Castells – Parte 2

Neste segundo post sobre os Castells, ou torres humanas, veremos algumas curiosidades sobre este verdadeiro símbolo cultural da Catalunha. Em Tarragona é tão popular que existe um belíssimo monumento em sua homenagem, esculpido em bronze por Francesc Anglès e inaugurado em 29/5/1999. Sua localização, a Rambla Nova, uma das avenidas mais conhecidas da cidade, foi escolhida pelos próprios habitantes locais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO monumento possui 11 metros de altura e pesa 12 toneladas, e está formado por um total de 219 figuras. O curioso é que o escultor representou a vários personagens do mundo cultural e artístico espanhol, como Picasso, Miró, Paul Casals, e a si mesmo. Observando a escultura, vemos que se representam todos os elementos indispensáveis para sua construção. Antes de se começar a torre humana, uma banda de música começa a tocar peças musicais denominadas Toc de Castells, que somente finalizará ao término da torre, quando todos seus membros encontram-se novamente no solo. Um dos membros mais importantes durante a realização de um Castell é o chamado Cap de Colla, que dá orientaçoes precisas sobre a construção.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm Castell está composto por várias partes, começando pela Pinya, a base da torre, que concentra  a grande maioria dos participantes. Pode chegar a ter centenas de pessoas, incluindo não somente os membros da Colla Castellera, como também amigos, familiares e pessoas apaixonadas, que se unem espontaneamente e auxiliam em sua formação de suporte para o Castell. Está considerado o elemento mais complexo de toda a estrutura, principalmente no núcleo.

DSC02082A parte central de um Castell denomina-se Tronc, formado por vários pisos com a mesma quantidade de membros em cada um. Sua complexidade depende da altura e estrutura (quantidade de pessoas por piso).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA parte superior de um Castell, chamada Pom de Dalt, completa o tronco e possui a mesma composição em quanto a número de participantes. Normalmente inclui os 3 últimos andares da estrutura, nas quais as crianças sobem até chegar ao último nível.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs Castells possuem um vocabulário próprio no idioma catalão, que designam cada Castell em função de sua estrutura quanto ao número de membros em cada andar ou piso e o número de andares. Sua estrutura geral é cada vez mais complexa na medida em que ganha altura. Recebem uma denominação através de dois números. O primeiro descreve a quantidade de pessoas em cada piso, e o segundo número o total de pisos. Por exemplo, um “tres de vuit” ou três de oito. significa que o Castell está composto por 3 membros num total de oito andares. Alguns Castells recebem uma denominação própria, como o 5×8, chamado de “Catedral“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe acordo com o número de membros em cada andar os Castells recebem nomes específicos, como por exemplo: 1) Pilar: somente 1 pessoa por andar, que pode chegar ter até 8 pisos. 2) Dos de: formado por duas pessoas, pode alcançar 9 pisos, façanha realizada em 1993. 3) Trés de: três pessoas em cada andar, e pode chegar a 10 pisos, a altura máxima alcançada por um Castell nos registros históricos. Para muitos,  a torre humana de estética mais perfeita. 4) Quatre de: 4 pessoas por andar, de grande exigência física e técnica. Em 2015 se realizou um Castell de 4×10, algo que jamais havia sido possível até então. Para uma mesma altura, se valoriza mais um Castell com maior quantidade de pessoas por andar (um 5×8 vale mais que um 3×8). Existem Castells formado por 4 membros por andar com um pilar de vários andares no meio da estrutura principal, considerado um dos mais espetaculares por sua grande complexidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando uma construção torna-se muito alta e com poucos participantes em cada piso, se necessita um apoio adicional  para suportar a estrutura e fornecer a devida estabilidade. Por exemplo, o denominado Foire consiste numa base construída no segundo andar sobre a Pinya, a base principal situada no solo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm Castell pode ser realizado total ou parcialmente, recebendo as seguintes expressões: Se diz que um Castell foi Descarregado quando atingiu o topo e foi desmontado com êxito. Carregado quando atingiu o topo mas desabou na desmontagem. Um Intent quando desabou antes de atingir o topo e um Intent Desmuntat quando a Colla (associaçao que está construindo a torre) decide desmontá-la antes de atingir o topo. Normalmente isso ocorre quando a construção está instável e corre o perigo de cair.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a história, foram documentados 3 acidentes mortais durante a realização de um Castell. O último deles ocorreu em 2006, quando se tornou obrigatório o uso de capacetes entre as crianças que sobem na parte mais alta da torre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASegundo dados obtidos na Internet, em 2005 a porcentagem de Castells que não cairam foi de 96.3 %. A capacidade de absorção da energia produzida por uma queda na base da torre (Pinya) é de aproximadamente 40 a 60%.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Atualmente, as Collas de Castellers (agremiações que realizam os Castells) estão organizadas como qualquer associação ou clube, com sede própria ou local de reunião e treinamento. Uma das mais conhecidas da cidade chama-se Xiquets de Tarragona, e algumas de suas participantes, de forma amistosa e simpática, me permitiram tirar uma foto…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta Colla Castellera existe desde 1970, e originou-se com a fusão de duas outras entidades…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra parte integrante de um Castell é a banda de música, que começa a tocar quando inicia-se a construção da torre. Em caso de queda, a música para no ato…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesde 1980 se realizam a cada 2 anos um Concurso de Castells na antiga Praça de Touros de Tarragona, chamada Tarraco Arena. É o único momento que os Castells adquirem um caráter competitivo. A antiga Praça de Touros foi reformada para abrigar estes eventos, com a instalaçao de um teto móvel para proteger os Castells em caso de chuva, pois nestas condições não são construídos, devido ao maior perigo de queda. Apesar de ser considerado o evento máximo dos Castellers, muitas associações se recusam a participam do concurso, por considerar que descaracterizam seu espírito comunitário. Em youtube existem muitos vídeos sobre estes impressionantes concursos. Selecionei um deles para que vocês tenham uma idéia…

Finalizo a matéria sobre os Castells, manifestação declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, e também sobre a cidade de Tarragona, depois de várias publicações. Gostaria de comentar que a maioria das fotos do post são de minha autoria, com exceção das fotos 7 e 11 (de cima para baixo), tiradas do livro “Castells – Torres Humanas”, escrito por Josep Almirall.

 

Castells – Torres Humanas da Catalunha

Dentro das festividades religiosas ocorridas durante minha estadia em Tarragona, tive a oportunidade e o privilégio de presenciar uma das manifestações culturais mais impressionantes da Catalunha, os denominados Castells, ou torres humanas de vários andares de altura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo idioma catalão, Castells significa “Castelos“, e pessoas de idades variadas de ambos sexos e constituição física participam em sua realização, gerando paixões e interesse equiparáveis aos esportes tradicionais. Constituem uma parte integrante da identidade da Catalunha, que se transmite de geração em geração, proporcionando aos seus membros um sentido de continuidade, coesão social e sentido de solidariedade. Além do mais, em 2010 foi declarado pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Normalmente, os Castells se formam nas praças principais, como na praça da sede da prefeitura (Ayuntamiento) ou diante da Catedral, como sucedeu em Tarragona ( que nao aparece nas fotos por minha posição lateral em relação à praça onde se situa). Antes de começar o espetáculo, uma multidão se aglutinou para ver e aplaudir os Castells.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANormalmente, centenas de pessoas participam em sua formação, e denomina-se Castellers as pessoas que integram as Colles Castellers, uma associação que organiza os Castells. Seus membros treinam durante todo o ano para que as apresentações nas várias cidades da comunidade sejam coroadas com êxito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInicialmente os membros de um Castell se comprimem no solo formando um círculo, que serve de base para que a estrutura possa ganhar altura, chamada Pinya. Quando alcança uma altura determinada, crianças de entre 7 e 8 anos sobem pelas costas dos demais até chegarem na parte mais alta, levantando a mão e realizando uma Aleta, sinal que o Castell foi concluído. O público aplaude forma entusiasta…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm seguida, as crianças devem baixar, realizando o caminho inverso. Quando todos seus membros encontram-se novamente no solo, o público aplaude uma vez mais, sinal que o Castell foi definitivamente completado e não caiu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExiste uma máxima popular que diz que “Os Castells são feitos pelas crianças“, os verdadeiros heróis em sua realização, exigindo agilidade e valentia. Atualmente, participam homens e mulheres, mas até a década de 80 do século passado, os Castells constituíam uma atividade exclusivamente masculina. Para algumas posições, as mulheres oferecem vantagens físicas em relação aos homens (com uma mesma envergadura, geralmente o peso da mulher é inferior, sendo ideais para ocuparem as partes mais elevadas da estrutura).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERARealizados há cerca de 200 anos, existem referências de Castells já no século XVIII na cidade de Valls, considerada o berço dos Castells. Estreitamente relacionados com as festas populares, progressivamente estendeu-se por toda a Catalunha. A explicação mais aceita sobre sua origem diz que na segunda metade do século XVIII realizavam-se pequenas construções humanas que faziam parte de uma dança chamada “Baile dos Valencianos“, que eram realizadas em torno às procissões religiosas, criando uma certa rivalidade entre os grupos que as praticavam. Com o tempo, estas construções em forma de torre ganharam uma grande importância, tornando-se independentes do baile propriamente dito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO primeiro Castell documentado data de 1770 e em 1790 já se utilizava a palavra para diferenciar do baile. O principal lema dos Castellers, “Força, Equilíbrio, Valor e Cordura (Sensatez)”, está relacionado às virtudes que seus membros devem possuir. Além delas, são fundamentais outras qualidades sociais como o trabalho e treinamento constantes, o esforço geral, a confiança no grupo, etc. Ainda que se recomende um bom preparo físico para participar num Castell, atualmente se valoriza mais a técnica que a força bruta.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO vestuário de um Casteller está composto por uma calça branca e uma camisa com a cor de sua agremiação. Um lenço tradicionalmente vermelho e uma faixa de algodão que se enrola ao redor da cintura (pode chegar a ter 5 metros), com a finalidade de dar consistência à escalada e proteger a zona lombar, completam a roupa tradicional. Muitos utilizam um lenço ao redor da cabeça para evitar que o suor atrapalhe a vista. Todos os membros sobem descalços.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA temporada de Castells inicia-se durante as festividades em honra a São Jorge (Sant Jordi, em catalão), Santo Padroeiro da Catalunha, no dia 23 de abril, e finaliza em novembro. Existe uma associação representativa, a CCCC (Coordinadora de Colles Castellers de Catalunha) que divulga as atuações em toda a comunidade (http://www.cccc.cat). Outra página interessante é a http://www.webcasteller.com

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, publicarei a segunda matéria sobre estas incríveis torre humanas, comentando sobre os diferentes tipos de Castells, curiosidades históricas, o impressionante concurso que se realiza a cada dois anos, etc.

Tarragona – Comunidade de Catalunha

Situada ao sul da Comunidade de Catalunha e capital da província homônima, Tarragona é um centro turístico importante, por estar banhada pelo Mar Mediterâneo, que lhe proporciona praias de águas cálidas, e por sua larga história de mais de dois milênios, oferecendo ao visitante um vasto repertório de monumentos históricos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua origem se deve aos romanos, que fundaram a antiga Tarraco como um acampamento militar durante a guerra que o império travou contra Cartago. Com o tempo, transformou-se na capital da Hispania Citerior Tarraconensis,a maior província romana da península ibérica, sendo considerada seu assentamento romano mais antigo. Antes de sua ocupação e incorporação romana, porém, esteve povoada pelos povos Ibéricos, que estabeleceram contatos comerciais com gregos e fenícios localizados na costa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO conjunto arqueológico romano conservado na cidade recebeu o título de Patrimônio da Humanidade, outorgado pela Unesco, no ano 2000. Seu período de maior esplendor ocorreu entre os séculos I e II dC, sendo que a maioria dos monumentos que vemos em Tarragona pertencem a esta época.

A muralha que rodeia parte de seu centro histórico é a parte mais antiga do recinto arqueológico. Construída no séc. II aC, se conserva 1km do seu perímetro original, que possuía aproximadamente 4 km.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO Foro Romano era um conjunto monumental imenso, composto por duas grandes praças nas quais estavam edificadas as principais construções administrativas, religiosas e culturais. Erguido no ano 73 dC, durante o reinado do imperador Vespasiano, seu uso foi mantido até o séc. V dC. A denominada Torre do Pretório marcava a entrada ao foro, unindo a parte baixa da cidade e o circo (através de galerias subterâneas) com suas praças. Na Idade Média, a torre tornou-se propriedade da Coroa Aragonesa, passando a ser residência real.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, alberga o Museu Arqueológico, com várias peças de grande valor histórico.

No museu, existe uma maquete que mostra a paisagem urbana da antiga Tarraco.

Do alto da torre, se contempla uma bela vista de Tarragona.

O Circo, situado nas proximidades do foro, foi construído no séc. I dC,e nele se celebravam as populares corridas de cavalos, e também cumpriu esta função até a desintegração do império no séc. V. Durante as épocas seguintes, a arena foi utilizada como espaço para novas construções residenciais, de modo que o circo permaneceu incrustado em pleno centro urbano, que dessa forma facilitou curiosamente sua conservação.

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Abaixo, vemos a galeria que comunicava o foro com o circo.

O Anfiteatro chama a atenção por sua localização, próximo ao mar. Esta construção do séc. II dC foi utilizada na centúria seguinte como local de execução de cristãos, durante a perseguição a que foram submetidos. Tal foi o caso do bispo da cidade Fructuoso e seus diáconos Augúrio e Eulogio, que se tranformaram nos primeiros mártires da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA No anfiteatro disputavam-se todos os tipos de espetáculos sangretos, como lutas de gladiadores e contra animais. Tinha capacidade para 15 mil pessoas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo séc. V, como conseqüência da política religiosa dos imperadores cristãos, foi perdendo sua função original e um século depois se aproveitaram suas pedras para a construção de uma basílica, na qual pudessem ser venerados os santos citados acima, já na época visigoda.

Ao redor do templo foram construídos também um cemitério com tumbas escavadas na arena e mausoléus funerários, adossados à igreja. A invasão muçulmana fez com que o local fosse abandonado, até que no séc. XII se ergueu, sobre os restos da antiga basílica, um novo templo românico dedicado a Santa Maria do Milagre. Esta igreja permaneceu de pé até 1915.

Outro dos monumentos romanos conservados é o Foro Colonial, espaço reservado aos assuntos comerciais e administrativos.

O Portal de San Antonio está situado nas muralhas, porém sua origem nao é romana. Foi levantada em 1737 (época barroca) e em sua parte superior vemos o escudo do rei Felipe V.

A Catedral de Tarragona é seu principal monumento religioso. Construída a partir de 1171, foi concluída em 1331, e apresenta um estilo de transição do românico ao gótico.

A portada central, por ex., pertence ao estilo gótico, e nela vemos a Virgem Maria no parteluz e a profetas e apóstolos esculpidos nas laterais.

Para conhecer melhor a catedral, visite o post publicado nos dias 8 e 9/3 de 2013. Outro local de interessante visita é a Casa Castellarnau, um palacete gótico do séc. XV, que sedia um Museu de História.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm suas dependências, podemos admirar móveis dos séc. XVIII e XIX.

O espaço conserva estruturas arquitetônicas de várias épocas, como o pátio e a escada com colunas góticas.

Uma das muitas tradições do povo catalão e representada nas datas festivas é o denominado Castells ou pirâmide humana. Em Tarragona há uma estátua que a homenageia. Existem concursos nos quais os vencedores são aqueles capazes de fazer a pirâmide mais alta e estável.

Finalizamos o post na Praça do Sedassos. Nela, vemos a original decoração do edifício que pertence ao pintor Carles Arola. O mural representa uma típica fachada do séc. XIX, composta por personagens tradicionais e incorpora elementos festivos próprios da cultura popular. Pintado em 1995, o artista utilizou recursos da técnica do claro-escuro e da perspectiva, conseguindo um efeito de realidade das pessoas e objetos. Dessa forma, a obra cria situações que parecem verdadeiras, aos olhos do observador.