Patrimônio Cultural de Lavapiés

O primeiro grupo étnico que teve presença significativa no bairro de Lavapiés foram os ciganos, procedentes de Andalucía. Realizavam trabalhos manuais e se dedicavam a venda de objetos usados. Nas últimas décadas do século passado, a maior transformaçao ocorrida na zona se deu com a chegada massiva de extrangeiros. Os primeiros foram os cubanos na década de 70 e 80. A partir de 1990, vieram os chineses, marroquinos, senegaleses e indianos. Em Lavapiés existem 3 colégios públicos frequentados por 90 % de filhos de imigrantes. Quando perguntados de onde sao, muitos respondem: “Sou de Lavapiés…”. Abaixo, vemos a Plaza de Nelson Mandela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo bairro existem vários centros culturais de grande interesse, entre teatros, cines, etc. O Cine Doré, por exemplo, é uma rara construçao modernista na cidade, construída em 1922 pelo arquiteto Críspulo Moro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO cinema foi construído sobre o solar do antigo Hospital de Antón Martín. Antes de sua construçao, havia no local uma barraca na qual se projetavam filmes, no começo do séc. XX. Atualmente, o local é a sede da Filmoteca Espanhola, com uma programaçao de filmes que foge do caráter comercial, asumindo uma postura mais alternativa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das explicaçoes para seu nome é porque está situado ao lado da Pasaje de Doré, um pequeno beco bem ao lado do cinema (podemos ver um pouco da rua na primeira foto do post à direita). O beco homenageia o mais bem sucedido ilustrador francês de livros do séc. XIX, Gustave Doré (1832/1883). Seus gravados realizados para a ediçao francesa da imortal obra de Cervantes, Don Quijote de la Mancha, se transformaram nas imagens mais emblemáticas dos personagens cervantinos, e foram copiados exaustivamente depois em ediçoes posteriores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo lado do Cine Doré encontra-se um dos mercados mais populares da regiao, o Mercado de Antón Martín, recentemente pintado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro emblemático centro cultural é o Teatro Pavón, construído em 1924 por Teodoro Anasagasti. Esta belíssima casa de espetáculos é um símbolo do Estilo Art Decô em Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe arquitetura contemporânea é o Teatro Valle Inclán, realizado em 2005 e dedicado ao grande escritor que viveu uma temporada na Plaza de Lavapiés, onde se localiza o teatro.

DSC09708Outro personagem associado ao bairro é o do Frade Gabriel Téllez, que tornou-se conhecido por seu pseudônimo literário, Tirso de Molina. Um dos grandes escritores do Século de Ouro da Cultura Espanhola, foi seguidor de Lope de Vega e criou obras teatrais bastante populares na época. Residiu durante um período na praça que o homenageia, no Convento de la Merced, fundado em 1563. Com a Desamortizçao de Mendizábal no séc. XIX, o convento foi destruído para a criaçao de uma praça, que passou a ser chamada Plaza del Progreso, presidida por  uma estátua de Mendizábal. Posteriormente, a estátua foi removida e a praça pasou a ser chamada de Tirso de Molina, com um novo monumento ao escritor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo curiosidade no monumento, vemos na parte baixa da estátua o Escudo de Madrid com o Urso e o Madroño à direita e o dragao à esquerda, uma dos poucos escudos de Madrid com a presença do animal que acabou desaparecendo de sua representaçao oficial. Um lugar de visita obrigatória para se comer bem no bairro é a Taberna de Antonio Sánchez, situada na Calle de Mesón de Paredes e certamente uma das mais tradicionais de Madrid, cujos primeiros datos se remontam a 1838.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo Bairro podemos ver dois relógios de sol, um colocado na que é considerada a maior Coralla de Madrid, visto no último post, e otro que foi desenhado na fachada da denominada Casa de las Velas, cuja explicaçao para o nome nao encontrei nenhuma referência. O relógio foi feito por Ángel Aragonés, pintor, escultor e paisagista madrilenho.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA mencionada Casa de las Velas chama a atençao por seus balcoes feitos à moda antiga, de madeira.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo o post com a imagem de uma bela fonte, situada ao lado do Museu Reina Sofia,  (à direita da foto) situado nos limites do bairro.

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Cines Históricos – Madrid

Além da Gran Vía, em muitos outros lugares da cidade existiam locais de projeçoes cinematográficas, pois houve uma época em que qualquer local era idôneo para a instalação de um cinematógrafo. Em alguns casos, antigos armazéns se transformavam em salas de filmes. A partir dos anos 40, os grandes cines instalados em edifícios estavam situados no térreo, possibilitando a utilização do imóvel para o aluguel residencial. Algumas pequenas ruas possuíam vários estabelecimentos, como a Calle Doctor Cortezo, próxima à Porta do Sol. Nela conviveram, a partir do primeiro terço do séc. XX, o Cine Ideal, o Teatro Calderón, o teatro-cine Fígaro e o grande Frontón de Madrid, lamentavelmente desaparecido. Veremos nest post, e no próximo, alguns dos cines históricos da capital espanhola.

O Cine Doré é considerado o mais antigo da cidade, ainda em funcionamento. Recebeu este nome de Gustav Doré, um desenhista que se tornou famoso por ter ilustrado a bíblia. Outra explicação para o nome, é que em muitas ocasiões o local era conhecido como Cine Do-Ré, em referência às notas musicais.

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O primeiro cine com tal nome foi levantado em 1912. Anos depois, foi reforçado o salão existente e dotado de melhores medidas de segurança, além da original fachada de inspiração Art Noveau. Já o interior foi decorado com elementos modernistas. Nos anos 30, era conhecido como o “cine dos melhores programas”, e logo depois foi colocada a palavra sonoro, ao término da frase…

Com a Guerra Civil, o bairro de Lavapiés, onde situa-se o cine, foi duramente castigado, e o cine entrou em decadência. Outros cines próximos, como o Monumental, constituíram, também, uma complicada concorrência para o Doré. Durante uma época, ganhou apelidos depreciativos, e transformou-se num local de segunda categoria.

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Dessa forma, fechou em 1963, depois de meio século de projeções. Em 1978, foi adquirido pela prefeitura, que quis construir uma zona verde no local, projeto que foi abandonado devido à histórica arquitetura do edifício. Um grupo de artistas, jornalistas, políticos e a própria opinião pública exigiram a reabilitação do cine, que finalmente foi transformado na sede da Filmoteca Nacional, tarefa que coube ao Ministério da Cultura. Uma grande reforma foi realizada devido aos 20 anos de abandono do edifício, reabrindo em 1989, com suas alegres pinturas e sua fachada original. Longa vida para o Cine Doré…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInaugurado em 1923, o Cine Monumental era um dos maiores e modernos da capital,e também um dos mais freqüentados. Foi construído por Teodoro Anasagasti que, junto com Luis Gutiérrez Soto, são considerados os arquitetos mais importantes dos cines madrilenhos.

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No início, funcionou apenas como cinema, e depois foi adaptado para representações teatrais. A partir dos anos 80, dedicou-se somente ao teatro, e atualmente se conhece como Teatro Monumental, sendo também a sede da Orquestra e Coro da Rádio e Televisão Espanhola. Abaixo, vemos uma de suas entradas laterais, e uma placa comemorativa, da época auge do estabelecimento.

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Construído como local teatral e cinematográfico, o Fígaro é um representante da denominada arquitetura racionalista, por sua simplicidade e funcionalidade. Inaugurado em 1931 como teatro, a partir do ano seguinte passou a projetar filmes, função que desempenhou até 1969. Em 2009, foi reformado, devolvendo-lhe boa parte de sua fachada original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro representante de edifício racionalista, o antigo Cine Salamanca exemplifica também a triste realidade dos cinemas que deixaram de existir e transformaram-se em lojas de roupas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInaugurado em 1935 e fechado em 1987, menos mal que o exterior se conserva, apesar de que o interior foi adaptado à sua nova função.

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O caso do Cine Madrid revela uma situação igualmente desalentadora. Localizado num edifício construído em 1898, fechou as portas em 2002 e, desde então, permanece esquecido e abandonado. Suas laterais conservam a decoração, reminiscências de glórias passadas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO antigo Cine Bilbao, situado na Calle Fuencarral, também foi golpeado por um trágico destino. Em 1993, sua cobertura externa, em mau estado, não suportou o peso excessivo do cartaz publicitário de um filme, e caiu sobre as pessoas que formavam uma fila para entrar no cine, causando várias vítimas mortais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO cinema foi fechado e no ano seguinte foi objeto de reformas, entre as quais uma sólida cobertura. Em 1995 foi reaberto com o nome de Cine Bristol, mas o estrago causado deixou sua marca, e o cinema foi fechado definitivamente anos depois. Neste caso, não foi suficiente a desesperada situação dos cines históricos urbanos para fechar mais um estabelecimento. A negligência humana se encarregou de realizá-lo, com conseqüências ainda mais graves.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post conheceremos outros cines históricos, e como vimos neste, o abandono e a esperança caminham lado a lado…