Fontes Históricas de Madrid – Parte 4

Além de seu inegável valor artístico e cultural, o conhecimento e a contemplaçao das Fontes Históricas nos possibilita desvendar fatos relevantes do passado, que marcaram uma determinada época nao só da cidade onde se localiza, mas do próprio país. Hoje, conheceremos 3 fontes, todas elas construídas no séc. XIX. A primeira delas é a Fonte de Felipe IV, situada na emblemática Praça do Oriente, entre o Palácio Real e o Teatro Real. A fonte adorna o monumento dedicado ao monarca Felipe IV, obra prima da estatuária por sua qualidade artística e dificuldade técnica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATrata-se da primeira estátua equestre, realizada no mundo, de um monarca sentado sobre um cavalo e suspenso sobre suas patas traseiras. O conjunto se encontra perfeitamente equilibrado graças a um calculado estudo dos pontos de apoio e da distribuiçao de seu peso que, segundo a lenda, foi realizado pelo científico Galileu Galilei. A estátua foi construída pelo escultor italiano Pietro Tacca em 1642 e a fonte foi colocada e inaugurada em 1843, durante o reinado de Isabel II.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAConstruída em granito e pedra branca de Colmenar (uma cidade próxima a Madrid), a fonte foi esculpida pelos artistas Elías Vallego e José Tomás. Em suas laterais, vemos relevos, um dos quais é uma alegoria da proteçao exercida por Felipe IV às artes e letras. A outra representaçao homenageia o pintor Diego Velázquez, já que o desenho da escultura baseou-se num de seus famosos quadros equestres, atualmente exposto no Museu do Prado. Neste relevo, vemos a imposiçao do hábito da Ordem de Santiago ao pintor, por parte do monarca que foi seu admirador e mecenas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo conjunto escultórico da fonte, observamos os leoes, símbolo da monarquia espanhola, e seres humanos, uma representaçao dos rios Manzanares e Jarama (desde a época grega, os rios sao simbolizados, na escultura, de forma antropomórfica).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1888, Madrid contava com 285 fontes distribuídas ao longo de seu espaço urbano. A que apresentava o maior volume de água é a denominada Fonte de Diana, devido ao gigantesco depósito de agua que se encontra debaixo do jardim do antigo Convento do Sacramento, situado atrás dos muros da fonte.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Fonte de Diana foi construída com uma combinaçao de tijolo e pedra, estando dividida em três partes, das quais a central é a mais alta e onde se representa o escudo de Madrid, o nome do prefeito que impulsou sua construçao e a data em que foi realizada (1850). A Deusa Diana foi esculpida em mármore, bem como os golfinhos situados aos seus pés. Na mitologia, Diana é a transcriçao romana da grega Ártemis, Deusa da Caça e dos Bosques. Filha de Júpiter e Leto, é a irma gêmea de Apolo. Os golfinhos sao uma representaçao do equilíbrio das forças naturais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA fonte também é conhecida pela denominaçao de Cruz Verde, o nome da praça onde se localiza. Este nome é uma referência a uma antiga cruz feita de madeira e com esta cor que existia na praça, e sinalizava os locais onde eram realizadas as execuçoes públicas do Tribunal da Inquisisçao, durante o reinado de Felipe II.

A última fonte de hoje é uma das mais populares de Madrid, situada na Calle de Toledo. Denominada de Fuentecilla, sua construçao se deve ao prefeito Conde de Monteczuma, que em 1814 decidiu erguer um monumento em homenagem ao rei Fernando VII, apelidado de “El Deseado”, pois durante a Guerra da Independência foi deposto por Napoleao, que colocou no trono espanhol seu irmao, José I. A fonte celebra o retorno do exílio do esperado monarca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERARealmente, a Fuentecilla mais parece um monumento que propriamente uma fonte. Inaugurada em 1815, foi construída pelo arquiteto real de Fernando VII, Alfonso Rodríguez. É considerada uma das fontes públicas mais famosas de Madrid, pela qualidade de sua águas. A fonte possuía 11 aguadores, pessoas autorizadas  que se dedicavam a levar e vender água.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte superior da estrutura vemos o leao, símbolo da monaquia como já foi dito, erguido sobre 2 globos terrestres, uma referência aos antigos domínios do Império Espanhol. O felino foi esculpido pelo artista Manuel Álvarez. Numa de suas laterais, vemos o escudo da cidade de Madrid, com o Urso e o Madroño, as 7 estrelas e a Coroa.

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O Urso e o Madroño – Madrid

Na Porta do Sol situa-se um dos locais mais fotografados de Madrid, a estátua de um Urso apoiando-se numa árvore conhecida como Madroño. Não é uma estátua qualquer, pois representa o símbolo da cidade, formando parte do escudo de armas oficial da capital espanhola. A estátua foi inaugurada em 1967, obra do escultor Antonio Navarro Santafé (1906/1983). Feita de pedra e bronze, está apoiada num pedestal de granito. Com 4 m de altura e 20 toneladas de peso, esta emblemática estátua esteve sempre situada na Porta do Sol, embora mudasse de local 3 vezes.

DSC01998Como a maioria dos símbolos heráldicos em geral, suas origens são um pouco confusas, mas se sabe que sua primeira aparição no escudo da cidade data do séc. XIII. Antes, as armas estavam representadas somente por um urso pastando no campo. Os historiadores concordam que a presença do urso significa simplesmente que antigamente era um animal abundante ao redor da cidade, quando então estava coberta por bosques. Outros aponta que na realidade, trata-se de uma ursa, normalmente representadas nos escudos como símbolo de abundância e fertilidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs 7 estrelas ao redor do escudo estão vinculadas à Constelação da Ursa Menor, que contém a Estrela Polar, ou então como representação das sete escolas de astronomia existentes em Madrid no séc. X. Outra versão sugere que estão associadas ao céu madrilenho, famoso por sua claridade e pureza. Desde que Alfonso VIII concedeu  um foro de privilégios a cidade em 1202, iniciou-se uma disputa entre a Igreja e o Estado sobre a soberania dos bosques (incluindo a produção de madeira e as terras de caça), e os terrenos de pasto. Depois de 20 anos de disputa, chegou-se a um acordo. A Igreja estaria responsável pela jurisdição das terras de pasto e o Estado, pelos bosques. Neste acontecimento, surge o verdadeiro significado do escudo, aceito pelos historiadores. O urso simboliza o domínio da Igreja sobre os pastos e a árvore, a propriedade dos bosques pelo Estado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE porquê escolheu-se o Madroño propriamente para ser incluído no emblema? Provavelmente, quando foi desenhado o escudo, este arbusto deveria representar uma espécie genérica, ou seja, uma árvore qualquer, cujo significado pictórico era simbolizar a conciliação entre Igreja e Estado. Outra explicação dada é como forma de agradecimento do poder curativo de suas folhas, que inclusive curou o rei Carlos V  e um grande número de habitantes de uma praga que assolou a cidade, quando ainda não era capital.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Madroño (Arbustus Unedo) é utilizado como planta ornamental para parques e jardins. Sua altura média, quando adulta, varia entre 15 e 20m, e produz um fruto vermelho, utilizado na fabricação de conservas e marmeladas. Abaixo, vemos um exemplar jovem situado no Parque do Retiro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar das diversas teorias existentes, ninguém sabe com absoluta certeza porque foram colocados o Urso e o Madroño no escudo da cidade. No entanto, apesar das mudanças sofridas no escudo ao longo dos séculos, ambos estiveram permanentemente representados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1554, o Parlamento de Valladolid concedeu a Madrid uma permissão para incluir a Coroa Real no escudo. Assim, a cidade passou a ser reconhecida oficialmente como vila. Este novo status foi considerado de grande importância, pois Madrid era, na época, um núcleo pequeno e de pouca influência.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1842 foi colocado um novo elemento, certamente estranho e cuja razão se desconhece, um dragão. Permaneceu no escudo até 1967, quando finalmente foi abolido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADe tudo o que foi dito, a única certeza é a onipresença do escudo pela cidade. Como vocês puderam observar, está em todos os lugares, nas fontes, monumentos, serviços públicos, nas calçadas, etc, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa Taberna “El Madroño”, situada na Porta Cerrada, vemos o Urso e o Madroño pintados num belo mural de azulejos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo interior da taberna, podemos observar a evolução do escudo ao longo do tempo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEnquanto o contemplamos, podemos aproveitar e pedir um Licor de Madroño…

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