Apóstolo Santiago – Parte 2

O Apóstolo Santiago, um dos 12 apóstolos de Jesus e Padroeiro da Espanha, foi chamado de Santiago Maior para diferenciá-lo de outro discípulo de mesmo nome, que passou a ser conhecido como Santiago Menor, por ser mais jovem. A origem do nome Tiago deriva indiretamente do latim Iacobus, por sua vez uma latinização do nome hebraico Yaakov, em português Jacó. Com o decorrer do tempo, o nome evoluiu em diversas denominações segundo os distintos idiomas:  Jakob em alemão, James em inglês, Giacomo em italiano e Jacques em francês. Na Catalunha é conhecido como Jaume ou Jaime.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA partir do século XI, os peregrinos que realizavam o Caminho de Santiago, com destino final em Santiago de Compostela, se converteram num fenômeno de massa a nível europeu. Esta famosa rota de peregrinaçao foi impulsionada por monarcas, como o Rei Alfonso VI, e também pela importante Ordem Beneditina de Cluny (França), que introduziu na Península Ibérica a liturgia romana e fixou o traçado do Caminho de Santiago, que atravessa o norte da Espanha. Este fato foi fundamental para transformar a imagem do apóstolo em Santiago Peregrino, uma de suas principais manifestações no campo iconográfico e artístico. A influência do Caminho de Santiago na configuração das lendas associadas ao apóstolo é enorme. Um de seus principais atributos, que permitem identificá-lo, é a espada com a qual foi martirizado (decapitado) e o livro, símbolo da doutrina evangélica. Como Santiago Peregrino, normalmente aparece com um chapéu de aba larga, bastão de caminhante, e a Concha de Vieira, outro de seus símbolos principais. Acima e abaixo, vemos representaçoes de Santiago como Peregrino, em esculturas pertencentes ao Museu do Caminho de Astorga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAté princípios do século XVI, o Apóstolo Santiago é representado com seus atributos de Peregrino, mas conservando suas características de apóstolo, como o livro, a vestimenta e os pés descalços. Outra faceta fundamental do apóstolo é como defensor da fé católica dentro do processo de Reconquista da Espanha, um santo guerreiro. Segundo a tradição, durante as batalhas entre os muçulmanos e os cristãos ao longo dos séculos em território espanhol, milagrosamente aparecia o Apóstolo Santiago num cavalo branco, com a espada na mão, auxiliando o exército cristão a derrotar o inimigo. Os mouros aparecem aplastados sob as patas do cavalo do apóstolo. Um exemplo é a Batalha de Clavijo, ocorrida na atual região da Rioja, no ano de 844. Abaixo, vemos um quadro que retrata a Batalha de Clavijo, situado na Igreja de Santiago de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesta forma, nasce a representação de Santiago Matamoros, uma das mais habituais relativas ao santo, sendo que é assim representado por primeira vez no ano 1230. Sempre segundo a tradição das lendas a ele associadas, o Apóstolo Santiago também interviu em outra batalha fundamental, a das Navas de Tolosa, ocorrida no século XIII. Abaixo, vemos uma escultura de Santiago Matamoros do século XVIII, presente na Catedral de Santiago de Compostela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA mesma cena aparece na fachada da Igreja de Santiago em Logroño, capital da Rioja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra cena constante é o transporte de seu sepulcro, puxado por bois. Na Capela de Santiago da Catedral de Segóvia, vemos um retábulo com esta representação. Na parte central vemos Santiago Peregrino e, na parte superior, Santiago Matamoros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesde o século IX, os reis cristãos reconheceram o Apóstolo Santiago como Padroeiro da Espanha, e estabeleceram o Voto de Santiago, que consistia numa oferenda obrigatória que as terras reconquistadas deveriam realizar anualmente como bens à Catedral de Santiago de Compostela, graças ao auxílio recebido pelo apóstolo na reconquista. Sua figura teve também um papel inspirador na Conquista da América, onde foi declarado padroeiro de várias cidades latino americanas, como Santiago do Chile, Santiago de Cuba e Caracas, entre muitas outras. Abaixo, vemos a Igreja de Santiago de Medina de Rioseco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1630, durante o reinado de Felipe IV, o Papa Urbano VII declarou o Apóstolo Santiago como o único Padroeiro da Espanha. Abaixo, vemos a estátua equestre do monarca, situada na Plaza del Oriente de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos símbolos mais famosos associados ao Caminho de Santiago e ao apóstolo é a Concha de Vieira, um molusco abundante na Galícia. Sua origem é duvidosa, mas uma lenda conta que o apóstolo salvou um cavalheiro que caiu no mar, sendo coberto por conchas. O que se sabe com certeza é que os peregrinos que chegavam à Santiago de Compostela recebiam, como prova da realização do caminho, um diploma feito de pergaminho que comprovava a façanha, e colocavam no seu sombreiro uma Concha de Vieira. Portar a concha passou a ser considerado um tributo ao apóstolo. Na capital galega e por todo o Caminho de Santiago, é habitual ver a concha,  que vemos representada na arquitetura, junto a Catedral de Santiago de Compostela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Concha de Vieira marca também a rota do caminho, como vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XII, com o intuito de proteger os peregrinos e também para colaborar no processo de Reconquista, foi criada a Ordem Militar de Santiago. Seu símbolo é uma cruz vermelha simulando uma espada, uma referência ao seu caráter guerreiro e ao seu martírio. Às vezes, o Apóstolo é representado como um cavalheiro, com a espada e um estandarte branco, com a Cruz da Ordem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Cruz de Santiago aparece, de forma curiosa, numa das sobremesas tradicionais da Galícia, que podemos provar por todo o país, a Torta de Santiago. Sua origem é remota, provavelmente do século XVI. Feita de amêndoas e ovos, em 1924 uma confeitaria de Santiago de Compostela decidiu enfeitar o dôce com a Cruz de Santiago

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo a matéria sobre o Apóstolo Santiago com outra igreja dedicada ao santo, em Ávila..

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

O Caminho de Santiago em Burgos

A cidade de Burgos adquiriu importância quando se tornou capital do incipiente Reino de Castilla no séc. X, durante o governo de Fernán González. Sua localização em pleno Caminho de Santiago lhe converteu num centro comercial e religioso fundamental na rota de peregrinos. O auge do caminho na Idade Média ocorreu entre os séculos XI e XIV, e os peregrinos traziam novas ideias que se propagavam pelo resto do continente. Muitos deles permaneceram na Espanha, como por exemplo os francos, que impulsionaram as atividades comerciais e artesanais em Burgos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANaquela época, Burgos era a primeira grande cidade que um peregrino alcançava depois de atravessar os Pirineus, por sua população e importância política, além da grande infraestrutura que possuía para receber aqueles que realizavam o Caminho de Santiago. Este potencial urbano incluía tanto os edifícios públicos, quanto assistenciais. Neste período, Burgos já contava com sua Catedral, 15 igrejas paroquiais, e mais de 30 hospitais que haviam sido abertos até o final do séc. XV para receber os peregrinos. Dentre os mais importantes, destacavam o Hospital del Rey e o de San Juan.  O peregrino que chegava à cidade nela entrava pela Porta de San Juan, construída no séc. XIV no estilo mudéjar, mas refeita em 1563. Restaurações posteriores modificaram totalmente seu aspecto original.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a peregrinação, os (as) caminhantes se deparam, por todo o trajeto, e com Burgos não é diferente, com símbolos associados ao Caminho de Santiago, que identificam a rota que deve ser percorrida. Um deles é a denominada Concha de Vieira, também conhecida como Venera. Na realidade, trata-se da concha de um molusco comum que se encontra em muitos locais do continente, inclusive na costa da Galícia. Na Idade Média, o caminho finalizava em Finestere, considerado na época o fim do mundo. Ali, os peregrinos pegavam uma concha como prova indiscutível de que tinham realizado o Caminho de Santiago. Depois acabou tornando-se um símbolo do mesmo e um dos atributos distintivos do Apóstolo Santiago. Atualmente é um dos logotipos associados à rota de peregrinação.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, Burgos oferece muitas opções de hospedagem para os peregrinos, como o Albergue de Santiago e Santa Catalina, que vemos abaixo, com a representação de ambos em sua fachada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAcima, vemos a representação de Santiago Peregrino que decora a fachada do albergue. Em seu trajeto entre a Porta de San Juan e a de San Martín ( cerca de 1350m), pela qual os peregrinos saíam da cidade, algumas visitas eram obrigatórias, já que estavam relacionadas ao próprio caminho, bem como a personagens que colaboraram em seu desenvolvimento. Um dos principais na cidade é San Lesmes, um monge francês que se instalou em Burgos no séc. XI, junto com outros 12 religiosos. Sua ideia principal era criar um complexo assistencial para os peregrinos, o Monastério de San Juan.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASan Lesmes faleceu em 1097, sendo aclamado como santo logo depois de sua morte. Em 1511, foi proclamado Padroeiro de Burgos. O edifício que hoje contemplamos não tem nada a ver com sua construção românica original. A fachada de estilo clássico foi reconstruída no final do séc. XVI ou começo do XVII. Depois da Desamortização de Mendizábal de 1836, o monastério foi abandonado e boa parte dele se converteu em ruínas. Atualmente, se conserva apenas o claustro do séc. XVI e a sala capitular. No entanto, nele são realizadas uma intensa atividade cultural, com conferências, exposições, etc. Outro monumento associado ao santo é a Igreja de San Lesmes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO templo foi construído na fase final do estilo gótico, nos séculos XV e XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior da Igreja de San Lesmes é rico em obras de arte, com destaque para o Retábulo Maior Barroco, executado no séc. XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO teto da igreja foi construído com as típicas Bôvedas de Crucería da Arquitetura Gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa nave central foi colocado o Sepulcro de San Lesmes, realizado pelo Mestre de Covarrubias no final do séc. XV.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro destaque da Igreja de San Lesmes é a Capela dos Salamanca, com um belíssimo retábulo flamenco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA