Illescas – Segunda Parte

O motivo principal de minha visita à cidade de Illescas foi conhecer o Hospital Santuario de Nuestra Señora de la Caridad, o monumento mais famoso deste município castelhano. Minha curiosidade era poder admirar o legado que o grande pintor El Greco deixou para a posteridade neste lugar, sob a forma de vários quadros de temática religiosa, que ainda adornam suas dependências. No início do século XVI, o Cardeal Cisneros, um dos personagens religiosos mais importantes da Espanha, solicitou uma permissão à vila de Illescas para a construção de um convento  para a Ordem Franciscana no local que antigamente ocupava um monastério beneditino erguido por San Ildefonso (santo padroeiro de Toledo) no século VII. Em troca, o cardeal ordenou que fosse construído um hospital beneficente no local mais central do povoado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIniciado no início do século XVI, o hospital foi levantado junto com uma capela, onde se colocou uma imagem da Virgem da Caridade. Constituído por dois andares, sendo o inferior destinado às dependências hospitalarias e hospedagem e o superior para as tarefas administrativas, o edifício se conserva integralmente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa segunda metade do século XVI, o Hospital chegou a ser o mais frequentado de toda a Espanha. No ano de 1600 foi inaugurado o Santuário em homenagem a N.Sra da Caridade, que se comunica com o hospital através de um acolhedor pátio. De estilo renascentista, a igreja foi projetada por Nicolás Vergara El Joven, o mais importante representante da arquitetura toledana do século XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATanto o hospital, quanto o santuário, albergam inúmeros tesouros artísticos, com destaque para os quadros pintados por El Greco, como o retábulo maior em honra à Virgem da Caridade, realizado em 1603, e outros com temas relacionados à Virgem Maria. Sua importância radica em que permanece no mesmo local onde os quadros foram realizados, e não num museu, como normalmente ocorre com as obras de El Greco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente o hospital e o santuário são administrados pela Funcave, uma fundação que permanece realizando as finalidades benéficas da instituiçao, de caráter social, sanitário, educativo e religioso. Sua origem se remonta ao final do século XIX, quando Don Manuel de Vega y López realizou um donativo para que a instituição pudesse manter seus objetivos originais. No pátio podemos ver um busto em sua homenagem, além de uma placa comemorativa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO local possui também um interessante museu inaugurado em 2005, com pinturas, esculturas e objetos litúrgicos. Lamentavelmente as fotos, tanto das obras de El Greco, como do interior do santuário, estão proibidas, de forma que abaixo adiciono o site da fundação, onde vocês poderão apreciar os quadros do famoso pintor:

Depois de realizar uma visita guiada a este interessantíssimo lugar de Illescas, ainda tive tempo de conhecer outros monumentos da cidade, como o Ayuntamiento da cidade, e um belo parque…
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Na hora de almoçar, escolhi um restaurante que pertence a um hotel da cidade, com um atraente Menú que incluía uma Parrillada de Verduras de primeiro prato, Lombo de Lubina com um delicioso molho de segundo e morango com chantilly de sobremesa, além de pão, azeitonas e vinho, com um custo total de 20 euros…
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Depois do almoço, fui conhecer o Museu do Azeite, um lugar que vale a pena visitar, e que será o tema do próximo e último post sobre Illescas

 

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Illescas – Castilla La Mancha

Minha grande curiosidade pelo patrimônio histórico e artístico da Espanha me levou desta vez a conhecer a cidade de Illescas , situada na Comunidade de Castilla La Mancha. Localizada apenas a 40 km do centro de Madrid, Illescas encontra-se a meio caminho entre a capital do país e Toledo. Esta localização estratégica possibilitou que a cidade adquirisse uma grande importância histórica ao longo dos séculos, transformando-se na terceira maior cidade da Província de Toledo, com cerca de 30 mil habitantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASegundo os restos arqueológicos encontrados, Illescas esteve habitada desde a pré-história. Também existiu um povoado celtíbero desde finais do século V ao II aC, e no período romano contou com um povoamento. Em época árabe, se construiu um Alcázar (fortaleza defensiva) que foi tomado pelo Rei Alfonso VI logo depois de ter sido reconquistada em 1085. O mesmo rei foi o responsável por sua reconstrução e repovoamento. Com  crescimento da vila, Alfonso VI ordenou sua fortificação, através da construção de uma muralha formada por 5 portas de acesso. A única que se conservou é o denominado Arco de Ugena, por onde se realizava a fiscalização e o controle de mercadorias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACom o tempo, Illescas passou a ser propriedade do Arcebispado de Toledo, condição que manteve até 1575, quando se submete a jurisdição real. Abaixo, vemos o escudo da cidade

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIllescas conta com um importante patrimônio religioso, com destaque para a Igreja Paroquial de Santa María

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEdificada entre os séculos XIII e XVI, apresenta uma curiosa combinação de estilos, devido às distintas etapas construtivas de sua dilatada história.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente construída no estilo românico-mudéjar, seu aspecto atual data de uma reforma realizada nos séculos XV e XVI. Sua esbelta torre mudéjar é uma maravilha…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja, por sua importância histórica, foi declarada Monumento Nacional em 1920. Abaixo, vemos detalhes mudéjares da torre…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa praça onde se localiza a igreja apreciamos também uma farmácia histórica, fundada em 1888.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro edifício religioso que integra o patrimônio histórico de Illescas é o Convento de la Concepción de la Madre de Dios, fundado por uma bula papal em 1514, cuja iniciativa de sua construção se deve a um dos personagens religiosos mais relevantes da história da Espanha, o Cardeal Cisneros, que teve um papel fundamental no desenvolvimento da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, publicarei a segunda matéria sobre esta cidade castelhana…

Biblioteca Histórica da Univ. Complutense

No segundo semestre do ano passado tive o privilégio de realizar uma visita guiada a um local interessantíssimo e de acesso restrito, a Biblioteca Histórica da Universidade Complutense de Madrid. Esta biblioteca é considerada uma das cinco mais importantes do país, sendo considerada a segunda de Madrid relativa a quantidade de livros anteriores do século XIX, somente superada pela Biblioteca Nacional.

20171115_113817Para compreender a importância desta biblioteca, é preciso retroceder à própria criação da Universidade Complutense, fundada pelo Cardeal Cisneros em Alcalá de Henares em 1499 (realizei vários posts sobre esta cidade declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco). O centro principal desta instituição fundamental era o Colégio Mayor de San Ildefonso, que vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta que foi uma das principais instituições de ensino da Europa, entrou em decadência no século XVII e no século seguinte seu sistema de ensino mostrou-se antiquado. Em 1822 se inaugurou a Universidade Central de Madrid, estabelecendo-se definitivamente em 1836, trazendo o nome, corpo docente e biblioteca histórica para a capital da Espanha da antiga universidade fundada por Cisneros. Desde seu início, a Universidade Central ostentou o título de Universitas Complutensis, em referência à sua origem. A biblioteca histórica iniciou-se durante a época do cardeal, que se encarregou pessoalmente de adquirir os primeiros livros. O inventário mais antigo da biblioteca data de 1512, quando contabilizava 1070 obras, um número significativo levando-se em conta o pouco tempo transcorrido desde a fundaçao da universidade.

20171115_120336Abaixo, vemos o edifício histórico da Universidade Central de Madrid, situado numa antiga instituçao religiosa pertencente aos jesuítas, fundada em 1622 (Noviciado dos Jesuítas).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Biblioteca Histórica da Universidade Complutense foi situada num edifício anexo, cuja construção de 1928 foi patrocinada por D. Ramón Pelayo de la Torriente (1850/1932), que recebeu o título de Marquês de Valdecilla. Inicialmente, acolheu as bibliotecas das faculdades de direito, letras e filosofia. Abaixo, vemos o edifício e uma placa de agradecimento ao marquês.

20171115_12135220171115_121311Com a criação da Cidade Universitária de Madrid, a grande maioria dos livros ficaram dispersos em várias faculdades, e nem sua disponibilidade e conservação eram os mais adequados. Infelizmente, durante a Guerra Civil Espanhola, a Cidade Universitária encontrava-se em plena frente de batalha, e muitos livros históricos foram utilizados como “muralha defensiva”, principalmente aqueles pertencentes à Faculdade de Letras e Filosofia, onde os combates foram brutais. Códices pertencentes a antiga Universidade Complutense de Alcalá de Henares foram perdidos, lamentavelmente.

20171115_114629Por este motivo, decidiu-se pela instalaçao da biblioteca histórica neste edifício, que foi reabilitado e reformado para tal finalidade entre 1995 e 2001. Atualmente, o acervo da biblioteca está formado por mais de 100 mil livros, de uma riqueza impressionante e de um valor incalculável. A coleção possui cerca de 3 mil manuscritos e 725 incunháveis (como se denominam os livros impressos logo depois da descoberta da imprensa por Gutenberg em 1455). Os livros impressos entre os séculos XVI e XVIII chegam a dezenas de milhares !!!! O acervo de livros científicos do século XVIII de medicina e botânica é verdadeiramente excepcional. Cerca de 300 códices provenientes da antiga Universidade de Alcalá de Henares constituem algumas de suas peças mais valiosas, como uma Bíblia Hebraica feita em Toledo no século XIII. Entre outros livros, destacam o primeiro livro ilustrado impresso na Espanha, a primeira gramática espanhola realizada por Antonio de Nebrija e publicada na Universidade de Salamanca em 1492, entre muitos outros, impossíveis de citar tal sua quantidade. Abaixo, vemos uma edição da Bíblia Poliglota, editada na Universidade Complutense de Alcalá de Henares.

20171115_120041Além da antiga Universidade Complutense, outras instituições contribuiram para o enriquecimento do acervo da biblioteca histórica, como o Real Estudio de San Isidro, os Reais Colégios de Medicina e Cirurgia de San Carlos, de Farmácia e Veterinária, etc. A visita que fiz incluía também o denominado Salão do Paraninfo, um maravilhoso espaço de formato elíptico com o teto todo decorado de pinturas e um grande vitral.

20171115_110903O espaço foi decorado por pinturas alegóricas relativas à cultura universitária, representando também grandes personagens da História Espanhola.

20171115_11114520171115_111052Muito interessante foi a apresentação realizada por um técnico sobre a conservação e restauração dos livros antigos, uma das principais atribuições da Biblioteca Histórica da Universidade Complutense.

20171115_104028Muitos dos livros antigos já foram microfilmados e digitalizados, trabalho que ainda está longe de finalizar. A biblioteca conta com salas  de conferências e realiza periodicamente diversas exposições, a última sobre a Reforma de Lutero.

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Cidade Universitária – Madrid

A Cidade Universitária de Madrid localiza-se na parte noroeste da cidade, no Distrito de Moncloa. Por este motivo, é também conhecido como Campus de Moncloa, e alberga a maior parte dos edifícios das Faculdades da Universidade Complutense e da Universidade Politécnica de Madrid, além de cerca de 30 colégios maiores. Ultimamente, estive várias vezes no campus fotografando suas principais faculdades, e decidi realizar uma matéria sobre a Cidade Universitária, por sua grande importância histórica, educacional e arquitetônica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInicialmente, a instituição de Ensino Superior de Madrid denominava-se Universidade Central e estava situada na Calle de San Bernardo, ocupando o antigo edifício do Noviciado de Jesuítas, fundado em 1602 e cuja finalidade principal era fornecer uma formação espiritual aos aspirantes a entrar na Companhia de Jesus. Abaixo, vemos o edifício…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJá a Universidade Complutense, uma das instituições educacionais mais relevantes da história da Espanha, foi fundada pelo Cardeal Cisneros em 1499, na cidade de Alcalá de Henares, terra natal de Cervantes, declarada Patrimônio da Humanidade e localizada a cerca de 20 km de Madrid (ver matérias publicadas entre 23/8 e 27/8/2016). Por incrível que pareça, mesmo sendo capital do país, Madrid nao teve universidade própria, até que em 1822, durante o período conhecido como Triênio Liberal, se decidiu trazer a Universidade Complutense a Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPor não existir locais adequados para a instalação da universidade, vários edifícios foram utilizados para suas funções educativas, até que em 1842 foi trazida para o edifício de Noviciado. Foi então que o edifício foi reconstruído pelo arquiteto Narciso Pascual y Colomer e adaptado para sediar a universidade. As classes universitárias iniciaram suas atividades durante o curso de 1844/1845, com a abertura das Faculdades de Direito e Filosofia e Letras. A Universidade Central continuou desempenhando seus serviços até o momento em que foi levado à Cidade Universitária.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar de ter sido construída e reconstruída no século XX (no próximo post falaremos um pouco de sua conturbada história), na Cidade Universitária podemos contemplar monumentos históricos, como a Portada que pertenceu ao Hospital de La Latina,que atualmente se encontra em frente à fachada da Faculdade de Arquitetura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste hospital também foi fundado no ano de 1499, por Beatriz Galindo e seu marido Francisco Ramírez. Ambos pertenceram ao círculo familiar dos Reis Católicos, Beatriz como responsável da educação dos filhos de Isabel La Católica e o marido como um tenente do exército de Fernando El Católico. Por seu domínio total do latim, Beatriz Galindo ficou conhecida como “La Latina” e realizou diversas obras assistenciais em Madrid naquela época. Este apelido passou a denominar o bairro onde foram criadas as principais instituições por ela fundada. O centro assistencial denominava-se Hospital de la Concepción de Nuestra Señora, mas sempre foi conhecido como Hospital de La Latina.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA portada foi edificada no estilo gótico-mudéjar pelo mestre Hazan, e consta de um arco gótico com três esculturas em sua parte superior e o escudo dos fundadores. O hospital esteve em funcionamento até 1899, e foi demolido em 1904 por reformas urbanas na Calle de Toledo, onde se localizava. Abaixo, vemos uma foto antiga do hospital e da portada em sua localização original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA portada se encontra na Cidade Universitária desde os anos 60 e a estrutura de tijolo que a sustenta foi projetada pelo arquiteto Fernando Chueca Goitia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos aspectos mais importantes do projeto construtivo da Cidade Universitária foi que os edifícios deveriam situar-se dentro de um entorno natural com amplos espaços abertos dotados de vegetaçao. Esta idéia de um campus-parque se inspirou nos modelos das universidades americanas, adaptados às características espanholas. Abaixo, vemos o Real Jardim Botânico de Alfonso XIII, monarca que viabilizou o projeto da Cidade Universitária, formando parte do projeto original realizado em 1927 por encargo do rei.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPor uma série de razões históricas, que abordaremos na próxima matéria, o jardim botânico somente foi inaugurado em 2001 como um espaço propício para a investigação e divulgação de mais de 800 espécies botânicas. Atualmente também se realizam concertos nos limites do jardim.

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Universidade de Alcalá de Henares – Última Parte

Encerramos a matéria sobre a Universidade de Alcalá de Henares com este texto, que alternaremos com algumas fotos da cidade. Com menos de 8 anos de idade, os alunos ingressavam nos Colégios Menores onde aprendiam gramática, latim e grego num curso com duração de 3 anos. Depois, aprendiam Lógica, Dialética e Física ao longo de 3 anos mais. Ao final deste curso, recebiam o título de Bacharelato, que habilitava o aluno para o Colégio Maior de San Ildefonso, onde deveria optar entre as carreiras de Teologia, Medicina, Direito Canônico e Arte num regime de internato que durava 8 anos. Outra característica diferenciadora deste programa de ensino é que estava aberto às classes menos favorecidas da sociedade, algo inovador no panorama cultural daquela época. Abaixo, vemos um retrato do Cardeal Cisneros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Universidade Cisneriana ou Complutense de Alcalá de Henares tornou-se uma referência como instituição de ensino a partir de sua fundação no início do século XVI, englobando o século XVII e parte do XVIII. A partir de então inicia-se seu processo de decadência, e a universidade entra no século XIX marcada pela deterioração do ensino e a corrupção administrativa. Ao mesmo tempo, em 1821 se cria a Universidade Central de Madrid, que com o tempo se transformaria na Universidade Complutense de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1836, uma ordem real suprimia a Universidade de Alcalá de Henares, e suas cátedras foram levadas a Madrid. Junto com outros centros de ensino como o Real Estudios de San Isidro e o Real Museu de Ciências Naturais, se fundou uma nova instituição que reuniria todos estes cursos num só local, a Universidade Complutense de Madrid, que com o tempo se tornaria a universidade pública mais antiga da capital. Depois de 1836, os edifícios que faziam parte da desaparecida Universidade Cisneriana  foram vendidos e passaram a pertencer a proprietários particulares. Este período foi nefasto para o patrimônio da antiga universidade. O mais prejudicial proprietário das dependências da universidade foi Don Francisco Javier de Quinto Cortés, que expoliou (levou para outros lugares)  a maior parte de sua riqueza artística. A seguir, vemos uma excepcional maquete do centro histórico de Alcalá de Henares, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1998, que pode ser visto na própria universidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADiante da possibilidade de desaparecimento do patrimônio da cidade, foi criado uma comissão para a conservação e proteção dos antigos edifícios que pertenceram à universidade. Assim surgiu a denominada Sociedade de Condueños, fundada em 1851 pelos próprios habitantes de Alcalá, que compraram os edifícios dos antigos particulares. Atualmente, os herdeiros daqueles que formaram parte da sociedade continuam sendo proprietários de uma parte importante dos antigos edifícios universitários, muitos dos quais foram arrendados à atual Universidade de Alcalá. Um monumento pode ser visto no local onde se criou a comissão, em frente à residência do Bispo de Alcalá de Henares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1960, o Colégio Maior de San Ildefonso e sua igreja foram restaurados e se inaugurou o Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Funcionários, que continua funcionando no interior do colégio maior. Em 1975 se estabeleceram em Alcalá de Henares algumas faculdades dependentes da Universidade Complutense de Madrid, para descongestionar o campus universitário da capital. Dois anos depois um decreto real assinado pelo monarca Juan Carlos I devolvia à Alcalá de Henares sua instituição mais querida, a Universidade de Alcalá de Henares, cuja nova denominação foi reconhecida em 1981. Atualmente, se oferecem os cursos superiores de Medicina, Ciências, Farmácia, Economia, Direito, Filosofia, letras e Artes. Finalizamos a matéria sobre a universidade, mas continuaremos conhecendo a cidade, e muitas outras histórias continuarão sendo contadas, e interessantes lugares mostrados, como o histórico Teatro Cervantes.

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Universidade de Alcalá de Henares: Os Colégios Menores

Com a fundação da Universidade de Alcalá de Henares, o Cardeal Cisneros criou um completo plano educacional para a juventude da época, que compreendia desde o atual ensino primário até o ensino superior. A fundação do Colégio Maior de San Ildefonso foi acompanhada da criação dos denominados Colégios Menores. O próprio cardeal foi o responsável da fundação de 6 deles, um dos quais o Colégio-Convento dos Franciscanos de San Pedro y San Pablo. Trata-se de um edifício anexo ao Colégio Maior, e junto com este foi o único Colégio de Menores que funcionou desde o início das aulas da universidade, em 1508. Atualmente, o edifício é a sede da Gerência da Universidade de Alcalá.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA fundação da universidade transformou completamente a paisagem de Alcalá de Henares, e praticamente surgiu uma nova cidade dentro da outra pré existente. Apareceram novos edifícios que passaram a integrar o conjunto universitário, como os Colégios Menores. Cada um deles tinham sua própria origem e regras e possuíam uma relativa independência, mas todos eles estavam subordinados à universidade, representada pelo Colégio Maior de San Ildefonso. A maioria destes colégios estavam destinados para crianças e jovens pobres. Alguns dos colégios idealizados por Cisneros, mas que ele não pôde fundar em vida, foram finalmente criados após a sua morte, com o intuito de cumprir o desejo pessoal do cardeal. Outros colégios, que não estavam nos planos do Cardeal Cisneros, foram criados por particulares para estudantes pobres, mas que deveriam ter uma procedência concreta estipuladas por seus fundadores. Um exemplo é o denominado Colégio de Málaga, fundado pelo Bispo de Málaga D.Alonso de Moscoso em 1610.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO edifício foi construído por Juan Gómez de Mora e constitui um dos principais exemplos do barroco com características madrilenhas da cidade de Alcalá de Henares. Neste colégio se davam os cursos de Teologia e Direito Canônico. Atualmente, é a sede da Faculdade de Filosofia e Letras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAJá o Real Colégio Menor de San Felipe y Santiago, como o próprio nome indica, foi fundado por um rei, Felipe II, em 1551. No entanto, o edifício que vemos atualmente foi realizado durante o reinado de seu filho, Felipe III, e também projetado por Juan Goméz de Mora, sendo concluído em 1669. Por este motivo, é conhecido como Colégio del Rey. Atualmente, é a sede do Instituto Cervantes, e nele se realizam exposições temporais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADepois da fundação da universidade, quase todas as ordens religiosas existentes na Espanha chegaram à cidade para a criação de colégios-conventos onde seus membros pudessem estudar. Um total de 19 novos edifícios transformaram Alcalá numa das cidades com a maior quantidade de conventos do país. A seguir, vemos o Colégio-Convento dos Carmelitas Calçados

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Colégio Menor de Teólogos ou de la Madre de Dios

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Colégio-Convento de Mínimos de São Francisco de Paula, atualmente Faculdade de Ciências Econômicas e Empresariais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Colégio-Convento dos Trinitários Descalços, fundado em 1601.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO Colégio-Convento dos Clérigos Menores de San José ou dos Carracciolos, uma referência ao nome do fundador da Ordem dos Clérigos Menores, San Francisco Caracciolo. O edifício foi construído no começo do século XVII pelo arquiteto Fray Lorenzo de San Nicolás.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Colégio-Convento de San Basilio Magno, atualmente sede do curso de Belas Artes da Universidade de Alcalá de Henares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo momento em que entrei no edifício, alguns membros de uma associação da cidade chamada Comparsas de Gigantes e Cabezudos de Alcalá estavam ensaiando para os dias festivos de agosto, em que se celebram diversas atividades culturais pela cidade em comemoração ao quarto centenário da morte de Miguel de Cervantes. Foram extremamente simpáticos comigo, me permitiram a entrada, me mostraram os gigantes que saem pelas ruas e até me deixaram tirar uma foto do grupo. Um final de dia perfeito para minha visita a Alcalá de Henares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo a matéria comentando que a cidade chegou a possuir até 50 colégios menores no total, e atualmente a grande maioria pertence à Universidade de Alcalá e funcionam como sedes de faculdades, locais de exposições culturais e centros administrativos.

 

Universidade de Alcalá de Henares – Parte 2

O Colégio Maior de San Ildefonso se organizou em torno a três pátios, e todos eles podem ser vistos na excelente visita guiada que se realiza pelas dependências da Universidade de Alcalá de Henares. O primeiro é o Pátio Maior, edificado entre 1657 e 1652. De estilo herreriano, foi construído inteiramente em granito, estando composto por 3 níveis de arcos, os dois primeiros semicirculares (Arco de meio ponto), e o terceiro denominado Arcos Carpaneles (simétricos e um pouco mais rebaixado, proporcionando-lhe uma forma arredondada). Este espaço foi dedicado a Santo Tomás de Villanueva, em memória ao primeiro aluno da universidade que alcançou a santidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte superior das galerias de arcos, vemos o escudo de armas do Cardeal Cisneros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Pátio dos Filósofos ou dos Contínuos representava uma espécie de distribuidor central dos edifícios universitários, abrigando várias oficinas de serviços e da reitoria, além  de residência para os estudantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm seu perímetro foi construído dois espaços para as cátedras de Filosofia Moral e Natural, daí o seu nome. Restaurado na segunda metade do século XX, nele encontramos a chamada Porta dos Burros, por onde entravam ou saiam os alunos reprovados nos exames da universidade, entre as cruéis piadas de seus companheiros…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADo Pátio dos Filósofos existe um acesso ao último e mais antigo de todos, o denominado Pátio Trilíngue. Construído entre 1557 e 1570 no estilo renascentista, se conserva praticamente igual.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém é conhecido como Pátio do Teatro ou do Paraninfo, graças à antiga porta que permitia a entrada principal ao teatro da universidade, que veremos no próximo post.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANele esteve situado o Colégio Menor de San Jerónimo, fundado por uma disposição testamentária do Cardeal Cisneros em 1528, oferecendo cursos de retórica, grego e hebraico para uma comunidade formada por 30 jovens pobres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADentro do recinto do Colégio Maior de San Ildefonso podemos observar outro símbolo associado ao Cardeal Cisneros, poços com a representação de cisnes, uma referência ao sobrenome do fundador da universidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante os séculos XVI e XVII, a Universidade Cisneriana se transformou num grande centro de excelência acadêmica. O prestígio de seus cursos, além da fama de seus mestres, logo se tornaram um modelo sobre a qual se constituíram as universidades na América Espanhola. Além do mais, representou o principal foco do Humanismo em toda a Espanha. Em suas classes se formaram missionários e santos como São Ignácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (ou dos Jesuítas), San Juan de la Cruz, poeta místico e reformador da Ordem dos Carmelitas, junto com Santa Teresa de Ávila, etc. Entre os grandes nomes da literatura, destacam Lope de Vega, Quevedo, somente para citar alguns. Um dos pilares sobre o qual se desenvolveu foi a invenção da imprensa em 1450, fato que possibilitou a publicação da denominada Bíblia Poliglota Complutense. Financiada pelo próprio Cardeal Cisneros, trata-se da primeira edição poliglota de uma bíblia completa da história.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara sua realização, Cisneros contratou os melhores teólogos da época, que iniciaram os trabalhos em 1502, sendo finalizada 15 anos mais tarde. Contava com as melhores traduções da bíblia em grego, hebraico e latim, incluídas algumas partes em aramaico. Publicada em 6 volumes, os quatro primeiros estão relacionados ao Antigo Testamento. Cada página está dividida em 3 colunas paralelas, com a Bíblia Hebraica no exterior, a Bíblia Grega no interior, e a Vulgata Latina no meio. O quinto volume apresenta as escrituras gregas do Novo Testamento, dispostas em duas colunas, uma em grego e a outra em latim, além de um dicionário destes dois idiomas. Se considera a primeira publicação do Novo Testamento impresso da história. O sexto volume inclui elementos para o estudo da bíblia, como um dicionário dos idiomas hebraico e aramaico, além de uma gramática hebraica. A Bíblia Poliglota Complutense é considerada um dos testemunhos mais relevantes do Humanismo Cristão do Renascimento. Se publicaram cerca de 600 cópias, das quais se conhece atualmente 123.