Lugo Romana

A cidade de Lugo foi fundada há cerca de 2 mil anos atrás, quando o atual território espanhol era uma província do grande Império Romano, denominada Hispania. Sua história se inicia como um acampamento romano, provavelmente no local onde originalmente havia um castro, isto é, um povoado fortificado de origem celta. Este acampamento militar foi construído dentro do contexto das chamadas Guerras Cântabras, travadas no noroeste da península contra os povos que a habitavam, durante o governo do Imperador Augusto, com a finalidade de anexionar estas terras ao imenso império da antiguidade. Em 25 aC, em nome do imperador, Paulo Fabio Máximo funda Lucus Augusti, embrião da atual Lugo. Na Praça Maior da cidade vemos uma escultura dedicada a ambos fundadores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA palavra “Lucus” significa “bosque sagrado”, cuja origem está relacionada ao idioma celta e relacionada à divindade Lug. A partir do ano 50 dC, inicia-se a expansão da cidade, que se converte num importante núcleo urbano, representativo da cultura e do modo de vida romano, como comprovam os restos arqueológicos conservados. Lucus Augusti formava parte de uma rede de cidades integradas por uma Vía Romana, incluindo a atual Astorga (a romana Asturica) e a cidade portuguesa de Braga (Bracara).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século III dC, Lucus Augusti foi a capital do denominado Convento Lucense, uma das três áreas administrativas que compunham uma das províncias de Hispania, chamada Gallaecia. Num passeio pela cidade podemos vislumbrar seu passado romano através dos restos arqueológicos que foram preservados, além de sua impressionante muralha, que veremos no próximo post. Abaixo, vemos um Miliário, que marcavam as distâncias entre as principais cidades da Hispania, colocados nas estradas que integravam o território, as conhecidas Calçadas Romanas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Alguns dos restos encontrados foram protegidos com uma estrutura de vidro que dificultam as boas fotos, como as que vemos abaixo, de uma casa romana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu então uma estrutura funerária pertencente aos séculos I/II dC, situada na velha prisão de Lugo

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo entanto, outros achados arqueológicos podem ser admirados com total claridade, como os restos de outra casa romana (Domus), decorada com mosaicos

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAComo toda cidade romana de importância, Lucus Augusti possuía suas Termas, cujos restos estão situados dentro de um hotel balneário, com acesso livre ao público.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs Termas Romanas de Lugo foram declaradas Monumento Histórico-Artístico em 1931. A parte melhor conservada corresponde ao vestiário, composto por urnas utilizadas como armários para guardar a roupa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo local foram expostos pequenos altares de época romana denominados Aras. Estavam dedicados às divindades do panteão romano, onde se realizavam votos de ação de graças ou pedidos concretos, por meio de uma inscrição em latim. As Aras existentes nas Termas Romanas de Lugo foram dedicadas às Ninfas, divindades relacionadas a natureza, principalmente a agua.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte baixa da cidade, vemos a ponte romana que cruza o Rio Miño, e que servia de elo de comunicação entre Lucus Augusti e Bracara (Braga).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta ponte sofreu numerosas intervenções, e de sua época romana se conservam somente os alicerces. A calçada romana que unia ambas cidades faz atualmente parte do Caminho de Santiago.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm “soldado romano” protege a ponte contra os possíveis invasores…

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Medina Sidonia – Província de Cádiz

Medina Sidonia foi minha última etapa antes de conhecer a capital provincial, Cádiz. Esta cidade de 12 mil habitantes localiza-se no centro da Província de Cádiz, e a importância de seu patrimônio cultural se reflete no título a ela concedido, de Conjunto Histórico-Artístico. Conta com uma grande quantidade de monumentos históricos, graças às inúmeras culturas que nela habitaram ao longo dos séculos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFundada no séc. I pelo imperador romano César Augusto com a denominação de Asido Caesarina Augusta, integrava o território de Hispania conhecido como Província Ulterior Betica. Vários são os restos arqueológicos encontrados de sua época inicial, como as cloacas e o sistema de condução de águas implantados durante o período romano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1997 foram descobertos restos de uma antiga calçada romana, situada a 4 metros por debaixo do nível atual das ruas da cidade, que demonstram o importante papel desempenhado por Medina Sidonia em sua época fundacional, quando atingiu o status jurídico de Colônia de Direito Romano. Esta via pavimentada foi construída no séc. II dC, uma das principais ruas de Asido Caesarina, conhecida como Cardo Maximus, de orientação norte-sul.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConstruída com grandes blocos de pedra, está composta por duas calçadas laterais e a via propriamente dita, de 5 metros de largura, que possibilitava a passagem de dois carros simultaneamente. Ao longo de sua linha central encontrou-se uma cloaca de quase 1 metro de altura, que canalizava as águas das chuvas e os resíduos dos edifícios e fontes da cidade. Como curiosidade, foram gravados nos blocos de pedra tábuas de jogos para o divertimento de seus cidadãos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa Espanha Visigoda, foi capital provincial e sede episcopal, com o nome de Asidona. No ano de 712 foi conquistada pelos árabes, quando então passa a chamar-se Sidonia. Famosos são os seus doces, e se comenta que chegou a ser a capital do mundo árabe na elaboração de guloseimas, das quis a mais conhecida é o Alfajor, que atualmente podemos provar em seus bares e lojas especializadas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1264, a cidade foi reconquistada pelo rei Alfonso X “El Sábio”. A partir deste momento, tornou-se sede de várias ordens militares, como a de Santiago, por exemplo. Em 1440 se constitui numa cidade senhorial, propriedade dos Duques de Medina-Sidonia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo vemos o escudo da cidade, que podemos ver dentro das dependências da Prefeitura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA longa história de Medina Sidonia pode ser vista nas ruínas do castelo, que domina sua parte mais elevada. A montanha sobre a qual se assenta a fortaleza constitui a de maior altura do terço ocidental da província.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa realidade, este conjunto arqueológico está formado por 3 fortificações superpostas de épocas distintas. A parte mais elevada pertence ao período romano. Podemos observar também restos do Alcázar Árabe, provavelmente do séc. XI, e boa parte do castelo construído pelo II Duque de Medina Sidonia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre o final do séc. XVI e o séc. XX, o castelo e seu entorno foram paulatinamente destruídos para a extração de pedras que se utilizaram para a edificação de novas construções da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo séc. XIX tornou-se um local estratégico como quartel geral das tropas francesas, que ocuparam a cidade entre 1810 e 1812. Por este motivo, foram levantadas as muralhas e um novo recinto interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, veremos a segunda e última parte da matéria sobre Medina Sidonia.

Museu Arqueológico Nacional: Hispania

O período histórico em que a Península Ibérica se transformou numa província romana sob o nome de Hispania contribuiu de forma decisiva para a formação e paisagem do atual território espanhol. Basta observar a quantidade de cidades fundadas nesta época. Entre muitas outras, podemos citar Taragona (Tarraco), Barcelona (Barcino), Toledo (Toletum), Alcalá de Henares (Complutum), Mérida (Emerita Augusta), Zaragoza (CaesarAugusta), etc, etc. Muitos dos grandes monumentos realizados se conservaram e atualmente podemos admirá-los mesmo depois de dois milênios de história, como o Teatro de Mérida e o Aqueduto de Segóvia, ambos declarados Patrimônio da Humanidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo acervo permanente do Museu Arqueológico Nacional existem uma enorme quantidade de peças romanas, entre bustos, moedas, mosaicos, etc. Veremos algumas delas, inserindo-as dentro de seu contexto histórico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA invasão de um novo povo foi o responsável pelo futuro domínio da Península Ibérica pelos romanos. Isso ocorreu graças ao enfrentamento entre o Império Romano e a outra potencia marítima da época, Cartago, ambas em disputa pela supremacia do Mediterrâneo. No séc. VI aC, os cartagineses se apoderaram de Tartessos, uma colônia situada no sul da Andaluzia, rica em minérios, e que serviu de base de operações militares para a conquista do território, como o desembarque  efetuado em Cádiz em 238 aC. Aliás, a riqueza mineral e agrícola destas terras foram um dos principais motivos do interesse  destes povos em submeter a península. Almícar Barca, o general cartaginês encarregado destas manobras militares, quis reorganizar suas forças e compensar as perdas sofridas durante a I Guerra Púnica, travada entre os dois impérios. Depois de sua morte em 228 aC, foi substituído por Asdrúbal, que estendeu seus domínios, fundando a cidade de Cartago Nova, atual Cartagena (Comunidade Murciana). Assinou também um acordo com os romanos, no qual ambos impérios dividiam o território a ser conquistado, com o Rio Ebro como fronteira natural entre cada um deles.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo entanto, seu herdeiro, Aníbal, não admitia limites em relação aos seus propósitos de conquista. Empreendeu uma grande guerra contra Roma, utilizando a península como uma plataforma de ataque. Tomou algumas cidades que mantinham contatos comerciais com o Império Romano, como Sagunto, por exemplo. A resistência desta cidade, que recebeu auxílio dos romanos, foi o fator decisivo para a eclosão da II Guerra Púnica (218/102 aC). O general romano Publio Cornelio Escipión “El Africano” derrotou os cartagineses, tomando Cartago Nova em 207 aC e expulsando-os de Cádiz. A partir de então, a península começava a fazer parte do Império Romano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar da vitória contra Cartago, faltava ainda submeter os povos ibéricos (ou celtíberos), cuja resistência foi muito maior do que os romanos podiam imaginar. A conquista da famosa cidade de Numancia (Província de Sória) tornou-se um símbolo da resistência ibérica, junto com a liderança de Viriato, célebre guerreiro e chefe da resistência lusitana. Somente no ano 19 aC, o General Agripa, um dos melhores do Império Romano na época, conseguiu derrotar os cántabros e astures, povos ibéricos que viviam nas montanhas situadas ao norte da península. Por fim, Roma era dona de todo o território peninsular, que passou a ser chamada de Hispania, cujo significado é “terra onde os coelhos são abundantes”. Mesmo durante o processo de conquista, a romanizaçao impregnou pouco a pouco os costumes dos povos autóctonos em todos os âmbitos da vida. A dominação romana foi a primeira tentativa de tornar a Península Ibérica uma unidade territorial ao instalar-se uma concepção política única. No plano administrativo, Roma dividiu a península em duas províncias, no ano 197 aC: Hispania Citerior e Hispania Ulterior. No ano 27 aC, na época do Imperador Augusto, passou a ser dividida em três províncias: Lusitania, Baética e Tarraconensis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs obras públicas começaram a serem construídas de uma maneira vertiginosa. Para poder comunicar as cidades, foram planejadas uma enorme quantidade de vias, as chamadas calçadas romanas, que chegaram a totalizar 10 mil quilômetros. Muitos destes caminhos continuaram sendo utilizadas na Idade Média e serviram de base para a construção das modernas estradas. Entre as mais importantes encontravam-se a Vía de la Plata e a Vía Augusta, onde foi encontrado este milliario, uma espécie de marco situado nas calçadas que equivalia a mil passos (aproximadamente 1.5 Km).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das características principais das classes dirigentes no Império Romano, a divinização dos imperadores tornou-se um eficaz meio de propaganda política e um pilar básico do estado e da vida municipal. Abaixo, vemos a representação escultórica de Tibério (direita), imperador entre 14 e37 dC. Ao seu lado, vemos sua mãe e esposa de Augusto, Lívia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATrês imperadores romanos nasceram na Hispania, Trajano, Adriano e Teodosio. A ascensão política até suas nomeações como imperadores comprovam a importância que Hispania adquiriu dentro do grande império. Para Roma, a Península Ibérica se havia transformado num enclave comercial e estratégico de primeira magnitude. A seguir, vemos um busto de Trajano, o primeiro imperador de origem hispano. Governou de 98 a 117 dC, sendo considerado um excelente soldado e um bom administrador.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFilho adotivo e sucessor de Trajano, Adriano pertenceu a uma família de senadores de Itálica (atual província de Sevilha), onde nasceu. Imperador entre 117 a 138 dC.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, Teodósio, denominado O Grande, nasceu em Cauca, atual Coca, Província de Segóvia. Foi o último imperador que governou todo o império sozinho e sua importância foi fundamental ao transformar o catolicismo na religião oficial do império em 390 dC. No próximo post, continuaremos vendo alguns aspecto interessantes de Hispania através das peças do Museu Arqueológico Nacional de Madrid.

Mesquita de Bab Al-Mardum – Toledo

Das 10 mesquitas que haviam em Toledo no período islâmico, a Mesquita de Bab Al-Mardum é a mais importante conservada atualmente. Na época de sua construçao, era um pequeno oratório orientado à Meca, para uso daqueles que chegavam ou saiam da cidade. Trata-se de um dos monumentos mais complexos de toda Espanha, possuindo evidências que vao desde o assentamento romano até o período da reconquista de Toledo (séc. XI). Representa, também, uma das construçoes mais importantes da época de esplendor do Califato de Córdoba existente no país.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA mesquita foi construída em 999 dC, como comprova a inscriçao em caracteres cúficos no relevo de tijolos de uma de suas fachadas, considerada única no Islao Ocidental, por ter sido elaborada com fragmentos de tijolos ordinários. Nela aparece o nome do arquiteto construtor, Musa Ibn Ali.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA parte exterior está composta por 3 vaos de acesso e um corpo superior formado por arcos entrecruzados cegos. A fachada noroeste, que dá para o pátio ajardinado, está formada por Arcos de Ferradura e de Meio Ponto. O nível mais alto, por Arcos Polilobulados que marcam outros Arcos de Ferradura de estilo califal, estando decorados com tonalidades bicolores de tijolos, inspirados na Mesquita de Córdoba.

DSC09151O exterior, decorado com arquerias sobre muros de alvenaria e tijolos, contrasta com o interior, revestido de gesso. Possui planta quadrada com 8 metros quadrados, distribuídos mediante 4 colunas situadas em 3 naves paralelas e cruzadas por outras 3 naves transversais. Cada espaço está coberto por bôvedas diferentes entre si.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADSC09144Os capitéis, de origem visigoda, foram reaproveitados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom a reconquista de Toledo, a mesquita foi adaptada ao culto cristao, quando o rei Alfonso VI cede o monumento aos Cavalheiros da Ordem de San Juan, que estabelecem uma ermita sob a titularidade de Santa Cruz. Passa, entao, a ser conhecida pelo nome Ermita del Cristo de la Luz, graças a um Cristo crucificado que foi colocado e substituído posteriormente por uma imagem da Virgem da Luz. Em 1187, se constrói um ábside complementer, que se tornaria famoso por ser considerado a mais antiga amostra de arquitetura mudéjar conhecida.

DSC09148Esta reforma serviu de base e inspiraçao para todas as outras construçoes do Mudéjar Toledano, o estilo arquitetônico por excelência da cidade. Do séc. XII sao as pinturas murais encontradas no interior, estando catalogadas como exemplos de Pinturas Românicas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa imagem acima, vemos representado um dos motivos iconográficos mais importantes do Cristianismo, o chamado “Maiestas Domini”, ou Cristo em Majestade com atitude triunfante e rodeado pelos tetramorfos, a representaçao zoomórfica dos 4 evangelistas. Pena que nao se conservam todas as imagens. Podemos contemplar somente a águia, símbolo de Sao Joao, e o leao, símbolo de Sao Marcos. Além do mais, estao conservadas algumas pinturas de santos (as) numa de suas paredes.

DSC09143Escavaçoes arqueológicas realizadas encontraram vestígios  de épocas anteriores à construçao, bem como uma calçada romana de 5 me de largura, em excelente estado de conservaçao.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outra imagem deste monumento impressionante.

DSC09150Com a desintegraçao do Califato de Córdoba, Toledo tornou-se um Reino de Taifa (taifa de Toledo), que ocupava a quase totalidade da atual superfície da Comunidade de Castilla-La Mancha. Eram como cidades autônomas, e sem poder centralizador, facilitaram sobremanera a tarefa dos Renos Cristaos, que reconquistaram Toledo em 1085, com a tomada  do rei Alfonso VI. Realizaremos ainda muitos posts sobre Toledo, porque existem vários lugares de interesse por conhecer…