Museu El Greco de Toledo

Além das obras de El Greco que podemos apreciar nas várias igrejas, conventos e centros culturais de Toledo, na cidade existe o único museu especialmente dedicado ao pintor, em todo o país. O Museu El Greco foi criado a princípios do séc. XX pelo Marquês de Vega Inclán, um dos primeiros defensores na recuperaçao da arte do grande artista.

DSC09371A fundaçao do museu coincidiu com um momento de revalorizaçao do pintor, bem como pela necessidade de reunir e expor algumas obras de El Greco que se encontravam num estado lamentável e dispersas pela cidade, com o grave risco de perderem-se. Com estas finalidades, o Marquês de Vega Inclán adquiriu algumas casas em ruínas dos séculos XV e XVI e realizou uma reabilitaçao do imóvel para a inauguraçao do museu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO marquês, ao adquirir o imóvel, supôs equivocadamente que se tratavam das casas onde viveu o pintor, em pleno bairro judeu da cidade. Por este motivo, durante muito tempo a instituiçao denominou-se Casa Museu El Greco. Na realidade, El Greco viveu no Palácio do Marquês de Villena, destruído depois de sofrer um incêndio. Tal palácio situava-se bem em frente ao museu, atualmente um jardim no qual foi erguido um monumento em homenagem ao pintor.

DSC09369Depois de reformada as casas, a intençao do Marquês de Vega Inclán foi recriar os ambientes domésticos e mostrá-los como a verdadeira residência do pintor, evocando em seus espaços o tipo de vida e sua personalidade, como observamos na cozinha de época e uma de suas salas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEste trabalho foi pioneiro em Espanha, contribuindo para o desenvolvimento do “Estilo Espanhol” na decoraçao de interiores. O espaço conserva as antigas portadas , como também o pátio interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante as obras de construçao do museu, foram descobertos banhos judaicos contemporâneos a conhecida Sinagoga do Trânsito, situada bem próxima ao Museu El Greco. A visita inclui estes curiosos banhos medievais, auxiliada pelas simpáticas funcionárias do museu.

DSC09390Acredita-se que esta espécie de cova onde estavam situados os banhos é a única parte conservada do antigo Palácio de Samuel Levy (séc. XIV), o personagem histórico mais importante da juderia toledana, pois foi tesoureiro real, além do artífice da construçao da sinagoga acima mencionada. Além do interior, é uma delícia passear pelos jardins do museu, perfeitamente adaptados para este fim.

DSC09380DSC09379Cabe resaltar que o Marquês de Vega Inclán foi também o fundador do Museu do Romanticismo de Madrid e o museu dedicado a Miguel de Cervantes, situado em Valladolid. Atualmente, o Museu El Greco de Toledo pertence ao estado, sendo administrado pelo Ministério da Cultura. No próximo e último post dedicado a El Greco, veremos uma série de obras que estao expostas no museu.

O Grego de Toledo – Parte 2

Em 1586, El Greco foi encarregado de realizar o quadro “O Enterro do Conde de Orgaz”, possivelmente sua obra mais conhecida e merecidamente considerada uma obra prima da Pintura Universal. O quadro foi pintado para a Igreja de Sao Tomé de Toledo, e passados mais de quatro séculos, ainda permanece no mesmo local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEl Greco narra nesta magnífica obra o episódio do sepultamento de Gonzalo Ruiz de Toledo, Conde de Orgaz, responsável pelas reformas da mencionada igreja no séc. XIV, que a converteram num templo mudéjar. Desta forma, o pintor retrata uma cena ocorrida séculos antes, com a presença de membros destacados da aristocracia toledana da época. Por este motivo, o quadro é considerado o primeiro retrato coletivo da Pintura Espanhola. Segundo a tradiçao, durante o enterro do conde, desceram do céu Sao Esteban, o primeiro mártir da Igreja Católica, e Santo Agostinho, para ajudar a carregar o corpo e levá-lo para o sepulcro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte inferior esquerda, El Greco retrata seu filho Jorge Manuel, que com a mao aponta para a cena principal do quadro. Na parte superior, vemos anjos , a Virgem Maria e a Jesus que aguardam a chegada da alma do defunto. A dupla dimensao da obra, a terrenal e a divina, situada em planos opostos, é outra das características da obra do pintor. Tal é a fama deste quadro que em muitos lugares de Toledo podemos admirá-lo, até mesmo num bar, nesta representaçao feita de azulejos pintados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo curiosidade, na famosa trilogia do escritor Érico Veríssimo “O Tempo e o Vento”, exite um personagem num dos livros que compoem a obra, precisamente na parte denominada “O Retrato”, que é um pintor espanhol, que dizia que um dos cavalheiros pintados por El Greco neste quadro, situado no lado esquerdo da composiçao, era ele próprio…

Toledo, a finais do séc. XVI, era uma cidade eminentemente conventual. Somente pertencente à Ordem Franciscana, existiam 13 conventos na cidade. Naturalmente, El Greco realizou inúmeros quadros retratando a Sao Francisco (um total de 25 quadros), que tiveram um grande êxito. Abaixo, vemos “Sao Francisco em Oraçao”, exposto no Hospital Tavera de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEl Greco retrata o santo de corpo inteiro como um ideal a ser imitado de vida ascética, penitência e dedicado à oraçao, valores que nas instituiçoes assistenciais adquiriram uma importância fundamental. A pintura de santos se desenvolve na carreira do pintor a partir de 1580. A seguir, vemos o quadro “Madalena Penitente”, pintado em 1590, no qual Madalena se encontra sobriamente vestida, meditando diante o crucifixo e mostrando a caveira em que se converterá.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1595, realiza a “Sagrada Família com Santa Ana”, que também pode ser visto no Hospital Tavera. A cena é uma representaçao da Virgem do Leite, com Maria dando o peito para o Menino Jesus, sob o atento olhar de Santa Ana e Sao José. Observamos o intenso cromatismo e a luminosidade com que El Greco realiza a obra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA última década do séc. XVI foi uma etapa crucial em sua carreira, recebendo uma grande quantidade de encargos, graças a sua já estabelecida reputaçao artística e a amizade travada com um grupo de mecenas locais, tanto da aristocracia, quanto do clero. Suas figuras sao cada vez mais alargadas e retorcidas, e os quadros mais altos e estreitos. Abaixo, o quadro “Sao Joao Evangelista e Sao Joao Batista”, realizado entre 1605 e 1610, atualmente exposto no Museu de Santa Cruz de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre 1603 e 1607, El Greco realiza o quadro intitulado “Lágrimas de Sao Pedro”, onde o santo aparece no interior de uma gruta com um fundo escuro. Seus olhos imploram a generosidade do Senhor com um gesto de dor e arrependimento, relacionado com o vergonhoso ato de sua açao, ao negar a Cristo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAos 73 anos de idade, El Greco falece em Toledo, recebendo sepultura no Convento de Santo Domingo. Evidentemente, nesta matéria publiquei apenas uma pequena coletânea de sua obra, algumas delas emblemáticas para conhecer a arte deste artista formidável, de estilo único e perfeitamente reconhecível. A última parte da publicaçao estará dedicada ao Museu El Greco de Toledo, único em Espanha em memória ao pintor.

O Grego de Toledo

Graças aos contatos realizados com espanhóis durante sua estadia em Roma, El Greco viaja a Espanha em 1577, estabelecendo-se em Toledo, capital religiosa do país e uma das maiores cidades européias da época. O pintor adota definitivamente a cidade castelhana, nela permanecendo até o final de sua vida, onde desenvolve de maneira genial seu estilo, pintando seus quadros mais famosos. Com 36 anos de idade, El Greco já possuía fama, e os encargos religiosos nao demoraram em aparecer. Abaixo, vemos o Retábulo Maior  realizado para o Convento de Santo Domingo de Toledo, o primeiro que concebeu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERARealizado entre 1577 e 1579, com esta obra El Greco rompe os critérios narrativos dos grandes retábulos, dando uma ênfase ao ritmo vertical da composiçao, segundo critérios maneiristas. A parte central do retábulo representa a Assunçao da Virgem Maria, baseando-se no quadro com a mesma temática pintado por Ticiano. Começa a utilizar cores pouco convencionais e proporçoes anatômicas únicas. O intenso jogo de luzes busca o contraste. A parte superior do retábulo representa a Trindade, uma referência ao estilo escultural de Miquelângelo. Como podemos observar nas primeiras obras em terras espanholas, a influência dos mestres italianos é patente. Estes quadros aumentaram a reputaçao do pintor em Toledo, dando-lhe grande prestígio. Seu objetivo principal, no entanto, era transformar-se em pintor real da corte de Felipe II, colaborando para a decoraçao do Monastério do Escorial, cuja monumentalidade vemos na foto a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO “cartao de visita” de El Greco na corte de Felipe II foi o quadro intitulado “O Martírio de Sao Maurício”, pintado entre 1580 e 1582,  que pode ser admirado atualmente no próprio monastério.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO motivo central do quadro narra o episódio em que Sao Maurício convence aos seus companheiros da legiao tebana que é preferível morrer em martírio do que oferecer sacrifícios aos deuses pagaos do Império Romano. O martírio em si é relegado a um segundo plano, situado na parte inferior esquerda do quadro. Na parte superior, os anjos aguardam a alma daqueles que serao martirizados. A presença do quadro num dos altares laterais da igreja do monastério se justifica porque Sao Maurício era o padroeiro da Ordem do Tosao de Ouro, cuja soberania foi passada aos monarcas austríacos da corte espanhola. Infelizmente para El Greco, o rei Felipe II nao gostou do quadro, e nao encarregou outras pinturas ao pintor cretense. A partir de entao, El Greco decide permanecer em Toledo, cidade que lhe havia recebido como um grande artista. O clero toledano lhe encomenda várias obras que podem ser admiradas na Catedral Primada. Uma delas é “O Expólio”, exposta na sacristia da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cena retrata o momento inicial da Paixao de Cristo, quando Jesus é despojado de suas roupas. El Greco escurece os elementos que considera secundários no episódio e ilumina a figura de Jesus, auxiliado pelo vermelho de sua túnica. Para realizar o quadro, o pintor nao seguiu ao pé da letra nenhum dos evangelhos oficiais da Igreja Católica, motivo pelo qual surgiram polêmicas cujo resultado foi a demora em receber o pagamento da obra. Na Catedral de Toledo estao expostos muitos outros quadros do pintor, como a “Crucificaçao de Cristo”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu entao “Sao José e o Menino Jesus”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAProgressivamente, seu estilo se caracteriza pelo alargamento das figuras com uma iluminaçao própria, expressiva e ao mesmo tempo fantasmagórica, realizadas com uma combinaçao de cores contrastantes. A temática religiosa, predominante na obra do pintor, tinha como objetivo principal propagar a doutrina da Contrareforma e sua luta contra o Protestantismo, estabelecida pelo Concílio de Trento em 1563, sendo o centro do catolicismo espanhol a Arquidiocese de Toledo. Um dos temas preferidos para deter a expansao protestante foi a vida e o exemplo dos Santos Católicos, inúmeras vezes retratados por El Greco. Abaixo, vemos uma pintura de Sao Pedro, exposta no Museu de Santa Cruz de Toledo, cuja foto vemos na sequência.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADSC03546Outro tema fundamental era a Glorificaçao da Virgem Maria, cuja maternidade divina era negada pela Reforma Protestante de Lutero. Um exemplo é o quadro da “Imaculada Conceiçao” realizado entre 1607 e 1613 e também exposto no museu acima citado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAObservamos nesta obra o alargamento das formas e o sentido vertical do quadro, conduzindo o olhar do espectador ao rosto da Virgem, culminando em sua parte superior na pomba representativa do Espírito Santo.

El Greco: Creta e Itália

Como foi dito no post anterior, El Greco nasceu em Candia em 1541, capital da Ilha de Creta, entao pertencente à República de Veneza. Sua formaçao artística até os 25 anos, como eran natural, foi influenciada pela Arte Bizantina, especialmente a pintura de iconos, vigente naquela época. No séc. XVI, o estilo predominante na ilha representava uma continuaçao da tradiçao ortodoxa grega na pintura destes quadros de devoçao religiosa, presentes desde a Idade Média. Sua elaboraçao seguia regras fixas. A estilizaçao, os estereótipos e a representaçao simbólica do divino caracterizavam a estética bizantina.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuito mais que simples pinturas, os iconos representavam  a própria divindade materializada, uma teofania (revelaçao do divino), aproximando-se do significado das relíquias no mundo ocidental. Por este motivo, as representaçoes, sejam Santos, a Virgem ou Jesus Cristo, sao pouco naturalistas. Possuem um caráter frontal e uma expressividade que os humaniza em posturas hieráticas. Dentro de sua bidimensionalidade, a paisagem natural é eliminada com um fundo dourado, cor associada à divindade, feito de lâminas de ouro. A Arte Bizantina foi um dos fatores chaves para a formaçao pictórica do pintor, permanecendo como um elemento latente em toda sua obra posterior, como vemos na imagem abaixo, em que El Greco representa a Cristo Salvador à maneira dos iconos bizantinos (1608/1614 – Museu El Greco de Toledo).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm Creta, a clientela exigia, além da pintura bizantina, a veneziana e a italiana. A finais de 1566, El Greco chega a Veneza como parte de sua formaçao artística, num período que se prolongaria por 10 anos em solo italiano. Suas aptidoes rapidamente afloram, sendo aperfeiçoadas pelos grandes mestres venezianos, como Ticiano, Tintoretto e Jacobo Bassano, contribuindo para a configuraçao de seu estilo de forma fundamental, principalmente no aspecto cromático. Uma obra que marca a transiçao do pintor de iconos a um artista de ifluência italiana é o Tríptico de Módena (1560/1565 – Galeria Estense de Módena).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO painel está composto por duas partes, a exterior e a interior. No painel central, vemos a representaçao da Alegoria da Coroaçao do Cavalheiro Cristao, cuja composiçao está presidida por Jesus Cristo rodeado de anjos portadores dos símbolos da paixao, coroando a um soldado cristao.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA escola veneziana  se distinguia pela ênfase aos elementos cromáticos e a luz, enquanto a escola romano-florentina  estava baseda no desenho  e seus aspectos anatômicos e de perspectiva. Naquela época, o estudo da arquitetura era considerado imprescindível na carreira de um pintor, e El Greco nao foi uma exceçao. Em 1570, o pintor viaja a Roma. Faziam já 6 anos que Michelângelo havia falecido, mas seus modelos seguiam exercendo uma poderosa influência, impedindo o desenvolvimento de outras concepçoes de arte. Na cidade eterna, El Greco se estabelece no palácio do Cardeal Farnésio, graças a uma carta de apresentaçao de seu amigo miniaturista Giulio Clovio, de quem realizaria um retrato. A obra principal do artista durante a etapa romana é  a “Expulsao dos Mercadeiros do Templo” (1570/1575 – Minneapolis Institute of Art), em que podemos apreciar a influência veneziana, bem como a utilizaçao de elementos arquitetônicos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo geral, sua permanência em Itália nao lhe propiciou encargos de importância, impedindo-o de demonstrar sua capacidade e desenvolver todo seu potencial artístico. O fato de ser estrangeiro numa terra de mestres consagrados e a concorrência dos pintores nativos foram algumas das causas para tanto. Uma famosa história deste período conta como o pintor solicitou ao papa cobrir algumas figuras nuas do Juízo Final de Miquelângelo, que o pontífice considerava indecente. Além do mais, poderia, se o papa quisesse, realizar outra obra que substituisse a do pintor italiano, mantendo ou superando o nível alcançado. Os artistas italianos ficaram indignados com tamanha prepotência. A falta de perspectiva de trabalho e a hostilidade desatada depois de comentários como o relatado acima, além da possibilidade de trabalhar na decoraçao do Monastério do Escorial e para a clientela eclesiástica espanhola, fizeram com que El Greco se mudasse a Espanha, onde permaneceria 40 anos. O mundo da arte nao seria mais o mesmo. As reformas na doutrina católica e nas práticas religiosas propostas pelo Concílio de Trento começaram a condicionar a arte, e El Greco chega ao ápice de sua carreira em terras hispânicas. Leva consigo os conhecimentos aprendidos em Itália e, apesar de tudo, a gratidao aos grandes mestres da pintura italiana, que sempre reconheceu como uma grande influência.

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El Greco

Iniciamos, a partir de hoje, uma matéria sobre um dos grandes gênios da pintura universal, que deixou um legado maravilhoso na Espanha, principalmente na cidade de Toledo. É significativo que atualmente conhecemos a Doménikos Theotokópoulos, seu nome verdadeiro, pelo apelido El Greco, uma combinaçao do artigo espanhol com a palavra italiana referente a origem de seu nome.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste apelido está vinculado aos dois países onde viveu a partir dos 25 anos aproximadamente, e que contribuíram para que seu talento artístico se desabrochasse em sua plenitude. No entanto, o reconhecimento de sua importância na História da Arte é relativamente recente, tendo sido formado a partir do séc. XIX. Nos dois séculos e meio que transcorreram após sua morte em 1614 , foi considerado um artista excêntrico e marginal.

DSC09368Apesar do seu apelido, com o qual é conhecido mundialmente, El Greco assinava seus quadros em letras gregas, sublinhando sua origem. Nasceu em Candia, capital  da Ilha de Creta em 1541, falecendo em 1614 na cidade que adotou e onde viveu a maior parte de sua vida, Toledo. Na realidade, existem poucas fontes confiáveis que proporcionem dados sobre sua vida, como uma biografia do pintor feita por Francisco Pacheco, mestre e sogro de Diego Velázquez.

DSC09276A formaçao pictórica de El Greco foi complexa, obtida de três focos culturais distintos: Em primeiro lugar,  a Arte Bizantina derivada de sua origem cretense. E depois a estadia de 10 anos na Itália, onde inicialmente se estabeleceu em Veneza, sendo influenciado pelos mestres da cidade, como Ticiano e Tintoretto, aprendendo a pintura  a óleo e o cromatismo dos artistas venezianos. Finalmente, em Roma conhece a obra de Miquelângelo e o Maneirismo, que se converteu em seu estilo principal, interpretando-o de forma bastante original.

DSC08558O Maneirismo era considerado como a etapa final do Renascimento, mas atualmente é reconhecido como um estilo autônomo dentro da História da Arte. Surgiu na Itália nas primeiras décadas do séc. XVI como uma reaçao aos parâmetros clássicos imposto pela estética renascentista, como o naturalismo. A denominaçao desta corrente artística deriva do vocábulo italiano Maniera, indicando o estilo pessoal de determinado artista. Algumas de suas características sao a sofisticaçao intelectual das obras e do autor das mesmas, a valorizaçao da originalidade e o dinamismo e a complexidade das formas. Em todos estes quesitos, El Greco se destacou como um artista excepcional. Sua capacidade e o emprego de materiais de alta qualidade possibilitaram que sua obra permaneça, no geral, em bom estado. Abaixo, vemos um dos quadros em que o pintor retrata Toledo, hábito frequente em sua carreira.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro intitula-se “Vistas de Toledo” e foi realizado entre 1595 e 1610. El Greco nao retrata as coisas como sao realmente, e sim através de uma recriaçao singular, como vemos nesta fantasmagórica visao da cidade, iluminada por relâmpagos. Nao é a Toledo real, mas a “sua ” Toledo. O quadro encontra-se no Metropolitam de Nova York. Na cidade castelhana existem vários monumentos dedicados ao pintor, inclusive nos grafites pintados nos muros das casas podemos apreciar sua influência.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA imagem acima é uma reinterpretaçao curiosa de um dos quadros mais conhecidos do pintor. De fato, El Greco foi um grande retratista, representando personagens da aristocracia toledana e do clero. Na obra “Cavalheiro com a mao no peito” (1580 – Museu do Prado) apreciamos a alta qualidade pictórica de seus retratos e a profundidade psicológica que é capaz de transmitir. Normalmente, sao imagens de meio corpo, com o fundo neutro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1578 nasceu seu único filho, Jorge Manuel, que seguiu a carreira artística do pai.  Abaixo, vemos o único quadro assinado pelo filho do famoso pintor, denominado “O Expólio” (Museu de Santa Cruz, em Toledo) uma cópia do mesmo tema feito por El Greco, que podemos ver na Catedral de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANeste outro quadro intitulado “A Família de El Greco”, exposto no Museu El Greco de Toledo, Jorge Manuel retrata sua mae, situada no centro da cena, como modelo de esposa perfeita, tal como se concebia na época, esperando a chegada do pai.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA mulher com que El Greco teve seu filho chamava-se Jerómima de las Cuevas, com que nunca chegou a casar-se. Foi, no entanto, a modelo para algumas de suas obras, como em “Verônica com a Santa Face” (1577/1578 – Coleçao Particular). O artista narra o milagre da impressao do rosto de Cristo no véu oferecido por Verônica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA maior parte da obra de El Greco está composta por grandes retábulos religiosos, além do grupo de retratos de altíssimo nível que realizou. Era um artista culto, possuidor de uma rica biblioteca, e a influência da ideologia neoplatônica é patente em toda sua pintura. A arte nao é apenas uma simples imitaçao da natureza, e sim a expressao livre do artista. Abaixo, vemos “A Encarnaçao”, exposta no Museu de Santa Cruz de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANeste quadro observamos alguns dos aspectos de sua pintura, como o tratamento do espaço pictórico, que evita a ilusao de profundidade e da paisagem, sendo que as cenas se desenvolvem num cenário indefinido. Cada personagem possui luz própria ou que reflete uma fonte luminosa nao visível. Este emprego da luz está vinculado ao seu antinaturalismo e seu estilo abstrato. Além de pintor, El Greco foi também escultor. A seguir vemos o tabernáculo e a escultura de Cristo que realizou o artista entre 1595/1598, expostos no Hospital Tavera, em Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs principais lugares para admirar a sua obra em Espanha sao Madrid (principalmente no Museu do Prado) e Toledo (Museu de Santa Cruz, Catedral, Convento de Santo Domingo,etc). Finalizamos o post com uma vista do Museu El Greco de Toledo, que conheceremos brevemente no blog. A próxima matéria estará dedicada á etapa inicial de sua vida, tanto em Creta, quanto na Itália, que forneceram a base de sua evoluçao artística no perído de sua madurez, desenvolvida em Toledo.

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Hospital Tavera – Toledo

O patrimônio histórico e artístico da cidade de Toledo é tao extenso e variado que existe uma rota cultural denominada Toledo Olvidada (Toledo Esquecida), composta por uma série de lugares de interesse que norrmalmente passam desapercebidos pela maioria das pessoas. O Hospital de Tavera é um deles. Uma das causas do seu desconhecimento é que está situado extramuros da cidade (mas bem próximo à Porta de Bisagra, o principal acesso ao centro histórico).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Hospital de Tavera é considerado o monumento renascentista mais importante de toda a cidade e foi construído entre 1541 e 1603 por iniciativa do Cardeal Tavera, Arçobispo de Toledo.  Dedicado a Sao Joao Batista, serviu também como panteao para o cardeal. Sua construçao se insere no programa de renovaçao urbana que o círculo de humanistas que rodeavam o Imperador Carlos I projetou para adequar a cidade no seu papel de Capital Imperial do reino.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO fato de estar situado na parte externa das muralhas fez com que fosse conhecido como “Hospital de Afuera”, pois intramuros já existia o Hospital de Santa Cruz. O enorme edifício foi construído por Alonso de Covarrubias (1488/1570), introdutor da estética renascentista em Toledo, sendo sucedido posteriormente por Nicolás Vergara. O aspecto da construçao é similar a de um palácio renascentista florentino, com exceçao da fachada, edificada na segunda metade do séc. XVIII, e rematada por uma imagem de Sao Joao Batista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO conjunto está formado por dois pátios gêmeos com dois níveis cada, que se conectam por uma arcada, e o palácio-museu, que inclui parte do antigo hospital, além da igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos o nível superior de um dos pátios.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja apresenta apenas uma nave. Abaixo, vemos uma foto interior da cúpula, cujo aspecto exterior podemos ver na primeira foto da matéria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADebaixo da cúpula está situado o sepulcro do Cardeal Tavera, obra realizada em mármore de Carrara por Alonso Berruguete (Paredes de Nava-1490/Toledo-1561). Este escultor castelhano, filho do pintor Pedro Berruguete, é um dos referentes da Escultura Renascentista Espanhola. Em 1561, faleceu num dos quartos do próprio Hospital de Tavera.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo contrário do habitual, o sepulcro nao está adossado à parede, podendo ser admirado em toda sua perspectiva.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Cardeal Tavera faleceu em 1545 na cidade de Valladolid e seu corpo foi levado ao hospital que fundou. Uma das condiçoes para a execuçao do sepulcro é que fosse similar ao do Cardeal Cisneros, situado em Alcalá de Henares. O rosto do cardeal possui uma configuraçao extremamente realista, pois foi fielmente copiado de uma máscara mortuária. Este sepulcro é considerado uma das obras primas da Arte Funerária Espanhola.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos o retábulo central da igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das grandes obras artísticas do hospital é o retábulo lateral da igreja, projetado por El Greco e realizado por seu filho, Jorge Manuel.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo Museu do Hospital de Tavera estao expostas numerosas obras de arte de grande valor. Entre outros, podemos admirar quadros do mencionado El Greco, José de Ribera, Tintoretto, Ticiano, Zurbarán, etc. Abaixo, vemos um retrato do Cardeal Tavera, realizado entre 1608/1614.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, o edifício é uma propriedade da Casa Ducal de Medinaceli. O Hospital de Tavera foi utilizado como cenário de vários filmes legendários, como Viridiana e Tristana, ambos de Luis Buñuel, e a superproduçao Os Três Mosqueteiros, de Richard Lester.

Presépios de Natal – Madrid

No mês de dezembro e princípio de janeiro, o visitante que chega a Madrid poderá apreciar vários presépios na cidade, alguns dos quais realmente espetaculares. Aqui na Espanha sao conhecidos como Beléns, e o país possui uma grande tradiçao em sua fabricaçao. Como sabemos, os Presépios sao a representaçao plástica do Nascimento de Jesus Cristo, presentes na época do Natal, fazendo parte da liturgia natalina em muitos países de tradiçao católica. A primeira celebraçao natalina em que foi montado um presépio para comemorar o nascimento de Jesus ocorreu em 1223, e foi realizado por Sao Francisco de Assis, numa gruta.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom o tempo, esta tradiçao na realizaçao de presépios se consolidou na Itália, propagando-se para o resto do continente, num princípio como prática eclesiástica, depois aristocrática e finalmente popular. A partir do séc. XIV, os monges franciscanos começam a utilizar sua representaçao como um elemento de predicaçao. Em 1465, fundou-se em Paris a primeira empresa fabricante de figuras de presépios. Seis anos depois, inaugura-se a primeira empresa espanhola, em Alcorcón. Desde entao, inicia-se a larga trajetória do país na sua fabricaçao, até que no séc. XIX a indústria madrilenha se transforma na mais importante da Europa. Abaixo, vemos uma interessante presépio, montado no Convento das Carbonaras de Madrid. Sua importância reside no fato de ser um Presépio Barroco, realizado a finais do séc. XVI ou princípios do XVII, em Quito, Equador.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste presépio foi inspirado na escola sevilhana, pois os primeiros evangelizadores que foram à América procediam de Andaluzia, e implantaram o costume na realizaçao de presépios no país. Observamos a teatralidade barroca no conjunto, as figuras parecem estar em movimento. O presépio se conserva na instiutiçao desde sua fundaçao, em 1605. Outro aspecto interessante em relaçao aos presépios na Espanha é a tradiçao napolitana de alguns dos principais conjuntos existentes. Existe documentaçao deles desde o séc. XV, mas foi durante o governo de Carlos III no séc. XVIII, grande admirador destas obras, que os presépios italianos começaram a ser colecionados pela monarquia e pela nobreza (antes de tornar-se rei de Espanha, Carlos III foi rei de Nápoles, entao pertencente ao Império Espanhol). Um deste presépios pertence à casa dos Duques de Cardona, e pode ser visto no Palácio Cibeles.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADe autor desconhecido, este Belén Napolitano foi encarregado pelo XV Duque de Cardona e XIII Duque de Medinaceli Luis María Fernández de Córdoba y Gonzaga em 1784. Exposto ao público por primeira vez em 1860, está composto por mais de 200 figuras, sendo considerado um dos conjuntos mais extraordinários do país, tanto pela beleza de sua fabricaçao, quanto pelos detalhes das figuras representadas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA tradiçao de Madrid na fabricaçao de presépios é legendária, como dito acima, e pode ser admirada no antigo Edifício dos Correios, atulmente ocupado pela presidência da Comunidade de Madrid, em plena Puerta del Sol.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEste incrível presépio, realizado pela Associaçao Belenenses de Madrid, foi inspirado no pintor El Greco e na monumental cidade de Toledo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANele podemos ver os principais pontos turísticos da cidade, como a Catedral, o Alcázar, suas muralhas e portas. Pela Ponte de Alcântara, em vez de turistas, vemos passando os Reis Magos….

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO estudo para sua realizaço minuciosa foi impressionante. Até as casas típicas de Castilla-La Mancha foram representadas, bem como os ofícios tradicionais de seus habitantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANormalmente, as filas para contemplá-lo sao desanimadoras, mas vale a pena enfrentá-la para poder admirar este maravilhoso presépio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizo a matéria desejando a todos (as) leitores (as) do blog um Feliz Natal e um ano de 2015 realmente maravilhoso, repleto de aventuras, com muita paz, saúde a amor !!!!