Museu do Azeite – Illescas (Parte 2)

Neste segundo post sobre o Museu do Azeite de Illescas veremos outros aspectos deste produto de grande tradição na Espanha, destacando principalmente seu método tradicional de fabricação. Para a comercialização do produto, e dependendo de sua qualidade, existem três tipos de azeite: O Azeite de Oliva Virgem Extra é aquele de máxima qualidade, sendo obtido diretamente das azeitonas unicamente através de procedimentos mecânicos. O seu grau de acidez não pode superar 0.8 %. O Azeite de Oliva Virgem segue os mesmos parâmetros de qualidade do anterior. A diferença é que não pode superar os 2 % de acidez. Por último, o Azeite de Oliva é obtido a partir do refinamento dos azeites que não alcançaram os critérios de qualidade dos demais (não pode superar o 1% de acidez).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs componentes principais das azeitonas constituem o azeite (23%), açúcares (19%), água (de 50 a 60%), celulose (6%) e proteína (menos de 2%). Sua cor pode variar do amarelo/dourado ao verde mais acentuado, dependendo dos pigmentos predominantes da azeitona no momento da colheita. No início, será mais verde devido à presença de clorofila. Na medida em que fica mais madura, perde clorofila, tornando-se mais amarelada. A variedade de Azeitona predominante na região de Illescas é a Cornicabra, ligeiramente amarga e um pouco picante. A Comunidade de Castilla La Mancha é a maior produtora da Espanha deste tipo de azeitonas. Abaixo, vemos uma foto da Almazara (fábrica onde se elabora o azeite) de Illescas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos motivos para a criação do Museu do Azeite na cidade foi o excelente estado de conservação das máquinas da Almazara, que seguia o padrão tradicional de fabricação do azeite de oliva. Evidentemente, o primeiro passo para a obtenção do azeite é a colheita das azeitonas de sua árvore, a Oliva ou Oliveira. Realizava-se manualmente com um golpe que se dava na árvore com uma vara flexível. Depois, separavam-se as azeitonas procedentes da mesma daquelas caídas no solo. Na Espanha, a colheita é realizada entre outubro e dezembro. Em seguida, efetua-se o transporte das azeitonas à Almazara.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa chegada das azeitonas na Almazara, inicialmente se separavam as azeitonas defeituosas das normais, que passavam por distintos processos de fabricação. A segunda etapa envolve processos de limpeza da azeitona, com o objetivo de eliminar folhas, pequenos talhos e pó, através de ventiladores de ar. Em seguida, se procede à lavagem das azeitonas com água para eliminar barro ou possíveis pedras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois, a azeitona é triturada por um moinho com o objetivo de facilitar a extração do azeite. O moinho da Almazara de Illescas está praticamente em desuso por sua baixa rentabilidade em relação aos atuais métodos utilizados. Por outro lado, é considerado um moinho de grande importância histórica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO rompimento da azeitona efetuada pelo moinho produz uma pasta que é pressionada para a saída do azeite. As gotas de azeite se aglutinam formando uma etapa oleosa com a finalidade de separar a água, a pele, a pulpa e o osso da fruta. Em seguida, se realiza um processo intermediário de separação dos componentes sólidos e líquidos, momento no qual é obtido o azeite de máxima qualidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA separação do azeite dos demais componentes realiza-se tradicionalmente pelo método de prensado. O método clássico é o que se realizava na Almazara de Illescas. A pasta oleosa é colocada sobre discos porosos feitos de fibra, colocados uma encima do outro. Os discos se colocam numa prensa, liberando a parte líquida da pasta. Atualmente esta parte do processo de fabricação do azeite é realizada pelo método de centrifugação, com a pasta sendo colocada num cilindro horizontal que gira a grande velocidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA próxima etapa do processo é a decantação, que se baseia na diferença de densidade, realizado em depósitos comunicados entre si nos quais o líquido permanece em repouso. Uma vez terminado e antes de ser engarrafado, o  azeite é filtrado para eliminar possíveis materiais indesejados em suspensão.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO azeite é armazenado e posteriormente envasado. Abaixo, vemos outras imagens do interior da Almazara de Illescas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos a matéria um um poema de Federico García Lorca denominado “Paisaje“, no qual o grande poeta rende uma homenagem aos campos de cultivo da Oliva, que podemos admirar em boa parte do território espanhol.

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Museu do Azeite – Illescas

Quando viajamos, muitas vezes no surpreendemos positivamente quando conhecemos algo que não esperávamos encontrar. Isso foi exatamente o que sucedeu comigo quando visitei o Museu do Azeite, situado em Illescas. A cidade situa-se numa zona plana com pequenas ondulações, um terreno propício para o cultivo da oliva. Foi a primeira vez que tive a oportunidade de conhecer um museu dedicado a um produto de grande tradição na Espanha, o Azeite de Oliva, e pude observar o processo tradicional de fabricação, as origens do cultivo da oliva, curiosidades a respeito da árvore e seu fruto, a azeitona, a história do museu, tudo isso com a ajuda das atentas e simpáticas funcionárias do museu. Na Espanha, as instalações onde se obtém o azeite de oliva denomina-se Almazara e foi em um destes locais onde se inaugurou o Museu do Azeite de Illescas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Almazara de Illescas está incluída dentro do patrimônio industrial e etnográfico da cidade, estando sediada numa típica construção castelhana do século XX. O lugar chama-se “El Molino del Marqués“, apesar de nunca ter sido propriedade de um marquês. O moinho, construído sobre um anterior que foi derrubado, é de mediados do século XX,  estando situado num local que compreendia três propriedades diferentes. Uma delas incluía o pátio, a fábrica de azeite, armazéns e um palomar (uma pequena construção que serve como “residências de palomas”, isto é, de pombas). Em outra situava-se a horta, jardins, a casa do proprietário e outras dependências.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERA Em 1947, a Almazara foi adquirida por uma família de Madrid e os últimos proprietários realizaram as gestões administrativas para que o local fosse vendido à Prefeitura de Illescas, em 2003. A partir deste momento, o local foi adaptado para sediar um Centro Turístico e Cultural, que inclui o Museu do Azeite, além de outros espaços, como Oficina de Turismo e salas onde podemos realizar atividades culturais relacionadas a gastronomia, artesanato e artes cênicas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Oliva ou Oliveira, uma árvore pertencente a família das Oleáceas, foi cultivado por primeira vez durante o período inicial do desenvolvimento da agricultura, há 7 mil anos atrás na região da Ásia Menor. Adaptou-se bastante bem às condições climáticas e de relevo na zona mediterrânea, que desde então tornou-se o principal centro de produção de azeitonas e do azeite de oliva. Foram os fenícios que levaram seu cultivo às costas do sul a Península Ibérica ao longo do século XI aC. Com a chegada dos romanos, sua expansão levou o cultivo a todas as partes do império. Os primeiros documentos escritos conhecidos sobre a Oliva constituem tábuas de barro de época micênica, realizadas durante o reinado do Rei Minos (2500 aC). Na Bíblia encontramos inúmeras referências a ela, bem como na Mitologia Clássica. A oliva cultivada é uma espécie de tamanho médio, de 4 a 8m de altura, dependendo da variedade. Possui um tronco grosso, como podemos ver no exemplar abaixo, cuja foto tirei no Parque Municipal de Illescas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma oliveira pode permanecer viva e produtiva durante séculos. Suportam altas temperaturas no verão, se possuem suficiente humidade no solo, e temperaturas de até 12 graus negativos no inverno. Sua fruta, a azeitona, e o azeite produzido possuem uma grande quantidade de efeitos benéficos para o organismo, pois facilitam o processo digestivo, são antioxidantes e previnem doenças cardiovasculares. Possui um valor calórico de 167 calorías para cada 100g.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Azeite de Oliva é considerado um azeite vegetal de uso predominantemente culinário, mas também tradicionalmente e ainda hoje empregado para usos cosméticos, medicinais, nas cerimônias religiosas e na iluminação. Quase um terço da polpa da azeitona está composta pelo azeite. Por isso, desde a antiguidade foi extraído através de uma pressão realizada por um moinho. Atualmente, cerca de 90 % da produção mundial de azeitona está destinada para a fabricação do azeite. A Espanha é o maior produtor mundial de Azeite de Oliva, produzindo quase a metade do total, seguido pela Itália e a Grécia. Abaixo, vemos algumas das variedades de azeitonas produzidas no país, dentro das mais de 260 cultivadas nos solos espanhóis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATradicionalmente, se armazenava o Azeite de Oliva em cântaros de cerâmica. Hoje em dia, os recipientes mais utilizados são feitos de garrafas PET, vidro, lata e papel revestido. Recomenda-se sempre a utilização de embalagens opacas que não permitam a entrada de luz, para que o sabor do azeite não seja alterado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cor do Azeite de Oliva não constitui um parâmetro nem é indicativo de sua qualidade. Por este motivo, durante as provas de degustação do produto, utilizam-se copos de cristais de cor azul translúcido, para que nao se possa distinguir sua cor e se deixe influenciar por ela, realizando a valorização de sua qualidade de forma adequada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo todo produto tradicional comercializado no país, como o Jamón e o Vinho, entre outros, existe um órgão regulador da qualidade do azeite de oliva, denominado “Denominación de Origen“. Na região de Illescas, chama-se D.O.Montes de Toledo, com uma grande quantidade de municípios produtores.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, publicarei a segunda parte desta matéria sobre o Museu do Azeite de Illescas, enfatizando o processo de elaboração tradicional do produto…

Illescas – Segunda Parte

O motivo principal de minha visita à cidade de Illescas foi conhecer o Hospital Santuario de Nuestra Señora de la Caridad, o monumento mais famoso deste município castelhano. Minha curiosidade era poder admirar o legado que o grande pintor El Greco deixou para a posteridade neste lugar, sob a forma de vários quadros de temática religiosa, que ainda adornam suas dependências. No início do século XVI, o Cardeal Cisneros, um dos personagens religiosos mais importantes da Espanha, solicitou uma permissão à vila de Illescas para a construção de um convento  para a Ordem Franciscana no local que antigamente ocupava um monastério beneditino erguido por San Ildefonso (santo padroeiro de Toledo) no século VII. Em troca, o cardeal ordenou que fosse construído um hospital beneficente no local mais central do povoado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIniciado no início do século XVI, o hospital foi levantado junto com uma capela, onde se colocou uma imagem da Virgem da Caridade. Constituído por dois andares, sendo o inferior destinado às dependências hospitalarias e hospedagem e o superior para as tarefas administrativas, o edifício se conserva integralmente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa segunda metade do século XVI, o Hospital chegou a ser o mais frequentado de toda a Espanha. No ano de 1600 foi inaugurado o Santuário em homenagem a N.Sra da Caridade, que se comunica com o hospital através de um acolhedor pátio. De estilo renascentista, a igreja foi projetada por Nicolás Vergara El Joven, o mais importante representante da arquitetura toledana do século XVI.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATanto o hospital, quanto o santuário, albergam inúmeros tesouros artísticos, com destaque para os quadros pintados por El Greco, como o retábulo maior em honra à Virgem da Caridade, realizado em 1603, e outros com temas relacionados à Virgem Maria. Sua importância radica em que permanece no mesmo local onde os quadros foram realizados, e não num museu, como normalmente ocorre com as obras de El Greco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente o hospital e o santuário são administrados pela Funcave, uma fundação que permanece realizando as finalidades benéficas da instituiçao, de caráter social, sanitário, educativo e religioso. Sua origem se remonta ao final do século XIX, quando Don Manuel de Vega y López realizou um donativo para que a instituição pudesse manter seus objetivos originais. No pátio podemos ver um busto em sua homenagem, além de uma placa comemorativa.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO local possui também um interessante museu inaugurado em 2005, com pinturas, esculturas e objetos litúrgicos. Lamentavelmente as fotos, tanto das obras de El Greco, como do interior do santuário, estão proibidas, de forma que abaixo adiciono o site da fundação, onde vocês poderão apreciar os quadros do famoso pintor:

Depois de realizar uma visita guiada a este interessantíssimo lugar de Illescas, ainda tive tempo de conhecer outros monumentos da cidade, como o Ayuntamiento da cidade, e um belo parque…
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Na hora de almoçar, escolhi um restaurante que pertence a um hotel da cidade, com um atraente Menú que incluía uma Parrillada de Verduras de primeiro prato, Lombo de Lubina com um delicioso molho de segundo e morango com chantilly de sobremesa, além de pão, azeitonas e vinho, com um custo total de 20 euros…
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Depois do almoço, fui conhecer o Museu do Azeite, um lugar que vale a pena visitar, e que será o tema do próximo e último post sobre Illescas

 

Illescas – Castilla La Mancha

Minha grande curiosidade pelo patrimônio histórico e artístico da Espanha me levou desta vez a conhecer a cidade de Illescas , situada na Comunidade de Castilla La Mancha. Localizada apenas a 40 km do centro de Madrid, Illescas encontra-se a meio caminho entre a capital do país e Toledo. Esta localização estratégica possibilitou que a cidade adquirisse uma grande importância histórica ao longo dos séculos, transformando-se na terceira maior cidade da Província de Toledo, com cerca de 30 mil habitantes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASegundo os restos arqueológicos encontrados, Illescas esteve habitada desde a pré-história. Também existiu um povoado celtíbero desde finais do século V ao II aC, e no período romano contou com um povoamento. Em época árabe, se construiu um Alcázar (fortaleza defensiva) que foi tomado pelo Rei Alfonso VI logo depois de ter sido reconquistada em 1085. O mesmo rei foi o responsável por sua reconstrução e repovoamento. Com  crescimento da vila, Alfonso VI ordenou sua fortificação, através da construção de uma muralha formada por 5 portas de acesso. A única que se conservou é o denominado Arco de Ugena, por onde se realizava a fiscalização e o controle de mercadorias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACom o tempo, Illescas passou a ser propriedade do Arcebispado de Toledo, condição que manteve até 1575, quando se submete a jurisdição real. Abaixo, vemos o escudo da cidade

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIllescas conta com um importante patrimônio religioso, com destaque para a Igreja Paroquial de Santa María

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEdificada entre os séculos XIII e XVI, apresenta uma curiosa combinação de estilos, devido às distintas etapas construtivas de sua dilatada história.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOriginalmente construída no estilo românico-mudéjar, seu aspecto atual data de uma reforma realizada nos séculos XV e XVI. Sua esbelta torre mudéjar é uma maravilha…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA igreja, por sua importância histórica, foi declarada Monumento Nacional em 1920. Abaixo, vemos detalhes mudéjares da torre…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa praça onde se localiza a igreja apreciamos também uma farmácia histórica, fundada em 1888.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro edifício religioso que integra o patrimônio histórico de Illescas é o Convento de la Concepción de la Madre de Dios, fundado por uma bula papal em 1514, cuja iniciativa de sua construção se deve a um dos personagens religiosos mais relevantes da história da Espanha, o Cardeal Cisneros, que teve um papel fundamental no desenvolvimento da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post, publicarei a segunda matéria sobre esta cidade castelhana…

Ampliação do Museu Reina Sofia

O Museu Reina Sofia de Madrid é considerado um dos museus de Arte Contemporânea mais importantes de todo o mundo. Sua exposição permanente exibe obras dos artistas mais influentes dos séculos XIX e XX, como Picasso, Dalí, Miró, etc. Entre todas as pinturas deste museu imprescindível destaca-se o famoso quadro de Picasso “Guernica“, possivelmente o quadro mais importante do século XX (ver post publicado em 17/5/2012). Realizei também, entre 29/6 e 4/7/2016, uma série de publicações sobre as obras primas do museu, que servem de referência a uma visita ao Reina Sofia. O museu encontra-se sediado no edifício do antigo Hospital de San Carlos, entidade fundada no século XVI pelo Rei Felipe II com a finalidade de centralizar todos os serviços de atendimento hospitalar que se encontravam dispersos pela capital da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVIII, o monarca Carlos III decidiu construir um novo edifício para o hospital, já que as instalações do edifício anterior ficaram insuficientes com o crescimento populacional da cidade. O projeto foi encarregado aos arquitetos José de Hermosilla e, principalmente, a Francisco Sabatini. Ainda hoje, a sede principal do museu é conhecida como Edifício Sabatini. O hospital foi clausurado em 1965, e o edifício sobreviveu apesar dos rumores sobre sua demolição, principalmente depois que foi catalogado como Monumento Histórico-Artístico em 1977, garantindo sua continuidade. Em 1980 inicia-se sua restauração e em 1986 se inaugura o Centro de Arte Reina Sofia, utilizando os primeiros andares do edifício como salas de exposições temporárias. No final de 1988 se construíram as torres de aço e vidro para servir de elevadores. A coleção permanente do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, seu nome completo, foi inaugurada em 1992, com a presença do Rei Juan Carlos I e sua esposa, a Rainha Sofia, com os fundos artísticos provenientes do antigo Museu Espanhol de Arte Contemporânea.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre 2001 e 2005, o museu foi alvo de uma grande ampliação, a cargo do arquiteto francês Jean Nouvel, cujo resultado contribuiu para transformar o aspecto do museu e da própria paisagem urbana de Madrid.

20190202_125010O custo da obra foi de 92 milhões de euros e possibilitou um aumento de 60% da superfície do museu. Uma praça, decorada com uma escultura de Roy Lichtenstein, conecta o Edifício Sabatini com as estruturas de ampliação realizadas por Jean Nouvel.

20190202_132209Jean Nouvel (França – 1945) é considerado atualmente um dos arquitetos de maior prestígio internacional e recebeu em 2008 o Prêmio Pritzker de arquitetura. Para ele, a arquitetura constitui uma arte visual, uma produção de imagens que provocam emoções e sensações, algo que podemos comprovar numa visita ao museu.

20190202_13222920190202_133023A ampliação do museu possibiltou a construção de uma excelente biblioteca, duas novas salas para exposições temporais, dois auditórios, uma loja e um restaurante, cujas imagens vemos abaixo…

20190202_13014720190202_131525Qualquer pessoa pode conhecer esta parte do museu, sem a necessidade de pagar entrada para ver o acervo permanente, visita que evidentemente recomendo. A seguir vemos o contraste entre os dois edifícios, o histórico de Sabatini e a obra realizada por Jean Nouvel.

20190202_13365220190202_133630Vale a pena subir na parte mais alta do edifício e contemplar as vistas que oferece, principalmente da Estação Ferroviária de Atocha, situada nas proximidades do museu.

20190202_133239Finalizo o post com outras fotos do Museu Reina Sofia

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Touros: Críticas e Controvérsias

Neste último post sobre esta extensa série sobre o mundo dos touros na Espanha veremos que mesmo no país as críticas e em relação às touradas sempre estiveram presentes em vários momentos históricos, apesar da grande popularidade da prática taurina, gerando controvérsias no âmbito da sociedade espanhola. Antes, porém, gostaria de mencionar algumas expressões coloquiais utilizadas no cotidiano e seu significado e que se originaram da tauromaquia. Por exemplo:

– “Cada toro tiene su lidia“: significa que cada pessoa ou situação é distinta das demais e requer um tratamento diferenciado

-“Coger el toro por los cuernos“: enfrentar de forma decidida a um problema, resolvendo-o de uma vez por todas.

-“Quedar para el arrastre“: quando uma pessoa encontra-se esgotada fisicamente.

-“Darle cornadas al viento“: realizar atos ou emitir frases ou palavras totalmente inúteis, ineficazes ou banais.

-“El toro de cinco y el torero de veinticinco“: contundente expressao destinada a estabelecer que cada coisa deve ser realizada no momento adequado.

20151218_085226As primeiras proibições documentadas das touradas na Espanha partiram da Igreja Católica no século XVI, quando em 1567 o Papa Pio V decretou que os participantes e espectadores de uma tourada seriam excomungados. Em 1575, ante a reação das autoridades espanholas, o Papa Gregório XIII se viu obrigado a moderar o decreto, excluindo da excomunhão aos laicos e reservando a pena somente aos religiosos e sacerdotes. Enquanto os monarcas da Dinastia dos Habsburgos eram adeptos das corridas de touros, os reis da Dinastia Bourbônica desprezavam os espetáculos por considerarem indignos, pelo qual Felipe V proibiu em 1723 sua realização. Já o Rei Fernando VI apenas consentiu a prática das touradas em troca que seus ingressos fossem destinados a obras de caridade, como a construção de hospitais. Em 1771, Carlos III proibiu novamente as touradas. Posteriormente, diversas propostas antitaurinas foram abolidas, por serem consideradas antipopulares.

20170528_191642 No século XX, a era dourada das touradas na Espanha, durante o governo de Franco e mais tarde no período democrático, era possível assistir touradas ao vivo pela TV. Em 2006, a RTVE (Radio e TV Espanhola) proibiu a emissão de touradas ao vivo em horários considerados de proteção para a infância (entre 17 e 20hs). No entanto, algumas cadeias autônomas permanecem realizando transmissões ao vivo de touradas de forma regular, como o canal de TV de Castilla La Mancha. A maior parte das transmissões, no entanto, é realizada pelo canal pago “canal + toros”. Atualmente proibida em muitos países, em 2004 a cidade de Barcelona declarou-se antitaurina, depois de uma petição popular  e em 2010 o Parlamento da Catalunha proibiu as corridas de touros em toda a comunidade. Numa pesquisa realizada no começo do século XXI, 31% dos espanhóis se mostraram interessados em relação às touradas, enquanto 69% eram indiferentes. O perfil das pessoas que acompanham as touradas na Espanha é predominantemente masculino, dentro de uma faixa etária superior aos 45 anos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInvariavelmente, as reações às touradas variam da repulsa à fascinação que provocam, e atualmente muitos são os estrangeiros que presenciam as touradas, utilizadas como propaganda turística. É verdade que quase todos os toureiros são corneados ao menos uma vez por temporada. O toureiro Juan Belmonte foi corneado mais de 50 vezes em sua carreira profissional. Desde 1700, 42 toureiros perderam sua vida na arena, sem contar picadores e banderilleros. Por outro lado, mais de 3 mil touros morrem anualmente nas temporadas taurinas. Um dos espetáculos taurinos que mais controvérsias suscitam atualmente é o chamado “Toro de la Vega“, realizado na cidade de Tordesillas (Tordesilhas, em português, a mesma do famoso tratado assinado por Portugal e Espanha em 1494). Esta festividade foi mencionada por primeira vez em 1534 e realiza-se anualmente no mês de setembro dentro das celebrações em honra à padroeira da localidade, N.Sra de la Peña. Abaixo, vemos uma foto da cidade de Tordesillas

OLYMPUS DIGITAL CAMERANeste tipo de espetáculo taurino, os touros partem da Plaza Mayor da cidade, sendo conduzido pelos habitantes locais atravessando a ponte sobre o Rio Duero (que vemos na foto acima) até os campos, onde se realiza uma caça e perseguição aos animais. Caso os touros consigam escapar das investidas, recebem o indulto, isto é, sua vida é perdoada, algo que normalmente não sucede. No século XXI, o “Toro de la Vega” adquiriu um grande protagonismo nos meios de comunicação e junto às associações de proteção aos animais, que denunciaram o cruel sofrimento a que sao submetidos. Em 2016, se proibiu a morte dos touros durante os festejos. Abaixo, vemos um monumento em homenagem ao “Toro de la Vega“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQual o futuro das touradas e dos espetáculos taurinos na Espanha ? As próximas gerações permanecerao fiéis à tradição ou a maioria de seus habitantes serão partidários em abolir este tradicional costume espanhol ?

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta é uma pergunta difícil de responder e somente o tempo dirá qual será o comportamento dos espanhóis e a futura realidade dos espetáculos taurinos. Se atualmente as touradas não gozam do mesmo prestígio que teve em épocas passadas, ainda podemos considerar a Espanha como o País dos Touros

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Os Touros na Arte

Devido a importância que os touros e os espetáculos taurinos exerceram na cultura espanhola, foram retratados nas mais variadas expressões artísticas, como a pintura, escultura, artes decorativas, e também na literatura, na música e no cinema. Nesta série que estou realizando sobre o mundo dos touros na Espanha já publiquei diversas imagens em que os touros aparecem como objeto temático no mundo da arte. Neste post veremos algumas obras em que foram representados nos mais variados estilos e técnicas pictóricas, por diversos e reconhecidos artistas ao longo da história, e também por artistas anônimos. Um exemplo é o pintor e gravador espanhol Antonio Carnicero (1748/1814), que em 1790 realizou uma série de gravados sobre tauromaquia, alguns dos quais encontram-se expostos no Museu de História de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outro gravado em que se representa uma corrida de touros na Plaza Mayor de Madrid, realizado em 1791.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA O genial pintor Francisco de Goya realizou diversas séries de gravados sobre uma ampla variedade temática, que inclui os desastres da Guerra da Independência Espanhola, crítica social e inclusive sobre tauromaquia, já que foi um apaixonado pelas touradas (post publicado em 3/2/2016).

20150816_112346OLYMPUS DIGITAL CAMERAArtistas anônimos deixaram seu registro sobre o mundo dos touros, como no quadro abaixo, intitulado “Corrida de Touros em Cuenca“, realizado em 1661…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA temática taurina aparece também em cenas cotidianas, como neste quadro realizado pelo pintor e escultor Enrique Mélida y Alinari (1838/1892), intitulado “Jugando al toro“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro grande pintor espanhol, Pablo Picasso, explorou o forte simbolismo taurino para representar o horror da Guerra Civil Espanhola no seu famoso “Guernica“, uma das obras de arte fundamentais do século XX, que pode e deve ser contemplado no Museu Reina Sofia de Madrid.

DSC03525Quando estive na cidade de Jaén (Andaluzia) tive a oportunidade de visitar uma exposição sobre Arte Naif, em que os artistas retrataram o mundo taurino, como María Cruz Gutiérrez Segovia, em sua obra “Corrida de Touros“, realizada em 1987.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns artistas retrataram as festividades taurinas que se realizam nos povoados espanhóis, como Marta Rodríguez Salmones, em sua obra “Touros em Turégano“, de 1977…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu Catalina López Sevilla, em sua obra “Touros em Santisteban del Puerto“, de 1984…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo campo da escultura, muitos e renomados artistas como Mariano Benlliure, por exemplo, deixaram seu legado relacionado com a tauromaquia. O artista valenciano realizou o monumento funerário ao grande toureiro Joselito situado no cemitério de Sevilha. Vários outros toureiros foram homenageados com esculturas que foram colocadas em diversas praças de touros espalhadas pelo país, assim como os espetáculos que se organizam em todo o território espanhol. A seguir, vemos uma escultura que representa a tradicional festa da “Vaquilla del Ángel“, organizada na cidade de Teruel (Aragón), cujo início se remonta ao ano 1679.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO ambiente taurino também foi abundantemente recriado na tradicional música espanhola, como na Zarzuela e no Flamenco. Na literatura, em obras de escritores consagrados como Lope de Vega, Cervantes, Rafael Alberti, Vicente Blasco Ibáñez, somente para citar alguns. Nas denominadas Artes Decorativas, os touros aparecem como elementos que embelezam espaços vinculados à tauromaquia, como nas Tabernas, como tivemos oportunidade de salientar…

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