo atual de restauração é devolver sua policromia. Abaixo, vemos a cabeça de um dos personagens representados…

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém no Arco Central, vemos a representação dos 24 anciãos do Apocalipse, cada qual com seu instrumento musical. Esta cena, comum na Arte Românica, tornou possível o conhecimento dos instrumentos utilizados na época, e hoje em dia podemos assistir concertos de música antiga realizado somente com instrumentos medievais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Mestre Mateo também realizou um excepcional coro feito de granito, que esteve na nave central da catedral até 1603, quando foi substituído por um coro de madeira. Em 1945, este coro foi levado ao Monastério de San Martín Pinario, que vimos recentemente no blog. Felizmente, podemos apreciar o coro pétreo, pois foi reconstruído no Museu da Catedral. Mais uma vez lamento a proibição das fotografias no local. Por este motivo, tirei uma foto de um livro, que está longe de fazer jus à beleza do coro, mas que pelo menos nos dá uma pequena idéia de sua grandiosidade e qualidade artística.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de derrubado, parte de suas peças foram reutilizadas em outras partes da catedral, principalmente em suas fachadas exteriores, como vimos nas matérias anteriores. A biografia do Mestre Mateo continua sendo um enigma. A fama que alcançou em vida e a transcendência de sua obra fizeram com que os estudiosos procurem documentar sua formação e aprofundar no conhecimento de seu trabalho. Abaixo, vemos uma cabeça masculina, provavelmente um personagem bíblico que fazia parte de uma estátua-coluna realizada pelo Mestre Mateo e seus indispensáveis colaboradores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs fotos da presente matéria foram tiradas em 2012, durante minha primeira visita à Catedral de Santiago, quando ainda podíamos ver em parte o Pórtico da Glória, cuja restauração estava iniciando-se. Outras foram realizadas em minha última viagem de 2018, que foram complementadas com imagens das exposições que podemos ver atualmente sobre o Mestre Mateo e também de livros de arte sobre a catedral. Recomendo que assistam o vídeo abaixo, onde podemos ver o Pórtico da Glória e seu processo de reabilitação.

O Botafumeiro da Catedral de S.Compostela

O templo sagrado da Catedral de Santiago de Compostela oferece inúmeras atrativos para o visitante, como sua arquitetura românica, o Sepulcro do Apóstolo Santiago, suas belíssimas fachadas e capelas, etc. Além do mais, um espetáculo digno de se ver tem, como protagonista, o chamado Botafumeiro, um grande incensário banhado de prata e com 1.60 m de altura. O movimento pendular que realiza pela nave transversal da catedral deixam incrédulos peregrinos e turistas que visitam a Catedral Compostelana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA tradição no uso deste instrumento de purificação remonta ao século XI, com a função de perfumar o ambiente interno da catedral, eliminando o mau cheiro provocado pelos centenares de peregrinos que, cansados e suados, chegavam a catedral para venerar o Sepulcro do Apóstolo Santiago. O Botafumeiro é posto em ação durante o culto das missas, logo após a comunhão, quando o hino do Apóstolo Santiago é tocado pelos órgãos barrocos da catedral, iniciando seu espetacular trajeto em frente ao altar maior. Durante o movimento que realiza, o instrumento quase chega a tocar o teto do transepto (nave transversal). Nos 90 segundos que dura sua trajetória, alcança uma velocidade de 68 km/h e chega a formar um ângulo de 82 graus sobre a vertical, descrevendo um arco de 65 m de amplitude sobre a nave e uma altura máxima de 21 m. No total, os espectadores contemplam 17 ciclos de vai e vem do instrumento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Botafumeiro aparece no Códice Calixtino, e o ritual que se realiza atualmente data, como mínimo, do século XII. O mecanismo que possibilita sua trajetória baseia-se no movimento de poleas e na lei do pêndulo, e foi realizado pelo Mestre Celma no final do século XVI. A corda que o sustenta é de material sintético e, antes que realize sua trajetória, se coloca carvão e incenso. O Botafumeiro vazio pesa 62 kg, mas chega aos 100 kg depois da colocação destes materiais. O início do espetáculo ocorre quando um funcionário da catedral empurra o instrumento para movê-lo de sua inércia. Depois, um grupo formado por 8 homens, conhecidos como “Tiraboleiros“, puxam cada um de sua respectiva corda para aumentar sua velocidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente existem dois incensários que se guardam na Biblioteca da Catedral, sendo o mais antigo de 1851. Nos oito séculos de existência, foram registrados alguns incidentes durante o espetáculo, como o ocorrido em 1499, quando o instrumento se desprendeu da corda e saiu voando, chocando-se contra o muro da catedral. Em 1622, a corda se rompeu e o Botafumeiro caiu contra o solo. No século XX, rompeu as costelas e o nariz de uma pessoa que se aproximou demais para admirá-lo….No Youtube existem vários vídeos onde se pode observar os preparativos do Botafumeiro e sua notável trajetória. Escolhi este de abaixo, vale a pena ver…