Tarragona Medieval

Com a queda do Império Romano, Tarragona e o território espanhol foram invadidos pelos visigodos. Parece que a conquista foi tranquila, pois não se encontraram sinais de destruição. Os visigodos aproveitaram a estrutura urbana existente. No ano 585, Hermenegildo, irmão do Rei Visigodo Leovigildo, foi assassinado na cidade. Neste período, Tarragona entrou em decadência, com perda paulatina de suas atividades econômicas e população. Entre 713 e 714, foi invadida por um exército muçulmano. A maioria dos estudiosos afirmam que  a cidade foi destruída depois de um assédio de um mês. O Bispo de Tarragona fugiu para a Itália e a cidade careceu de um líder para organizar sua resistência. A antiga Tarraco perde toda sua importância adquirida em época romana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo ano 1129, San Olegario, Bispo de Tarragona, cedeu a cidade ao mercenário Robert Bordet, que foi nomeado Príncipe de Tarragona mediante um ato de vassalagem. O cavalheiro aproveitou a antiga torre romana, conhecida como Torre do Pretório, para no local estabelecer seu castelo. Com a morte de San Olegario, uma série de conflitos jurídicos culminaram na extinção do principado, e Tarragona passou a depender do Condado de Barcelona em 1151. No século XII, a cidade converte-se num núcleo urbano consolidado e centro de um grande território. Seu crescimento realizou-se ocupando a área do antigo Fórum Romano, mantendo a estrutura herdada dos romanos. Em 1171 se inicia a construçao da Catedral de Tarragona, que foi consagrada somente em 1331. O templo foi iniciado dentro do estilo românico, mas finalizada já no estilo gótico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Catedral de Tarragona foi o tema de dois posts, publicados em 8 e 9/4/2013, motivo pelo qual não me estenderei muito sobre ela. Apenas comentar que se trata de um templo belíssimo, e que sua visita é muito recomendável. Abaixo, vemos uma foto geral de seu interior e outra do claustro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFora do recinto defensivo desta época, haviam outras zonas diferenciadas. Por exemplo, a área ocupada pelo antigo Circo Romano transformou-se num núcleo situado fora das muralhas denominada El Corral, acolhendo uma população dedicada ao comércio e pequenas atividades industriais. Outra parte importante, a chamada Vila Nova prolongava-se desde El Corral até o porto, estando dedicada aos cultivos. Abaixo, vemos uma interessantíssima maquete que foi colocada no interior da Torre do Pretório, que nos proporciona uma excelente idéia da Tarragona Medieval na primeira metade do século XV. Foi realizada com dois tipos de madeiras. Uma mais escura, que sinaliza os edifícios romanos que se crê foram reutilizados dentro da estrutura urbana medieval, e uma mais clara, que representa os edifícios construídos na Idade Média.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA sala onde foi situada a maquete constitui uma atração por si só. Foi construída no ano 1368, durante o reinado de Pedro III “El Ceremonioso”, e se considera um dos melhores exemplos da Arquitetura Gótica Civil de toda a Catalunha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATambém na sala vemos um curioso sarcófago romano do século I, que foi reutilizado por um legionário romano numa época posterior e novamente usado como sepulcro por um nobre medieval.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1348, a Peste Bubônica chegou à Tarragona, causando uma alta taxa de mortalidade. Depois, a cidade começou um processo de reforço de suas antigas muralhas, mediante a construção da chamada La Muralleta, na altura do Circo Romano. Dessa forma, a zona conhecida como El Corral foi incorporado ao núcleo urbano. No século XV, a situaçao política agravou-se, ocasionando uma guerra civil que levou à cidade a mais absoluta decadência. As defesas da cidade foram duramente afetadas, principalmente as relacionadas com La Muralleta. A população mais uma vez diminuiu de maneira drástica e o município declarou-se em quebra. Os efeitos desta guerra foram visíveis na cidade durante muito tempo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo período medieval se conservam muitos outros elementos de interesse, como os arcos góticos do século XIV, que faziam parte da estrutura de um mercado municipal.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa sequência, vemos o Palácio Episcopal, também edificado no estilo gótico (século XIV).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO atual Centro Histórico de Tarragona pertence ao período medieval, e outro de seus atrativos é visitar o antigo bairro judeu ou Judería. Estava formada por ruas pequenas, com uma acesso independente ao resto da cidade. Sua proximidade com o castelo real indica que seus habitantes estiveram sob a jurisdição do próprio monarca. A seguir, vemos uma parte do bairro que se conserva atualmente…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa antiga Casa del Degá, um palácio renascentista e barroco, propriedade dos diáconos da Catedral, vemos inscrições romanas e lápides judaicas de época medieval. Atualmente este edifício, totalmente reconstruído, é a sede do Colégio de Engenheiros Industriais de Tarragona.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Finalizamos a matéria com os restos arqueológicos de um importante edifício da Judería de Tarragona, dos séculos XIII e XIV.

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Na Torre da Catedral de Ávila

A Catedral de Ávila é outra das atrações históricas da cidade, e foi tema de uma série de 3 posts, publicados nos dias 21, 22 e 23/01/2017. Considerada a primeira catedral de estilo gótico na Espanha, foi edificada como templo e como fortaleza, já que o ábside da construção constitui um dos cubos da própria muralha de Ávila, algo inédito nos edifícios catedralícios, como vemos abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANão se sabe com precisão quando começou a ser levantada. A teoria mais aceita diz que data de mediados do século XII, cujo projeto foi realizado por um mestre francês chamado Fruchel, coincidindo com o processo de repovoamento de terras castelhanas por Raimundo de Borgoña, genro do Rei Alfonso VI. A parte construída por Fruchel, correspondente ao altar maior da catedral, se insere no estilo românico de transiçao ao gótico. Posteriormente, outros mestres finalizaram as obras da catedral (naves, capelas e o remate das torres) já no estilo gótico. Abaixo, vemos a fachada principal da Catedral de Ávila e seu impressionante aspecto de fortaleza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComo vemos na imagem acima, se construiu apenas uma torre, a outra permaneceu inacabada. O primeiro corpo da torre campanário data do século XIII, assim como as naves da igreja. As bôvedas (teto) e o segundo corpo da torre campanário datam do século XIV. No século XV, finalmente se finaliza todas as obras da catedral. Abaixo, vemos uma foto de seu interior, destacando sua bôveda de crucería, característica da arquitetura gótica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADesta última vez que estive em Ávila com o Marcelo, a Cristina e o Ernesto, tivemos a oportunidade de subir no alto da torre campanário, um passeio imperdível que proporciona visitar lugares de uma catedral que normalmente estão fechados ao público. Antes de chegar na parte mais elevada da torre, pudemos contemplar umas excelentes vistas da nave central da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA torre campanário possui 7 sinos (campanas, em espanhol), cada qual com seu nome de batismo, como “Maria Teresa”, “Platera”, devido à presença de prata em sua fabricação, ou “San Segundo”, em homenagem ao Santo Padroeiro de Ávila. Abaixo, vemos algumas delas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir, uma foto da torre inacabada, que foi fechada com tijolos, mas que deixa à vista uma parte da construção de pedra…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA visita inclui um elemento que normalmente os visitantes não têm acesso, a estrutura de madeira construída como sustentação do telhado ou cobertura da catedral.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto curioso foi observar as diversas marcas de canteiros ao longo da construção. Estas marcas talhadas na pedra constituem uma espécie de assinatura dos trabalhadores que colaboraram na edificação da catedral. Cada um deles possuía uma marca diferente e, desta forma, podiam cobrar pelo trabalho realizado. As marcas de canteiros são habituais nas catedrais românicas e góticas. Abaixo, vemos algumas das que descobrimos no passeio…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro aspecto que me surpreendeu está relacionado com o antigo ofício dos campaneiros. Na realidade, este termo se refere a dois ofícios tradicionais, designando aqueles responsáveis pela fabricação dos sinos (elaboração do molde e posterior fundição do metal) e também às pessoas que realizavam os toques das campanas. Sempre pensei de como seria a vida destes trabalhadores que executavam este trabalho de tocar os sinos e, na visita à torre, muitas perguntas foram respondidas. A primeira questionava onde viviam e o mais curioso, é que residiam na própria torre, ao nível dos próprios sinos. A torre da Catedral de Ávila conserva maravilhosamente a casa do campaneiro. De estilo castelhano humilde, parece incrível que se manteve intacta. Os campaneiros nela viveram até os anos 50 do século XX. A residência possuía sala, alcobas, cozinha com chaminé, banheiro, etc…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA casa dos campaneiros foi construída aos pés da catedral, sobre a bôveda gótica. Para visitá-la, subimos os 113 degraus de uma escada em espiral, que salva a diferença entre o solo da catedral e sua cobertura. Nela se desenvolvia  a vida familiar dos campaneiros, sendo praticamente tarefa de todos seus membros realizar o toque das campanas, durante todo o dia. Frequentemente, o ofício passava de pai para filho, e as condições de vida eram extremamente duras, como nos explicou o guia que conduziu a visita. Em primeiro lugar, tinham que suportar um frio aterrador, numa cidade na qual as temperaturas normalmente atingem mínimas negativas, e muitos padeciam de doenças respiratórias. Além do mais, muitos campaneiros, depois de uma longa vida dedicada ao ofício, ficavam surdos com o forte som decorrente dos sinos. Em seus momentos de ócio, construíram pequenos jogos talhados nas pedras da torre (algo parecido com o atual jogo de damas), como vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAs dificuldades de acesso a esta peculiar residência fizeram com que fossem criados mecanismos de abastecimento e comunicação com o mundo exterior. O sistema implantado na Catedral de Ávila se resume a uma corda atada a uma polea que se utilizava para para subir alimentos e água, além de outros objetos essenciais à vida, e para baixar tudo aquilo que já não servia. Abaixo, vemos o sistema desde o solo da catedral e em sua parte superior, junto à casa dos campaneiros.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante séculos as campanas funcionaram como uma forma de comunicação social, anunciando festas, falecimentos e os atos litúrgicos, entre outros. O ofício de campaneiros data do período medieval em sua concepção atual. Atualmente, está em perigo de extinção com o desenvolvimento de métodos eletromecânicos para os toques de sinos e muitos aspiram que o toque manual seja declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. As campanas e seus variados sons constituem um maravilhoso universo, e seu estudo denomina-se Campanologia. Para saber mais sobre elas, ver as matérias publicadas em 6 e 7/3/2018, cujo tema foi o Museu das Campanas da belíssima cidade de Urueña, também situada na Comunidade de Castilla y León.

Um Passeio por Trujillo

Trujillo está situada a cerca de 50 km de Cáceres, a capital provincial, e cidade onde me hospedei para explorar seu impressionante centro histórico, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Em breve, publicarei diversas matérias sobre esta cidade da Extremadura. Em Trujillo, passeio um dia inteiro, tempo suficiente para conhecer seus principais pontos turísticos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATrujillo possui um verdadeiro encanto, e passear à pé por seu centro histórico possibilita conhecer edifícios históricos de grande interesse, como a Igreja de Santiago, construída no século XIII pela Ordem de Santiago. Originalmente de estilo românico, foi reformada no século XVII. Nela se reunia o conselho da cidade, numa época em que ainda não existiam as chamadas Casas Consistoriais, ou prefeitura. Ao lado do templo, vemos a Porta de Santiago, uma das portas da muralha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA atual Prefeitura de Trujillo está sediada num edifício construído em 1566.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntigamente neste edifício situava-se o pósito, isto é, um local utilizado como armazenamento de grãos para serem distribuídos em época de colheitas insuficientes (este aspecto reflete a relevância da cidade, pois este tipo de construção somente existia nas cidades mais importantes). Foi também prisão de Trujillo, e em 1888 passou a ser a sede do Ayuntamiento (prefeitura), momento em que foi reformado para sua nova função. Em cima da porta de madeira, vemos o escudo da cidade, um dos mais antigos de Extremadura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro local significativo do ponto de vista histórico e cultural é o Monastério de San Francisco “El Real”, fundado na segunda metade do século XV para a comunidade religiosa da Ordem das Clarissas.

DSC02237As religiosas que o habitaram pertenciam à nobreza local e teve grande influência na vida da cidade. Por este motivo, o Rei Juan II concedeu o título de “Real” ao convento, pelos serviços prestados. Sua igreja foi construída no estilo gótico. Abaixo, vemos algumas fotos do claustro

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo final do século XVIII, o monastério entrou em decadência, processo que culminou com a Invasão Francesa de início do século XIX. Finalmente, com a Desamortização de Mendizábal de 1836, as freiras foram obrigadas a abandoná-lo. Em 1969, o professor Xavier de Salas iniciou um processo de restauração que finalizou somente em 1981, quando o antigo convento passou a ser a sede da fundação que leva seu nome. Seu objetivo primordial é a promoção e defesa do patrimônio histórico de Trujillo e também das artes e das culturas hispano-americanas, servindo de elo entre a Espanha e o continente americano. A vista é gratuita e podemos encontrar diversos objetos procedentes das culturas de diversos países da América Latina. De grande beleza são os objetos artesanais, como esta reproduçao da Catedral Peruana de Huamanga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPeças provenientes dos antigos povos pré colombianos também fazem parte da exposição, além de outros ofícios artesanais.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO próximo post estará dedicado à Plaza Mayor de Trujillo, um belíssimo local que se transformou num dos símbolos da cidade. Finalizo a presente matéria com outras imagens do Centro Histórico de Trujillo.

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Igreja de Santa María – Trujillo

Caminhando por Trujillo sobressai em sua paisagem a belíssima Igreja de Santa María “La Mayor”, considerada o templo religioso de maior importância da cidade. Se acredita que foi levantada sobre uma das mesquitas de Trujillo, no século XIII dentro da estética românica.

DSC02236Deste período inicial, destaca a Torre Campanário, cuja beleza pode ser admirada desde vários pontos do centro histórico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns autores afirmam, equivocadamente, que antes havia no local um templo dedicado ao Imperador Romano Júlio César, motivo pelo qual passou a ser conhecida como “Torre Júlia“. Duramente castigada ao longo do tempo, a torre campanário sofreu graves danos durante os terremotos de Lisboa de 1521 e 1755, qua causaram estragos por toda a Extremadura. Em 1871, a torre teve que ser demolida, mas foi fielmente reconstruída segundo os gravados da época. Ao seu lado, ergue-se a chamada “Torre Nova“, construída a partir do século XVI e rematada somente no XVIII.

20181209_120929É possível subir a parte mais elevada de ambas torres. Preferi subir à “Torre Júlia“, cujas vistas compensam o esforço. Abaixo, vemos a “Torre Nova” e o Castelo de Trujillo

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA seguir vemos uma foto da parte mais alta da “Torre Júlia“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando a igreja foi edificada no século XIII, depois da reconquista da cidade, o templo foi consagrado a Virgem Maria da Assunção. No século XVI, a estrutura foi reformada em sua maior parte no estilo gótico com elementos renascentistas, como podemos apreciar em sua fachada.

20181209_120939A roseta que preside a fachada (rosetón, em espanhol) pertence ao gótico e foi construída em 1550, durante a reforma da igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos elementos interiores que chamam mais a atenção é o coro, de estilo plateresco, também construído em 1550.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo entanto, a Igreja de Santa María de Trujillo é conhecida por seu espetacular Retábulo Mayor, obra do pintor gótico espanhol Fernando Gallego (1440/1507), que o realizou em torno a 1480.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFernando Gallego insere-se dentro do estilo hispano-flamenco, e foi influenciado pelo pintor Rogier Van der Weiden. Atualmente, contemplamos a obra em todo seu esplendor, depois que foi restaurado no século XX. O retábulo combina elementos da pintura flamenca, alemã e da escola castelhana e suas cenas giram em torno a episódios da vida da Virgem Maria.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo interior da igreja existe uma grande quantidade de sepulcros pertencentes à nobreza local, além de magníficas obras de arte.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1943, a Igreja de Santa María de Trujillo foi declarada Monumento Nacional, devido a sua importância histórica e artística. Antes de finalizar a matéria, desejo a todos os (as) leitores (as) um maravilhoso Natal e um ano de 2019 repleto de alegrias e momentos inesquecíveis. Um grande abraço a todos (as)…

 

Espanha: Patrimônios da Humanidade (Parte 5)

Na matéria de hoje, veremos os lugares do norte da Espanha declarados Patrimônios da Humanidade pela Unesco. O Caminho de Santiago sempre foi, historicamente, um dos principais centros de peregrinação do mundo. Os peregrinos que caminhavam rumo ao sepulcro do Apóstolo Santiago, situado na Catedral de Santiago de Compostela, possibilitaram um fértil intercâmbio de idéias que favoreceu o desenvolvimento do norte do país. Por exemplo, uma das vías de entrada do Estilo Românico na Espanha foi justamente o Caminho de Santiago, e em seu trajeto podemos admirar várias construções emblemáticas do estilo, como a Igreja de San Martín de Frómista, entre muitas outras.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitas das cidades atualmente existentes foram fundadas graças a esta trilha sagrada, como Puente de la Reina, situada na Comunidade de Navarra, cuja ponte construída para a passagem dos peregrinos deslumbra a todos aqueles que a cruzam.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO mais frequentado de todos os Caminhos que levam à Santiago de Compostela, o denominado Caminho Francês, foi declarado P.H. em 1993. Em 2015, o chamado Caminho do Norte, cujo trajeto passa por belas paisagens e praias da costa norte do país, também foi incluído na lista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA bela capital do Principado de Asturias, Oviedo, possui um importante patrimônio histórico, repleto de monumentos de grande relevância, como sua catedral gótica, além de um excepcional conjunto de igrejas construídas no período pré românico, que foram designadas Patrimônios da Humanidade em 1985 e cuja lista ampliou-se em 1998.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAArte Paleolítica do Norte da Espanha, que inclui a famosa Caverna de Altamira, recebeu o título em 1986. Situada na Comunidade da Cantábria e próxima a um dos pueblos mais belos do país, Santillana del Mar, a Caverna de Altamira é considerada a “Capela Sixtina da Arte Paleolítica“, graças ao excepcional conjunto de pinturas rupestres que possui. Atualmente, perto da entrada da caverna, existe uma museu onde se pode contemplar uma réplica exata da caverna original, cuja visita somente é permitida para arqueólogos e estudiosos do tema.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Arquitetura Industrial também foi contemplada como P.H. na Espanha. Um exemplo é a magistral Ponte de Vizcaya, o principal monumento do município de Portugalete, situado a pouca distância de Bilbao, no País Vasco. Inaugurada em 1893, é também denominada Ponte Colgante e foi projetada pelo arquiteto Alberto Palácio Elissague. Uma das mais destacadas obras da arquitetura de ferro, decorrente da Revolução Industrial, esta ponte foi a primeira de sua tipologia construída em todo o mundo e recebeu o título de P.H. em 2006.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANa Comunidade da Rioja, famosa internacionalmente por seus deliciosos vinhos, situa-se o município de San Millán de Cogolla, que acolhe dois monastérios construídos em épocas diferentes. O chamado de San Millán de Suso foi fundado no século VI por San Millán, enquanto San Millán de Yuso pertence ao século XI, embora se reconstruiu entre os séculos XVI e XVIII. Um dos centros espirituais mais importantes do antigo Reino de Castilla, neste monastério foi escrita a obra mais antiga do idioma castelhano, as “Glosas Emilianenses“, motivo pelo qual é considerado o berço do idioma espanhol. Foi declarado P.H. em 1997.

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Ermita de San Pantaleón de la Losa

A região de Las Merindades possui um rico e diverso patrimônio histórico, composto por inúmeros castelos, edifícios relevantes e igrejas nos mais variados estilos. Entre todos, destaca o Estilo Românico, com uma grande quantidade de templos construídos na Alta Idade Média, principalmente nos séculos XII e XIII. Uma das obras mais belas e singulares da Arte Românica encontramos no chamado Vale de la Losa, uma pequena ermita dedicada a San Pantaleón, situada no alto de uma formação rochosa que se assemelha a um barco.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma pequena estrada de areia nos conduz ao alto desta impressionante localização, com umas vistas espetaculares desta parte de Las Merindades.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA Ermita de San Pantaleón de la Losa ergue-se solitária numa paisagem de perder o fôlego, tamanha sua beleza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAConsagrada no ano de 1207, esta ermita possui em seu interior relíquias de San Pantaleón, mas infelizmente nao se encontrava aberta à visitação quando lá estivemos. Seu aspecto exterior é um dos mais originais de todo o Estilo Românico na Província de Burgos. Sua portada constitui um dos exemplos mais notáveis pela raridade de algumas de suas partes arquitetônicas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo lado esquerdo da porta vemos uma inusual estátua que cumpre a função de coluna, representando um gigante que pode ser identificado como um atlante, figura relacionadas com a Mitologia Clássica.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo lado direito, vemos outra coluna, esta em forma de zig-zag, algo que surpreende por sua rareza…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA ermita possui um rico conjunto escultórico, presente nos capitéis e nos vãos que iluminam seu interior. Algumas destas esculturas representam cabeças humanas e seres malignos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANuma das arquivoltas da porta principal foram esculpidos personagens humanos como se estivessem presos dentro do arco, deveras curioso…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns temas bíblicos também foram representados em seus capitéis, como o episódio de Jonas e a baleia

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA forte inclinação do terreno onde se situa a ermita provocou o deslocamento dos seus planos construtivos, tanto no exterior, quanto em seu interior. Alguns mistérios estão associados a este enigmático templo, como o Santo Graal, o cálice utilizado por Jesus Cristo na última ceia. Ao redor da ermita, foi colocada uma escultura que representa o cubo mágico, cuja função neste local ignoro…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando retornamos à estrada, aproveitei para tirar uma última foto da imensa rocha onde está situada a ermita…

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A Catedral Compostelana – Parte 2

A Catedral de Santiago de Compostela constitui um formidável exemplo do que se conhece como Igrejas de Peregrinação, que se desenvolveram ao longo do Caminho de Santiago no século XI, dentro do Estilo Românico. Uma outra igreja, que também faz parte da rota jacobea (como também se conhece o Caminho de Santiago) é a Basílica de Saint Sernin, situada na cidade francesa de Toulouse, construída na mesma época que a catedral compostelana (séculos XI e XII).

IMG_2321Estas grandes e monumentais construções possuem características comuns, que nos ajudam a compreender a arquitetura românica da Catedral de Santiago de Compostela. O interior possui uma planta de cruz latina, estando composta de 3 a 5 naves, sendo a central mais larga e alta que as laterais. A Catedral Compostelana possui 3 naves que alcançam os 100 m de comprimento e outra parte transversal, também com 3 naves, de 70 m de comprimento. Abaixo, vemos a planta da catedral, junto com o claustro de formato quadrado que complementa o conjunto, situado no lado direito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEstas igrejas estão abovedadas, isto é, possuem uma estrutura arqueada que cobrem o espaço entre dois apoios, formando o teto do templo. A nave central está coberta por uma Bôveda de Cañón, frequentemente utilizada na Arquitetura Românica, que está formada por arcos de meio ponto ou semicirculares, como podemos ver abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAPor outro lado, as naves laterais estão formadas por Bôvedas de Arista, que se originam pelo cruzamento entre duas Bôvedas de Cañón, formando uma cruz que divide em 4 compartimentos a própria bôveda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra característica das Igrejas de Peregrinação é a profusão decorativa através de um conjunto de esculturas de caráter religioso e simbólico, como vimos, por exemplo, na Fachada das Platerías, na matéria anterior. Os grossos muros da igreja possuem dois níveis. O formado pelas arquerias em sua parte inferior e a tribuna, em sua parte superior. Esta última estrutura permitia alojar uma grande quantidade de peregrinos, além de suportar as forças arquitetônicas transmitidas desde a bôveda da nave central, gerando uma maior estabilidade. Na Catedral de Santiago de Compostela, a tribuna rodeia todo o edifício.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAo redor da capela maior, encontramos um espaço denominado Girola, também conhecido como Deambulatório. No plano arquitetônico que inicia a matéria, podemos observar a girola como um alargamento das naves laterais. Esta solução construtiva possibilitou no período românico, o trânsito dos peregrinos pela igreja, sem prejudicar os cultos religiosos e para que pudessem contemplar as relíquias colocadas em suas várias capelas. Devido ao considerável peso das bôvedas, os muros são grossos, com poucas janelas para a iluminaçao interior, que se realiza principalmente através da cúpula da igreja.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO claustro atual foi edificado em época posterior. De enorme tamanho, foi construído a partir de 1521 por Juan de Álava e Juan Gil de Hontañón. Como foi dito, possui uma forma quadrada, com 34 m de cada lado. Nele foi colocado os sinos que originalmente se situavam na Torre do Relógio, também vista no post anterior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo claustro da Catedral de Santiago podemos observar uma de suas principais funções, como local de enterramento, tanto através de sarcófagos talhados com esmero, quanto em tumbas colocadas no próprio solo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAVárias capelas foram situadas junto ao claustro. Abaixo, vemos uma delas com seu belo retábulo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUma das portas do claustro conduz ao Arquivo da Catedral, um local de visita proibida, pois nele se guarda um dos principais tesouros da cidade, o famoso Códice Calixtino.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste manuscrito iluminado de mediados do século XII constitui o exemplar mais antigo e completo que se conhece da obra “Liber Sancti Iacobi” ou “Livro do Apóstolo Santiago“, do qual existe 200 cópias. Reúne hinos, textos litúrgicos, relatos de milagres e episódios relacionados com o santo. Consta de 5 livros e 2 apêndices, num total de 225 folhas feitas de pergaminho. O quinto livro constitui uma guia para os peregrinos (a mais antiga que se conhece), com descrições da rota do caminho, conselhos, etc. Sua autoria, um sacerdote francês chamado Aymeric Picaud, está atualmente posta em dúvida. O códice começa com um comentário do Papa Calixto II, no qual relata, através de uma carta dirigida à Ordem de Cluny e ao Arcebispo de Compostela Diego Gelmírez, os testemunhos dos milagres realizados pelo Apóstolo Santiago. Em 2011, o códice foi roubado por um eletricista que havia trabalhado na catedral, mas felizmente foi recuperado um ano depois. Finalizamos a matéria com um facsímil do Códice Calixtino, uma reprodução exata do livro original…

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