Tribunal das Águas de Valência – Patrimônio da Humanidade

A matéria de hoje está dedicada a uma das instituições mais veneradas pelos valencianos, cuja importância se reflete na declaração da Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, outorgada à cidade em 2009. O denominado Tribunal das Águas de Valência é considerado a instituição jurídica mais antiga da Europa, e seus habitantes se sentem orgulhosos disso. Sua finalidade é solucionar os conflitos derivados da utilização e aproveitamento da água entre os agricultores da comunidade.

20181004_163036Para entender sua importância, convêm mencionar que o Rio Turia, antes de entrar na cidade, distribui seu precioso líquido em 8 canais de irrigação principais, destinados aos campos de cultivo. Cada um deles constitui um sistema hidráulico próprio, cujas origens datam da época muçulmana, provavelmente do ano 960, durante o período conhecido como Califato de Córdoba. Em 1238, o Rei Jaime I, logo depois da reconquista da cidade, doou estes sistemas de irrigação aos camponeses, respeitando o chamado direito consuetudinário (que surge dos costumes de uma sociedade, não passando por um processo formal de criação de leis). O Tribunal das Águas está composto por 8 membros, também denominados síndicos, que representam cada uma das zonas de cultivo e que são indicados pelos próprios agricultores. Cada um dos membros é responsável por estabelecer a quantidade de água que cada região pode dispor e cada camponês deve acatar suas ordens, sob pena de severas multas. Vestem a tradicional roupa negra e se reúnem em conselho deliberativo e/ou executivo (em época de secas) todas as quintas feiras às 12:00 hs na Porta dos Apóstolos, cuja arquitetura gótica é uma dos principais atrações da Catedral Valenciana. Um dos síndicos é escolhido presidente, cujo mandato dura 2 anos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1960, se celebrou o milenário do Tribunal das Águas. Ainda que existisse no período romano algo parecido, sendo que alguns historiadores postulam que é originário desta época, a organização atual do tribunal se remonta à fase muçulmana. Este fato é respaldado por alguns detalhes, como o dia em que se realiza a reunião do tribunal, uma quinta feira, um dia antes da sexta, considerado festivo para os muçulmanos. Também o local escolhido, a catedral, antiga mesquita da cidade.

20181004_163022Reconhecido por todas as ideologias, culturas e povos que configuraram a Comunidade Valenciana, o Tribunal das Águas foi igualmente respaldado pela atual Constituição Espanhola, em vigor desde 1978. Sua estrutura, a participação dos camponeses e a rapidez em que os problemas são resolvidos projetaram o tribunal ao âmbito internacional. Especialistas em direito de todas as partes do mundo o consultam como modelo nos diversos foros, conferências e associações relacionadas à utilização da água. No entanto, sua continuidade depende da  sobrevivência dos campos de cultivo da Comunidade Valenciana, principalmente de sua zona norte, ameaçados pelo crescimento desordenado dos empreendimentos imobiliários. Finalizo a matéria com uma foto de um quadro que retrata o Tribunal das Águas, que decora uma das salas do Palácio de la Generalidad, que vimos no último post.

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A Catedral Compostelana

Esta série de matérias sobre Santiago de Compostela estaria incompleta, caso não publicasse posts sobre seu edifício mais famoso e importante, a Catedral, que preside o Centro Histórico da cidade, declarado Patrimônio da Humanidade em 1985.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConsiderada um dos templos mais importantes de todo o mundo, a Catedral Compostelana está dedicada ao Apóstolo Santiago, cujos restos descansam em seu interior. Este fato a converteu num dos principais centros de peregrinação da Europa desde a Idade Média, através do Caminho de Santiago. O sepulcro do Apóstolo, nomeado Padroeiro da Espanha, foi descoberto no século IX por um eremita chamado Pelayo, que comunicou o achado ao Bispo Teodomiro de Iria Flávia, atual município galego de Padrón. O bispo, por su vez, avisou da notável descoberta ao Rei Asturiano Alfonso II, que posteriormente converteu-se no primeiro peregrino documentado do caminho. O monarca ordenou a construção de uma pequena capela no local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADiante do crescente número de peregrinos e das reduzidas dimensões do templo, se construiu uma igreja maior no ano 829 e no final do século IX (899) uma outra igreja, de estilo pré-românico, construída pelo Rei Alfonso III, que se transformou gradualmente num importante local de peregrinaçao. Em 997, esta primitiva igreja foi destruída pelo General Almanzor, comandante do exército muçulmano do Califato de Córdoba, que respeitou, no entanto, o sepulcro do Apóstolo Santiago. Apesar disso, as portas e campanas da igreja foram levadas à Mesquita de Córdoba. Quando a cidade andaluza foi reconquistada pelo Rei Fernando III em 1236, foram transportadas por prisioneiros muçulmanos à cidade de Toledo, concretamente a sua notável catedral gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADestruída a igreja primitiva, durante o reinado de Alfonso VI e sob o patrocínio do Bispo Diego Peláez, se iniciou a construção da atual catedral, um dos edifícios de estilo românico de maior importância em toda Europa. Edificada basicamente com granito, as obras se detiveram em vários momentos, sendo finalizada em 1122 e consagrada por primeira vez seis anos depois. Seus principais arquitetos foram Bernardo El Viejo, seu discípulo Roberto e um grande arquiteto da Arquitetura Românica, o Mestre Esteban. A última etapa construtiva ocorreu a partir de 1168, quando o chamado Mestre Mateo realizou a cripta e o fabuloso Pórtico da Glória, considerado um dos expoentes máximos da Arte Românica. As obras finalizaram em 1211, ano em que a Catedral é definitivamente consagrada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAcima, vemos o aspecto da fachada principal românica da catedral, antes da reforma barroca realizada no século XVIII, que dá para a Plaza del Obradoiro. Esta imponente e maravilhosa fachada, além de outras partes da Catedral, como o mencionado Pórtico da Glória, está sendo restaurada para solucionar o processo de deterioração em seus elementos estruturais e decorativos, causado principalmente pela humidade, além de intervenções realizadas no passado que resultaram problemáticas. Além do mais, a fachada recebeu um necessário tratamento de limpeza. Abaixo, vemos duas imagens da fachada, antes da reforma, e outra atual.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs primitivas torres da fachada principal eram românicas, mas forma substituídas pelas atuais durante a reforma barroca. Abaixo, vemos a Torre do Relógio, situada no lado direito da fachada. Foi realizada em 1680 por Domingo de Andrade. O relógio é de 1831, e os sinos são réplicas, cujos originais foram colocadas no claustro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo exterior da catedral, a única fachada que conserva sua fábrica românica é a impressionante Fachada de las Platerías, construída pelo Mestre Esteban entre 1103 e 1117.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACaracteriza-se por sua riqueza escultórica, tanto nos capitéis, quanto nos tímpanos de suas duas portas. No tímpano da esquerda, vemos cenas relacionadas às tentaçoes de Cristo. No extremo direito aparece a representação de Eva com uma caveira, identificada como adúltera pelo Códice Calixtino (um pouco complicado de ver na foto…).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo tímpano da direita, vemos outras cenas historiadas, como a Epifania em sua parte superior. Na parte inferior, a cura do cego e episódios da Paixão de Cristo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns elementos decorativos foram colocados posteriormente (final do século XIX), como estes 6 meninos que faziam parte do coro de pedra situado na nave central da igreja e realizado pelo Mestre Mateo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro local destacável do exterior da catedral é a Porta Santa, cuja porta se abre somente nos denominados Anos Santos ou Jubilar, quando as festividades em honra ao Apóstolo Santiago (25 de julho) caem num domingo, algo que ocorre em intervalos de 5, 6 e 11 anos. Este privilégio foi concedido pelo Papa Calixto II em 1122.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANas laterais da porta, também foram colocadas, no século XVII, 24 figuras de personagens bíblicos, do Antigo e do Novo Testamento, que originalmente integravam o coro pétreo do Mestre Mateo. Em sua parte superior, vemos o Apóstolo Santiago, cuja imagem foi realizada em 1694 por Pedro del Campo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos esta primeira parte sobre a Catedral de Santiago de Compostela com a Fachada da la Azabachería, construída em 1758, substituindo a antiga Porta do Paraíso, pela qual entravam a maioria dos peregrinos.

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A Judería de Córdoba

Situada em pleno Centro Histórico de Córdoba, a Judería, ou antigo bairro judeu, constitui uma das grandes atrações da cidade por seus monumentos, lugares de interesse, museus, etc. Caminhar por suas ruas permite conhecer a história do povo judaico em Espanha, e também da própria cidade andaluza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExistem testemunhos da presença judaica na Espanha que se remontam à época romana. Por este motivo, sua história está intimamente relacionada à própria evolução de Córdoba. Os judeus habitaram as ruas da Judería desde o século X até o XV, quando foram expulsos em 1492 pelos Reis Católicos. Durante um certo período de tempo, conviveram com as demais culturas, a cristã e a muçulmana. No século X, a comunidade judaica desempenhou um importante papel na organização do Califato de Córdoba como administradores, comerciantes, médicos e altos funcionários. O tolerante Califa Abderramán II se autoproclamava como o Senhor das Três Culturas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua extensão e a proximidade com o centro de poder denotam a importância da Judería de Córdoba em tempos passados. A parte que atualmente se conserva está repleta de pequenas e labirínticas ruas, além de lugares encantadores…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUma excelente forma de conhecer a história e as tradições da comunidade judaica na cidade e mesmo na Espanha é visitando a Casa de Sefarad, um museu aberto em 2005 e sediado numa casa judía do século XV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém de contar a história da Judería de Córdoba, o museu aborda uma série de elementos da cultura judaica relacionados a seus hábitos religiosos, costumes, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos antigos instrumentos musicais utilizados pelos Sefardíes, como são conhecidos os judeus espanhóis…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAObjetos litúrgicos e utilizados nas datas festivas integram o acervo do museu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA comunidade judaica espanhola falava um idioma conhecido como Ladino. Esta língua ainda sobrevive, sendo utilizada por cerca de 150 mil pessoas no mundo, principalmente em Israel e na Turquia. Procede do castelhano medieval, com algumas contribuições do hebreu e de outros idiomas falados na península, além de influências do turco e do grego.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo vemos o pátio da Casa de Sefarad, um dos inúmeros que podem ser vistos na Judería de Córdoba (sobre os pátios cordobeses realizarei uma série de posts exclusiva).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto interessante do museu é a parte ligada ao artesanato típico realizado pelos antigos judeus. Suas roupas, por exemplo, estavam decoradas com bordados feitos com fios de ouro, e eram usados tanto por homens, quanto pelas mulheres. Também adornavam os artigos complementares, como cintos e bolsas. Os motivos decorativos principais eram os elementos vegetais e geométricos, e algumas peças possuíam referências bíblicas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO museu realiza periodicamente atividades culturais e conta com uma biblioteca especializada. No  seio da Judería de Córdoba nasceu um dos grandes pensadores da cultura judaica de todos os tempos, Moses Ben Maimon, mais conhecido como Maimônides (Córdoba-1135/Cairo-1204). Médico, rabino e teólogo judeu, sua fama se deve mais a sua obra filosófica. Autor do famoso “Guia dos Perplexos“, escrito em 1190, obra principal de seu pensamento filosófico, nele estabelece uma conciliação entre a fé judaica e a filosofia de Aristóteles, em voga naquela época. Apesar de sua origem, a maior parte de suas obras foi escrita em árabe. Um monumento em sua homenagem pode ser visto na praça que recebe seu nome.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADele é a famosa frase, “Dê um peixe a um homem e o alimentará por um dia. Ensina-lo a pescar, e o alimentará pelo resto de sua vida.” Uma pena que nao tive a oportunidade de visitar a Sinagoga de Córdoba, pois está sendo reformada. Localizada na Calle de los Judíos, é de estilo mudéjar e foi construída no século XIV, a única desta época que se conserva em toda Andaluzia, e uma das três conservadas em Espanha (as outras duas encontram-se em Toledo).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir vemos uma das portas da Muralha de Córdoba, que permite o acesso à Judería.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, realizaremos outro passeio pela Judería de Córdoba

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As Muralhas de Córdoba

Outro monumento de Córdoba que reflete os vários períodos históricos que atravessou a cidade são suas muralhas, estas estruturas que cercavam as cidades antigas com uma clara função defensiva.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs primeiras muralhas edificadas em Córdoba foram realizadas no século II, durante a etapa romana. Possuía um perímetro de 2650m e continha 4 portas, orientadas aos pontos cardeais. Com a chegada dos árabes, seu estado era deplorável, motivo pelo qual teve que ser reconstruída e ampliada devido ao  grande crescimento urbano verificado a partir de então. As crônicas existentes relatam que o perímetro da muralha durante a fase final do Califato de Córdoba, no início do século XI, era de 22 km, ocupando um espaço maior que a atual cidade no século XXI. Chegou a ter 13 portas !!!

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm pouco antes da reconquista de Córdoba no século XIII pelo Rei Fernando III, se construiu  uma nova muralha anexa à existente, com o objetivo de proteger as residências situadas fora da primitiva muralha. Desta forma, o recinto de muralhas ficou dividido em duas partes. Por um lado, o antigo recinto histórico, denominado Medina, e o novo, situado em sua porção oriental, que passou a ser chamado de La Axerquía. Abaixo, vemos uma parte da Muralha del Marrubial, que integrava este novo conjunto defensivo, e que atualmente encontra-se em fase de restauração (séculos XI e XII).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADepois da reconquista, as muralhas foram conservadas e restauradas. Também se construíram novas portas e torres, que passaram a integrar o recinto de La Axerquía, caso da Torre de la Puerta del Rincón, edificada no século XIV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo século XV se conserva a Torre de la Malmuerta. Sua construção iniciou-se em 1404, durante o reinado de Enrique III de Castilla, sob os restos de uma torre muçulmana. De planta octogonal, está apoiada sobre um arco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma antiga lenda diz que seu nome se deve à morte de uma dama cordobesa por seu marido ciumento, cujo desenlace ocorreu junto à torre. Outra estória a respeito desta torre relata que se um cavalheiro, passando a cavalo por debaixo do arco, fosse capaz de ler toda a inscrição existente na torre, esta se derrubaria e de seu interior sairia um tesouro, que passaria a ser propriedade do afortunado leitor. Perdida sua função defensiva, foi utilizada como prisão para nobres. No final do século XX, foi a sede da Federação de Xadrez da cidade. O núcleo principal da muralha rodeia parte do Centro Histórico da cidade, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste tramo da muralha possui 360m, estando formado por 7 torres. Abaixo, vemos a conhecida Porta de Almodóvar. Situada junto à Judería de Córdoba, sua origem é árabe, mas seu aspecto atual data do século XIV. Está composta por duas torres unidas a modo de uma ponte por um arco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAJá a Porta de Sevilha foi reconstruída, pois a original foi demolida em 1865. Diante dela, vemos o monumento em homenagem ao poeta, filósofo e teólogo cordobês Ibn Hazam (994/1064).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, publicarei uma matéria sobre um local representativo do Centro Histórico de Córdoba, a famosa Judería

A Catedral de Córdoba

O conjunto da Mesquita-Catedral de Córdoba é resultado dos vários períodos históricos que passou a cidade, desde sua construção inicial como templo islâmico sobre a Basílica Visigoda de San Vicente a partir do século VIII, e suas reformas e ampliações nos séculos posteriores, até a incorporação do edifício catedralício em sua estrutura, depois que Córdoba foi reconquistada pelos cristãos no século XIII. Mas como ocorreu este processo?

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA chegada ao poder de Almanzor, primeiro ministro do governo do califa Hisham II, supôs a última reforma da Mesquita de Córdoba, como vimos no post anterior. Este personagem destacou-se por suas inúmeras incursões militares contra as cidades que faziam parte dos Reinos Cristianos, como Barcelona, Léon e Santiago de Compostela, somente para citar algumas. Como general que era, a influência e importância de Almanzor debilitou o poder do califa, originando uma guerra civil que provocou a desintegração do Califato de Códoba em 1013 e  seu desaparecimento em 1031. A partir deste momento, Al Andalus se transforma num conglomerado de estados independentes, denominados Reinos de Taifas. Esta descentralização facilitou o avanço cristão e o processo de reconquista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs contínuas guerras travadas entre os distintos Reinos de Taifas provocaram a interferência dos monarcas cristãos através da política de Parias, um tributo que os Reinos de Taifas começaram a pagar para não serem atacados ou em troca de proteção militar. A situação de debilidade frente aos cristãos ficou patente em 1085, com a reconquista de Toledo. Depois deste importante acontecimento, os Reinos de Taifas solicitaram o auxílio dos Almorávides e depois dos Almohades, que invadiram a península a partir do final do século XI. Estes povos estavam formados por uma classe guerreira que defendiam uma doutrina ortodoxa do Islã. No entanto, a vitória dos exércitos cristãos na famosa Batalha de Navas de Tolosa em 1212 deixou o caminho aberto para a reconquista. Abaixo, vemos um braseiro de época almohade, pertencente ao acervo do Museu Arqueológico de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns anos antes da batalha, em 1146, o Rei Alfonso VII protagonizou a primeira conquista de Córdoba, embora nao fosse a definitiva, e a dedicação da Mesquita de Córdoba como Catedral. A cidade é reconquistada definitivamente em 1236 pelo Rei Fernando III, depois de 6 meses de assédio.  Abaixo, vemos um quadro situado numa das capelas da catedral que celebra a Reconquista de Córdoba por Fernando III.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASomente depois da conversão da mesquita em catedral o monarca realizou sua entrada solene na cidade. Considerado um rei piedoso e compassivo, ganhou a simpatia de seus súditos pela humildade que demonstrava em suas ações. Costumava convidar as pessoas de poucos recursos para comer junto a sua mesa e visitava pessoalmente os feridos nas batalhas. Antes de empreender uma ação militar, tentava esgotar todas as possibilidades diplomáticas. Grande devoto da Virgem Maria, seu corpo está enterrado na Catedral de Sevilha, cidade que também reconquistou. Estimulou as ciências e a cultura, contribuindo para o aparecimento das universidades. Sua fama de santidade fez com que fosse canonizado em 1671, passando a ser chamado de Fernando III, “El Santo“. Foi o responsável da recuperação de grandes áreas ocupadas pelos muçulmanos, como o Reino de Murcia e boa parte da atual Andaluzia. Abaixo, vemos uma estátua do rei, situada no Real Alcázar Cristiano de Córdoba (original em espanhol).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMaravilhado com a Mesquita de Córdoba, Fernando III decretou sua conservação, e não houve alterações substanciais em sua estrutura. A maior modificação na antiga mesquita ocorreu no século XVI, quando se decidiu construir uma catedral em seu interior a partir de 1523, durante a etapa do Bispo Alonso Manrique. O eclesiástico era tio do Imperador Carlos I, que recebeu sua autorização para a construção da catedral. O processo construtivo não esteve isento de polêmica, entre os que consideravam oportuno construir um templo cristão no interior da mesquita e aqueles que eram contrários ao projeto. Um pouco depois, o próprio Imperador Carlos I se arrependeu, ao pronunciar uma frase que ficou famosa: “Destruímos o que era único no mundo, e colocamos em seu lugar algo que podemos ver em todas as partes”. Não obstante, a transformação de parte da mesquita em catedral possibilitou sua conservação, e atualmente podemos contemplar ambos templos nesta construção maravilhosa. Nas próximas matérias, publicarei fotos e informações referentes à Catedral de Córdoba.

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Córdoba – Capital de Al Andalus

No ano 711 dC, os exércitos árabes e bereberes invadiram a Península Ibérica desde o norte da África e conquistaram o decadente Reino Visigodo. Em menos de 7 anos, praticamente todo o território estava sob seu poder. Inicia-se uma fase de grande importância para a história de Espanha e, particularmente, para Córdoba. A cidade é conquistada no mesmo ano e pouco tempo depois, em 716 dC, foi escolhida como capital do Império Árabe do Ocidente, chamado de Al Andalus, papel que desempenhou até o começo do século XI, apesar que a ocupação muçulmana se perpetuou na cidade até 1236. A cidade passa a denominar-se Madinat Qurtuba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO esplendor árabe inicia-se durante o governo de Abderramán I (731/788), último sobrevivente da dinastia dos Omeya de Damasco (Síria). Em 756 dC, funda o Emirato Independente de Al Andalus, criando um estado forte e centralizado, facilitando a ascensão ao poder de outros membros da dinastia. Um dos emires de Córdoba, Muhammad I, funda a cidade de Madrid aproximadamente no ano 860 dC. Abaixo, vemos capitéis do período emiral (século IX), pertencente ao acervo do Museu Arqueológico de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbderramán I inicia a construçao da mesquita em 756 dC, mas o grande esplendor da cidade ocorre a partir do governo de Abderramán III (891/961 dC), que se autoproclama Califa, dando origem ao Califato de Córdoba em 929 dC, que se prolonga até 1031. Abderramán III rompe os antigos laços com o Oriente e começa uma fase de grandes construções pela cidade, como a ampliação que realizou na mesquita (sobre ela publicarei matérias especiais). Abaixo, vemos peças de cerâmica do período califal, também pertencente ao Museu Arqueológico de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século X, chegou a contar com uma população estimada entre 500 mil e 1 milhão de habitantes, transformando-se na maior, mais culta e opulenta de todo o mundo, sendo comparada somente com Bagdá e Constantinopla. Este grande momento de sua história se refletiu no desenvolvimento artístico e científico. Contou com uma famosa universidade e uma biblioteca que possuía cerca de 400 mil volumes. O nível de alfabetização era alto, graças as 27 escolas espalhadas pela cidade. Estava adornada com jardins, cascatas e lagos artificiais, e possuía uma grande quantidade de fontes, iluminação pública e rede de saneamento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMediante um aqueduto, se abastecia de água as fontes e banhos públicos da cidade que, segundo os cronistas, chegou a contar com 700 !!!! Um destes banhos da época califal pode ser visitado atualmente, sendo considerado o mais importante (em Córdoba se conservam 5 banhos da época árabe).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste banho foi construído durante o Califato de Córdoba para o desfrute do califa e de sua corte. Estava situado junto ao desaparecido Alcázar Árabe, ao qual pertencia. Seguia o modelo dos banhos romanos, com salas frias, temperadas e quentes, e as estâncias eram cobertas com bôvedas suportadas por arcos rematados com capitéis de mármore, como o que vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA limpeza corporal e ritual era e continua sendo uma prática fundamental da cultura islâmica. Precediam a oração, além de constituir um ato social.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstes banhos eram denominados de Hammam, e este concretamente serviu também como harém para o califa. Encontrado acidentalmente em 1903, foi aberto como museu em 2006.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma maquete do Banho Califal de Córdoba

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs cemitérios em época islâmica estavam situados na periferia do núcleo urbano. As tumbas eram austeras, sendo pouco comum a existência de grandes sepulcros. Abaixo, vemos lápides de algumas tumbas, decoradas com inscriçoes (Museu Arqueológico de Córdoba).

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Valencia Árabe

Com a queda do Império Romano, a cidade de Valencia caiu sob o domínio dos visigodos em 497 dc. Pouco se conhece deste período histórico na cidade. No Museu de Almoina se conservam tumbas monumentais de finais do século VI, pertencentes à época visigoda. Possuíam um caráter familiar e coletivo, sendo que em algumas delas foram encontrados os restos de mais de 30 indivíduos. Foram construídas com grandes blocos de pedra e decoradas com motivos relacionados ao cristianismo. As sepulturas continham também ricas peças em forma de colares, anéis, pulseiras, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi com a chegada dos árabes em 718dc que a cidade alcançou um primeiro período de prosperidade. Permaneceram  mais de 500 anos, e passou a denominar-se Balansiya. Entre suas contribuições à cidade mencionamos o moderno sistema de plantio, numa zona de escassa pluviometria. No século X, alcançou uma população estimada em 15 mil habitantes, tornando-se a cidade mais populosa da zona oriental de Al Andaluz, nome com que se conhece o território árabe na Espanha. No século XI, durante o período conhecido como Reino de Taifas, no qual surgiram várias cidades independentes depois da desintegração do Califato de Córdoba, a cidade obteve um notável crescimento. Um excepcional conjunto de muralhas foi erguido. Apesar das reforma e ampliaçoes realizadas, o sistema defensivo permaneceu de pé até 1865. Ainda hoje podemos contemplar algumas de suas imponentes portas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo ano de 1094, El Cid conquista Valencia, depois de 8 meses de assédio, mas foi novamente retomada pelos árabes pouco tempo depois. A cidade é definitivamente reconquistada pelo Rei Jaime I, chamado de El Conquistador, e sua façanha foi celebrada em toda a Europa, já que o Papa Gregório IX havia outorgado à empresa um caráter de cruzada. Em 1238 entrava vitorioso na cidade, depois de realizar um pacto com o rei mouro Zayyan. Contou com o apoio das Ordens Militares do Templo, de Calatrava e do Hospital.No Edifício da Prefeitura de Valencia (Ayuntamiento) podemos ver um de seus objetos históricos de maior importância, o denominado Pendão da Reconquista, içado pelos árabes para indicar sua rendição às tropas de Jaime I.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar de reconquistada, Jaime I teve que lutar contra os interesses das nobreza catalã e aragonesa, que pretendiam converter as terras conquistadas numa prolongação de seus territórios. Para impedi-lo, o monarca transformou a cidade num reino singular,criando uma nova unidade política e jurídica unida à Coroa de Aragón. Com a  outorgação dos Foros de Valencia, os reis que lhe sucedessem ao trono estariam submetidos às leis próprias dos valencianos. A cidade torna-se, deste modo, num estado soberano, mesmo estando incorporado ao Reino de Aragón. Além dos Foros, se redatou um código marítimo, considerado o mais antigo do continente. No entanto, algumas instituições criadas pelos árabes foram mantidas, como o famoso Tribunal das Águas, encarregado de regular sua utilização. Desde 1247, a cidade passou a ter moeda própria, o Real Valenciano. Abaixo, vemos o busto de Jaime I, também colocado no interior do Edifício da Prefeitura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABoa parte da população árabe abandonou a cidade após a reconquista, e os que nela permaneceram (conhecidos como mudéjares) passaram a viver num bairro próprio, a Morería, situado fora das muralhas. Muitas das mesquitas existentes foram transformadas em igrejas católicas. Um bom exemplo da arquitetura mudéjar de Valencia corresponde aos chamados Banhos do Almirante, por estarem situados no Palácio Gótico dos Almirantes de Aragón. Apesar de sua aparência árabe, foram construídos em 1313.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstes banhos possuíam um caráter civil e sua funcionalidade e sistema construtivo foram herdados das antigas termas romanas. Divididos em salas fria,temperada e quente, é um dos poucos banhos desta época que se mantiveram ativos desde sua criação até o século XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADesde a época romana, Valencia sempre se orgulhou de ter um excelente sistema de saneamento, que foi ampliado e aperfeiçoado com o tempo. Graças a ele, a cidade transformou-se numa das mais limpas de toda a Espanha. Em 1944, os Banhos do Almirante foram declarados Conjunto Histórico-Artístico. Fechados para o uso público em 1959, pouco depois funcionou como uma academia de ginástica. Em 1985 foi adquirido pelo governo que o restaurou, sendo aberto para a visitação pública.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos as características aberturas situadas no teto, que proporcionam iluminação ao interior do banho, exemplos da arquitetura árabe destes espaços públicos.

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