O Grego de Toledo

Graças aos contatos realizados com espanhóis durante sua estadia em Roma, El Greco viaja a Espanha em 1577, estabelecendo-se em Toledo, capital religiosa do país e uma das maiores cidades européias da época. O pintor adota definitivamente a cidade castelhana, nela permanecendo até o final de sua vida, onde desenvolve de maneira genial seu estilo, pintando seus quadros mais famosos. Com 36 anos de idade, El Greco já possuía fama, e os encargos religiosos nao demoraram em aparecer. Abaixo, vemos o Retábulo Maior  realizado para o Convento de Santo Domingo de Toledo, o primeiro que concebeu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERARealizado entre 1577 e 1579, com esta obra El Greco rompe os critérios narrativos dos grandes retábulos, dando uma ênfase ao ritmo vertical da composiçao, segundo critérios maneiristas. A parte central do retábulo representa a Assunçao da Virgem Maria, baseando-se no quadro com a mesma temática pintado por Ticiano. Começa a utilizar cores pouco convencionais e proporçoes anatômicas únicas. O intenso jogo de luzes busca o contraste. A parte superior do retábulo representa a Trindade, uma referência ao estilo escultural de Miquelângelo. Como podemos observar nas primeiras obras em terras espanholas, a influência dos mestres italianos é patente. Estes quadros aumentaram a reputaçao do pintor em Toledo, dando-lhe grande prestígio. Seu objetivo principal, no entanto, era transformar-se em pintor real da corte de Felipe II, colaborando para a decoraçao do Monastério do Escorial, cuja monumentalidade vemos na foto a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO “cartao de visita” de El Greco na corte de Felipe II foi o quadro intitulado “O Martírio de Sao Maurício”, pintado entre 1580 e 1582,  que pode ser admirado atualmente no próprio monastério.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO motivo central do quadro narra o episódio em que Sao Maurício convence aos seus companheiros da legiao tebana que é preferível morrer em martírio do que oferecer sacrifícios aos deuses pagaos do Império Romano. O martírio em si é relegado a um segundo plano, situado na parte inferior esquerda do quadro. Na parte superior, os anjos aguardam a alma daqueles que serao martirizados. A presença do quadro num dos altares laterais da igreja do monastério se justifica porque Sao Maurício era o padroeiro da Ordem do Tosao de Ouro, cuja soberania foi passada aos monarcas austríacos da corte espanhola. Infelizmente para El Greco, o rei Felipe II nao gostou do quadro, e nao encarregou outras pinturas ao pintor cretense. A partir de entao, El Greco decide permanecer em Toledo, cidade que lhe havia recebido como um grande artista. O clero toledano lhe encomenda várias obras que podem ser admiradas na Catedral Primada. Uma delas é “O Expólio”, exposta na sacristia da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cena retrata o momento inicial da Paixao de Cristo, quando Jesus é despojado de suas roupas. El Greco escurece os elementos que considera secundários no episódio e ilumina a figura de Jesus, auxiliado pelo vermelho de sua túnica. Para realizar o quadro, o pintor nao seguiu ao pé da letra nenhum dos evangelhos oficiais da Igreja Católica, motivo pelo qual surgiram polêmicas cujo resultado foi a demora em receber o pagamento da obra. Na Catedral de Toledo estao expostos muitos outros quadros do pintor, como a “Crucificaçao de Cristo”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu entao “Sao José e o Menino Jesus”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAProgressivamente, seu estilo se caracteriza pelo alargamento das figuras com uma iluminaçao própria, expressiva e ao mesmo tempo fantasmagórica, realizadas com uma combinaçao de cores contrastantes. A temática religiosa, predominante na obra do pintor, tinha como objetivo principal propagar a doutrina da Contrareforma e sua luta contra o Protestantismo, estabelecida pelo Concílio de Trento em 1563, sendo o centro do catolicismo espanhol a Arquidiocese de Toledo. Um dos temas preferidos para deter a expansao protestante foi a vida e o exemplo dos Santos Católicos, inúmeras vezes retratados por El Greco. Abaixo, vemos uma pintura de Sao Pedro, exposta no Museu de Santa Cruz de Toledo, cuja foto vemos na sequência.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADSC03546Outro tema fundamental era a Glorificaçao da Virgem Maria, cuja maternidade divina era negada pela Reforma Protestante de Lutero. Um exemplo é o quadro da “Imaculada Conceiçao” realizado entre 1607 e 1613 e também exposto no museu acima citado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAObservamos nesta obra o alargamento das formas e o sentido vertical do quadro, conduzindo o olhar do espectador ao rosto da Virgem, culminando em sua parte superior na pomba representativa do Espírito Santo.

Museu da Real Academia de San Fernando – Pintura Religiosa

O denominado Século de Ouro da Cultura Espanhola desenvolveu-se principalmente durante a época do barroco, estilo predominante da Contrareforma (séc. XVII). O Museu da Real Academia de Belas Artes de San Fernando de Madrid possui uma excelente coleçao de seus principais nomes, cuja temática religiosa foi um dos pilares de sua criaçao artística. Hoje conheceremos alguns deles, através de algumas obras expostas no museu. Iniciamos, porém, com um dos artistas mais importantes do Renascimento Espanhol, Juan de Juanes (1510/1579). Em sua obra, notamos a influência da pintura italiana, dedicando-se sobretudo à iconografia religiosa. Abaixo, vemos o quadro que realizou da Sagrada Família.

DSC08563Também ao séc. XVI pertence o pintor Luis de Morales (Badajoz- 1515/1586). Em sua obra, sao abundantes as cenas da Paixao de Cristo. Foi apelidado de “El Divino” pela intensidade e força expressiva de sua temática religiosa, fruto de sua profunda fé. Abaixo, vemos a “Piedade”, pintada em 1570.

DSC08560O tema da Piedade se renova na obra de Morales devido à sua intensidade. Em vida, alcançou grande fama, e seu principal protetor foi o Bispo de Badajoz, Juan de Ribera. No mesmo ano (1570), realizou o quadro intitulado “Cristo ante Pilatos”. Este episódio também se denomina Ecce Homo (Eis aqui o Homem), palavras ditas por Pilatos, segundo a Paixao de Sao Joao. O fundo negro da cena elimina toda a referência espacial e o olhar do espectador se concentra sobre as três figuras de meio corpo da cena. Cristo aparece no meio de dois personagens de cruel sarcasmo. O da esquerda possui traços caricaturescos, enquanto o outro, pela vestimenta, representa a Pilatos.

DSC08562Um dos pintores mais representativos da Contrareforma, Francisco de Zurbarán (1598/1664) destacou-se na pintura religiosa, na qual sua arte revela uma grande força visual e um profundo misticismo. Amigo de Velázquez, tornou-se famoso graças aos quadros encarregados para conventos e monastérios. É conhecido como o “Pintor dos Monjes”, tema em que foi um mestre indiscutível. Um exemplo é o quadro “Frade Francisco Zumel”, um monje nascido em Palencia, e um dos membros mais conhecidos da Ordem da Merced.

DSC08554Em 1639, Zurbarán realiza a obra “Agnus Dei”. O cordeiro, que aparece com as patas presas, se converte no símbolo da inocência e do próprio Cristo, cujo sacrifício significou o triunfo sobre a vida e a morte.

DSC08556O tema da Crucificaçao foi retratado por muitos artistas do barroco, entre os quais Alonso Cano (Granada-1601/1667). A seguir, vemos “Cristo na Cruz”, proscedente do Convento de San Martín de Madrid, inegável obra prima pela perfeiçao do desenho e o sentimento de solidao e morte que consegue expressar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlonso Cano foi um excepcional artista, destacando-se tanto na pintura, quanto na escultura e arquitetura. Realizou diversas obras para os conventos e igrejas de Madrid. Abaixo, contemplamos o quadro “Cristo recolhendo suas roupas”, um tema que aparece na Itália no séc. XVI. O pintor retrata o momento que segue à flagelaçao de Cristo, narrado no Evangelho.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJosé de Ribera (Xátiva, Prov. Valencia-1591/Nápoles-1652)  desenvolveu sua carreira artística em Nápoles, fato que contribuiu para que fosse conhecido como “El spagnoletto”. Foi um dos principais artistas que colaboraram na formaçao da Escola Napolitana de Pintura. Dele é a obra “Apariçao do Menino Jesus a Sao Antonio”, realizada em 1636. Sao Antonio de Pádua foi canonizado um ano depois de sua morte em 1232, sendo o santo mais popular da Contrareforma, superado apenas por Sao Francisco. Abaixo, vemos uma das melhores representaçoes do santo durante o período barroco, realizada por Ribera.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs obras de José de Ribera logo foram enviadas a Espanha, influindo de maneira decisiva na técnica e nos modelos pintados por Velázquez e Murillo. Um dos artistas espanhóis mais apreciados no exterior, Bartolomé Esteban Murillo (Sevilha-1618/1682) formou-se na chamada Pintura Naturalista. Com o tempo, evolucionou a formas próprias do barroco, antecipando o Rococó.  Além da Pintura Religiosa, cultivou continuamente a Pintura de Gênero. Em 1646, Murillo pintou o quadro “Sao Diego de Alcalá e os pobres”. O santo nasceu perto de Sevilha e faleceu em Alcalá de Henares. Seu corpo permaneceu incorrupto, suscitando a veneraçao popular. Murillo representa na obra tipos populares que reaparecerao em muitos outro quadros que realizou.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo séc. XVIII, destacamos dois pintores. O primeiro deles, Zacarias González Velázquez, já mencionamos no post anterior sobre retratos. Acadêmico de San Fernando e Pintor de Câmara, alcançou o posto de Diretor de Pintura e Diretor Geral da Real Academia. Quando solicitou ser nomeado para a instituiçao, apresentou a obra “Cristo Crucificado” em 1790. O aspecto neoclássico da obra é resultado da influência do mesmo tema realizado por Antonio Raphael Mengs, mestre do estilo.

DSC08537Finalizamos o post com o pintor Mariano Salvador Maella (Valencia-1739/Madrid-1819). Este importante artista foi acusado de “Afrancesado”, por ter servido ao rei José I, irmao de Napoleao. Por este motivo, quando Fernando VII retorna ao país e assume o trono, foi apartado de suas funçoes e substituído por Vicente López. Maella é considerado o pintor das Imaculadas por excelência do último terço do séc. XVIII, como podemos comprovar a seguir.

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Museu da Real Academia de San Fernando – Pintores Estrangeiros

O Museu da Real Academia de Belas Artes de San Fernando conta com uma excepcional coleçao pictórica,  composta de aproximadamente 1400 obras. No post de hoje, conheceremos algumas das pinturas realizadas por autores estrangeiros, ou seja, nao espanhóis. Começaremos com o menos “estrangeiro” deles, Domenikos Theotokopoulos (Creta-1541/Toledo-1614),  mais conhecido pelo apelido de “El Greco”. Digo isso, porque apesar de ter nascido em Creta, El Greco esteve intimamente relacionado a Toledo, cidade em que realizou suas obras mais conhecidas e onde  atingiu sua madurez artística. Neste quadro pintado em 1600, retrata a San Jerônimo, um dos quatro doutores da Igreja Católica. O santo retirou-se à vida penitente no deserto durante dois anos. No quadro, aparece seminu numa gruta meditando diante da caveira e do crucufixo. Os livros sao uma referência à sua grande obra religiosa, a traduçao da Bíblia ao latim. Na Contrareforma, sua figura incitava os fiéis a uma vida penitente e lhes servia de modelo.

DSC08558A Pintura Flamenca está representada por Peter Paul Rubens (Siegen-1577/Amberes-1640). Artista inserido dentro do contexto do barroco, foi também colecionador e diplomata. Artista prolífico, suas obras foram encomendadas por várias cortes européias, inclusive a espanhola, e abarcam desde a pintura religiosa, os temas mitológicos, retratos, paisagens e cenas de caça. Seu estilo exuberante enfatiza o movimento, a cor e a sensualidade. Suas principais influências procediam da antiguidade clássica. Um de seus principais clientes foi o rei Felipe IV, que lhe encarregou numerosas obras para a decoraçao dos Palácios Reais. Aliás, o monarca espanhol constitui a principal razao para que o Museu do Prado seja a pinacoteca com a maior quantidade de quadros de Rubens de todo o mundo, com aproximadamente 90 obras. Abaixo, vemos o quadro intitulado “Santo Agostinho entre Cristo e a Virgem”, pintado em 1615. Este motivo temático surgiu na Contrareforma, e procede, talvez, da passagem de um evangelho apócrifo em que o santo expressa seu amor por Cristo e a Virgem Maria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro pintor universal, também flamenco, foi Anthon Van Dyck (Amberes-1599/Londres-1641). Conhecido por seus famosos retratos, pintou também temas bíblicos e mitológicos. Foi aluno e assistente de Rubens, do qual assimilou o estilo e a técnica. Faleceu com apenas 42 anos, e foi sepultado  na Catedral de San Paul, de Londres. Abaixo, vemos o quadro exposto no Museu da Academia de San Fernando intitulado “A Virgem e o Menino Jesus com os pecadores”. A obra pertence à fase italiana de Van Dyck (1621/1627) e mostra a influência de mestres como Ticiano. Desde o Concílio de Trento, a penitência, o perdao e o arrependimento sao uma constante na literatura e na arte da Contrareforma.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADa Pintura Italiana provém uma das jóias do museu, o único quadro de Giuseppe Arcimboldo (Milao-1527/1593) existente no país, denominado “La Primavera”. O quadro foi pintado em 1563 e se desconhece em qual circunstância chegou à Espanha, provavelmente no séc. XVIII como um presente para os reis da dinastia borbônica. Formava parte de um conjunto sobre as quatro estaçoes, na realidade uma alegoria do poder imperial de Maximiliano II.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntonio Joli (Módena-1700/Nápoles-1777) viveu em Madrid entre 1749 e 1754, e realizou várias obras para o rei Fernando VI. Interessantíssimos sao seus quadros retratando a Madrid de sua época, como o quadro abaixo, chamado “Vista de la Calle de Alcalá”. O quadro é um verdadeiro tesouro de informaçoes sobre a cidade na época barroca e, principalmente, de uma de suas ruas mais famosas e importantes. De fato, o barroco unifica e monopoliza o aspecto urbano, com inúmeras cúpulas e torres. A paisagem descrita representa a Calle de Alcalá por volta de 1750. Observa-se, no fundo à esquerda, a antiga Praça de Touros de Madrid, hoje desaparecida. Também no lado esquerdo, a Igreja de San José,  que recentemente foi a matéria de um post.

DSC08546Pintor e teórico neoclássico, Anton Raphael Mengs (Aussig, Bohemia-1728/Roma-1779) foi considerado um dos artistas mais completos de seu tempo. Suas obras caracterizavam-se pela exatidao do desenho e a maestria das texturas. Nos retratos, destacava-se pela observaçao atenta do caráter. A seguir, vemos o retrato feito em homenagem ao seu amigo Louis Silvestre, diretor da Academia de Dresde. Atualmente, seus retratos estao entre suas obras mais valorizadas.

DSC08547O francês Louis-Michel Van Loo (Tolón-1707/Paris-1771) chegou em 1737 à Madrid como pintor de Felipe V e em 1744 foi nomeado primeiro pintor de câmara do monarca. Durante a época da fundaçao da Academia de Belas Artes, realizou um quadro para que servisse de modelo aos alunos, denominado “Vênus, Mercurio e o Amor”. A obra enfatizava a missao pedagógica da recém fundada instituiçao, constituindo uma alegoria,  salientando que o exercício contínuo (simbolizado por Mercurio) e a busca da beleza e da perfeiçao (simbolizada por Vênus), deveriam ser as metas a alcançar pelos jovens artistas. A obra foi doada pelo próprio artista ao museu.

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