Castelos da Espanha – Ordens Militares

Na Espanha existem vários Castelos e Fortalezas que, no passado, pertenceram às Ordens Militares que surgiram no decorrer da Idade Média. Muitas destas instituições religiosas e militares originaram-se durante a Reconquista Espanhola, com a finalidade de recuperar as terras ocupadas pelos muçulmanos e fortalecer a fé cristã. Boa parte delas foram fundadas no século XII no antigo Reino de Castilla e algumas tiveram um papel preponderante nas batalhas travadas contra os exércitos mouros, alcançando um grande poder político e econômico que as converteram em proprietárias de enormes extensões de terra. As denominadas Cruzadas, as guerras santas disputadas contra os infiéis muçulmanos, propiciaram o surgimento das Ordens Militares, além da necessidade de desenvolver a economia dos reinos europeus e da política de renovação e fortalecimento apoiadas pelos papas da época. Seus membros eram soldados e religiosos, de forma simultânea, denominados soldados de Cristo.

DSC03528Na Espanha Medieval conviveram várias ordens distintas, algumas autóctonas do país,  outras oriundas do estrangeiro. As principais Ordens Militares do país foram as Ordens de Calatrava, a de Santiago, a de Alcântara e a de Montesa. A Ordem de Santiago, por exemplo, foi fundada em Cáceres (atual Comunidade de Extremadura) no ano 1170, com a finalidade de proteger os peregrinos que se dirigiam à Santiago de Compostela para venerar o sepulcro do Apóstolo Santiago. Seus membros seguiam as normas de conduta da Regra de Santo Agostinho, que estabelecia os votos de castidade, pobreza e obediência. Sua participação mais celebrada ocorreu na decisiva Batalha de Navas de Tolosa ocorrida em 1212, que possibilitou o avance cristão contra as terras ocupadas pelos muçulmanos no sul da Espanha. Algumas das fortalezas que hoje em dia vemos pelo país pertenceram à Ordem de Santiago, como o Castelo de Fuentidueña del Tajo, situado na Comunidade de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFoi erguido sobre uma fortaleza de origem muçulmana e no século XV foi cedido à Ordem de Santiago. Uma pena que atualmente se encontra em ruínas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERABem próximo ao povoado de Fuentidueña del Tajo, outro município acolhe outra fortaleza que pertenceu à Ordem de Santiago, o Castelo de Villarejo de Salvanés. Se conserva apenas sua Torre de Homenaje, um caso único deste tipo de construçao defensiva pela disposição em apresentar três cubos em suas laterais. Foi a residência dos comendadores da Ordem de Santiago e sede do Tribunal Especial das Ordens Militares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA chamada Ordem dos Templários, a mais universal de todas, foi fundada em 1118 ou 1119 por nove cavaleiros franceses liderados por Hugo de Payns, logo após o término da primeira cruzada. Foi considerada a ordem mais rica e poderosa da Idade Média, e inúmeras lendas surgiram a respeito de suas riquezas e o destino das mesmas. Surgiu com o objetivo de proteger os peregrinos que visitavam os lugares santos de Jerusalém e se converteu na responsável pelo modelo de conduta que passou a reger as demais Ordens Militares. Da mesma forma que ocorreu em outros países europeus, na Espanha a Ordem dos Templários teve uma enorme importância. Um dos castelos que se tornaram propriedades da ordem foi o Castelo de Peníscola, belíssima cidade costeira situada na Província de Castellón, Comunidade Valenciana.

DSC00705De origem muçulmano, em 1233, durante o reinado de Jaime I, passou a pertencer aos monarcas cristãos e foi cedido à Ordem dos Templários em 1294. Em 1319 tornou-se propriedade da Ordem de Montesa e em 1411 foi entregue ao Papa Luna, Benedito XIII, época em que Peníscola transformou-se em sede pontifícia.

DSC00709DSC00715Localizado na cidade de Toledo, o Castelo de San Servando foi fundado inicialmente como um monastério no século XI pelo Rei Alfonso VI, quem o cedeu à Ordem dos Templários, sendo transformado num Alcázar para deter a ameaça muçulmana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA fortaleza espanhola mais vinculada à Ordem dos Templários é o Castelo de Ponferrada, situado na Província de León, Comunidade de Castilla y León.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAConsiderado um dos maiores Castelos da Espanha , encontra-se situado em pleno Caminho de Santiago.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste imponente e belo castelo pertenceu à Ordem dos Templários desde 1178 até sua dissolução no início do século XIV.

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Espanha: Patrimônios da Humanidade (Parte 5)

Na matéria de hoje, veremos os lugares do norte da Espanha declarados Patrimônios da Humanidade pela Unesco. O Caminho de Santiago sempre foi, historicamente, um dos principais centros de peregrinação do mundo. Os peregrinos que caminhavam rumo ao sepulcro do Apóstolo Santiago, situado na Catedral de Santiago de Compostela, possibilitaram um fértil intercâmbio de idéias que favoreceu o desenvolvimento do norte do país. Por exemplo, uma das vías de entrada do Estilo Românico na Espanha foi justamente o Caminho de Santiago, e em seu trajeto podemos admirar várias construções emblemáticas do estilo, como a Igreja de San Martín de Frómista, entre muitas outras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitas das cidades atualmente existentes foram fundadas graças a esta trilha sagrada, como Puente de la Reina, situada na Comunidade de Navarra, cuja ponte construída para a passagem dos peregrinos deslumbra a todos aqueles que a cruzam.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO mais frequentado de todos os Caminhos que levam à Santiago de Compostela, o denominado Caminho Francês, foi declarado P.H. em 1993. Em 2015, o chamado Caminho do Norte, cujo trajeto passa por belas paisagens e praias da costa norte do país, também foi incluído na lista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA bela capital do Principado de Asturias, Oviedo, possui um importante patrimônio histórico, repleto de monumentos de grande relevância, como sua catedral gótica, além de um excepcional conjunto de igrejas construídas no período pré românico, que foram designadas Patrimônios da Humanidade em 1985 e cuja lista ampliou-se em 1998.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAArte Paleolítica do Norte da Espanha, que inclui a famosa Caverna de Altamira, recebeu o título em 1986. Situada na Comunidade da Cantábria e próxima a um dos pueblos mais belos do país, Santillana del Mar, a Caverna de Altamira é considerada a “Capela Sixtina da Arte Paleolítica“, graças ao excepcional conjunto de pinturas rupestres que possui. Atualmente, perto da entrada da caverna, existe uma museu onde se pode contemplar uma réplica exata da caverna original, cuja visita somente é permitida para arqueólogos e estudiosos do tema.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Arquitetura Industrial também foi contemplada como P.H. na Espanha. Um exemplo é a magistral Ponte de Vizcaya, o principal monumento do município de Portugalete, situado a pouca distância de Bilbao, no País Vasco. Inaugurada em 1893, é também denominada Ponte Colgante e foi projetada pelo arquiteto Alberto Palácio Elissague. Uma das mais destacadas obras da arquitetura de ferro, decorrente da Revolução Industrial, esta ponte foi a primeira de sua tipologia construída em todo o mundo e recebeu o título de P.H. em 2006.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANa Comunidade da Rioja, famosa internacionalmente por seus deliciosos vinhos, situa-se o município de San Millán de Cogolla, que acolhe dois monastérios construídos em épocas diferentes. O chamado de San Millán de Suso foi fundado no século VI por San Millán, enquanto San Millán de Yuso pertence ao século XI, embora se reconstruiu entre os séculos XVI e XVIII. Um dos centros espirituais mais importantes do antigo Reino de Castilla, neste monastério foi escrita a obra mais antiga do idioma castelhano, as “Glosas Emilianenses“, motivo pelo qual é considerado o berço do idioma espanhol. Foi declarado P.H. em 1997.

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Hospital del Rey – Burgos

Nossa viagem por Castilla y León iniciou e finalizou-se em Burgos, capital da província homônima, e uma das cidades mais importantes do norte da Espanha. Estivemos dois dias na cidade, alugamos um carro para percorrer a Comarca de Las Merindades, e a ela retornamos para tomar um ônibus a Madrid.  Burgos foi o tema de uma série de várias matérias publicadas entre 28/9/2015 e 1/11/2015, quando publiquei posts relativos aos monumentos históricos mais importantes da cidade castelhana. Desta vez, pude mostrar a cidade a meu irmão Marcelo, e ainda conhecer lugares que não conhecia.

20150725_201436Burgos é uma das cidades fundamentais do Caminho Francês, o mais popular e famoso dos Caminhos que levam à Santiago de Compostela. Na Idade Média, o fluxo de peregrinos era intenso, de forma que foi necessária a construção de centros assistenciais para auxiliar àqueles que realizavam o caminho. Um dos mais importantes de toda a rota jacobea, o Hospital del Rey encontra-se na saída da cidade…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste hospital foi fundado pelo Rei Alfonso VIII de Castilla e por sua esposa Leonor no ano de 1195. Sua construção reflete a importância de Burgos na Idade Média, e desde sua fundação até o século passado esteve governado pelo Real Monastério de las Huelgas, situado próximo ao hospital (sobre este importante  monastério, ver a matéria publicada em 27/10/2015). Abaixo, vemos uma foto do monastério…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntes de entrar no hospital, se construiu uma Ermita, dedicado a Santo Amaro, e um cemitério, onde os peregrinos  falecidos eram enterrados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a Porta de los Romeros, a principal porta de entrada ao Hospital del Rey. Ao longo do tempo, o hospital foi reformado, e esta bela porta foi construída já no século XVI no estilo renascentista por Juan de Salas. A seguir, vemos duas fotos, de sua parte externa e também desde o interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XV, o Hospital del Rey chegou a contar com 87 leitos, um número considerável para a época. Sua excelente estrutura fez com que fosse considerado o melhor centro assistencial de todo o Caminho de Santiago. A igreja atual é barroca e data do século XVII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERA Se conservam, no entanto, elementos construtivos de época anterior, como este arco ojival…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a Guerra Civil Espanhola do século XX (1936/1939), o Hospital del Rey foi utilizado pelo bando nacionalista como hospital das tropas marroquinas que integravam o exército de Franco. Se construiu, inclusive, uma mesquita, que infelizmente não se conservou.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, o antigo hospital foi convertido na sede da Universidade de Burgos, onde se situa o Reitorado, uma Biblioteca e a Faculdade de Direito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFelizmente, sua parte histórica está protegida desde 1931, quando o Hospital del Rey foi declarado monumento histórico em 1931, na categoria de Bem de Interesse Cultural (BIC).

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Fuentidueña del Tajo – C.Madrid

A Comunidade de Madrid possui muitos outros tesouros a serem descobertos, além dos inumeráveis existentes na capital. Por exemplo, a cerca de 60 km de Madrid localiza-se o povoado de Fuentidueña del Tajo. Com aproximadamente 2 mil habitantes, encontra-se bastante próximo à Província de Toledo, já na Comunidade de Castilla La-Mancha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABoa parte da zona sudeste da Comunidade de Madrid, onde se situa o pueblo, pertenceu, em épocas passadas, à Ordem de Santiago, uma das 4 ordens militares autóctonas da Espanha (as outra são as ordens de Calatrava, Alcántara e Montesa). Esta ordem religiosa e militar nasceu no século XII no antigo Reino de León com o objetivo inicial de proteger os peregrinos que realizavam o Caminho de Santiago. Dentro do Processo de Reconquista, exerceu um papel fundamental na reocupação das terras dominadas pelos muçulmanos. Uma das maiores atraçoes de Fuentidueña del Tajo é seu castelo, que foi propriedade da ordem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERASituado num cerro que se eleva sobre a cidade, dele podemos admirar todo o povoado, como vemos na primeira foto da matéria. Também conhecido como Castelo de Santiago, infelizmente encontra-se num estado ruinoso. A Torre de Homenagem é sua parte melhor conservada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua história inicialmente está vinculada a uma fortificação muçulmana, construída para deter o avance dos cristãos. A fortaleza foi conquistada pelo Rei Alfonso VI entre os séculos XI e XII, momento em que foi construído um novo castelo, que foi utilizado como residência de personagens relevantes da época. Nele viveu a Rainha Urraca I, esposa do monarca Alfonso I de Aragón, a quem os habitantes do povoado chamam de sua “Dueña”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XV, o castelo passou a ser propriedade da Ordem de Santiago e foi utilizado como cárcere. Durante a Guerra da Independência contra os franceses no início do século XIX, a fortaleza foi severamente castigada e seus materiais construtivos foram utilizados para a construção de outros edifícios. Os restos conservados datam do século XIV, quando o castelo foi ampliado dois séculos depois de sua fundação. Sua importância se reflete em seu aparecimento no escudo da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Rio Tajo atravessa os limites do povoado, e aos pés do castelo se encontra uma fonte que originalmente foi construída em tempos da Rainha Urraca, cujo apelido “Dueña” completa a origem da denominaçao do povoado, Fuentidueña del Tajo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABem próxima ao castelo vemos a Igreja de San Andrés Apóstol, construída no século XVII no estilo barroco sobre uma antiga capela erguida no século XII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja foi dedicada ao Apóstolo André, que se tornou o santo padroeiro da vila. Em sua fachada destacam a torre quadrada e suas três colunas toscanas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO povoado é também conhecido pela Torre do Relógio, situada ao lado do Ayuntamiento, o edifício sede da prefeitura do município. Sua máquina de funcionamento é uma das mais antigas de toda a Comunidade de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando estive na cidade, seus habitantes tinham acabado de celebrar as festividades em honra a sua padroeira, Nossa Senhora de Alharilla, cuja imagem decora a torre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERATanto a torre quanto o Ayuntamiento situam-se na Plaza de la Constitución, a mais importante do povoado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFuentidueña del Tajo possui uma singela Plaza de Toros, chamada “La Ribereña“, onde se realizam espetáculos taurinos…

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Apóstolo Santiago – Parte 2

O Apóstolo Santiago, um dos 12 apóstolos de Jesus e Padroeiro da Espanha, foi chamado de Santiago Maior para diferenciá-lo de outro discípulo de mesmo nome, que passou a ser conhecido como Santiago Menor, por ser mais jovem. A origem do nome Tiago deriva indiretamente do latim Iacobus, por sua vez uma latinização do nome hebraico Yaakov, em português Jacó. Com o decorrer do tempo, o nome evoluiu em diversas denominações segundo os distintos idiomas:  Jakob em alemão, James em inglês, Giacomo em italiano e Jacques em francês. Na Catalunha é conhecido como Jaume ou Jaime.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir do século XI, os peregrinos que realizavam o Caminho de Santiago, com destino final em Santiago de Compostela, se converteram num fenômeno de massa a nível europeu. Esta famosa rota de peregrinaçao foi impulsionada por monarcas, como o Rei Alfonso VI, e também pela importante Ordem Beneditina de Cluny (França), que introduziu na Península Ibérica a liturgia romana e fixou o traçado do Caminho de Santiago, que atravessa o norte da Espanha. Este fato foi fundamental para transformar a imagem do apóstolo em Santiago Peregrino, uma de suas principais manifestações no campo iconográfico e artístico. A influência do Caminho de Santiago na configuração das lendas associadas ao apóstolo é enorme. Um de seus principais atributos, que permitem identificá-lo, é a espada com a qual foi martirizado (decapitado) e o livro, símbolo da doutrina evangélica. Como Santiago Peregrino, normalmente aparece com um chapéu de aba larga, bastão de caminhante, e a Concha de Vieira, outro de seus símbolos principais. Acima e abaixo, vemos representaçoes de Santiago como Peregrino, em esculturas pertencentes ao Museu do Caminho de Astorga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAté princípios do século XVI, o Apóstolo Santiago é representado com seus atributos de Peregrino, mas conservando suas características de apóstolo, como o livro, a vestimenta e os pés descalços. Outra faceta fundamental do apóstolo é como defensor da fé católica dentro do processo de Reconquista da Espanha, um santo guerreiro. Segundo a tradição, durante as batalhas entre os muçulmanos e os cristãos ao longo dos séculos em território espanhol, milagrosamente aparecia o Apóstolo Santiago num cavalo branco, com a espada na mão, auxiliando o exército cristão a derrotar o inimigo. Os mouros aparecem aplastados sob as patas do cavalo do apóstolo. Um exemplo é a Batalha de Clavijo, ocorrida na atual região da Rioja, no ano de 844. Abaixo, vemos um quadro que retrata a Batalha de Clavijo, situado na Igreja de Santiago de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesta forma, nasce a representação de Santiago Matamoros, uma das mais habituais relativas ao santo, sendo que é assim representado por primeira vez no ano 1230. Sempre segundo a tradição das lendas a ele associadas, o Apóstolo Santiago também interviu em outra batalha fundamental, a das Navas de Tolosa, ocorrida no século XIII. Abaixo, vemos uma escultura de Santiago Matamoros do século XVIII, presente na Catedral de Santiago de Compostela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA mesma cena aparece na fachada da Igreja de Santiago em Logroño, capital da Rioja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra cena constante é o transporte de seu sepulcro, puxado por bois. Na Capela de Santiago da Catedral de Segóvia, vemos um retábulo com esta representação. Na parte central vemos Santiago Peregrino e, na parte superior, Santiago Matamoros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesde o século IX, os reis cristãos reconheceram o Apóstolo Santiago como Padroeiro da Espanha, e estabeleceram o Voto de Santiago, que consistia numa oferenda obrigatória que as terras reconquistadas deveriam realizar anualmente como bens à Catedral de Santiago de Compostela, graças ao auxílio recebido pelo apóstolo na reconquista. Sua figura teve também um papel inspirador na Conquista da América, onde foi declarado padroeiro de várias cidades latino americanas, como Santiago do Chile, Santiago de Cuba e Caracas, entre muitas outras. Abaixo, vemos a Igreja de Santiago de Medina de Rioseco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1630, durante o reinado de Felipe IV, o Papa Urbano VII declarou o Apóstolo Santiago como o único Padroeiro da Espanha. Abaixo, vemos a estátua equestre do monarca, situada na Plaza del Oriente de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos símbolos mais famosos associados ao Caminho de Santiago e ao apóstolo é a Concha de Vieira, um molusco abundante na Galícia. Sua origem é duvidosa, mas uma lenda conta que o apóstolo salvou um cavalheiro que caiu no mar, sendo coberto por conchas. O que se sabe com certeza é que os peregrinos que chegavam à Santiago de Compostela recebiam, como prova da realização do caminho, um diploma feito de pergaminho que comprovava a façanha, e colocavam no seu sombreiro uma Concha de Vieira. Portar a concha passou a ser considerado um tributo ao apóstolo. Na capital galega e por todo o Caminho de Santiago, é habitual ver a concha,  que vemos representada na arquitetura, junto a Catedral de Santiago de Compostela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Concha de Vieira marca também a rota do caminho, como vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XII, com o intuito de proteger os peregrinos e também para colaborar no processo de Reconquista, foi criada a Ordem Militar de Santiago. Seu símbolo é uma cruz vermelha simulando uma espada, uma referência ao seu caráter guerreiro e ao seu martírio. Às vezes, o Apóstolo é representado como um cavalheiro, com a espada e um estandarte branco, com a Cruz da Ordem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Cruz de Santiago aparece, de forma curiosa, numa das sobremesas tradicionais da Galícia, que podemos provar por todo o país, a Torta de Santiago. Sua origem é remota, provavelmente do século XVI. Feita de amêndoas e ovos, em 1924 uma confeitaria de Santiago de Compostela decidiu enfeitar o dôce com a Cruz de Santiago

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo a matéria sobre o Apóstolo Santiago com outra igreja dedicada ao santo, em Ávila..

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Apóstolo Santiago

Como complemento às matérias dedicadas a minha recente viagem realizada pela Galícia, decidi publicar uma pequena série de dois posts sobre o personagem fundamental destas terras, e motivo principal da existência de muitas das cidades que pertencem ao Caminho de Santiago, como a própria Santiago de Compostela. Refiro-me ao Apóstolo Santiago, o Santo Padroeiro da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos 12 apóstolos de Jesus Cristo, Santiago (em português São Tiago) nasceu provavelmente na Galileia, e foi um dos filhos de Zebedeu e Salomé. Seu irmão, São João Evangelista, também fez parte do círculo íntimo de Jesus. Ambos o conheceram às margens do Mar da Galileia, quando pescavam junto com Simão Pedro e seu irmão André. Pedro, e os irmãos João e Tiago, formaram o trio de discípulos preferidos de Jesus e foram testemunhos diretos de alguns dos principais episódios da vida de Cristo. Depois da morte e ascensão de Jesus, Santiago começou a anunciar a nova fé e se encontrava em Jerusalém quando foi vítima da perseguição contra os cristãos promovida por Herodes Agripa, Rei da Judeia e neto de Herodes O Grande, que decapitou o santo pelas costas no ano 44. Santiago tornou-se, portanto, o primeiro apóstolo que foi martirizado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste pequeno resumo de sua vida constitui o ciclo evangélico da vida do santo. Com seu martírio em Jerusalém e seu posterior sepultamento em terras galegas, iniciou-se uma das maiores devoções a um santo cristão graças aos milhares de peregrinos que, desde a Idade Média, realizam o Caminho de Santiago para venerar seu sepulcro na Catedral de Santiago de Compostela. A tradição de seu enterramento na Galícia se fundamenta em vários textos que adquirem sua forma definitiva no século XII, como a “História Compostelana”, escrito em 1139 por ordem do Bispo Diego Gelmírez de Santiago de Compostela, e o Códice Calixtino, onde se relata os acontecimentos mais importantes de sua vida. Depois de predicar na região da Judeia, veio a Espanha para seguir com seu papel evangelizador. O primeiro em admitir a evangelização do apóstolo na Península Ibérica foi o famoso Beato de Liébana em seus comentários sobre o Apocalipse, redatado em 776. Foi ele também o primeiro em referir-se ao Apóstolo Santiago como Padroeiro da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos episódios mais importantes da vida de Santiago na Espanha ocorreu na cidade de Zaragoza, quando no ano 40 a Virgem Maria, em “carne mortal”, ou seja, em vida, apareceu ao apóstolo no alto de uma coluna feita de jaspe, conhecida como Pilar. Como testemunho de sua presença, o apóstolo ergueu uma pequena capela, que com o passar dos séculos originou a construção da Basílica do Pilar, um dos centros de devoção mariana mais antigos e importantes do mundo, onde ainda hoje se venera a Coluna do Pilar. A denominada Virgem do Pilar foi declarada a Santa Padroeira da Espanha e do mundo hispânico. Abaixo, vemos uma foto da bela Basílica do Pilar de Zaragoza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois do martírio do santo em Jerusalém, seus restos foram trazidos por dois de seus discípulos, Atanasio e Teodoro, num barco à Galícia. Então, ambos discípulos começaram a procurar um local santo para seu enterramento, e foram recebidos pela Rainha Lupa, perversa governante da Galícia, que os enviou a uma de suas propriedades, onde prometeu bois para o transporte do sepulcro. No entanto, ao chegarem ao local, viram que se tratava de touros bravos. Também encontraram com um feroz dragão que esculpia fogo. Os discípulos, em vez de se assustarem, fizeram o sinal da cruz e, milagrosamente, o dragão explodiu e os touros se transformaram em bois mansos. Retornaram ao palácio da Rainha Lupa que, arrependida, se converteu ao cristianismo e transformou seu palácio numa igreja. Este fato foi mencionado no livro “A Lenda Dourada”, escrito em 1264 por Jacobo de la Vorágine. Abaixo, vemos uma pintura que retrata o episódio, que faz parte do acervo do Museu do Caminho, sediado no magnífico Palácio Episcopal de Astorga, projetado pelo arquiteto modernista Antoni Gaudí.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO sepulcro do santo foi enterrado na cidade de Iria Flávia, atual Padrón, e abandonado no século III devido às perseguições religiosas na época em que o território formava uma província do Império Romano, conhecida como Hispania. Perdida a memória exata do local onde foi enterrado o santo, segundo a lenda uma luz misteriosa apareceu ao eremita Pelayo indicando o local do sepulcro. O Bispo Teodomiro de Iria Flávia foi comunicado e descobriu o sepulcro de mármore do santo e de seus dois discípulos numa antiga necrópole da cidade. Este local, indicado por uma estrela, recebeu o nome de “Campus Stellae“, ou “Campo da Estrela“, origem da cidade de Santiago de Compostela. Na época do Rei Alfonso II “El Casto” (791/842), se difunde por toda a península a notícia da descoberta do sepulcro do santo, fato que originou uma das maiores rotas de peregrinação de todo o mundo cristão, o Caminho de Santiago. Abaixo, vemos o Apóstolo Santiago na fachada da igreja a ele dedicado, em Medina de Rioseco, cidade da Comunidade de Castilla y León.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEvidentemente, na Espanha existem muitos templos dedicados ao seu santo padroeiro. Abaixo, vemos a Igreja de Santiago de Madrid

OLYMPUS DIGITAL CAMERA A Igreja de Santiago de Málaga, onde foi batizado Pablo Picasso em 1881…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm muitas capelas existentes nas Catedrais da Espanha vemos sua figura, como na Capela Funerária de Santiago da Catedral de Toledo, em sua parte superior…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu na Capela de Santiago, pertencente à Catedral de Segovia

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Último Passeio por Santiago de Compostela

Finalmente, depois de mais de 40 posts e dois meses de publicações, finalizo minha recente viagem pela Galícia (que terá um complemento especial sobre o Apóstolo Santiago). Neste último post sobre Santiago de Compostela, veremos alguns lugares e atrações da cidade que não foram incluídos nas matérias anteriores. A capital galega possui inúmeras casas nobres de importância histórica, como o Palácio de Fonseca, que pertenceu a Alonso III de Fonseca, um dos principais impulsores da prestigiosa e histórica Universidade de Santiago de Compostela. O palácio foi construído na primeira metade do século XVI e foi projetada pelo famoso arquiteto Rodrigo Gil de Hontañón. Em sua fachada, vemos o escudo da família dos Fonseca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUm belo exemplo da Arquitetura Civil do período barroco é o Palácio de Fondevila, construído em 1760. Situa-se na chamada Calle de las Casas Reales, assim denominada pelos palácios que ainda conserva.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASeu nome é uma referência a D.Pedro Varela Fondevila, que foi o proprietário do imóvel e prefeito da cidade. Também destaca o escudo situado na fachada da construção.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo seu lado, um outro palácio, datado de 1500, conserva um portal composto por um Arco Conopial, algo raro na arquitetura civil…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outra casa nobre, cuja história ignoro….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das ruas mais representativas do Centro Histórico, declarado Patrimônio da Humanidade, é a Rua del Villar, com abundantes casas dos séculos XVI, XVII e XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe todas as fontes da cidade a mais famosa é, sem dúvida, a Fonte dos Cavalos, situada na Plaza de las Platerías, em frente à famosa fachada românica da Catedral Compostelana. Nesta praça situava-se o grêmio que representava os artesãos que trabalham com a prata, em cujas lojas ainda podemos comprar objetos feitos de metal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANela os visitantes jogam uma moeda com o desejo de retornar à cidade. A fonte foi construída em 1825. Atrás da fonte, vemos a Casa do Cabildo, um edifício pertencente à segunda metade do século XVIII, também barroco. No lado esquerdo, o antigo Edifício do Banco de Espanha, que atualmente é uma das sedes do Museu das Peregrinações, que possui uma interessante coleção de objetos artísticos e arqueológicos encontrados na Catedral, enaltecendo a importância das rotas de peregrinações ao redor do mundo, especialmente o Caminho de Santiago.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, um detalhe da Fonte dos Cavalos

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Museu das Peregrinações possui uma outra sede, situada numa casa gótica do século XIV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPor sua vez, o denominado Museu Casa de la Troya recria o ambiente de uma pensão de estudantes do final do século XIX, no qual se inspirou o escritor Alejandro Pérez Lugín (1870/1926) para escrever sua célebre novela “La Casa de la Troya“, em 1915. Este autor espanhol frequentou a Universidade de Santiago de Compostela e muitas de suas obras retratam temas e ambientes galegos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo aspecto gastronômico, a Comunidade da Galícia destaca-se principalmente por seus pescados, como o Pulpo à Gallega, polvo feito ao modo tradicional da região. Outro prato de referência é o Caldo Gallego, uma deliciosa sopa feita com legumes, batatas, muito parecido ao Caldo Verde português. No Caminho de Santiago, os peregrinos reforçam a dieta com esta sopa, principalmente nos frios dias do inverno.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAinda tive tempo de conhecer a Ponte sobre o Rio Sar, que cruza a parte baixa da cidade, construída provavelmente no século XIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABem próximo, vemos juntos dois símbolos da comunidade, o cruzeiro e o hórreo, presentes na grande maioria das cidades e pueblos da Galícia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAproveito uma vez mais para agradecer aos meus queridos amigos Marcelo e Cristina, que me convidaram novamente para participar desta viagem por terras da Galícia. Amantes incondicionais desta região espanhola, ambos possuem uma autêntica alma de peregrinos, e caminhar pelas cidades e povoados da comunidade junto a eles foi um verdadeiro prazer, repleto de momentos que somente as inesquecíveis viagens podem produzir…