Os Gravados de Goya: Caprichos

Iniciamos uma série de posts sobre os chamados Gravados de Goya, uma faceta menos conhecida deste genial pintor aragonês, mas indispensável para ilustrar seu modo de pensar e os acontecimentos históricos que se vivia na Espanha do final do séc. XVIII e começo do XIX. A obra de Francisco de Goya y Lucientes (Fuendetodos-Província de Zaragoza-1746/Burdéus-França-1828) constitui uma referência fundamental para a compreensão da Arte Moderna e Contemporânea. Os acontecimentos históricos de que foi testemunha e seus conflitos pessoais, resultados de vários períodos de crise, tiveram um amplo reflexo em sua produção artística.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA obra gráfica de Goya é considerada uma das mais importantes da História da Arte, no mesmo patamar dos gravados do holandês Rembrandt e do pintor alemão Alberto Durero. Além da capacidade técnica dos gravados, sua grande contribuição para o mundo artístico foi utilizar suas possibilidades como vínculo de expressão de seu mundo interior sobre a sociedade da época em que viveu. Os Gravados de Goya representam o testemunho de um artista que se interrogou sobre a condição humana e os processos históricos, sendo capaz de sintetizar a realidade de seu íntimo com o mundo objetivo. Abaixo, vemos um monumento em homenagem ao pintor, situado na Plaza del Pilar de Zaragoza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAGoya iniciou sua atividade como gravador em 1788, quando reproduziu muitas das pinturas de Velázquez, uma de suas maiores influências. Depois, publicou uma série de gravados, que hoje em dia causam assombro e admiração pela qualidade e o conteúdo simbólico das imagens. A primeira delas foi publicada em 1799, denominada Los Caprichos. Dois acontecimentos de sua vida podem explicar a origem destes gravados. Em primeiro lugar, a doença que o vitimou a partir de 1794, cuja consequência foi a perda da audição. O segundo, sua complicada relação com a Duquesa de Alba, que o levou a um processo de introspecção e de perda da confiança no ser humano. Los Caprichos constam de uma série composta por 80 gravados, que foram postos à venda numa loja de perfumes de Madrid em 1799. Dotados de um indiscutível componente crítico, resultado de sua reflexão sobre os males que afetavam a sociedade do final do séc. XVIII, se dividem em três temáticas principais. Na primeira delas, Goya critica os falsos e detestáveis modelos educativos e a prostituição.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAGoya enfatizava nesta série o conceito educativo através da racionalidade, e empregou em vários gravados o símbolo do asno, representante da insensatez do ser humano. Ao mesmo tempo ridicularizava a incapacidade e vulgaridade da classe elitista da época, atacando tanto aos “intelectuais” burgueses, quanto a nobreza.

20150816_113153OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs gravados se consideram uma contribuição pessoal do pintor contra a situação social da velha Espanha, seu fanatismo e suas superstições, e favorável aos novos rumos propostos pela Ilustração, corrente racionalista europeia que ganhava terreno na época. Um dos gravados mais conhecidos da série fala justamente destes aspectos. “El sueño de la razón produce monstruos” representa o próprio artista dormindo sobre uma mesa de desenho, acompanhado por vários animais, entre os quais uma coruja, símbolo da escuridão, do atraso e da ignorância da Espanha do séc. XVIII. O pintor adverte que quando a fantasia é abandonada pelo raciocínio, surgem monstros.Quando, porém, estão unidas e equilibradas, tornam-se as maravilhas de todas as artes….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtravés das figuras de monstros e bruxas, denunciava também as anomalias sociais, os abusos e preconceitos perpetuados pela igreja.

20150816_113351Los Caprichos foram realizados num momento de grande repressão social, como consequência direta da Revolução Francesa. No ano de sua publicação, Goya contava com 53 anos e tinha sido admitido como primeiro pintor da corte. O artista declarou a respeito da série, que os erros e vícios humanos, normalmente reservados à literatura, também podiam fazer parte dos temas das pinturas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs 80 lâminas da série Los Caprichos foram cedidas ao rei Carlos IV em 1803 em troca de uma pensão para seu filho, e foram depositadas na Real Academia de Belas Artes de San Fernando, em Madrid. Apesar disso, um dos melhores lugares para admirar a obra gráfica de Goya situa-se em Zaragoza. O Museu Goya (Coleção Ibercaja) situado na capital aragonesa, é o único que expõe de forma permanente todas as séries de gravados realizados pelo pintor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO edifício sede do museu foi construído na primeira metade do séc. XVI e complementa a visita por seu importante valor histórico e artístico. O museu nos mostra o legado do pintor, os antecedentes de sua obra e sua repercussão nos demais artistas espanhóis dos séculos XIX e XX.

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Palácio de Líria e Casa das 7 Chaminés

No post de hoje, conheceremos um dos palácios mais representativos da nobreza na capital espanhola, bem como uma de suas construçoes mais singulares. Situado na Calle Princesa, o Palácio de Líria é a residência madrilenha da Duquesa de Alba, recentemente falecida. Trata-se de um dos escassos exemplos de palácio, cujo proprietário (a) permanece o mesmo desde o séc. XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA origem da Casa de Alba se remonta ao ano de 1429, quando o rei Juan II de Castilla concede o título de Senhor de Alba de Tormes ao Arçobispo de Sevilha e Toledo Gutierre Álvarez de Toledo. O projeto do palácio foi realizado pelo arquiteto Ventura Rodríguez e finalizado em 1779, inspirado no Palácio Real de Madrid. O arquiteto foi encarregado da construçao pelo Duque de Berwick (um dos títulos da Casa de Alba).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar de sua origem escocesa, o Duque de Berwick nasceu e foi criado na França. Tinha um grande talento militar, tornando-se chefe supremo do exército franco-espanhol que defendia o direito de Felipe V ao trono de Espanha, durante a denominada Guerra da Sucessao Espanhola. Com a vitória de Felipe V, o monarca lhe concede o título de Ducado de Líria, entre outros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABombardeado na Guerra Civil, o Palácio de Líria ficou arrasado, ficando em pé somente a fachada. Por sorte, boa parte da coleçao de quadros da família foi removida a tempo. No entanto, se perdeu uma grande quantidade de peças artísticas e livros de sua impressionante biblioteca. O palácio foi reconstruído após a guerra e concluído em 1956.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Palácio de Liria é visitável, mas a lista de espera é enorme….

A outra construçao que veremos é uma das mais antigas de Madrid. Sua história está repleta de intrigas, personagens famosos e inclusive apariçao de fantasmas. Porém, faremos apenas um breve resumo da chamada Casa das 7 Chaminés.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA explicaçao de seu nome está clara, vendo a foto acima, pois o palácio possui sete chaminés, que podem ser vistas desde o exterior. Seu documento mais antigo conservado data de 1567. Habitado por inúmeros personagens da nobreza e do corpo diplomático de Madrid, foi a residência do Marquês de Esquilache, homem de confiança e ministro do rei Carlos III.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1776, um decreto de Esquilache proibiu o uso do sombrero e da capa larga, ambas peças tradicionais do povo madrilenho (a medida visava impedir que os cidadaos levassem armas e ocultá-las debaixo das capas). O povo, passando fome, se revoltou, e uma multidao formada por cerca de mil pessoas invadiu a Casa das 7 Chaminés, destruindo seu interior, mas nao encontraram o marquês, que afinal foi destituído de seu cargo pelo rei Carlos III, que o enviou ao estrangeiro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesde 1984, é a sede do Ministério da Cultura e declarado Monumento Histórico Artístico em 1948. Cabe ressaltar a beleza da praça onde se localiza, denominado Plaza del Rey, que vemos abaixo. À direita da foto, vemos o Palácio de Fontagud, situado quase em frente da Casa das 7 Chaminés, e que vimos há pouco tempo no blog.

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Praça das Cortes – Segunda Parte

No centro da Praça das Cortes levanta-se um monumento homenageando o Príncipe das Letras da Literatura Espanhola, Miguel de Cervantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA estátua foi uma iniciativa de José I, irmão de Napoleão, mediante um decreto assinado em 1810. Para sua execução, foi convocado um concurso público vencido pelo artista Antonio Solá, considerado o último dos grandes escultores do neoclassicismo espanhol. No entanto, a estátua foi finalizada apenas em 1834. Realizada em bronze, trata-se da primeira estátua dedicada a um personagem civil de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm sua parte inferior, foram esculpidos baixo-relevos por José Piquer, que narram episódios da consagrada novela D.Quixote de La Mancha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANum dos lados da estrutura que suporta a estátua, vemos o nome do homenageado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA estátua conta com várias réplicas espalhadas pelo mundo (Moscou, Pequim,Nova York, La Paz, entre outras). Um fato curioso sobre o monumento ocorreu em 2009, durante as obras de remodelação da Praça das Cortes. Ao mover-se a estátua, encontrou-se uma “cápsula do tempo” de 1834, isto é, uma caixa com 4 exemplares de sua famosa novela, datadas de 1819, um livro sobre a vida de Cervantes, além de outras publicações, medalhas, documentos e moedas, todos em bom estado de conservação. Tanto a caixa, quanto seu conteúdo, foram objetos de uma exposição realizada após seu achado. No local, foi colocada uma nova cápsula destinada às futuras gerações, com uma série de objetos relacionados com a caixa de 1834, bem como outros relativos à Madrid do séc. XXI.

Outro edifício relevante da praça é o Hotel Palace, matéria do post publicado em 11/10/2013. Ao seu lado, ergue-se uma bela construção, o edifício propriedade da Cia de Seguros Plus Ultra. Construído em 1913 pelo arquiteto Joaquim Roji López, encarregado de realizar um edifício residencial de aluguel para o Marques de Amboage, nele observamos a fachada de clara inspiração francesa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Em 1915, o edifício recebeu um premio da prefeitura de Madrid como o melhor construído no ano na cidade. Abaixo, vemos detalhes decorativos deste belo edifício.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPorém, o que desperta mais a atenção de todos aqueles que passam em frente do edifício é sua fachada principal, que dá para a praça. Em 1993 foi inaugurado pela Infanta Pilar de Borbón um curioso relógio e 18 sinos feitos de bronze que estão ao seu lado, capazes de interpretar um total de 500 melodias diferentes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADiariamente, ao som dos sinos, as janelas onde está situado o relógio se abrem e dela saem uma série de personagens populares, que representam as chamadas figuras goyescas, pois recordam a personalidades pintadas pelo genial artista aragonês Francisco de Goya.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs figuras foram desenhadas pelo artista catalão Antonio Mingote, e o mecanismo que faz com que se movam e realizem movimentos, chamado na Espanha de Carrillón, foi desenvolvido por uma fábrica holandesa, uma das mais prestigiadas do mundo na fundição de sinos e fabricação de carrillones. Este exemplar é o único existente no país, composto por figuras móveis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs figuras representadas são, da esquerda para a direita: o toureiro Pedro Romero, que dizem que matou a mais de 5 mil touros, sem levar nenhuma chifrada sequer em toda sua vida; uma manola e seu leque; o rei Carlos III, tal como foi retratado por Goya; a Duquesa de Alba e, finalmente, o próprio Goya, com o pincel e sua inconfundível cartola. O espetáculo pode ser presenciado diariamente, em vários horários. No próprio edifício existe uma placa indicando as seções de apresentação.

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