El Cid em Burgos

O personagem lendário de El Cid foi criado através do poema épico anônimo El Cantar de Mio Cid, que relata as façanhas do herói castelhano e inspiradas nos últimos anos de sua vida, depois que foi desterrado por primeira vez pelo rei Alfonso VI. Foi escrito em torno ao ano 1200, e se trata da primeira obra narrativa da Literatura Espanhola em língua romance, uma evolução do latim vulgar. Se conserva quase completo e atualmente se encontra na Biblioteca Nacional de Madrid. Existe inclusive uma rota literária inspirada no poema, a denominada Rota de El Cid, que passa pelos locais em que esteve Rodrigo Díaz de Vivar. Como não poderia ser de outra forma, o trajeto inicia-se na vila de Vivar, seu local de nascimento. Em Burgos, existem muitos monumentos associados à figura de El Cid, que veremos a seguir. Está indicado, por exemplo, o local onde El Cid residiu na cidade, o chamado Solar de El Cid.

20150727_104531Muitas das histórias de El Cid se relacionam com as lutas sucessórias pela Coroa de Castilla y León. O rei Fernando I havia unificado ambos reinos, e no seu testamento havia repartido  seu território entre seus filhos: a Sancho II deixou o Reino de Castilla, a Alfonso VI coube o Reino de León e ao terceiro filho, Garcia, coube governar Galícia e Portugal. Apesar de devidamente distribuído, a discórdia entre os irmãos sobre a regência de cada região provocou inúmeros conflitos, até que o rei Sancho II foi assassinado em Zamora.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEl Cid havia prestado fidelidade a Sancho II e obrigou a Alfonso VI a realizar um juramento em 1072, conhecido como de Santa Gadea, em que reconhecia que o herói não teve nenhuma participação no crime. Esta acontecimento ocorreu, segundo o poema, na Igreja de Santa Agueda de Burgos, seu atual nome, que vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja atual é gótica do séc. XV, que substituiu um anterior templo românico. Na fachada principal, foi colocado uma inscrição que relata que no local se realizou o dito juramento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro local de referência em Burgos relativo a El Cid é a Ponte de San Pablo. Recebeu este nome por estar situada próxima ao Convento dedicado a São Paulo, atualmente desaparecido. O primeiro documento que notifica a existência desta ponte data de 1242.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi reformada várias vezes devido as inúmeras enchentes provocadas pelo RIo Arlanzón, principalmente nos séculos XVI e XVIII. No séc. XX, decidiu-se alargar a ponte, num momento de grande fervor em torno a figura de El Cid. Por isso, se planificou um grande projeto escultórico e arquitetônico em torno ao personagem, realizado pelo arquiteto Fernando Chueca Goitia. Várias foram as estátuas realizadas com personagens vinculados a El Cid, esculpidas por Joaquín Lucarini em 1954, depois de ter vencido o concurso nacional para sua realização.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre os personagens representados, vemos o de sua esposa Jimena,  na foto acima. Na Catedral de Burgos, além do simples túmulo do herói e de sua esposa situados na nave central, vemos também o denominado Cofre de El Cid, supostamente cheio de moedas e recebido por amigos judeus, depois que El Cid foi desterrado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo belo Arco de Santa Maria, El Cid aparece representado, ao lado de personagens reais, comprovando a importância do herói na cultura histórica de Burgos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo interior desta porta monumental, se guardam ossos do herói, com certificados de autenticidade, assim como outros objetos, como sua famosa espada. Alguns monumentos celebram o primeiro desterro de El Cid, como o de abaixo, chamado Glera. Segundo o poema, neste local, às margens do Rio Arlanzón, acampou El Cid quando soube da decisão de Alfonso VI de expulsá-lo do Reino de Castilla. O rei havia proibido os habitantes da cidade em ajudá-lo, sob pena de perda de seus bens e “os olhos da cara”…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1955, o escultor Juan Cristóbal, em colaboração com o arquiteto Fernando Goitia acima mencionado, realizou o monumento mais famoso de El Cid em toda a Espanha, sua estátua equestre em Burgos, inaugurada com grande solenidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, que dividirei em duas partes, veremos a Rota de El Cid existente em várias partes do país, que nos possibilita conhecer os itinerários por onde passou o herói, desde os antigos lugares que formavam o Reino de Castilla até Valencia.

Anúncios

Manuscritos Medievais do Castelo de Ponferrada

O Castelo Templário de Ponferrada guarda atualmente uma coleçao incomparável de documentos e manuscritos medievais. Em todo o mundo, somente na cidade é possível encontrar tamanha quantidade de livros religiosos, científicos e humanistas, ilustrados pelos melhores artistas de livros iluminados da Idade Média e do Renascimento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos documentos existentes de excepcional valor histórico é o Processo contra os Templários, escrito 700 anos depois do acontecimento pelo Vaticano, a começo do séc. XXI. O livro é um dos 799 exemplares emitidos sobre a absolviçao histórica da Ordem Templária. Baseia-se no Pergaminho de Chinon, e contêm as atas do julgamento inquisitorial promovido contra a ordem. O pergaminho, que se havia perdido, foi encontrado em 2001 por Barbara Frale, uma investigadora italiana que revisava uma das milhares de estantes de livros da Biblioteca e Arquivo Secreto do Vaticano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs denominados Manuscritos Iluminados ou Ilustrados sao aqueles em que o texto é complementado com uma rica decoraçao. A maior parte dos manuscritos sobreviventes foram escritos na Idade Média, possuem uma temática religiosa, e foram criados à maneira de códices. Elaborados inicialmente em papiro, logo começaram a ser utilizados o pergaminho, material feito a partir da pele de cabra, carneiro, cordeiro ou ovelha. O chamdo Livro do Cavalheiro Zifar é um deles. Trata-se do primeiro relato de aventuras de ficçao escrito em prosa no idioma espanhol, e foi redatado entre 1300 e 1341. Apresenta as características de uma típica novela de cavalheria, e seu autor foi provavelmente Fernand Martínez, um clérigo de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, podemos visitar no Castelo de Ponferrada a Exposiçao Templum Libri, que reúne mais de 300 obras de um valor incalculável. As obras foram doadas à prefeitura da cidade por um colecionador, que enconntrou no espaço do castelo um lugar perfeito para que se tornem conhecidos e estudados. Evidentemente, nao nao as ediçoes originais, que se encontram em museus de todo o mundo, e sim ediçoes facsímiles, igualmente valiosas. Um facsímil é uma cópia exata do original e sao elaborados depois de um acordo com o proprietário do original, e a partir dele sao realizados um número limitado de cópias, entre cem e mil, dependendo do livro, sem a possibilidade de que sejam novamente copiados num prazo determinado de anos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo início da Idade Média, os manuscritos eram elaborados no scriptorium dos monastérios, mas no séc. XIV já existia uma significativa indústria que se encarregava de sua produçao. A maior aportaçao espanhola  aos manuscritos medievais europeus sao os conhecidos Beatos.  O célebre Beato de Liébana, cujo monastério encontra-se no norte de Espanha (Cantábria), realizou comentários sobre o Apocalipse no séc.VIII, o último livro do Novo Testamento escrito por Sao Joao, que influenciou de modo significativo a cultura medieval. A obra foi copiada durante os duzentos anos seguintes em vários outros monastérios, e cada exemplar possui uma decoraçao única, sendo que os próprios comentários variam de um para outro. Na exposiçao Templum Libri podemos conhecer 17 deles, como o Códice de San Miguel de Escalada, escrito em 960 dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos o Códice do Monastério de Santo Domingo de Silos, redatado e iluminado no séc. XI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, o Códice do Monastério de Santa Maria La Real de las Huelgas, situado na Província de Burgos, escrito em 1220 dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutros Manuscritos Iluminados comuns na Idade Média sao os denominados Livro das Horas. Cada exemplar é único, já que foram feitos exclusivamente para uma pessoa determinada, pertencente à nobreza ou casa real. Contêm oraçoes, salmos, assim como abundantes ilustraçoes referentes à devoçao crista. O livro continha um texto para cada hora litúrgica do dia, daí a explicaçao de seu nome. Foram compostos para as pessoas que desejavam incorporar elementos da vida monástica em seu cotidiano. Realizados nos séc. XV e XVI, constituem uma importante referência dos hábitos de vida do período, assim como uma excepcional fonte de iconografia crista. Um dos mais ricos jamais elaborados, o Livro de Horas de Bedford foi escrito em 1423, durante o período gótico. O original encontra-se na British Library de Londres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos códices mais importantes encontrados na Biblioteca Nacional de Espanha (Madrid) é o Livro de Horas de Carlos V (realizado em 1520 dC). Do total de 336 páginas que possui, 320 estao iluminadas com pinturas de alto valor artístico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADestinado ao público feminino, o Livro de Horas de Lorenzo de Médici (séc. XV) foi provavelmente um presente para o casamento de suas filhas. O livro é um refinado conjunto de textos iluminados  atribuído a Francesco Rosselli, um dos maiores expoentes da escola florentina de iluminaçao. A obra foi extraordinariamente encadernada com veludo. O original encontra-se na Biblioteca Medicea Laurenziana, de Florença.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Daroca – Comunidade de Aragón

Uma das cidades de maior riqueza monumental e histórica de Aragón, Daroca situa-se na Província de Zaragoza. Durante 4 séculos, integrou o reino árabe que conquistou boa parte da Espanha a partir do ano 711 dC. O rei Alfonso I “El Batallador” a reconquistou em 1120 e vinte anos depois lhe outorgou um primitivo foro, hoje desaparecido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAinda no séc. XII, o conde Ramón de Berenguer IV concedeu-lhe privilégios que a converteu na capital da famosa Comunidade de Daroca, de grande importância social e militar durante a Idade Média. Coexistiam, na época, três grupos sociais, formados por cristãos, judeus e muçulmanos, que gozavam dos mesmos privilégios, ainda que com uma organização social e tributária distintas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo estar localizada no Vale do Rio Jiloca, no caminho que unia os antigos reinos de Castilla com Catalunha (então pertencente ao Reino de Aragón), Daroca era frequentemente um ponto de parada das comitivas reais, como sucedeu com os Reis Católicos, Carlos I, Felipe II, Felipe III, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA denominada Calle Mayor, a mais importante da localidade, atravessa a cidade de um lado a outro. A geografia da vila fez com que esta rua fosse um verdadeiro barranco natural, unindo as partes alta e baixa. Na sequência, vemos no lado esquerdo da foto, uma imagem de seu traçado, entre edifícios pintados de cores vivas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPor este motivo, os arcos que conformam as portas da muralha de Daroca são de grandes dimensões, permitindo o escoamento da água das chuvas. Porém, quando as portas se fechavam, a cidade era vítima de desastrosas inundações. A seguir, vemos outra foto da Calle Mayor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara solucionar este problema, foi construído em 1555 durante o reinado de Felipe II, um túnel que corre paralelo à Calle Mayor, denominado de La Mina. O responsável de sua construção foi um especialista em obras hidráulicas, o engenheiro francês Pierres Bedel, e permitia o escoamento das águas diretamente ao Rio Jiloca. Com 750m de comprimento, 6 de largura e 8m de altura, é considerado o túnel da época moderna com esta função mais antigo de toda Europa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADaroca aparece citada no poema “Cantar de Mío Cid”, uma obra épica anônima que relata as aventuras do herói castelhano Rodrigo Díaz de Vivar, conhecido popularmente como “EL Cid”. Composto ao redor do ano 1200, é o único poema épico da Literatura Espanhola que se conserva em quase sua totalidade e que se pode ver na Biblioteca Nacional da Espanha, em Madrid. Por este motivo, Daroca integra a Rota de El Cid, um itinerário composto por cidades protagonistas na obra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASeu patrimônio monumental é impressionante, e durante uma época era conhecida como a cidade dos “sete 7”, pois possuía o mesmo número de igrejas, conventos, ermitas, fortificações, praças, portas e fontes. Ao lado da Porta Baixa, vemos uma das mais monumentais fontes de toda a Comunidade Aragonesa, bem como uma das poucas que sobreviveram, chamada Fonte dos 20 canos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi construída em 1638 para embelezar o espaço compreendido pela principal porta de acesso à cidade. Consta, como o próprio nome indica, por 20 canos decorados com rostos humanos, infelizmente bastante deteriorados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante toda esta semana, iremos conhecendo os principais monumentos desta cidade, de visita imprescindível numa excursão à Comunidade de Aragón.

Biblioteca Nacional – Madrid

Além dos bares e cafés disponíveis ao público, o Paseo de Recoletos oferece, também, eventos culturais em algumas das instituições situadas em seu perímetro. Uma delas é o Centro Cultural Mapfre, que realiza várias exposições temporais ao longo do ano, todas elas de altíssimo nível.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo entanto, a instituição cultural mais relevante é a Biblioteca Nacional, situada no mesmo local onde antigamente existiu o Convento dos Frades Recoletos, hoje desaparecido, mas que originou o nome da alameda. A biblioteca está sediada no Palácio dos Museus Nacionais, que acolhe também o Museu Arqueológico Nacional, com entrada pela rua paralela, a Calle Serrano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFundada durante o reinado de Felipe V, inicialmente a Biblioteca Nacional denominou-se Real Biblioteca Pública (1712). Ao longo do séc. XVIII e do século seguinte, a instituição esteve sediada em vários locais distintos, e em 1836 passou a ser propriedade estatal, com a denominação atual.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO projeto da atual construção data de 1852, feito pelo arquiteto Francisco Jareño y Alarcón, mas foi iniciada somente em 1866, quando Isabel II colocou sua primeira pedra. Construído no estilo neoclássico, o edifício foi finalizado somente em 1892, e aberto ao público 4 anos depois. Marcado por uma clara simetria e funcionalidade, destaca sua portada principal, decorada com personagens ilustres da vida literária do país.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEstão representados, também, monarcas e eclesiásticos, que ficaram conhecidos por sua sabedoria e erudição, caso do rei Alfonso X, “El Sábio”, e San Isidoro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO edifício está repleto de elementos de caráter clássico, como colunas, típicas da arquitetura grega. Na parte superior da fachada, se ilustra, simbolicamente, a transmissão do conhecimento a todos aqueles que sobem sua escada e entram em seu recinto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma foto da Biblioteca Nacional de finais do séc. XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua antiguidade a converte em uma das mais importantes do mundo, sendo depositária de um patrimônio histórico e literário excepcional, com aproximadamente 28 milhões de documentos, entre livros, manuscritos, gravados, etc. A instituição possui seu museu próprio, que pode e deve ser visitado. Ao entrar na biblioteca, um grande vestíbulo acolhe, aos pés de uma escada monumental, uma estátua de Marcelino Menéndez Pelayo, personagem literário fundamental de finais do séc. XIX e princípios do XX, e que foi diretor da biblioteca entre 1898 e 1912.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Biblioteca Nacional é considerada Monumento Nacional desde 1983.