San Vicente de la Barquera

Depois de passar todo o dia conhecendo Comillas, no dia seguinte peguei o mesmo ônibus para visitar outro povoado de interesse histórico, San Vicente de la Barquera, situado a apenas 3 km de Comillas. A primeira coisa que me impressionou deste pueblo de 4.500 habitantes foi sua espetacular localização e as belas paisagens que o rodeiam.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACerca de 80 % do município pertence ao Parque Natural de Oyambre, de grande valor ecológico. O turismo representa a principal fonte de renda do povoado, graças às praias existentes ao redor e também para curtir sua esbelta natureza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASan Vicente de la Barquera, como as demais localidades que visitei nesta viagem à Cantábria, é uma vila costeira que integra o Caminho do Norte, também denominado Caminho da Costa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Ao longo dos séculos, muitos dos peregrinos que chegavam à vila se instalavam no albergue a eles dedicado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAinda hoje podemos ver os restos de um hospital de peregrinos, construído entre os séculos XV e XVI (Hospital de la Concepción).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara que os peregrinos pudessem cruzar a zona alagada da cidade, se construiu a chamada Ponte de la Maza no século XV, sobre uma anterior feita de madeira. Com cerca de 500m, tornou-se uma das pontes mais largas de sua época. Atualmente, existem poucos  de veículos que a atravessam, pois serve de acesso apenas a algumas praias e pequenas localidades próximas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAntes da construção da ponte, os barcos transportavam os peregrinos, daí a denominação Barquera no nome da cidade. Ao longo de sua histórica, presenciou fatos marcantes, como receber o Imperador Carlos I quando pisou por primeira vez a Espanha. O período auge de San Vicente de la Barquera ocorreu a partir do século XIII, devido à importância de sua atividade pesqueira e o comércio marítimo. Formou parte também da denominada 4 Vilas do Mar, junto com Castro Urdiales, Laredo e Santander.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, veremos o centro histórico da vila, declarado Conjunto Histórico-Artístico.

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Igreja de San Román – Toledo

Toledo é uma cidade com um patrimônio histórico-artístico riquíssimo, e muitos dos locais mais interessantes ainda permanecem desconhecidos pelos turistas. Um exemplo é a bela Igreja de San Román, situada na parte mais alta da cidade. Este templo é um dos mais curiosos da cidade, por conservar sua estrutura mudéjar do século XIII e por apresentar em seu interior um excepcional conjunto de Pinturas Românicas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar da escassez de dados, se pode afirmar que a origem desta igreja se remonta à época visigoda, graças a restos arqueológicos encontrados em seu interior em 1968, ano em que o processo de restauração da igreja finalizou-se. Com a chegada dos árabes no século VIII, o templo foi reutilizado como uma mesquita (foram encontrados no século XVI sepulcros muçulmanos em seu interior).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo paróquia do período cristão aparece documentada por primeira vez em 1125, ainda que sua estrutura atual pertence ao século XIII (1221). A Igreja de San Román apresenta uma clara influência construtiva islâmica, tanto em sua arquitetura exterior, quanto em seu formidável interior.  Na foto acima, vemos uma imagem da torre, um exemplo do Mudéjar Toledano, edificada no final do século XIII e começo do XIV. A visita ao templo permite subir ao alto da mesma…

20160503_113012O interior, belíssimo, está formado por três naves separados por Arcos de Ferradura, típicos da arquitetura islâmica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs arcos se encontram apoiados por colunas e capitéis de época romana e visigoda, que foram reutilizados quando o templo foi usado como mesquita. Até 1926, as paredes e os arcos estavam pintados de branco, quando foram descobertas as pinturas que decoram todo o interior da igreja. Especialistas foram capazes de remover a antiga pintura e mostrar as pinturas românicas originais do templo, realizadas no século XIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO conjunto de pinturas está formado por 3 estilos distintos. Em primeiro lugar, aparecem as pinturas mudéjares, caracterizadas por motivos geométricos, vegetais e epigráficos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo interior dos arcos (em arquitetura denominado intradós), aparecem figuras de santos, profetas e bispos com um olhar frontal, que recordam as pinturas italianas de estilo bizantino.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente aparecem as pinturas de composição narrativa, feitas com maior naturalismo e movimento. Podemos apreciar vários episódios e personagens bíblicos, como a Ressurreição dos Mortos, os Apóstolos Evangelistas, o Pecado Original e o Paraíso, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVI, uma família nobre de Toledo adquiriu o espaço pertencente à capela maior para que se transformasse em sua cripta particular. Para a realização da reforma, foi encarregado um dos melhores arquitetos do Renascimento Espanhol, Alonso de Covarrubias, que foi o responsável pelo intenso plano de revitalização da cidade durante o reinado de Carlos I, quando Toledo passou a ser a capital do Império. Abaixo, vemos uma imagem da capela maior, cujo retábulo foi executado por Diego Velasco, e da cúpula renascentista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja conserva uma Pia Batismal do século XV…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm uma das capelas do templo podem ser vistos vários sepulcros antigos…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma lauda sepulcral de 1400, composta por inscriçoes góticas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1968, a Igreja de San Román passou a acolher o Museu dos Concílios e da Cultura Visigoda. Em 1931, foi declarada de forma merecida Monumento Histórico-Artístico de caráter nacional.

Esculturas do Museu do Prado

Apesar de ser reconhecido internacionalmente como uma Pinacoteca, ou Museu de Pinturas, o Museu do Prado possui cerca de 900 esculturas em seu acervo artístico. Como no caso das pinturas, as esculturas formavam parte das coleções dos Reis da Espanha. Algumas das obras mais importantes estão situadas no claustro do desaparecido Monastério de San Jerónimo, que foi restaurado e colocado dentro do novo edifício projetado por Rafael Moneo durante as obras de ampliação do museu, finalizadas em 2007.

DSC09089O núcleo central da coleção de escultura formou-se na primeira metade do século XVI, durante o reinado de Carlos I. A ele se deve um excepcional conjunto  de obras, os retratos familiares de corpo inteiro que o monarca encarregou aos escultores italianos Leone Leoni (1509/1590) em 1549, e que foram finalizados por seu filho Pompeo Leoni (1530/1608). Consideradas obras primas da Escultura Renascentista, foram realizadas em bronze e Mármore de Carrara, materias perfeitos para exprimir os valores de nobreza e eternidade. Representam o próprio imperador e os membros mais próximos de sua família. Abaixo, vemos o monarca Carlos I (1500/1558), uma escultura realizada em mármore em 1553, na qual o rei aparece vestido com uma armadura e um medalhão que representa a Marte, Deus da Guerra. Carlos I foi o único Rei Espanhol proclamado Imperador, por ter sido Rei da Espanha e também do Sacro Império Germânico.

DSC09085Carlos I casou-se com sua prima Isabel de Portugal (1503/1539) em 1526. Foi a primeira e única esposa do rei, que sentiu por ela um profundo amor. Faleceu em Toledo no ano de 1539, com apenas 36 anos. Para recriar sua imagem, Leone Leoni recorreu a um retrato da imperatriz pintado por Ticiano, que se conserva no Museu do Prado.

DSC09075A seguir vemos um relevo do casal real, encarregado a Leone Leoni em 1549, e terminado em Milão 6 anos depois. Feitos de mármore e decorados com motivos da Mitologia Clássica.

DSC09077 Maria de Hungria (1505/1558), irma de Carlos I, casou-se em 1521 com Luis II, Rei da Hungria, que veio a falecer 5 anos depois. Entre 1531 e 1556 foi a regente dos Países Baixos. Na escultura, aparece vestida como viúva. Encarregada a Leone Leoni em 1548, foi realizada em bronze.

DSC09080Um dos filhos que Carlos I teve com Isabel de Portugal, Felipe II (1527/1598) foi o responsável por trazer de forma permanente a capital do Império Espanhol para Madrid, em 1561. Entre 1554 e 1558 foi também Rei da Inglaterra, graças ao seu casamento com Maria Tudor. Abaixo vemos sua escultura, realizada em bronze e fundida em 1551.

DSC09073Felipe II também aparece num busto feito de alabastro e atribuído a Pompeo leoni (1560).

DSC09083Os dois escultores, pai e filho, foram também os responsáveis de outras obras primas do Renascimento Espanhol, os mausoléus do Imperador Carlos I e Felipe II, que podemos ver no Monastério de El Escorial. Finalizo a matéria comentando que o claustro é o único local do Museu do Prado onde as fotos estão permitidas…

 

Universidade de Alcalá de Henares

A matéria de hoje, que será extensiva aos próximos posts, está dedicada a uma das instituições educacionais mais importantes da história espanhola, monumento renascentista e responsável em boa parte pela declaração de Alcalá de Henares como cidade Patrimônio da Humanidade. Situada no centro histórico da cidade, a Universidade de Alcalá de Henares foi um dos primeiros monumentos históricos que conheci desde que cheguei à Espanha, e revê-la e aprofundar-me em sua história constitui uma grande satisfação para mim.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua história se inicia no século XIII, quando o rei Sancho IV de Castilla assinou em 1293 um real decreto permitindo que o Arcebispo de Toledo fundasse os chamados Estudios Generales em Alcalá de Henares, como na época eram conhecidos os cursos de nível superior ou universitários. No entanto, o estabelecimento de uma universidade ocorreu somente a partir de 1495, com a consagração do frade franciscano Francisco Jiménez de Cisneros (conhecido na história da Espanha como Cardeal Cisneros), como Arcebispo de Toledo. Confessor da rainha Isabel la Católica, Cisneros solicitou ao Papa Alejandro VI uma licença para a construção de uma universidade. A bula papal autorizando a fundação chegou em 1499, quando provavelmente as obras de cimentação já haviam iniciado. Abaixo, vemos uma cópia do documento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Cardeal Cisneros  entrou em contato com o mundo universitário em Salamanca, uma das mais antigas e prestigiosas universidades do país, durante seus anos de juventude, quando cursou Direito Civil Eclesiástico e Teologia. Participou também na fundação de uma universidade em Siguenza, num momento em que havia grande entusiasmo no país por este tipo de iniciativas. A fundação da Universidade de Alcalá, também conhecida como Universidade Cisneriana ou Complutense, coincidiu com um período de estabilidade durante o reinado dos Reis Católicos, uma nova atmosfera cultural procedente do renascimento italiano e a necessidade de se criar um novo corpo de funcionários e religiosos capazes de administrar os cada vez maiores domínios do estado e da igreja. A criação da instituição foi concebida como um poderoso instrumento para a reforma cultural e espiritual do clero e do povo castelhano, e se inspirou nos modelos universitários de Salamanca e Paris. Da primeira, recebeu a organização e administração, e da segunda, seus métodos de ensino. Abaixo, vemos a estátua do Cardeal Cisneros, situado em frente ao Colégio Maior de San Ildefonso, o principal edifício da Universidade de Alcalá de Henares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Universidade foi composta pelo Colégio Maior de San Ildefonso e os denominados Colégios Menores. Para a construção do primeiro, Cisneros utilizou partes do antigo Convento de Santa María de Jesús, localizado na parte lateral da Praça de San Diego, atualmente ocupado pelo edifício abaixo, um antigo quartel.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa realidade, a praça não existia na época da construção do Colégio Maior, estando originalmente ocupada pela chamada Calle de los Colégios, formada por casas pertencentes à universidade. No final do século XVI, devido à canonização de San Diego, as casas foram derrubadas, originando a praça que vemos atualmente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA excepcional fachada renascentista do Colégio Maior de San Ildefonso foi realizada entre 1537 e 1553 pelo arquiteto Rodrigo Gil de Hontañón, que projetou uma fachada em forma de retábulo, algo frequente no século XVI. O espaço se divide horizontalmente em três partes e verticalmente em cinco, separados entre si por colunas e pilastras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA ornamentação escultórica da fachada obedece a um profundo simbolismo teológico e universitário, combinando elementos mitológicos e cristãos. A bula papal de 1499 especificava que a instituição deveria potencializar a luta da luz contra as trevas utilizando o estudo e a ciência como caminho para a felicidade e a salvação. Um grosso cordão franciscano rodeia boa parte da fachada, manifestando a relação existente entre a Ordem Religiosa e a universidade, bem como entre o fundador e sua principal obra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANas fotos acima, vemos o primeiro corpo, onde se situa a entrada ao Colégio Maior de San Ildefonso. O segundo está presidido pelo Balcão da Biblioteca e sobre ele aparece a representação de San Ildefonso, titular do Colégio Maior, franqueado pelos Escudo de Arma do Cardeal Cisneros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs 3 corpos da fachada se unem verticalmente por colunas sustentadas por Atlantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO terceiro corpo está representado pelo escudo do monarca Carlos I, rei da Espanha durante a construção da fachada. Em cima do escudo, um estrutura triangular com a escultura de Deus Pai com a bola do universo. Na parte mais alta da fachada, uma cruz representando a Santíssima Trindade. Nas partes laterais aparece Minerva, deusa da sabedoria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA fundação da universidade foi acompanhada pela redação de sua constituição, promulgada pelo próprio Cardeal Cisneros em 1510, constituindo-se no documento supremo para qualquer assunto concernente à universidade. Abaixo, vemos uma imagem interior do Colégio Maior de San Ildefonso, que veremos com detalhes no próximo post.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante os dias festivos da cidade, grupos musicais se reúnem em frente à fachada do Colégio Maior com suas guitarras e instrumentos musicais, um verdadeiro espetáculo…

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Jerez de los Caballeros – Província de Badajoz

Durante minha estadia em Badajoz, tive a oportunidade de conhecer a encantadora cidade de Jerez de los Caballeros, situada na zona sudoeste da Comunidade de Extremadura e a cerca de 1h de ônibus da capital da província, Badajoz. Com aproximadamente 10 mil habitantes, foi declarada Conjunto Histórico-Artístico em 1966, graças ao seu belo centro histórico, em especial suas construções barrocas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando cheguei à cidade nas primeiras horas da manha, a neblina pairava sobre ela, ocultando parcialmente seus monumentos, mas que logo se dispersou com o calor do sol.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das mais prósperas cidades da comunidade, Jerez de los Caballeros destaca-se sobretudo na pecuária, sendo reconhecida pela criação do cerdo ibérico (porco) e a produção de seu saboroso jamón. Na primavera, celebra-se o famoso “Salão do Jamón Ibérico”, uma feira que reúne especialistas de todo o país do laureado “pata negra“, uma das maravilhas da cozinha espanhola. Evidentemente que esta delícia gastronômica fez parte de meu cardápio, acompanhado por azeitonas e uma taça de vinho espanhol. Sem palavras…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA geografia da cidade é um tanto sinuosa, ao estar localizada dentro dos limites da denominada Comarca de las Sierras del Sur, conferindo-lhe seu peculiar atrativo de um povoado repleto de casas brancas e ruas empinadas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAJerez é uma cidade rica em história e monumentos, e em sua paisagem urbana ressaltam as belas torres de suas igrejas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPovoada desde a antiguidade, durante a dominação romana chamava-se Fama Iulia, e alguns restos deste período comprovam sua importância, como uma vila denominada El Pomar, que não tive o privilégio de conhecer. A cidade ampliou-se durante o período visigodo, momento em que surge um enclave medieval em torno a uma pequena igreja dedicada a Santa Maria, no século VI. Na época muçulmana passou a denominar-se Xeris, e se conservam restos materiais, como a Alcazaba, que em breve veremos no blog.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cidade foi reconquistada no primeiro quarto do século XIII pelo rei Alfonso IX de León, e a partir deste momento as Ordens Militares se estabeleceram sobre a região. Inicialmente, a cidade foi entregue à Ordem dos Templários, que tomaram posse do território em nome do rei.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa primeira metade do século XIV, a Ordem dos Templários foi dissolvida. Em 1379, a vila então conhecida como “Xerez próxima a Badajoz” passa a formar parte dos domínios da Ordem de Santiago durante o reinado de Enrique II, e se desenvolve rapidamente. No século XVI, Carlos I lhe concede o título de “Muy Noble y Leal Ciudad”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do século XVIII, converteu-se no núcleo mais populoso de toda a Extremadura, depois de Badajoz. Atualmente, Jerez de los Caballeros recebe muitos visitantes, graças a sua beleza e importância de seus monumentos. A partir do próximo post, veremos os principais deles.

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Baluartes de Badajoz – Parte 2

Na matéria de hoje veremos alguns dos principais elementos que conformam a Muralha Abaluartada de Badajoz, uma impressionante fortificação que foi construída a partir de 1680 para resistir aos ataques de artilharia, como vimos no post anterior. A tarefa de sua construção coube ao capitão geral de Extremadura, o Conde de Montijo, que ordenou a derrubada da antiga muralha medieval. A entrada da cidade estava defendida por um pequeno forte denominado Cabeça del Puente, ligado à Ponte de Palmas. De planta trapezoidal, estava composto por fossos e locais de abastecimento de água.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Ponte de Palmas já existia antes de ser fortificada, pois foi construída durante o reinado de Carlos I, no século XV. Com 582m de comprimento, foi reformada várias vezes, pois foi destruída em muitas ocasiões devido às enchentes provocadas pelo Rio Guadiana. Na década de 90 do século XX, obras de reurbanização em suas margens criaram novos espaços de ócio para os cidadãos da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Ponte de Palmas recebeu este nome graças à Porta de Palmas, situada no lado contrário do recinto fortificado. Também do século XV, está formada por duas torres circulares e no século XIX transformou-se em prisão. Na fachada interior da porta, foi colocada uma imagem da Virgen de los Ángeles.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERATanto os baluartes, quanto os semi-baluartes que compõem a fortificação, receberam nomes religiosos. A Muralha Abaluartada nasce junto à Alcazaba, no chamado Semi-Baluarte de San Antônio. Abaixo, vemos a Porta de Mérida, que permite o acesso a esta zona do recinto fortificado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERALogo depois do início de sua construção no final do século XVII, a cidade sofreu um assédio das tropas inglesas e portuguesas durante a Guerra da Sucessão Espanhola. Em 1705, as tropas de ambos países, partidários do Arquiduque Carlos I de Áustria, atacaram a cidade, que foi defendida pelas tropas espanholas e francesas, leais ao pretendente francês Felipe de Anjou, que ao final da guerra, seria proclamado rei com o nome de Felipe V. Durante a Guerra da Independência travada contra o exército de Napoleão, a Espanha recebeu a ajuda dos ingleses, enquanto a França recebeu o auxílio do exército português.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABadajoz foi assediada em três ocasiões. No primeiro assédio, foi conquistada pelos franceses e no último, em 1812, as tropas inglesas e espanholas retomam a cidade. No Baluarte de Santiago, o General Menacho, comandante do exército espanhol, foi morto defendendo a cidade. Um monumento foi erguido para celebrar sua memória.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo Baluarte de San Roque vemos a Porta do Pilar, cuja construção finalizou em 1692.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAcima, vemos a fachada interna da Porta do Pilar. Sua fachada externa foi decorada com os escudos da Casa dos Áustria e do Conde de Montijo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo interior do Baluarte de San Roque encontramos o Palácio de Congressos, que foi construído sobre a antiga Praça de Touros da cidade. Atualmente, é utilizado como local de atividades culturais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABadajoz também sofreu graves consequências durante a Guerra Civil Espanhola, quando foi ocupada em 1936 e padeceu uma brutal repressão por parte do exército nacionalista. Na antiga Praça de Touros, mais de 4 mil integrantes da causa republicana foram fuzilados. O Baluarte da Trindade teve um grande protagonismo durante o conflito. Abaixo, vemos a Porta de Trindade, edificada em 1680.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo vocês puderam observar, Badajoz participou de forma ativa nas principais disputas da história da Espanha, e seu caráter militar e de fronteira a transformou numa Praça Forte a ser defendida a todo custo, com consequências diretas em sua paisagem urbana.

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Museu Arqueológico de Badajoz

Depois da reconquista de Badajoz em 1230, o recinto da Alcazaba passou a ser conhecido como “El Castillo“. Nele se estabeleceram as Ordens Militares de Santiago e Calatrava, passando a ser o local de residência das famílias mais importantes da cidade, mantendo seu papel como centro de poder. No séc. XIV, os assaltos sofridos motivados pelas guerras com Portugal fizeram com que estas famílias construíssem verdadeiros palácios -fortalezas, caso do denominado Palácio dos Duques de Feria, construído no século XV pelo regidor (cargo semelhante ao de um prefeito) da cidade, Lorenzo Suárez de Figueroa. De planta quadrada, está franqueado por 4 torres, apresentando linhas renascentistas com toques mudéjares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVII, o palácio transformou-se em um local para o armazenamento de artilharia e, no seguinte, como quartel de infantaria. Uma de suas partes de maior interesse é o claustro interior, de estilo mudéjar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, este palácio de origem nobre foi convertido na sede do Museu Arqueológico de Badajoz. Conhecer a  coleção de suas peças nos permite realizar uma verdadeira trajetória pelo passado da cidade e da Província de Badajoz, pois possui abundantes achados arqueológicos pertencentes às mais diversas etapas históricas. Da pré-história destacam os restos de cerâmica encontrados, além de adornos pessoais e utensílios.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir dos séculos IX a VIII aC, na época final da chamada Idade de Bronze, os povos autóctonos começaram a realizar estelas com a representação de guerreiros. As razões para tanto ainda não foram devidamente explicadas, mas foram interpretadas como sinalizadoras de tumbas ou para delimitar o território. Na região de Badajoz se encontraram uma  grande quantidade delas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO período romano está muito bem representado no museu, com algumas peças realmente interessantes, como esta estátua do lar, uma divindade de culto doméstico, do século I dC e procedente de Mérida.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo mesmo período vemos uma estátua representativa do Imperador Tibério

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm se tratando da época romana, não poderia faltar os mosaicos, como o que vemos a seguir, cujas cenas narram o Mito de Orfeu (séc. IV dC). Uma pena que se encontra incompleto…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das salas de maior riqueza arqueológica pertence à época visigoda, tanto pela quantidade de peças, como pela raridade de algumas delas e seu excelente grau de conservação. Abaixo, vemos um tesouro encontrado na Sierra de la Martela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADeterminadas peças possibilitam uma melhor compreensão da arquitetura visigoda, que evoluiu através da tradição clássica, mas que se transformou notavelmente graças ao cristianismo e a reorganização política e social da época. A maior parte dos restos encontrados pertencem a locais de culto, como este fragmento de pedra, provavelmente procedente de uma igreja (séculos VI/VII dC). A tradução da inscrição que se vê esculpida na pedra seria: “Por aqui se entra ao altar sagrado de São Cristóvão. Paz perpétua para aqueles que entram e saem”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAVerdadeiramente impressionante é o conjunto de pilastras visigodas, decoradas com um grande simbolismo religioso. A cruz, por exemplo, passou a ser representada como símbolo cristão somente no século V, pois no mundo antigo estava relacionada como um signo de infâmia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs espigas de trigo e as uvas se relacionam à Eucaristia. Indicam fertilidade, prosperidade e abundância, e também representam a igreja e seus fiéis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma foto da sala em que se exibem as pilastras visigodas

OLYMPUS DIGITAL CAMERADa época árabe destaca a lauda sepulcral de Sapur, o primeiro rei da Taifa de Badajoz, falecido no ano de 1022.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, do período medieval cristão, vemos o escudo de Juana I, apelidada La Loca, e de seu marido, o rei Felipe I, chamado El Hermoso. Realizado em 1506, de procedência desconhecida.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos a matéria com um Escudo de Badajoz do século XVII. Nele observamos a Coluna de Hércules com o lema Plus Ultra (além da), um símbolo heráldico do monarca Carlos I, que foi incorporado ao escudo da cidade no início do século XVI. O leão simboliza o reino que reconquistou a cidade (Castilla y León) e seu uso como figura simbólica se deve a que Badajoz, depois da reconquista, se tornou uma vila de realengo, dependendo diretamente do rei.

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