O Rastro de Madrid

Quando falamos no Rastro de Madrid imediatamente nos vem a cabeça o famoso mercado de antiguidades que se celebra na cidade todos os domingos desde séculos. Na realidade, o nome se refere a zona onde se localiza o mercado que, junto com Lavapiés (matéria de vários posts publicados entre 29/5 e 4/6/2015), conformam o Bairro de Embajadores. O Rastro comparte com Lavapiés muitas semelhanças. Ambas zonas são conhecidas como os bairros baixos de Madrid, tanto pela localização, pois situam-se em terrenos que descem em direção ao Rio Manzanares, quanto pelo escasso nível de vida de seus cidadãos, historicamente falando. Sua geografia determina o desnível das ruas, e algumas delas possuem nomes curiosos, como a que vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Bairro de Embajadores foi o primeiro local de Madrid onde foram instaladas as indústrias no séc. XV, fator que atraiu uma grande quantidade de mão de obra formada por imigrantes que se assentaram tanto no Rastro, quanto em Lavapiés. O chamado Matadouro do Rastro, o primeiro a ser construído na cidade, acabou dando o nome à zona, pois quando os animais eram degolados e eram transportados pelas ruas da região, deixavam um rastro de sangue por onde passavam. Localizava-se na atual Plaza del Cascoro, conhecida sempre como a Plaza del Rastro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA praça recebeu este nome em 1941, uma homenagem a um herói espanhol chamado Eloy Gonzalo, que teve uma participação importante na guerra contra Cuba. Ao chegar a um local denominado Cascorro, foi ao encontro dos rebeldes que se encontravam num casarão. Com uma lata de petróleo e uma tocha, atou fogo à casa e devido aos ferimentos que recebeu, veio a falecer em 1897, pouco tempo depois do acontecimento. Em 1902, o rei Alfonso XIII inaugurou um monumento em sua lembrança, obra do escultor Aniceto Marinas, que preside a praça.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa Plaza del Cascoro foi pintado um belo mural onde se pode apreciar a vida do bairro, seus bares, mercados e sua gente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, uma antiga foto da Plaza del Cascorro….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA criação do velho matadouro foi uma medida sanitária e de controlo fiscal aos lugares que não estavam autorizados, proibindo-lhes o sacrifícios do gado. Depois de ser nomeada capital da Espanha, o grande crescimento de Madrid fez com que fossem construídos outros matadouros no séc. XVI, como o do Cerrillo del Rastro, que se situava onde hoje se encontra a Plaza Vara del Rey, praticamente ao lado da Plaza del Cascorro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutros matadouros foram criados, como o da Puerta de Toledo, e tanto este quanto o do Cerrillo del Rastro foram destruídos quase que simultaneamente com a construção do grande Matadouro Municipal de Legazpi em 1928, hoje em dia um interessantíssimo centro cultural (post publicado em 27/9/2013).

OLYMPUS DIGITAL CAMERADescendo a Plaza del Cascorro nos encontramos com a Calle Ribera de los Curtidores, assim chamada porque nela se instalaram as indústrias artesanais onde se curtiam as peles dos animais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAinda hoje, podemos ver muitas lojas que trabalham com artigos de couro nesta rua.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs pessoas que se encarregavam de trazer o gado ao rastro e vender sua carne eram conhecidas como Rastreros. Próximo ao rastro se instalaram os Candeleros, aqueles que fabricavam velas com a gordura dos animais. Na Ribera de los Curtidores também foram abertas fábricas que produzem cordas de violão feitas com tripas de animais. Outros artesãos que realizavam objetos variados com as peles dos animais, caso dos maleteros, encadernadores, etc, encontraram no bairro o local perfeito para seu trabalho. A seguir, vemos outra foto da Ribera de los Curtidores, onde se nota o desnível da rua.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOlhando a foto acima, não podemos imaginar a grande quantidade de pessoas que se reúnem nesta rua e em suas imediações durante o Mercado do Rastro, que acontece todos os domingos pela manha (consegui tirar a foto abaixo nu momento mais light…).

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Lavapiés – Madrid

Hoje iniciamos uma série sobre uma das zonas mais interessantes sob o ponto de vista étnico e cultural de Madrid, o bairro de Lavapiés. A cidade está dividida em 21 distritos, e o denominado Distrito Centro está composto por vários bairros, entre os quais o de Embajadores se destaca por suas curiosas peculiaridades. Este bairro acolhe duas zonas de interesse, o Rastro e o mencionado Lavapiés.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta zona integra os chamados “bairros baixos” de Madrid, tanto no sentido geográfico, pois estao situados em terrenos que descem ao Rio Manzanares, quanto no aspecto econômico, devido ao escasso nível de renda da maioria de seus habitantes. A Plaza de Lavapiés é o centro do bairro e ponto de encontro de sua gente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERALavapiés se originou depois que o rei Felipe II instala a capital do reino em Madrid (1561), sendo que foram os próprios moradores quem se encarregaram de sua construçao, fato que colaborou para seu urbanismo algo caótico que apreciamos hoje em dia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das lendas urbanas associadas ao bairro diz que nele se encontrava o bairro judeu de Madrid (juderia), algo totalmente sem fundamento, visto que a comunidade judaica da Espanha foi expulsa do país em 1492, época em que o bairro sequer existia. O nome Lavapiés se explica por sua própria conformaçao geográfica e o desnível entre suas principais ruas. Quando chovia, a água descia pelas inúmeras ladeiras existentes, molhando os pés daqueles que se encontravam em suas partes baixas. Hoje se sabe que a Juderia Madrilenha situava-se próxima a Catedral de Almudena.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANao era somente água da chuva que descia pelas ruas do bairro. No passado, a zona nao se caracterizava precisamente por sua higiene, e os moradores jogavam pelas janelas das casas o conteúdo dos urinais, ao grito de “Água vá”…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta foi a regiao onde se instalaram as primeiras indústrias de Madrid, como os antigos matadouros da cidade e, a partir do séc. XVIII, as denominadas Reais Fábricas, como a de Coches, Salitre, etc. Estas indústrias atraiam uma grande quantidade de campesinos a Madrid, que chegavam à cidade em busca de uma vida melhor. Uma das mais famosas, cuja estrutura ainda se conserva, foi a Real Fábrica de Tabacos, construída durante o governo de Carlos III. Sua construçao iniciou-se em 1781 e durou 10 anos. Inicialmente foi concebida como a Real Fábrica de Aguardentes e Naipes, e durante um breve período nela se fabricavam os licores e cartas de baralho.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1808, transformou-se em quartel para os soldados franceses. Naquela época, as mulheres da zona fabricavam tabacos em locais clandestinos e foi o próprio José Bonaparte quem regulou  sua fabricaçao, destinando a antiga fábrica para tal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do séc. XIX, o número de funcionários da Real Fábrica de Tabacos chegou a 6.300, formado quase que exclusivamente por mulheres. Os salários eram baixos, ainda que superiores a outros trabalhos femininos. Além de sustentar suas famílias, se encarregavam da educaçao infantil na própria fábrica, possuindo uma notável conciência social para a época. No ano 2000, a fábrica foi fechada, e converteu-se num Centro Cultural do bairro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACom o desenvolvimento industrial verificado a partir do séc. XVIII, Lavapiés transforma-se num dos bairros mais povoados de Madrid. Os primeiros imigrantes a viverem no bairro eram do próprio país, principalmentes andaluzes, aragoneses e manchegos (originários de Castilla-La Mancha). No final do séc. XX, começaram a povoar o bairro imigrantes de outros países, produzindo uma enorme variedade étnica-cultural, uma das principais características do bairro. Observamos esta mistura de raças nos comércios da zona, onde se vendem artigos de todo o mundo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADizem que nao existe uma variedade de raças tao ampla num centro histórico de uma cidade em todo o mundo, e o grande mérito do bairro é que esta combinaçao étnica e a convivência resultante se produziu sem conflitos. No séc. XIX, foram construídos a maioria de seus edifícios, que nao superam os 5 andares, obrigaçao imposta por lei. Lavapiés perde boa parte de seu patrimônio histórico durante a Guerra Civil do séc. XX, e a tristeza e a fome se apoderam do bairro. A maior parte das famílias viviam de aluguel, em apartamentos de 30 a 45 metros quadrados. A insuficiente renda dos moradores impediam as reformas necessárias para a conservaçao das residências. Durante o governo do prefeito Tierno Galván, a princípios da década de 80, os edifícios foram recuperados com cores alegres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, Lavapiés está de moda e circular por suas ruas, bares e centros culturais nos permite conhecer suas singularidades e imensos atrativos. Nosso passeio pelo bairro está apenas começando…

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