Museu de Belas Artes – Parte 3

Uma parte importante da coleção de quadros do Museu de Belas Artes de Valencia está relacionada com a Pintura Barroca, na qual podemos admirar obras dos grandes artistas espanhóis do período. O Barroco foi um estilo artístico que sucedeu o Renascimento a partir do século XVII e se estendeu até boa parte do século XVIII, quando então aparece o neoclassicismo. A etapa barroca está, na Espanha, intimamente ligada ao Século de Ouro da Cultura Espanhola, quando surgiram as personalidades artísticas de maior renome do país em todos os campos, como na Literatura, Arquitetura, Escultura e Pintura. Um artista que serviu de elo entre o final do Renascimento e início do Barroco foi El Greco (1541/1614), cuja trajetória artística de maior transcendência ocorreu em Toledo, cidade na qual viveu boa parte de sua plenitude como pintor. No Museu de Belas Artes de Valencia podemos visualizar o quadro por ele pintado de “San Juan Bautista”. Algumas de suas características principais, como as figuras alargadas, típicas da corrente maneirista (última fase do Renascimento, anunciando a chegada do Barroco), a paisagem mágica e irreal, além dos fortes vínculos que tinha com a Arte Bizantina podem ser apreciadas nesta obra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm aspecto marcante da Arte Barroca é sua íntima relação com a Contrarreforma, movimento católico que se contrapôs à Reforma Protestante de Lutero. A teatralidade, luxo e ornamentação dos templos barrocos visavam fomentar a devoção aos santos, à Virgem Maria e a Cristo, cujos modelos de conduta deveriam ser imitados. Apesar disso, definir o Barroco como a Arte da Contrarreforma pode resultar simplista, pois também existe o Barroco Protestante. Na realidade, o estilo barroco unificou os estados europeus, chegando a ter grande protagonismo no continente americano. Enquanto nos países centrais da Europa, a pintura barroca preconizava cenas domésticas e cotidianas , além de retratos, na Espanha e na Itália a arte é quase que exclusivamente religiosa. Abaixo, vemos um quadro de Jerónimo Jacinto de Espinoza (1600/1667), pintor valenciano que adquiriu grande prestígio na época, intitulado “Aparição de Cristo a San Ignácio“. Esta obra foi realizada em 1631 para a capela de Santo Ignácio de loyola, fundador da Ordem Jesuíta, situada na igreja da ordem de Valencia. A cena do quadro representa o momento em que Cristo aparece diante do santo, quando este se dirigia à Roma para defender, ante o Papa, o projeto de fundação da ordem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Barroco Espanhol se integra plenamente no século XVII, desenvolvendo-se curiosamente numa etapa de decadência de seu império, que perde sua hegemonia para a França, Inglaterra e Holanda. Uma das características mais importantes da Pintura Barroca é o naturalismo ou realismo, em contraposição ao idealismo renascentista. Ou seja, os pintores agora se preocupam mais com o real que com o belo. Outro ponto a se destacar é o movimento, oposto ao equilíbrio e repouso das cenas clássicas. As cores tornam-se fortes e variadas, com grandes efeitos de luz, criando contrastes que proporcionam um intenso dramatismo às cenas e figuras. Da escola valenciana, um dos destaques é José de Ribera (1591/1652). Este artista teve uma enorme repercussão na Europa graças à qualidade de suas obras. No Museu de Belas Artes existem vários quadros que nos permitem apreciar sua beleza, como por exemplo, “San Sebastián atendido por Irene e sua criada“. Ribera realizou inúmeros quadros sobre os santos mártires, muitos dos quais relacionado à São Sebastião. Enquanto seu corpo aparece iluminado, acentuando o drama da cena, as mulheres foram retratadas de forma mais naturalista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAJosé de Ribera passou a maior parte de sua vida na Itália, sendo conhecido como “El Españoleto”. Nasceu em Játiva, cidade pertencente à Comunidade Valenciana, e foi um dos responsáveis em incorporar em sua pintura o tenebrismo, amplamente difundido por Caravaggio através do jogo de luzes e sombras e pelas tonalidade escuras em sua obras. Estabeleceu-se em Nápoles em 1616, tornando-se o pintor favorito da corte espanhola na cidade. O pintor retratou sábios da antiguidade, como Heráclito (1630) que podemos ver no museu valenciano. O filósofo grego aparece com um aspecto humilde e pobremente vestido, cuja riqueza que possui é o conhecimento. Destacam também a bela expressão facial e o contraste luminoso e as sombras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outro quadro de Ribera, “Santa Teresa escrevendo o ditado do Espírito Santo“, uma obra fundamental na representação da santa de Ávila, pintado em 1648. A presença da caveira está relacionada com a meditação sobre a morte e a fugacidade da vida.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlém da escola valenciana, a Pintura Barroca Espanhola destaca-se pelo conjunto de pintores que trabalham para a corte de Madrid e da Andaluzia. Esta última é uma das mais famosas, graças à presença de nomes como Velázquez, Zurbarán e Murillo, entre muitos outros. Bartolomé Esteban Murillo (1617/1682) nasceu em Sevilha, e muitos de seus quadros que representam as Virgens Imaculadas e meninos tornaram-se sinônimos de graça, ternura e delicadeza. Em suas obras predominam as tonalidades alegres e luminosas. Abaixo, vemos um “São Francisco de Assis“, pintado entre 1645 e 1650 para o Convento Franciscano de Sevilha. O santo é retratado ajoelhado e ambientado numa paisagem fantástica, no instante da visão de Cristo, de quem recebe os estigmas.

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Entre 1660 e 1665, Murillo realizou o quadro de “Santo Agostinho lavando os pés de Cristo“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, continuaremos vendo algumas das obras principais do Museu de Belas Artes de Valencia.

 

Museu Lázaro Galdiano – Pintura Espanhola

Um dos melhores motivos para se visitar o Museu Lázaro Galdiano é sua excelente pinacoteca. Formada tanto por artistas estrangeiros quanto espanhóis, nele estão representados alguns dos melhores pintores que a Espanha produziu. O acervo abarca desde a pintura gótica até o séc. XIX. Em sua atividade colecionista, Lázaro Galdiano tinha especial apreço pelas obras góticas e renascentistas. Com grande oportunismo, conseguiu adquirir quadros de grande qualidade por um bom preço. Os pintores góticos, denominados os Primitivos Espanhóis, na época eram pouco valorizados em seu próprio país. Lázaro Galdiano, ao comprar estes quadros, procurou que o público espanhol pudesse conhecer seu passado artístico e os artistas relacionados aos séc. XV e XVI, possibilitando uma nova visão de sua história cultural. Abaixo, vemos um quadro de Blasco de Grañén, pintado em 1439 com a representação da Virgem.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1500, o chamado Mestre de Manzanillo realizou esta obra, em que aparecem os Reis Católicos junto com Santa Elena e Santa Bárbara.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO século XVI representou uma fase de transição para a Pintura Espanhola, quando os novos modelos e influências renascentistas, tanto de Itália, quanto de Flandes, propiciaram uma mudança estética em sua arte. O Renascimento Italiano ofereceu uma reflexão científica da imagem representada, enquanto a Arte Flamenca enfatizava uma visão mais naturalista, com predomínio dos valores expressivos e emocionais. Um dos primeiros representantes do Renascimento em Castilla é conhecido como o Mestre de Astorga. No museu podemos admirar duas de suas obras, em que representa o desembarque do corpo do Apóstolo Santiago e seu transporte a Santiago de Compostela.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA riqueza e expansão marítima nos séculos XVI e XVII possibilitaram o florescimento das artes, dando início ao apogeu da cultura espanhola, momento em que surgiram os grande nomes de sua literatura e de sua produção pictórica, com nomes mundialmente famosos. O denominado Siglo de Oro (Século de Ouro) está muito bem representado no museu, com obras fundamentais para sua apreciação. El Greco, por exemplo, realizou este quadro de São Francisco de Assis (1577/1580), um dos muitos que pintou, com um perfeito desenho do rosto, belos efeitos de luz, refinado colorido e uma bela expressão do olhar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Seu filho Jorge Manuel realizou o quadro que vemos abaixo, em sua parte superior, entre 1609 e 1612.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom o advento do barroco no séc. XVII, a Pintura Espanhola rompe com o idealismo do período anterior, mostrando um acentuado realismo. Um dos pintores que melhor definem o Barroco Espanhol foi Bartolomé Esteban Murillo (Sevilha:1617/1652). Em suas obras, predomina a temática religiosa, mas também cultivou a pintura de gênero. Seu nome está associado aos quadros de Virgens que realizou, puras e delicadas. Sempre foi um artista mais conhecido e apreciado fora da Espanha. Dele é a representação de Santa Rosa de Lima, pintado em 1670.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFrancisco de Zurbarán (Fuente de Cantos-1598/Madrid-1664) é outro dos maiores expoentes da Pintura Barroca Espanhola. É considerado o máximo representante do denominado naturalismo tenebrista na Espanha, com grande influência do pintor italiano Caravaggio. Contemporâneo e grande amigo de Velázquez, destacou-se na pintura religiosa, com obras de um intenso misticismo, característico do período da Contrarreforma. A seguir, vemos dois quadros de Zurbarán expostos no museu, um que representa a Imaculada Conceição e outro com a imagem da Virgem da Merced.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro dos grandes pintores do Século de Ouro foi José de Ribera (Xátiva-1591/Nápoles-1652). Desenvolveu sua carreira na Itália, precisamente em Nápoles, onde era conhecido como “Lo Spagnoletto“, devido a sua baixa estatura. Realizou este quadro de São Bartolomeu, exposto no Museu Lázaro Galdiano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPertencente ao Barroco Pleno, Cláudio Coelho (1642/1693) nasceu e morreu em Madrid, lugar onde realizou inúmeros altares para as igrejas e conventos da cidade e região. No governo do monarca Carlos II, foi nomeado pintor real. Abaixo, vemos um quadro da Imaculada Conceição.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, veremos alguns belos retratos da Pintura Espanhola e um dos pintores mais apreciados por Lázaro Galdiano, Francisco de Goya.