Calatayud – Comunidade de Aragón

Calatayud é, tanto no plano histórico quanto no econômico, uma das principais cidades da Comunidade de Aragón. Situada na Província de Zaragoza, dista aproximadamente 90 km da capital aragonesa, estando comunicada pelos trens de alta velocidade que unem Madrid e Barcelona. Sem contar as chamadas capitais de província da comunidade (Zaragoza, Teruel e Huesca), Calatayud é a única cidade que conta com mais de 20 mil habitantes (21 mil, no senso realizado em 2014).

20150813_092026Sua localização na confluência dos rios Jiloca, Jalón e Ribota condicionou sua longa história, representando um lugar de passagem entre as principais rotas que comunicavam o Vale do Rio Ebro e a zona central do país. Abaixo, vemos o Rio Jalón, que atravessa a cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs primeiros habitantes da cidade, os celtíberos, se assentaram a 4 km da atual cidade de Calatayud, num povoado denominado Bílbilis, que foi posteriormente conquistada pelos romanos, transformando-se numa importante cidade. Até hoje, os nascidos em Calatayud são chamados de bilbilitanos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo entanto, Calatayud “aparece no mapa” com a chegada dos árabes em 716, quando foi construído o Castelo de Qual at Ayub, que deu o nome à cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo séc. XI, Calatayud transformou-se numa das maiores cidades da Taifa de Zaragoza. Foi reconquistada em 1120 pelo rei Alfonso I “El Batallador”, quando então recebeu o foro. Desde 2006 celebram-se as festas chamadas “Las Alfonsadas“, quando a cidade volta a ter um aspecto medieval, recriando os acontecimentos que sucederam durante o processo da reconquista. A necessidade de repovoamento do território depois de reconquistada fez com que o foro da cidade fosse respeitoso com as minorias. A partir de então, passaram a conviver junto com os cristãos, os judeus e os mouros. Abaixo, vemos o atual aspecto da antiga Judería da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA presença judaica em Calatayud foi simultânea com a dominação islâmica. Se assentaram principalmente na parte alta, próximo às fortalezas da cidade, criando ruas sinuosas e estreitas. Como Aljama, isto é, como bairro judeu, se constituiu no séc. XII. No final do séc. XIII, a população judaica estava formada por quase 200 famílias, uns 900 habitantes aproximadamente (um número significativo na Idade Média), convertendo a Judería de Calatayud na mais importante de Aragón, depois da comunidade judaica de Zaragoza. Os judeus permaneceram na cidade até o edito de expulsão promulgado pelo Reis Católicos em 1492. Os que não se converteram foram obrigados a emigrar a outros países. Já os judeus conversos permaneceram na cidade, mantendo seus ritos, crenças e tradições na clandestinidade. Em Calatayud, como em grande parte das cidades que chegaram a possuir importantes bairros, os judeus desenvolveram uma importante atividade comercial, artesanal e científica, neste caso principalmente relacionada com a medicina.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs mouros habitaram um bairro próprio, a Morería, até que foram expulsos em 1610. Abaixo, vemos uma foto da antiga morería, reconhecível pelo nome da rua com um desenho da lua em quarto crescente, símbolo do islã.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA convivência entre estas três culturas produziu uma das artes mais originais do continente europeu, embora seja exclusivamente espanhola, o Mudéjar. Em Aragón, este estilo adquiriu características próprias, que lhe valeram o reconhecimento da Unesco como Patrimônio da Humanidade em 2001. Calatayud é, junto com Zaragoza, Teruel e Daroca, uma das capitais do mudéjar aragonês, e algumas das igrejas da cidade formam parte da lista de monumentos mudéjares da comunidade que foram protegidos pela Unesco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACalatayud ostenta o título de cidade desde 1366. O principal ponto de encontro de seus habitantes é a medieval Plaza de España, que originalmente era o local onde se realizava o mercado.

20150813_101406Nela também se realizavam corridas de touros, como sucedeu com a maioria das praças maiores do país. A maior parte das casas que vemos atualmente foram construídas nos séc. XVII e XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO principal edifício da praça é a Casa Consistorial, sede da Prefeitura de Calatayud, uma construção renascentista do séc. XVI e reformada no XIX.

20150813_101418 Calatayud faz parte do Caminho de El Cid, que vimos recentemente no blog. Nos próximos posts veremos com mais profundidade a história dos principais monumentos desta bela e importante cidade aragonesa.

Belas Igrejas de Guadalajara

Além da catedral e dos conventos, Guadalajara possui um variado conjunto de belas igrejas, espalhadas pelo seu centro histórico. No post de hoje e no próximo, conheceremos algumas delas. A Igreja dos Remédios, por exemplo, formava parte do antigo convento de N.Sra dos Remédios e foi edificada a partir de 1573.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe estilo renascentista, ressalta o átrio composto por 3 arcos. Atualmente, o edifício acolhe uma das dependências da Universidade de Alcalá de Henares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém construída no séc. XVI (1561), a Igreja de San Gines fazia parte de um convento desaparecido, o de Santo Domingo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte superior da fachada, vemos o escudo da Ordem Dominicana. No interior do templo, se encontram os sepulcros dos fundadores do convento, Don Hurtado de Mendoza e de sua esposa, D.Juana de Valencia, além de outro influente personagem da vida social da cidade, Don Iñigo López de Mendoza. Abaixo, vemos outra imagem da fachada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa sequência, vemos uma foto do interior da Igreja de San Gines, formado por apenas uma nave.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAGuadalajara possui algumas construçoes relacionadas  no estilo mudéjar, cujo maior exemplo é a própria catedral. A Igreja de Santiago surpreende todos aqueles que visitam seu interior, formado por uma combinaçao deste estilo com o gótico, denominado, portanto, de gótico-mudéjar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO teto da igreja está composto por uma magistral estrutura de madeira.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Igreja de Santiago integrava o Monastério de Santa Clara, igualmente desaparecido. A fachada é austera, ocultando seu maravilhoso interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos mais importantes restos arqueológicos de Guadalajara podem ser vistos no único elemento sobrevivente da antiga Igreja de San Gil, o ábside.

DSC07937É curioso notar mais este exemplo de Arte Mudéjar, situado no meio de construçoes modernas…

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Românico em Brihuega

Em Brihuega se conservam ainda hoje excelentes exemplares de Igrejas Românicas, entre as quais destacamos a de San Miguel, San Felipe e de Santa Maria. Todas elas foram construídas no séc. XIII, durante o período em que a vila se tornou possessao do Arcebispo de Toledo D. Rodrigo Ximénez de Rada. O conjunto arquitetônico românico de Brihuega é um produto do contexto histórico resultante do processo de reconquista e a posterior colonizaçao do território. Quando os cristaos conseguiram dominar a bacia do Rio Duero, as terras da Província de Guadalajara continuaram, entretanto, a sofrer períodos de inestabilidade, consequência de sua posiçao limítrofe com os Reinos Árabes. Com a pacificaçao da regiao, ocorreu um aumento demográfico que se traduz na construçao de inúmeras igrejas dentro do estilo próprio daquela época, o Românico. Todas as igrejas de Brihuega se classificam no período final do estilo, também chamado Românico Tardio, e sua fábrica está inspirada nos modelos da arquitetura cistercense. Este período é conhecido também como Românico de Transiçao, pois já se observam elementos que anunciam o Estilo Gótico. O primeiro templo que vamos conhecer é a Igreja de San Miguel.

DSC08225Nesta construçao aparecem elementos oriundos do Mudéjar Toledano, como podemos apreciar no ábside poligonal, feito de tijolo (ladrillo, em espanhol), e nos  contrafortes.

DSC08224A Igreja de San Miguel sofreu um incêndio entre os séc. XVI e XVII, e perdeu praticamente todas as obras de arte que possuía. Abaixo, vemos a fachada principal e a portada.

DSC08226Depois de finalizada a Guerra Civil Espanhola, a igreja ficou praticamente abandonada e, finalmente, seu teto e as naves derrubaram-se. Em 1979, foi restaurada pela Associaçao Amigos de Brihuega, e atualmente é utilizada para eventos culturais. Abaixo, vemos uma imagem da parte lateral da igreja, com uma porta mais simples que a da fachada.

DSC08228A Igreja de San Felipe é justamente considerada uma das mais belas de Brihuega.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua lindíssima fachada apresenta um conjunto de 3 rosetones admiráveis, e uma bela portada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACuriosamente, a torre de planta octogonal nao está unida ao templo, pois foi edificada aproveitando-se uma das torres da muralha da cidade, e posteriormente levantou-se o nível superior para os sinos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém na fachada, podemos apreciar curiosos e enigmáticos capitéis figurados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior da Igreja de San Felipe está composto por 3 naves, algo habitual no Românico, separadas entre si por 5 arcos sustentados por colunas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos o ábside semicircular, cuja aparente simplicidade construtiva revela sua própria beleza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1904, uma vela produziu um incêndio que se propagou pelo teto de madeira. O criterioso processo de restauraçao realizado devolveu, felizmente, o aspecto original que a igreja tinha quando foi construída. A seguir, vemos uma Pia Batismal, que no Românico foi decorada com maravilhosos relevos, com inúmeros exemplos por todo o território espanhol. A que vemos, no entanto, apresenta uma decoraçao mais austera e simples.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Igreja de Santa Maria veremos num post à parte, quando conheceremos o encantador local onde se localiza, o Prado de Santa Maria. Até lá…

Arévalo – Cidade Mudéjar

A Arquitetura Mudéjar é, indiscutivelmente, uma das características mais marcantes da cidade de Arévalo. Designamos Arte Mudéjar, especialmente no campo arquitetônico, a um estilo próprio da Península Ibérica desenvolvida nos Reinos Cristãos entre os séculos XII e XVI. O estilo distingue-se pela combinação das correntes artísticas européias da época (Românico e Gótico, principalmente) com os elementos da denominada tradição Hispano-Muçulmana. Seu surgimento foi possibilitado graças à convivência cultural entre povos de origens diversas na Espanha Medieval. O termo Mudéjar se refere à população muçulmana que permaneceu na península durante o Processo de Reconquista. Hábeis construtores, utilizavam para a construção de edifícios, normalmente de função religiosa, um material abundante e barato, o tijolo. Dois deles podem ser vistos na Praça Da Vila de Arévalo, por si só, uma verdadeira preciosidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Praça, historicamente falando, sempre representou o centro da localidade. Trata-se de uma típica praça castelhana porticada, cuja excelente conservação lhe valeu o título de Conjunto Histórico-Artístico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANela, podemos apreciar exemplos da arquitetura popular medieval. As galerias que cumprem a função de suporte das construções estão formadas por 31 colunas de pedra e 25 de madeira.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm cada um de seus extremos, o espaço está delimitado pelas torres mudéjares das Igrejas de Santa Maria e San Martín.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Igreja de Santa Maria La Mayor é uma clara amostra do estilo mudéjar. Construída entre os séc. XII/XIII, nela destacam-se o ábside semicircular e a torre, a mais alta da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA parte inferior da torre está composta pelo Arco de Santa Maria, um dos principais acessos a esta belíssima praça.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante o processo de restauração do templo, foram encontrados em seu interior restos policromados de Pintura Mural da época em que a igreja foi erguida. A cena retrata uma imagem muito representada durante o período Românico, o denominado Pantocrátor ou Cristo em majestade. Com a mão direita e os dois dedos levantados (significando sua dupla natureza, divina e humana), Cristo bendiz a humanidade, enquanto a esquerda segura uma esfera, símbolo do universo. Ao seu lado, nos quatro ângulos da composição, vemos a representação simbólica dos quatro Apóstolos Evangelistas, denominados Tetramorfos. São eles: São João/Águia, São Marcos/Leão, São Mateus/Homem com Asas e São Lucas/Boi

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Igreja de San Martín foi construída em 1250, e se caracteriza por uma mistura estilística que engloba o românico, o mudéjar e o renascimento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja foi reformada nas etapas renascentista e barroca, quando perdeu seu ábside original. Ela é conhecida também pelo nome  “Torres Gêmeas”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa imagem acima, vemos o átrio românico que ainda se conserva, com os característicos Arcos de Meio Ponto. No séc. XX, foi usada como depósito de grãos e logo abandonada. Em 1931, a Igreja de San Martín foi declarada Monumento Nacional e realizou-se um intenso processo de restauração. Atualmente, não realiza cultos, como a Igreja de Santa Maria, e seu espaço interno está dedicado a eventos culturais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntes de finalizar o post, convém salientar que Arévalo sediou recentemente a décima oitava edição da Exposição “As Idades do Homem”. Estas exposições possuem um caráter itinerante e são organizada por uma fundação de caráter religioso, cujo objetivo é a divulgação da riquíssima Arte Sacra da Comunidade de Castilla y León. Na presente edição, a temática abordada foi o Credo.  Iniciada em 1988, a Exposição “Idades do Homem” repercute positivamente em todas as cidades sedes escolhidas, e com Arévalo não foi diferente, tal a quantidade de visitantes que a cidade recebeu durante o evento.

A Catedral de Teruel

A Catedral de Santa Maria de Mediavilla de Teruel é uma das construções mais importantes da Arte Mudéjar de toda a Espanha, sendo um dos escassos templos catedralícios construído neste estilo em todo o país.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua origem encontra-se na antiga Igreja de Santa Maria, edificada no estilo românico em 1171, e finalizada com a construção da excepcional torre mudéjar em 1257. Logo depois, a obra românica foi reformada, dotando o templo de 3 naves mudéjares. No séc. XIV, foi a vez do antigo ábside românico ser substituído por outro no estilo gótico-mudéjar. Em 1423, foi elevada à condição de Colegiata.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo séc. XVI (1538), ergue-se o maravilhoso cimbório da nave central, de planta octogonal e decoração combinando os estilos plateresco e mudéjar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom a criação da Diocese de Teruel, foi promovida a catedral, e consagrada como tal em 1587. Finalmente, no séc. XIX (1909), realiza-se uma nova fachada no estilo neomudéjar pelo arquiteto catalão Pablo Monguió. O pórtico se fecha com uma reja  (portão de ferro que delimita as capelas, coros, pórticos, etc) do séc. XV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA torre da Catedral de Teruel é considerada uma das torres mudéjares mais antigas do país. De planta quadrada, possui 3 corpos profusamente decorados com azulejos e cerâmica vidriada, e rematada por uma estrutura octogonal, colocada no séc. XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASe o exterior do templo é formidável, o interior guarda um dos tesouros mudéjares mais impressionantes que existem. Toda a parte superior da nave central está coberto por um teto mudéjar de 32m de comprimento, feito de madeira no séc. XIV. Sua função, além de decorativa, é estrutural, algo raro neste tipo de estrutura, que normalmente possuem somente a função ornamental. Infelizmente, está terminantemente proibido tirar fotos do interior. Há alguns anos atrás, pude tirar apenas uma foto, que não ficou nada boa…Para que vocês tenham uma ideia desta beleza, abaixo vemos a imagem, com seu plano geral.

DSC01495Nele, vemos representações históricas, religiosas e de costumes da época. Permaneceu em perfeito estado devido a que foi coberto por um teto falso no séc. XVIII, fato decisivo para a sua conservação. Para os (as) interessados em conhecer a fundo esta incrível obra de arte, sugiro uma  página sobre a Arte Mudéjar Aragonesa, como fonte de consulta e visualização:

http://www.aragonmudejar.com/teruel/…catedral/techumbre…

A torre, o cimbório e o teto interior compõem a lista de monumentos mudéjares da catedral, incluídos como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. A Catedral de Teruel foi catalogada também como Monumento Nacional em 1931.

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Teruel – A Cidade das Torres

Dentro do campo artístico e arquitetônico que se desenvolveu ao longo de toda a história da humanidade, existe um estilo excepcional único, que encontrou no território espanhol um local perfeito para seu florescimento. No post de hoje, conheceremos a tradição Mudéjar, uma notável combinação das técnicas artísticas muçulmanas, executadas e aperfeiçoadas dentro do contexto dos Reinos Cristãos Ibéricos. Dentro do blog, inúmeras vezes realçamos sua importância, nas matérias dedicadas a Toledo, Zaragoza, Daroca, somente para citar alguns exemplos. Na Comunidade de Aragón, a Arte Mudéjar alcançou as maiores cotas de refinamento, sendo reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAÀ medida que os reinos cristãos medievais seguiam avançando sobre os antigos territórios peninsulares anteriormente ocupados pelos árabes, muitos deles permaneceram vivendo nas cidades conquistadas. Essa população muçulmana ficou conhecida como Mudéjares. Organizadas em comunidades denominadas de Aljamas ou Morerías (onde habitavam os mouros), seguiam praticando sua religião, possuindo um certo grau de autonomia política. Em geral, dedicavam-se aos trabalhos agrícolas e à construção. Foram eles os criadores deste singular  e formidável estilo, que na cidade de Teruel, situada no sul de Aragón, legaram um patrimônio peculiar e único. O Mudéjar desenvolveu-se entre os séc. XII e XVI, e incorporou elementos das correntes românica e gótica, como os arcos de meio ponto e os ojivais, juntamente com a cerâmica vidriada e o tijolo, materiais mudéjares por excelência. Neste caso, são empregados tanto como elementos construtivos, como decorativos. Em Teruel, suas inúmeras torres, todas elas construídas segundo este padrão, propiciaram o enriquecimento da paisagem urbana, realmente maravilhosa. A primeira das torres que vamos conhecer é a de San Martín.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAErigida em 1316, é o único resto mudéjar sobrevivente da antiga paróquia dedicada ao santo, reformada na época barroca. A torre foi reformada no séc. XVI, período em que as casas adossadas ao conjunto foram derrubadas, criando-se uma praça aberta diante da torre que possibilita sua inteira contemplação. Entre 2002/2007, foi alvo de uma restauração completa, que lhe devolveu toda sua beleza original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA torre imita a estrutura de um minarete islâmico (local das mesquitas cuja função é chamar os fiéis às orações diárias, um dos pilares básicos do Islã). Como nas demais torres da cidade, a de San Martín possui um arco aberto em sua parte inferior, permitindo a passagem de pedestres e veículos, estando, dessa forma, plenamente integradas em seu urbanismo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANela, admiramos sua decoração, baseada na utilização de cerâmicas verdes e brancas. No caso mudéjar, utiliza as denominadas formas alicatadas, que consiste na associação de peças de distintas formas, que combinadas, criam motivos geométricos. Sobressaem, também, os chamados Arcos Mixtilíneos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAJá a Torre de El Salvador está localizada em pleno centro urbano. A grande quantidade de edifícios que a cercam dificulta a tomada de boas fotografias. Como a Torre de San Martín, possui planta quadrada e foi construída na mesma época, no séc. XIV, durante um período de esplendor do Reino de Aragón, no qual vivia uma grande quantidade de população árabe, graças ao foro concedido pelo rei Alfonso II.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA torre integrava o conjunto medieval da Igreja de El Salvador, que ruiu em 1677, sendo novamente reconstruída no estilo barroco. Na realidade, está formada por duas torres, uma construída dentro da outra. Na torre exterior, predomina exclusivamente o tijolo, enquanto a estrutura interior está composta por mampostería de gesso. Entre ambas, uma escada conduz o visitante à sua parte superior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Torre de El Salvador é visitável, pois sedia o Centro de Interpretação da Arte Mudéjar, uma exposição que inclui vídeos, fotos, maquetes e vários painéis explicativos que ajudam na compreensão do estilo. Na parte superior da torre podemos ver os sinos, e a visão urbana que oferece de seus arcos é incrível.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAExistem outras torres maravilhosas na cidade de Teruel, como as que formam a Catedral e a Igreja de San Pedro, que veremos em breve nos próximos posts…

Zaragoza Mudéjar

A Arte Mudéjar é uma manifestaçao genuína, fruto do contato entre muçulmanos, cristãos e judeus nos reinos hispanos. A herança islâmica se funde intimamente com a arquitetura ocidental como lição de convivência e aprendizagem mútuo.

O termo mudéjar procede da palavra árabe mudayyan e significa “aqueles a quem foram permitidos permanecer “, em referência à população muçulmana que, após a reconquista crista, continuaram a viver na península, mediante o pagamento de impostos. A arte mudéjar caracteriza-se pelo emprego de materiais econômicos, como tijolo, gesso, madeira e cerâmica.

Em Aragón , este estilo desenvolve-se entre os séc. XII e XVII, apresentando características diferenciadas em relação a outros territórios onde a arte se fez presente, como Andaluzia e Castilla. Para enriquecê-la, a ornamentação adquire uma importância fundamental, com composições geométricas, vegetais estilizados e a utilização da cerâmica vidriada. Abaixo, vemos um exemplo da arquitetura mudéjar aragonesa, em Teruel.

Depois da reconquista, muitas mesquitas islâmicas foram reutilizadas como alcázares ou catedrais, feito que influenciou na construção de novos edifícios. Muros de tijolo e gesso, arcos de ferradura, tetos de madeira decorados, solos de azulejos se combinam com os estilos da arquitetura ocidental, como o Românico, Gótico, Renascentista e barroco.

A Comunidade de Aragón preserva mais de uma centena de templos mudéjares, devido a numerosa população muçulmana que viveu em suas cidades durante a época medieval.

A decoração mural exterior é muito mais complexa e ornamentada que o mudéjar de outras partes de Espanha, e o uso da cerâmica um de seus principais elementos, principalmente nas tonalidades verde e branca. No plano arquitetônico, o mudéjar aragonês recebeu forte influência do estilo cistercense. Devido ao rico e peculiar legado de sua manifestação em Aragón, a Unesco reconheceu a Arte Mudéjar da comunidade como Patrimônio da Humanidade em 1986.

Na cidade de Zaragoza, perduram vários e valiosos exemplos de arte mudéjar, como 4 igrejas que conservam partes de sua construção o caráter original do estilo. No geral, apresentam apenas uma nave e cabeceira poligonal, além da decoração mural a base de motivos geométricos. Porém, se algo torna o mudéjar aragonês tão popularmente reconhecido é a sua magnífica coleção de torres-campanários. Estas espetaculares estruturas derivam de antigos minaretes, aos quais se construíram um corpo a mais para a instalação dos sinos. Se caracterizam pelo formato quadrado ou octogonal, esta influenciada pela arte italiana renascentista.

Iniciamos agora um itinerário pelos principais templos mudéjares de Zaragoza. O Palácio da Aljaferia, cuja origem se remonta ao séc. IX, foi tratado num post à parte, por sua importância histórica e arquitetônica.

A Catedral de San Salvador ou La Seo também foi foco de uma matéria publicada. No entanto, destacamos o magnífico muro exterior da capela de San Miguel Arcángel, construído em 1360, bem como seu fabuloso cimbório, ambos em estilo mudéjar.

A Igreja de San Pablo é um dos melhores exemplos de como no séc. XIV, seguindo a influência renascentista italiana, os campanários mudéjares abandonaram a planta quadrada e se convertem em poligonais, freqüentemente octogonais.

O templo foi construído sobre a antiga ermita românica de San Blás e, no interior, destaca o órgão e o retábulo maior, obra de Damián Forment, realizado no séc. XVI. A igreja de San Pablo foi declarada Monumento Nacional em 1931.

Protótipo perfeito do mudéjar aragonès, a Igreja da Magdalena sobressai por seu formoso campanário, levantado no séc. XIV.

A Igreja de San Gil também conserva a torre, igualmente do séc. XIV. Posteriormente, foram realizadas reformas na fachada e no interior, em estilo Barroco (séc. XVII).

Por fim, vemos a Igreja de San Miguel de Los Navarros, também reformada em época barroca, e que conserva sua bela torre mudéjar do séc. XIV.

Na portada, vemos a uma escultura barroca de San Miguel matando o dragao.

Além dos edifícios religiosos, Zaragoza possui outros de caráter civil, como a casa de Deán, construída em 1293 como a residência deste que é considerado a segunda pessoa em importância do cabildo catedralício. O arco, que une a catedral com o edifício, foi reformado no séc. XVI no estilo plateresco-mudéjar.

O edifício dos Correios, erguido em 1926, utilizou as técnicas e características do estilo, dentro de um novo contexto, o neo-mudéjar.

Finalizamos com um dos templos mudéjares de caráter civil mais importantes de Espanha e que, infelizmente, não existe mais. Trata-se da Torre Nova, uma estrutura situada na Praça de San Felipe, considerada a torre inclinada espanhola mais famosa de sua época.

Construída no séc. XVI para albergar o relógio público, foi muito reproduzida em gravados e inclusive em fotos. Durante os chamados Sítios de Zaragoza, em que a cidade heroicamente capitulou ante as tropas de Napoleão, foi utilizada como torre de vigilância, para controlar o movimento das tropas inimigas.

No final do séc. XIX, devido à sua inclinação e estado ruinoso, a prefeitura da cidade resolveu derrubá-la, causando protestos entre os intelectuais e parte da população, cujos esforços em salvar-la foram, no entanto, em vão. Atualmente, uma pintura mural recria a inesquecível torre e, bem em frente, contemplamos uma estátua de um menino, que embora saudoso, admira a torre, como se ainda estivesse ali.