Tarragona Medieval

Com a queda do Império Romano, Tarragona e o território espanhol foram invadidos pelos visigodos. Parece que a conquista foi tranquila, pois não se encontraram sinais de destruição. Os visigodos aproveitaram a estrutura urbana existente. No ano 585, Hermenegildo, irmão do Rei Visigodo Leovigildo, foi assassinado na cidade. Neste período, Tarragona entrou em decadência, com perda paulatina de suas atividades econômicas e população. Entre 713 e 714, foi invadida por um exército muçulmano. A maioria dos estudiosos afirmam que  a cidade foi destruída depois de um assédio de um mês. O Bispo de Tarragona fugiu para a Itália e a cidade careceu de um líder para organizar sua resistência. A antiga Tarraco perde toda sua importância adquirida em época romana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo ano 1129, San Olegario, Bispo de Tarragona, cedeu a cidade ao mercenário Robert Bordet, que foi nomeado Príncipe de Tarragona mediante um ato de vassalagem. O cavalheiro aproveitou a antiga torre romana, conhecida como Torre do Pretório, para no local estabelecer seu castelo. Com a morte de San Olegario, uma série de conflitos jurídicos culminaram na extinção do principado, e Tarragona passou a depender do Condado de Barcelona em 1151. No século XII, a cidade converte-se num núcleo urbano consolidado e centro de um grande território. Seu crescimento realizou-se ocupando a área do antigo Fórum Romano, mantendo a estrutura herdada dos romanos. Em 1171 se inicia a construçao da Catedral de Tarragona, que foi consagrada somente em 1331. O templo foi iniciado dentro do estilo românico, mas finalizada já no estilo gótico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Catedral de Tarragona foi o tema de dois posts, publicados em 8 e 9/4/2013, motivo pelo qual não me estenderei muito sobre ela. Apenas comentar que se trata de um templo belíssimo, e que sua visita é muito recomendável. Abaixo, vemos uma foto geral de seu interior e outra do claustro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFora do recinto defensivo desta época, haviam outras zonas diferenciadas. Por exemplo, a área ocupada pelo antigo Circo Romano transformou-se num núcleo situado fora das muralhas denominada El Corral, acolhendo uma população dedicada ao comércio e pequenas atividades industriais. Outra parte importante, a chamada Vila Nova prolongava-se desde El Corral até o porto, estando dedicada aos cultivos. Abaixo, vemos uma interessantíssima maquete que foi colocada no interior da Torre do Pretório, que nos proporciona uma excelente idéia da Tarragona Medieval na primeira metade do século XV. Foi realizada com dois tipos de madeiras. Uma mais escura, que sinaliza os edifícios romanos que se crê foram reutilizados dentro da estrutura urbana medieval, e uma mais clara, que representa os edifícios construídos na Idade Média.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA sala onde foi situada a maquete constitui uma atração por si só. Foi construída no ano 1368, durante o reinado de Pedro III “El Ceremonioso”, e se considera um dos melhores exemplos da Arquitetura Gótica Civil de toda a Catalunha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém na sala vemos um curioso sarcófago romano do século I, que foi reutilizado por um legionário romano numa época posterior e novamente usado como sepulcro por um nobre medieval.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1348, a Peste Bubônica chegou à Tarragona, causando uma alta taxa de mortalidade. Depois, a cidade começou um processo de reforço de suas antigas muralhas, mediante a construção da chamada La Muralleta, na altura do Circo Romano. Dessa forma, a zona conhecida como El Corral foi incorporado ao núcleo urbano. No século XV, a situaçao política agravou-se, ocasionando uma guerra civil que levou à cidade a mais absoluta decadência. As defesas da cidade foram duramente afetadas, principalmente as relacionadas com La Muralleta. A população mais uma vez diminuiu de maneira drástica e o município declarou-se em quebra. Os efeitos desta guerra foram visíveis na cidade durante muito tempo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo período medieval se conservam muitos outros elementos de interesse, como os arcos góticos do século XIV, que faziam parte da estrutura de um mercado municipal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa sequência, vemos o Palácio Episcopal, também edificado no estilo gótico (século XIV).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO atual Centro Histórico de Tarragona pertence ao período medieval, e outro de seus atrativos é visitar o antigo bairro judeu ou Judería. Estava formada por ruas pequenas, com uma acesso independente ao resto da cidade. Sua proximidade com o castelo real indica que seus habitantes estiveram sob a jurisdição do próprio monarca. A seguir, vemos uma parte do bairro que se conserva atualmente…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa antiga Casa del Degá, um palácio renascentista e barroco, propriedade dos diáconos da Catedral, vemos inscrições romanas e lápides judaicas de época medieval. Atualmente este edifício, totalmente reconstruído, é a sede do Colégio de Engenheiros Industriais de Tarragona.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Finalizamos a matéria com os restos arqueológicos de um importante edifício da Judería de Tarragona, dos séculos XIII e XIV.

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Um Passeio por Reus

O Centro Histórico de Reus oferece vários lugares de interesse para o visitante, e deve ser percorrido à pé, a melhor forma para conhecê-lo. De caminho ao centro constatei uma curiosa figura pendurada num edifício, e me aproximei para ver do que se tratava.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa realidade, esta figura é uma das esculturas mais famosas da cidade, denominada “O Judeu do Raval“. A mediados do século XVIII, o proprietário do edifício instalou uma estátua satírica com o dedo acusador apontando a uma casa, cujo residente era judeu e com o qual manteve uma disputa judicial. Em 1925, a escultura original de 1763 foi transferida ao Museu de Arte e História de Reus, e em 2012 se colocou uma réplica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERABem perto localiza-se a Carrer de Casals (original em catalão. Em espanhol, Calle de Casals), que foi o centro da comunidade judaica (juderia) de Reus. Aproveitei para tirar uma foto da rua…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA pouca distância da Plaza del Mercadal, que vimos no post anterior, vemos a Igreja de Sant Pere, a mais antiga da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPertencente a última fase do estilo gótico, o templo iniciou sua construção em 1512 e foi consagrado em 1569, recebendo a titularidade de São Pedro, padroeiro da cidade (Sant Pere, em catalão). Na fachada principal, vemos uma singela portada com a imagem do santo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa parte superior, podemos admirar a bela roseta da igreja. Abaixo, vemos sua parte externa e também desde o interior da igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACom 60m de altura e planta hexagonal , a Torre Campanário tornou-se famosa por sua escada interior de caracol, motivo de inspiraçao para o arquiteto Antoni Gaudí quando projetou a escada interior (também de caracol) para a Sagrada Família de Barcelona.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs 4 sinos que existiam na torre foram desmantelados durante a Guerra Civil Espanhola (1936/1939) para fabricar armamentos. Atualmente existem apenas 2 sinos, que foram colocados na década de 40.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Guerra Civil prejudicou igualmente o interior do templo, e tanto a decoração quanto os vitrais foram afetados. Por este motivo, os vitrais são modernos e substituíram os originais, depois do término do conflito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs obras de reconstrução do interior foram realizadas pelo arquiteto de Reus César Martinelli. Abaixo, vemos uma foto geral do interior da igreja, destacando sua estrutura gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1941, depois que o retábulo maior do século XVI foi desmontado por seu péssimo estado, se construiu o baldaquino de pedra que vemos atualmente, obra do mencionado arquiteto. O grupo escultórico principal representa ao Príncipe dos Apóstolos com as chaves e a tiara papal, acompanhado pelos 4 Doutores da Igreja, além da representação do Espírito Santo. Embaixo, se colocou uma arca com o busto relicário de São Pedro, feito de prata no século XVII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANa Capela Batismal da igreja foram batizados os filhos ilustres que nasceram na cidade: O General Prim, o pintor Mariano Fortuny e Antoni Gaudí. Na Capela do Santíssimo se guarda o coração do pintor, nascido em Reus em 1838 e falecido em Roma, em 1874.

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Outros Castelos da Espanha

Nesta matéria veremos outros Castelos da Espanha de grande importância histórica. Um dos melhores castelos do norte da Espanha encontramos na cidade de Castro Urdiales, situada na Comunidade de Cantabria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta vila costeira possui um encanto especial, pois sua parte velha encontra-se junto ao mar, estando formada pelo Castelo de Santa Ana, a Igreja de N.Sra de la Asunción e uma ponte, de estilo gótico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Castelo de Santa Ana foi construído a partir do século XII, sendo considerado um dos mais conservados da comunidade. Possui uma planta pentagonal com torres cilíndricas. Curiosamente, em seu interior foi colocado um farol, inaugurado em 1853.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADesde o castelo, as vistas da cidade são espetaculares…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns Castelos e Fortalezas da Espanha foram propriedades eclesiásticas, como o Castelo de Torija, situado na Província de Guadalajara, Comunidade de Castilla La Mancha.

DSC07841Construído no século XIV, seu primeiro proprietário e provavelmente construtor foi Alonso Fernández Coronel, que ocupou importantes cargos durante o reinado de Alfonso XI. Depois, passou a ser propriedade do Arcebispo de Toledo Pedro González de Mendoza no século XV.

DSC07846O castelo está localizado no centro da cidade, em excelente estado de conservação. Possui uma planta quadrada com 3 torres circulares, além da Torre del Homenaje, também de formato quadrado. No Pátio de Armas do castelo funciona um Centro de Interpretação relacionado aos atrativos turísticos da Província de Guadalajara.

DSC07852Em sua Torre del Homenaje podemos visitar um museu dedicado a um livro escrito por Camilo José Cela (1916/2002), congratulado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1989. O livro se intitula “Viaje a la Alcarria“, e nele o escritor narra suas andanças pela Comarca de La Alcarria, onde se encontra a cidade de Torija. Provavelmente, trata-se de o único museu do mundo dedicado apenas a um só livro…Abaixo, vemos uma parte do interior do castelo, e a obra de adaptação do mesmo para sediar os vários centros culturais existentes no interior.

DSC07830Finalizamos a matéria com uma das Fortalezas mais incríveis da Espanha, o Castelo de Coca, situado nesta cidade da Província de Segóvia (Comunidade de Castilla y León).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste castelo é considerado uma das melhores amostras do estilo gótico-mudéjar de todo o país. Foi edificado principalmente com tijolos por mão de obra mourisca, que utilizaram o material também como elemento decorativo, característica do estilo mudéjar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASeu sistema defensivo consta de duas partes cercadas por muralhas, compostas por pequenas torres e um fosso.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Castelo de Coca foi construído pelo Bispo de Ávila e Arcebispo de Sevilha Don Alonso de Fonseca a partir de 1453, depois da permissão dada pelo Rei Juan II para sua construção.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO castelo conserva excelentes amostras de pintura mudéjar, que podemos observar em seu interior…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, a Torre del Homenaje

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA última parte da matéria sobre os Castelos e Fortalezas da Espanha estará dedicada aos castelos que foram adaptados como hotéis da rede dos Paradores Nacionais, e que veremos no próximo post…

Casa de las Conchas – Salamanca

Qualquer pessoa que caminhe pelo Centro Histórico de Salamanca se surpreenderá com a grande quantidade de palácios nobres existentes, que integram o patrimônio histórico da cidade declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Um dos que mais chamam a atenção do visitante é, sem dúvida nenhuma, a famosa Casa de las Conchas, assim denominada pela grande quantidade de conchas que aparecem como elemento decorador de sua fachada principal. 

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa segunda metade do século XV, com o final das lutas nobiliárias e a derrota definitiva dos muçulmanos com a conquista de Granada, sucedida durante o reinado dos Reis Católicos em 1492, as cidades tornam-se um espaço mais seguro. A nobreza abandona os castelos rurais e retornam ao mundo urbano, construindo palácios que se convertem no símbolo de seu poder. Neles se observan, no entanto, reminiscências das antigas fortalezas medievais, como as altas torres. Os muros, tanto exteriores, quanto interiores, se ornamentam com os brasões do proprietário, como ocorre com a Casa de las Conchas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm ano depois da descoberta do continente americano e da conquista de Granada, um alto funcionário do reino, Don Rodrigo Arias Maldonado, ordenou a construção deste original edifício, cujas obras finalizaram em 1517. Trata-se de um dos melhores exemplos da Aquitetura Gótica Civil da Espanha. No princípio, os Reis Católicos haviam ordenado a derrubada de vários palacetes nobres erguidos com torres, principalmente daquelas famílias que contestavam seu poder. Aqueles que apoiaram a monarquía foram favorecidos, como no caso de Don Rodrigo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExistem aproximadamente 300 conchas na fachada do palácio, e muito se especula sobre a presença deste elemento na decoração. Don Rodrigo, embaixador do rei em Paris e Lisboa, foi também catedrático na Universidade de Salamanca e membro da Ordem de Santiago, sendo que as conchas são consideradas um símbolo do Apóstolo Santiago. Sua presença demonstra o orgulho que sentia o proprietário por pertencer à ordem. Seu emblema, formado por 5 flores de lis, se combina com o de sua esposa Dona Juana, pertencente a família dos Pimentel, que também utilizava em sua heráldica as conchas como motivo principal. Sua presença na fachada seria, portanto, uma prova de amor. As conchas se destacam na fachada, junto com as janelas góticas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExistem várias lendas a respeito de tesouros ocultos que foram colocados debaixo das conchas pelos proprietários do palácio. No entanto, era comum na época colocar moedas de ouro na estrutura do edifício para atrair boa sorte. Outra lenda postula que a família escondeu umas jóias debaixo de uma das conchas, deixando documentada a quantidade escondida, mas não a concha escolhida. Aquele que tentasse desvendar o mistério e a localizaçao exata das jóias deveria aportar antecipadamente a quantidade estipulada como fiança. Se lograsse encontrar as jóias, ficaria com o tesouro descoberto e recuperaria a fiança. Do contrário, perderia a fiança…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior do palácio se organiza em torno a um pátio, algo habitual nos edifícios nobres. Nele convivem vários estilos artísticos, cuja coexistência marcou o final do século XV, pois o gótico, em sua última fase, na Espanha denominado Gótico Isabelino, se mistura com o Estilo Mudéjar, tradicional no país, como podemos observar no artesanato que decora o teto do nível superior do pátio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstes dois estilos artísticos se combinam com as novas formas renascentistas, enriquecidas por fantásticos personagens grotescos, abundantes no pátio sob o aspecto de gárgulas. Esta nova corrente importada da Itália foi trazida ao país pela nobreza e o clero, grande parte formada na Universidade de Salamanca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERATodo o pátio foi decorado com o escudo dos proprietários, como vemos a seguir. Ao fundo, aparece o Ernesto, que me foi apresentado pelos meus amigos Marcelo e Cristina, e que tive o prazer de sua companhia em Ávila e Salamanca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nível inferior do pátio está formado pelos denominados Arcos Mixtilíneos

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO nível superior foi feito com mármore branco, possivelmente de Carrara. Abaixo, vemos a bela escada que conduz à parte superior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Casa de las Conchas também exerceu como função ser prisão da Universidade. Está situada em frente a Igreja de la Clerecía, cuja parte da fachada principal vemos desde o pátio…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1929, a Casa de las Conchas de Salamanca foi declarada Monumento Nacional e atualmente alberga a Biblioteca Municipal, além de converter-se num espaço para exposições culturais.

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Explorando a Universidade de Salamanca

Salamanca é conhecida mundialmente não só por seu centro histórico monumental, mas também por sua Universidade, uma das instituições de ensino de maior influência da Europa ao longo dos séculos, e que foi o tema de um post publicado em 25/4/2012. Desta vez tive a oportunidade de conhecer boa parte dos edifícios que compõem o campus universitário, complementando a matéria publicada naquele dia. Esta Universidade Pública é considerada  a mais antiga da Espanha e de todo o mundo hispano, e junto com as Universidades de Bolonha, Paris e Oxford, constitui uma das mais antigas de todo o continente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo ano passado completou 800 anos de existência, pois o germe de sua fundação foram os chamados “Estudios Generales“, instituído pelo Rei Alfonso IX de León no ano 1218.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua origem, como as demais universidades européias, foram as denominadas escolas catedralícias, cuja existência se remonta, ao menos, ao final do século XII. Em 1218, Alfonso IX outorgou a categoria de “Estudios Generales” a estas escolas, com o nome de”Studii Salamantini“. Este título manifesta a variedade de disciplinas existentes, seu caráter público (aberto a todos) e a validez de seu diploma. Nasceu como uma universidade eminentemente jurídica, em consonância com a de Bolonha, e em contraste com as de Oxford e Paris, mais voltadas às Belas Artes e a Teologia. Foi a primeira da Europa em contar com uma Biblioteca Pública, ainda hoje considerada uma das maiores da Espanha, e que pode ser visitada.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo início, a Universidade de Salamanca foi financiada pela igreja e seus fundos procediam dos dízimos eclesiásticos, um imposto sobre os produtos agrícolas. Desta forma, bispos ambiciosos permaneciam pouco tempo no cargo, solicitando que fossem transferidos para outras cidades. Por este motivo, muitos dos bispos de Salamanca foram pessoas de grande preparo intelectual e interessados no devenir da universidade sendo, com frequência, catedráticos e reitores. No entanto, a situação econômica da instituição esteve influenciada pelas crises agrárias que se produziam regularmente durante a Idade Média.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANeste período inicial, as disciplinas acadêmicas eram Direito, Medicina, Lógica, Gramática e Música. Os professores de Direito gozavam de um maior salário, em relação às demais disciplinas. Um 1255, a bula papal de Alejandro IV outorgou à universidade a “Licentia Ubique Docendi“, reconhecendo a validez universal de seus títulos. Somente no final do século XIV iniciaram os estudos de Teologia. As aulas eram dadas todas em latim, facilitando a mobilidade internacional de professores e estudantes, embora neste período a maior parte dos alunos pertenciam à Península Ibérica. No final do século XIV estudavam na universidade entre 500 e 600 alunos. Durante o século XV, o crescimento da universidade fez com que o aumento do número de alunos  chegasse aos 3 mil no início do século seguinte. Todos eram homens, predominando os clérigos sobre os laicos. A instituição tardou séculos em obter edifícios próprios. Até o século XV, as aulas eram realizadas no claustro da Catedral Velha de Salamanca, em casas alugadas ou em outras fundações religiosas, caso da Igreja de San Benito, que se destaca por sua fábrica gótica, seus poderosos contrafortes e a portada principal, com um relevo da Anunciação

OLYMPUS DIGITAL CAMERA OLYMPUS DIGITAL CAMERAO primeiro edifício universitário foi o chamado Colégio Mayor de San Bartolomé, cuja construção iniciou-se em 1401. Sua estrutura foi terrivelmente afetada pelo Terremoto de Lisboa de 1755. O cardeal aragonês Pedro de Luna, que posteriormente assumiu o cargo de pontífice com o nome de Benedito XIII, foi um grande protetor da universidade, impulsionando a compra dos primeiros edifícios. Na Constituição de 1411, ordenou a criação das chamadas Escolas Maiores, com os títulos de licenciatura e doutorado, e que atualmente constituem um dos principais edifícios históricos da universidade e sua imagem mais conhecida.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa praça onde se levanta o edifício do Colégio Mayor da Universidade de Salamanca, vemos um monumento em homenagem a Fray Luis de León (1528/1591), teólogo, humanista e religioso pertencente à Ordem de Santo Agostinho, e considerado um dos maiores poetas do Renascimento Espanhol.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1413, o Rei Juan II ordenou a construção do Hospital del Estudio, situado na mesma praça, que era utilizado como local de hospedagem para estudantes com poucos recursos. Atualmente este edifício histórico alberga a Reitoria da Universidade de Salamanca. Abaixo, vemos a fachada de estilo gótico com a imagem de Santo Tomás de Aquino

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1428 iniciou-se a construção das chamadas Escolas Menores, que serviam de preparação ao ingresso na universidade, na qual se obtinha o título de bacharelato, situada ao lado do Edifício da Reitoria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo e acima, vemos a entrada às Escolas Menores

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE seu belo pátio com aspecto de claustro monacal…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAo fundo da imagem, ergue-se a torre da Catedral Nova de Salamanca

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA matéria sobre a história da Universidade de Salamanca continuará no próximo post…

Na Torre da Catedral de Ávila

A Catedral de Ávila é outra das atrações históricas da cidade, e foi tema de uma série de 3 posts, publicados nos dias 21, 22 e 23/01/2017. Considerada a primeira catedral de estilo gótico na Espanha, foi edificada como templo e como fortaleza, já que o ábside da construção constitui um dos cubos da própria muralha de Ávila, algo inédito nos edifícios catedralícios, como vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão se sabe com precisão quando começou a ser levantada. A teoria mais aceita diz que data de mediados do século XII, cujo projeto foi realizado por um mestre francês chamado Fruchel, coincidindo com o processo de repovoamento de terras castelhanas por Raimundo de Borgoña, genro do Rei Alfonso VI. A parte construída por Fruchel, correspondente ao altar maior da catedral, se insere no estilo românico de transiçao ao gótico. Posteriormente, outros mestres finalizaram as obras da catedral (naves, capelas e o remate das torres) já no estilo gótico. Abaixo, vemos a fachada principal da Catedral de Ávila e seu impressionante aspecto de fortaleza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo vemos na imagem acima, se construiu apenas uma torre, a outra permaneceu inacabada. O primeiro corpo da torre campanário data do século XIII, assim como as naves da igreja. As bôvedas (teto) e o segundo corpo da torre campanário datam do século XIV. No século XV, finalmente se finaliza todas as obras da catedral. Abaixo, vemos uma foto de seu interior, destacando sua bôveda de crucería, característica da arquitetura gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesta última vez que estive em Ávila com o Marcelo, a Cristina e o Ernesto, tivemos a oportunidade de subir no alto da torre campanário, um passeio imperdível que proporciona visitar lugares de uma catedral que normalmente estão fechados ao público. Antes de chegar na parte mais elevada da torre, pudemos contemplar umas excelentes vistas da nave central da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA torre campanário possui 7 sinos (campanas, em espanhol), cada qual com seu nome de batismo, como “Maria Teresa”, “Platera”, devido à presença de prata em sua fabricação, ou “San Segundo”, em homenagem ao Santo Padroeiro de Ávila. Abaixo, vemos algumas delas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, uma foto da torre inacabada, que foi fechada com tijolos, mas que deixa à vista uma parte da construção de pedra…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA visita inclui um elemento que normalmente os visitantes não têm acesso, a estrutura de madeira construída como sustentação do telhado ou cobertura da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto curioso foi observar as diversas marcas de canteiros ao longo da construção. Estas marcas talhadas na pedra constituem uma espécie de assinatura dos trabalhadores que colaboraram na edificação da catedral. Cada um deles possuía uma marca diferente e, desta forma, podiam cobrar pelo trabalho realizado. As marcas de canteiros são habituais nas catedrais românicas e góticas. Abaixo, vemos algumas das que descobrimos no passeio…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto que me surpreendeu está relacionado com o antigo ofício dos campaneiros. Na realidade, este termo se refere a dois ofícios tradicionais, designando aqueles responsáveis pela fabricação dos sinos (elaboração do molde e posterior fundição do metal) e também às pessoas que realizavam os toques das campanas. Sempre pensei de como seria a vida destes trabalhadores que executavam este trabalho de tocar os sinos e, na visita à torre, muitas perguntas foram respondidas. A primeira questionava onde viviam e o mais curioso, é que residiam na própria torre, ao nível dos próprios sinos. A torre da Catedral de Ávila conserva maravilhosamente a casa do campaneiro. De estilo castelhano humilde, parece incrível que se manteve intacta. Os campaneiros nela viveram até os anos 50 do século XX. A residência possuía sala, alcobas, cozinha com chaminé, banheiro, etc…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA casa dos campaneiros foi construída aos pés da catedral, sobre a bôveda gótica. Para visitá-la, subimos os 113 degraus de uma escada em espiral, que salva a diferença entre o solo da catedral e sua cobertura. Nela se desenvolvia  a vida familiar dos campaneiros, sendo praticamente tarefa de todos seus membros realizar o toque das campanas, durante todo o dia. Frequentemente, o ofício passava de pai para filho, e as condições de vida eram extremamente duras, como nos explicou o guia que conduziu a visita. Em primeiro lugar, tinham que suportar um frio aterrador, numa cidade na qual as temperaturas normalmente atingem mínimas negativas, e muitos padeciam de doenças respiratórias. Além do mais, muitos campaneiros, depois de uma longa vida dedicada ao ofício, ficavam surdos com o forte som decorrente dos sinos. Em seus momentos de ócio, construíram pequenos jogos talhados nas pedras da torre (algo parecido com o atual jogo de damas), como vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs dificuldades de acesso a esta peculiar residência fizeram com que fossem criados mecanismos de abastecimento e comunicação com o mundo exterior. O sistema implantado na Catedral de Ávila se resume a uma corda atada a uma polea que se utilizava para para subir alimentos e água, além de outros objetos essenciais à vida, e para baixar tudo aquilo que já não servia. Abaixo, vemos o sistema desde o solo da catedral e em sua parte superior, junto à casa dos campaneiros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante séculos as campanas funcionaram como uma forma de comunicação social, anunciando festas, falecimentos e os atos litúrgicos, entre outros. O ofício de campaneiros data do período medieval em sua concepção atual. Atualmente, está em perigo de extinção com o desenvolvimento de métodos eletromecânicos para os toques de sinos e muitos aspiram que o toque manual seja declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. As campanas e seus variados sons constituem um maravilhoso universo, e seu estudo denomina-se Campanologia. Para saber mais sobre elas, ver as matérias publicadas em 6 e 7/3/2018, cujo tema foi o Museu das Campanas da belíssima cidade de Urueña, também situada na Comunidade de Castilla y León.

Plaza de San Mateo – Cáceres

Prosseguindo com as matérias sobre a belíssima cidade de Cáceres, o post de hoje está dedicado a outros de seus espaços icônicos, a Plaza de San Mateo. Nela podemos visitar uma das igrejas mais importantes da cidade, um palácio e o Museu de Cáceres. A praça está presidida pela Igreja de San Mateo, cuja construção finalizou-se em 1602 sobre uma antiga mesquita islâmica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar da estrutura ter sido concluída no início do século XVII, sua torre campanário é do século XVIII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO interior do templo possui apenas uma nave, e seu retábulo maior constitui uma verdadeira obra prima. Foi realizado com madeira de pino sem policromar pelo artista Vicente Barbadillo no estilo rococó, em 1765.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAComo ocorre com outras igrejas da cidade, na Igreja de San Mateo também apreciamos túmulos pertencentes às famílias nobres de Cáceres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos um dos belos vitrais da igreja, com a representação do Batismo de Cristo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO templo também acolhe um interessante conjunto de pinturas religiosas, como a que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1982, esta igreja foi declarada Monumento Histórico-Artístico. Ao seu lado situa-se outra das residências nobres de Cáceres, o chamado Palácio de las Cigueñas (cegonha, em português), assim denominado por esta espécie de ave que costuma construir seus ninhos no alto de sua esbelta torre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste imponente palácio foi construído no final do século XV no estilo gótico pelo capitão Diego de Cáceres Ovando, com a permissão dos Reis Católicos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO palácio possui um pátio interior, como normalmente ocorre nas residências nobres antigas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, realizam-se exposições temporárias no interior do palácio. Tive a oportunidade de visitar uma delas, sobre a história militar do país e admirar alguns detalhes decorativos do seu interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm frente ao Palácio de las Cigueñas vemos o Convento de San Pablo, fundado em 1492. Sua fachada destaca-se pela austeridade, mas apresenta uma bonita espadaña, como se conhece na arquitetura uma estrutura levantada com a função de campanário.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAHoje em dia, o convento acolhe uma comunidade de freiras de clausura pertencente a Ordem de Santa Clara. No próximo post, veremos o Museu de Cáceres, também situado na Plaza de San Mateo