Os Touros na Arte

Devido a importância que os touros e os espetáculos taurinos exerceram na cultura espanhola, foram retratados nas mais variadas expressões artísticas, como a pintura, escultura, artes decorativas, e também na literatura, na música e no cinema. Nesta série que estou realizando sobre o mundo dos touros na Espanha já publiquei diversas imagens em que os touros aparecem como objeto temático no mundo da arte. Neste post veremos algumas obras em que foram representados nos mais variados estilos e técnicas pictóricas, por diversos e reconhecidos artistas ao longo da história, e também por artistas anônimos. Um exemplo é o pintor e gravador espanhol Antonio Carnicero (1748/1814), que em 1790 realizou uma série de gravados sobre tauromaquia, alguns dos quais encontram-se expostos no Museu de História de Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos outro gravado em que se representa uma corrida de touros na Plaza Mayor de Madrid, realizado em 1791.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA O genial pintor Francisco de Goya realizou diversas séries de gravados sobre uma ampla variedade temática, que inclui os desastres da Guerra da Independência Espanhola, crítica social e inclusive sobre tauromaquia, já que foi um apaixonado pelas touradas (post publicado em 3/2/2016).

20150816_112346OLYMPUS DIGITAL CAMERAArtistas anônimos deixaram seu registro sobre o mundo dos touros, como no quadro abaixo, intitulado “Corrida de Touros em Cuenca“, realizado em 1661…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA temática taurina aparece também em cenas cotidianas, como neste quadro realizado pelo pintor e escultor Enrique Mélida y Alinari (1838/1892), intitulado “Jugando al toro“.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro grande pintor espanhol, Pablo Picasso, explorou o forte simbolismo taurino para representar o horror da Guerra Civil Espanhola no seu famoso “Guernica“, uma das obras de arte fundamentais do século XX, que pode e deve ser contemplado no Museu Reina Sofia de Madrid.

DSC03525Quando estive na cidade de Jaén (Andaluzia) tive a oportunidade de visitar uma exposição sobre Arte Naif, em que os artistas retrataram o mundo taurino, como María Cruz Gutiérrez Segovia, em sua obra “Corrida de Touros“, realizada em 1987.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns artistas retrataram as festividades taurinas que se realizam nos povoados espanhóis, como Marta Rodríguez Salmones, em sua obra “Touros em Turégano“, de 1977…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOu Catalina López Sevilla, em sua obra “Touros em Santisteban del Puerto“, de 1984…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo campo da escultura, muitos e renomados artistas como Mariano Benlliure, por exemplo, deixaram seu legado relacionado com a tauromaquia. O artista valenciano realizou o monumento funerário ao grande toureiro Joselito situado no cemitério de Sevilha. Vários outros toureiros foram homenageados com esculturas que foram colocadas em diversas praças de touros espalhadas pelo país, assim como os espetáculos que se organizam em todo o território espanhol. A seguir, vemos uma escultura que representa a tradicional festa da “Vaquilla del Ángel“, organizada na cidade de Teruel (Aragón), cujo início se remonta ao ano 1679.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO ambiente taurino também foi abundantemente recriado na tradicional música espanhola, como na Zarzuela e no Flamenco. Na literatura, em obras de escritores consagrados como Lope de Vega, Cervantes, Rafael Alberti, Vicente Blasco Ibáñez, somente para citar alguns. Nas denominadas Artes Decorativas, os touros aparecem como elementos que embelezam espaços vinculados à tauromaquia, como nas Tabernas, como tivemos oportunidade de salientar…

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A Evolução das Touradas

Como vimos na matéria anterior, a prática das touradas se remonta a muito tempo atrás. Antigamente, viajavam pelos povoados da Espanha os “matadores” ou “toreadores” que realizavam um espetáculo à pé de forma mais ou menos rudimentar, divertindo o público e cobrando pelo serviço. Em 1542, se realizaram em Barcelona festividades em homenagem ao Rei Felipe II que incluiu jogos com touros. Abaixo, vemos um retrato do monarca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVII, o famoso escritor Miguel de Cervantes relata a existência de locais destinados à criação de touros bravos para as touradas no seu “Don Quixote de La Mancha”. Foi somente na segunda metade do século XVIII quando se produziram na Espanha uma série de novidades relacionadas à prática  das touradas, que originaram as corridas de touros no sentido moderno que hoje conhecemos. A primeira delas foi que o toureiro a pé substituiu o toureiro a cavalo. Os protagonistas dos espetáculos constituem gente humilde que passaram a profissionalizar-se e a cobrar dinheiro por sua atuação.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta época surgem as primeiras ganaderías bravas (fazendas destinadas especialmente à criaçao de touros de lídia, ou seja, para as corridas) e se começa a selecionar touros para as touradas. Também são construídas as primeiras Plazas de Toros como um local permanente destinados às touradas. Abaixo, vemos a Plaza de Las Ventas, em Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, se escrevem as primeiras “Tauromaquias”, obras que fixaram as técnicas e normas que passaram a definir a “Arte de Torear”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExistiam duas correntes regionais cuja combinação deu origem ao Toreo Moderno, a escola vasco-navarra e a andaluza. A primeira se caracterizava pelos saltos realizados pelos toureiros, sem grande sofisticaçao. Desta variedade de tourear deixou uma impressionante documentação gráfica o genial pintor Francisco de Goya, que era um apaixonado pelas touradas, presenciando muitos espetáculos.

20150816_112339Já a escola andaluza utilizava capas para enganar o touro. Durante décadas, ambos estilos disputaram a supremacia do público, saindo vitorioso o modelo andaluz.

20150816_112313Se considera o toureiro Francisco Romero o “Pai do Toreo Moderno” e Ronda, sua cidade natal (Província de Málaga, Andalucía), o berço da “Arte de Torear”. Fundador de uma célebre dinastia de toureiros, Francisco Romero dividiu as corridas de touros em tres partes chamadas tercios (tercio de varas, de banderillas e de morte), que permanece vigente até os dias atuais. Seu neto Pedro Romero é conhecido até hoje como um dos principais toureiros da história. Abaixo, vemos uma estátua em Ronda que homenageia a Pedro Romero

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOs toureiros Pepe-Hillo e Costillares foram outros grandes nomes deste período inicial que triunfou na Espanha, finalizando com a Guerra da Independência Espanhola no início do século XIX. Terminada a guerra e com o desaparecimento destas figuras lendárias, as festas taurinas entram num período de decadência. Ganha um novo impulso com a chegada de outros toureiros de renome a partir de 1830, como “Paquiro”, conhecido como o “Napoleão dos Toureiros” e Rafael Guerra “Guerrita”, que dominaram o panorama taurino no final do século. Abaixo, vemos a histórica Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERA No final do século XIX, se proibiram na Argentina as corridas de touros (até então um país com grande tradição taurina) sem que voltassem a ser praticadas até os dias atuais. No Chile, as touradas foram abolidas décadas antes, em 1823, junto com as brigas de galos e a abolição dos escravos. Durante o começo do século XX, toureiros mexicanos se destacaram, como Rafael González “Machaquito” e Ricardo Torres “Bombita”.

20170528_191642A denominada época dourada das touradas estendeu-se de 1910 a 1920, com nomes como Juan Belmonte, um dos toureiros mais populares da história, e José Gómez “Joselito”, com quem travou uma das maiores rivalidades conhecidas entre toureiros profissionais. Graças a eles, a popularidade das touradas alcançou cotas nunca antes vistas, e que não foi superada  jamais na sociedade espanhola. Somente em 1919, Juan Belmonte participou de 119 touradas, uma cifra recorde até então. Ambos toureiros se consideram os diestros (termo sinônimo a toureiro) mais importantes do Toreo Moderno. Belmonte como o criador da estética e Joselito como um toureiro total, dominador de todas as técnicas e aspectos da tauromaquia, desde o impulso que deu à construção de novas Plazas de Toros a detalhes relativos à seleçao de touros bravos, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois da Guerra Civil Espanhola (1936/1939), se produz outro ressurgimento do mundo taurino, especialmente graças a Manolete, que para muitos foi o toureiro mais vertical da história. Sua morte em 1947 na Plaza de Toros de Linares comoveu a nação. Abaixo, vemos uma placa comemorativa ao grande toureiro na Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid.

IMG_3459O universo taurino sobreviveu apaixonadamente com outra rivalidade histórica, protagonizada pelos toureiros Dominguín e Antonio Ordóñez. As décadas de 70 e 80 do século passado foram o período de maior expansão comercial das touradas, e muitas foram organizadas mundo afora, inclusive nos EUA, com a participaçao de “El Cordobés” e um matador americano, John Fulton. As novas figuras do mundo taurino apresentam uma grande diversidade de estilos, como o colombiano César Rincón e o espanhol José Tomás, que em 2008 bateu o recorde que durava 36 anos na Plaza de Toros de Madrid, ao cortar 4 orelhas de dois touros, uma façanha considerada épica. Finalizo a matéria com uma foto minha na Plaza de las Ventas de Madrid, dando uma de toureiro…

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Arenas de San Pedro – Parte 2

No século XVIII, o pequeno município de Arenas de San Pedro converteu-se num local importante graças à presença de um membro da família real espanhola da época, o Infante Don Luis de Borbón y Farnésio (1717/1785), que estabeleceu  sua residência na cidade. Filho do Rei Felipe V (o primeiro monarca da dinastia bourbônica da Espanha) e de sua segunda esposa, Isabel de Farnésio, e irmão do Rei Carlos III, o infante Don Luis encarregou ao arquiteto Ventura Rodríguez (1717/1785), um dos mais renomados arquitetos do século XVIII no país, um grande palácio que ainda hoje podemos ver na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO infante havia sido desterrado da corte de Madrid depois de casar-se com Maria Teresa Vallabriga, considerado um matrimônio morganático, isto é, aquele que estabelece a união entre duas pessoas de classes sociais diferentes, impedindo que os filhos obtivessem títulos, privilégios e propriedades nobres. Anteriormente, o infante havia vivido num outro palácio, também construído por Ventura Rodríguez, numa cidade próxima a Madrid, Boadilla del Monte (ver post publicado em 19/3/2015), e posteriormente se mudou para Arenas de San Pedro. O palácio foi finalizado em 1783, mas a obra permaneceu inacabada, sendo que se construiu apenas a metade do projeto original, devido a sua grande envergadura e a avançada idade do infante.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEdificado no estilo neoclássico, destacam em sua arquitetura a simetria e proporção de suas linhas, além da sobriedade decorativa, elementos característicos do estilo. O infante Don Luis viveu poucos anos no palácio, coincidindo com uma época de grande prosperidade para a vila, e nele veio a falecer em 1785. Amante das artes e das ciências, o infante formou no palácio uma rica coleção de pintura e escultura, convocando diversos artistas famosos da época, como o grande pintor Francisco de Goya, que realizou um retrato do infante, sendo homenageado com o nome de uma praça situada ao lado do palácio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO infante criou também um Gabinete de História Natural e uma esplêndida biblioteca. Depois de seu falecimento, o palácio começou a ser esvaziado, processo que terminou em 1796. Em 1809, durante a Guerra da Independência Espanhola, o palácio foi ocupado pelas tropas francesas e transformado num seminário a partir de 1868, sendo destinado a este fim até 1972. Abaixo, vemos o esbelto pórtico de entrada do palácio.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1988 o palácio foi adquirido pela prefeitura de Arenas de San Pedro, e passou a ser utilizado como local de exposições e, inclusive, para desfiles de moda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANum dos muros de um colégio da cidade, me chamou a atenção uma pintura, na qual foi representado o arquiteto Ventura Rodríguez, realizando o projeto do palácio…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois de visitar o exterior do palácio, continuei minha caminhada em busca de outros lugares históricos, como o antigo Hospital de San Bartolomé, que acolheu a pobres e viajantes entre os séculos XVI e XIX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANuma das praças principais da cidade, vemos a Igreja de San Juan Bautista, que pertenceu ao desaparecido monastério carmelita fundado por Santa Teresa de Ávila no século XVI. Depois, passou a fazer parte de outro convento, pertencente à comunidade de religiosas da Ordem de Santo Agostinho, desde sua fundação em 1623 até o abandono do mesmo, provocado pela destruição do convento durante a ocupação francesa de 1809.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos uma geral da praça, com uma das inúmeras fontes históricas existentes na cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara conhecer o patrimônio histórico da cidade, convém dar uma chegada em sua Oficina de Turismo, situada no edifício do Mercado de Abastos de Arenas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo próximo post sobre Arenas de San Pedro, vocês conhecerão um dos principais monumentos da cidade, seu imponente castelo…

Os Trampantojos

Dentro dos elementos decorativos utilizados tanto na arquitetura, quanto na pintura, os Trampantojos se destacam por sua identidade ilusória, criando imagens que não correspondem aquilo que parecem. Seu nome se origina da expressão “Trampa ante os ollhos”, ou seja, um recurso para enganar a vista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO Trampantojo consiste numa técnica pictórica que consiste em enganar a vista, utilizando elementos arquitetônicos, suas perspectivas e os jogos de luzes e sombras. Também se conhece com o nome de “Ilusionismo”, simulando ou criando realidades inexistentes.

20170630_131054No exemplo acima, tanto as pedras quanto os tijolos foram pintadas, simulando suas texturas, formas, cores etc. Os objetos, materiais construtivos, perspectivas e personagens se utilizam como um recurso decorativo e também para ocultar defeitos na construção. Através de pintura, se retratam portas falsas, janelas sem fundos, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAs paredes servem como superfície para a criação de pinturas murais de um acentuado realismo, desenhadas com uma perspectiva tal que, contempladas desde um determinado ponto de vista, fazem crer ao espectador que o fundo se projeta para além do muro.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs Trampantojos foram um recurso utilizado já na antiguidade pelos gregos e romanos. Durante o Renascimento, proporcionou a desejada profundidade aos tetos e paredes das igrejas, mas foi com o advento do Barroco que atingiu sua máxima expressão. Abaixo, vemos uma pintura mural em Madrid que cria uma rua imaginária…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta técnica se baseia em estudos ópticos, e se utiliza também por outras razões que as decorativas, como a falta de orçamento durante o processo construtivo ou para criar elementos arquitetônicos com a intenção de produzir efeitos que seriam impossíveis na realidade. A seguir, vemos uma superfície mural em Madrid que proporciona uma solução de continuidade com o edifício situado ao lado, imitando sua arquitetura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs Trampantojos podem ser usados tanto no exterior, quanto no interior das construções, como vemos a seguir, numa pequena casa situada no Parque do Capricho, em Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro exemplo de sua utilização vemos no maravilhoso teto da Igreja de San Antonio de los Alemanes de Madrid, totalmente decorado com pinturas que simulam elementos associados à arquitetura, como colunas, arcos, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO grande pintor espanhol Francisco de Goya aproveitou a técnica para criar uma sensação de profundidade que podemos admirar no teto da Ermita de Santo Antonio de la Florida, também em Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutra cidade onde encontramos diversos Trampantojos é Toledo, principalmente no exterior dos edifícios.

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Museu de Belas Artes – Última Parte

Nesta última matéria sobre o Museu de Belas Artes de Valencia, veremos algumas das obras de seu acervo permanente relacionadas com a Pintura Neoclássica e outros artistas fundamentais do panorama espanhol dos séculos XIX e XX. O século XVIII ficou conhecido como o Século das Luzes, quando o racionalismo exerceu o princípio básico nas manifestações humanas. Como reação aos excessos barrocos, surge o movimento neoclássico, que se desenvolve em todos os campos artísticos. Surgido na França na primeira metade do século XVIII, transforma-se na estética da Ilustração, recuperando os valores da cultura greco-romana, especialmente nos aspectos relacionados à simplicidade, simetria e elegância. Na pintura, o neoclassicismo exalta a claridade compositiva e o predomínio do desenho sobre a cor. Devido a que os restos pictóricos da antiguidade não estavam disponíveis, a Pintura Neoclássica se inspira na escultura. Os principais temas abordados incluem os retratos, fatos históricos e a mitologia. Da mesma forma que sucedeu na arquitetura, os monarcas espanhóis da Dinastia dos Bourbons trouxeram artistas estrangeiros para que realizassem a decoração do Palácio Real. Um deles, o pintor de origem alemã Anton Raphael Mengs (1728/1779) foi o responsável pela difusão do neoclassicismo na Pintura Espanhola, principalmente depois que ocupou a direção da Real Academia de Bellas Artes de San Fernando de Madrid, instituição acadêmica que impôs as regras do novo estilo, exercendo uma grande influência na formação de muitos artistas, entre os quais o pintor valenciano Mariano Salvador Maella (1739/1819). Abaixo, vemos o quadro de Maella intitulado “Sueño de San José“, que podemos contemplar no Museu de Belas Artes de Valencia.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Mariano Salvador Maella tornou-se pintor de câmara durante o reinado de Carlos III, que reconheceu seu grande talento como retratista. Em 1799, alcançou o apogeu como pintor real, junto com Goya. Com a queda do Rei Carlos IV e a chegada ao trono do francês José I, irmão de Napoleão Bonaparte, o pintor prestou seus serviços ao monarca francês, fato que lhe acabou causando sua decadência, pois foi considerado afrancesado. Abaixo, vemos a obra”Exequias do Beato Gaspar Bono“, uma das quatro obras que realizou para a capela do beato, situada no Convento de San Sebastián de Valencia. Gaspar de Bono (1530/1604) foi um beato pertencente à Ordem dos Mínimos que destacou-se por sua caridade, sendo beatificado em 1786.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom o final da Guerra da Independência e o retorno do rei espanhol Fernando VII ao trono, Mariano Salvador Maella foi afastado do cargo, sendo substituído pelo também valenciano Vicente López Portaña (1772/1850) como pintor de câmara a partir de 1815. Este pintor é considerado um dos maiores retratistas da pintura espanhola. Seu pessoal sentido realista dos personagens retratados foi herdado da tradição naturalista da escola valenciana, principalmente de Francisco Ribalta e José de Ribera. Além do mais, possuía uma excepcional capacidade para a reprodução dos tecidos e objetos de adorno. Durante uma visita do Rei Carlos IV à Valencia em 1802, Vicente López realizou um belo retrato do monarca, que vemos a seguir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos grandes mestres da História da Pintura, Francisco de Goya y Lucientes (1746/1828) também cultivou a pintura neoclássica, apesar de que o grande pintor aragonês não pode ser classificado dentro de um estilo determinado, devido a sua variedade e personalidade artística. Com ele se inicia a pintura contemporânea, sendo considerado o precursor das vanguardas artísticas do século XX. Como retratista foi excepcional, recebendo inúmeros encargos reais e da aristocracia espanhola. Um exemplo é o “Retrato de Mariano Ferrer y Aulet“, datado entre 1780 e 1783. Este personagem foi secretário da prestigiosa Real Academia de San Carlos de Valencia, origem do atual Museu de Belas Artes. O fundo negro do quadro ressalta seu rosto, que se mostra sereno e relaxado diante do pintor.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOutro quadro de Goya que representa sua enorme qualidade como retratista é o “Retrato de Joaquina Candado Ricarte“, pintado durante uma visita do pintor aragonês à Valencia. Realizado com grande desenvoltura técnica, existem controvérsias a respeito da verdadeira identidade desta personagem. Alguns afirmam que se trata da modelo utilizada por Goya nos famosos quadros “Maja Desnuda” e “Maja Vestida“, que podem ser vistos no Museu do Prado. Nesta obra, a retratada aparece de corpo inteiro e ricamente vestida, denotando sua elevada posição social. O retrato foi ambientado num espaço aberto, campestre. A dourada luz que inunda a personagem provoca um efeito de luz que anuncia o Impressionismo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, algumas salas do Museu de Belas Artes de Valencia foram dedicadas exclusivamente a artistas valencianos de grande prestígio no final do século XIX e na primeira metade do XX. O primeiro deles é o pintor Joaquín Sorolla (1863/1923), a quem foi organizada uma excepcional exposição.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAArtista prolífico, Joaquín Sorolla deixou mais de 2200 obras catalogadas. Desde jovem mostrou interesse pela pintura ao ar livre, captando a luminosidade mediterrânea e o ambiente costeiro. Durante a fase final de sua vida, viveu em Madrid e sua casa foi transformado num museu cuja visita recomendo (ver post publicado em 8/11/2012).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalizamos a matéria com Mariano Benlliure Gil (1862/1947), notável escultor valenciano, que possui um excepcional conjunto de obras no Museu de Belas Artes. Sua formação com o pintor Francisco Domingo Marqués lhe permitiu adaptar o realismo pictórico à escultura. Sua projeção internacional como escultor se consolidou com a Exposição Universal de Paris de 1900, quando obteve o Prêmio de Honra, a mesma distinção outorgada a Joaquín Sorolla. A grande coleçao de obras de Mariano Benlliure no museu se deve à generosidade do próprio artista, pois a maior parte das obras expostas foram doadas pelo escultor em 1940. Abaixo, vemos um “Autorretrato”, realizado em bronze para a Academia de Belas Artes de San Lucas, de Roma.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos artistas mais influentes de sua época, Mariano Benlliure dedicou-se aos temas populares, monumentos comemorativos e retratos, tanto de personagens da sociedade quanto da família real, como o “Busto de Alfonso XIII“, um encargo do monarca para o casamento com Victoria Eugenia de Battenberg, que também foi representado numa escultura equestre.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAMariano Benlliure foi o tema de duas matérias realizadas em 19/11 e 20/11/2015, pois muitas das esculturas mais famosas de Madrid foram esculpidas por ele. Existe inclusive um trajeto pela cidade em que é possível admirar muitas de suas obras mais conhecidas.

Museu Lázaro Galdiano – Pintura Espanhola (Parte 2)

Lázaro Galdiano formou uma pinacoteca que, além de seu enorme valor, servisse de referência para avaliar a importância artística da Espanha e de sua própria história. Como outros grandes colecionadores da época, mostrou especial predileção pelos retratos de homens e mulheres ilustres, cuja coleção presente no museu é representativa de vários períodos, como veremos a seguir. O pintor Alonso Sánchez Coelho (1531/1588), por exemplo, tornou-se famoso por sua capacidade como retratista. Pintor de câmara do rei Felipe II, suas obras enaltecem os detalhes e a penetração psicológica do personagem, como neste quadro de Ana de Áustria (1549/1580), quarta esposa do rei Felipe II.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta obra é considerada uma das mais refinadas da pintura cortesana do reinado de Felipe II. Do período barroco, destacam os retratos de Sebastián Herrera Barnuevo (Madrid-1619/1671). Além de pintor de câmara do rei Carlos II, foi também escultor e arquiteto. Realizou o retrato do monarca quando menino, que vemos abaixo. Carlos II (Madrid-1661/1700) passaria a posteridade com o apelido de “El Hechizado” (O Enfeitiçado) por seus problemas de saúde, baixa estatura e esterilidade. Filho e herdeiro de Felipe IV e Mariana de Äustria, morreu sem descendência, fato que provocou a Guerra da Sucessão Espanhola e a chegada da Dinastia dos Bourbones ao trono espanhol, com o rei Felipe V.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs monarcas e rainhas de Espanha foram representados não só por pintores espanhóis, mas também por artistas estrangeiros, como Ticiano, por exemplo. Considerado um dos precursores do neoclassicismo, Anton Raphael Mengs (1728/1779) foi um grande  pintor alemão, além de teórico da arte, tornando-se célebre pelos retratos que realizou da corte europeia. Foi convidado pelo rei Carlos III para residir em Madrid, e nomeado pintor real. Retratou o monarca nesta importante obra que vemos na sequência. Carlos III (Madrid-1716/1788) era filho de Felipe V e Isabel de Farnesio. Entre 1734 e 1759 tornou-se o Rei de Nápoles e Sicília. Em 1759 foi proclamado Rei de Espanha, cujo reinado caracterizou-se pelas amplas reformas urbanas realizadas na capital. Por este motivo, passou a ser conhecido como o Rei Alcalde, sendo considerado até hoje como um dos melhores administradores que a cidade já teve em sua história.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA estética neoclássica na Espanha foi enriquecida com a obra de Zacarías González Velázquez (Madrid-1763/1834). Formado pela Real Academia de Belas Artes de San Fernando em Madrid, tornou-se posteriormente diretor desta instituição fundamental na vida artística do país. Sua capacidade criativa pode ser apreciada no refinamento de suas obras, que pode ser vista no quadro em que representa a Manuela González Velázquez tocando o piano, um quadro de forte influência francesa pintado entre 1820 e 1821.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos artistas espanhóis mais admirados por Lázaro Galdiano foi Francisco de Goya. Adquiriu várias obras do pintor aragonês, cujo conjunto representa uma das maiores atrações do museu. Abaixo, o Enterro de Cristo, realizado entre 1771 e 1772.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro La Era ou El Verano, de 1786…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADo período compreendido entre 1797 e 1799, o Museu Lázaro Galdiano conta com várias obras do pintor, como esta Madalena Penitente, de grande influência impressionista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa imagem abaixo, vemos a Santa Isabel curando as chagas de um enferma (esquerda) e San Hermenegildo na prisão (direita).

OLYMPUS DIGITAL CAMERADuas das obras mais apreciadas do acervo pictórico do museu representam o mundo tenebroso de Goya, como o quadro El Conjuro o las Brujas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAE o Aquelarre, nome pelo qual se conhece as reuniões de bruxas para a realização de rituais e feitiços.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA presença de artistas estrangeiros na coleção de Lázaro Galdiano ampliaria o conhecimento do povo espanhol em relação à arte que se desenvolvia no continente, contribuindo para sua educação cultural. No próximo post, veremos algumas das principais obras das escolas italiana, flamenca, alemã, etc, presentes no museu.

Os Gravados de Goya: Desastres da Guerra

Um dos fatos mais marcantes da Espanha no séc.XIX, vivido intensamente por Goya, foi a invasão das tropas de Napoleão, que desencadeou a Guerra da Independência, entre os anos de 1808 e 1814. Neste período, o poder da nação esteve nas mãos de José I, irmão do imperador francês. Muitas cidades foram destruídas e o patrimônio artístico e histórico do país, saqueado. Alguns dos episódios mais relevantes do período foram retratados por Goya em seus quadros, como os famosos ” El Dos de Mayo” e  “El Tres de Mayo“, datas dos célebres acontecimentos ocorridos em Madrid, quando a população se rebelou contra as tropas francesas, e cuja consequência foi o fuzilamento dos cabeças desta revolta popular. Ambas obras podem ser admiradas hoje em dia no Museu do Prado. Goya realizou também uma série de gravados sobre a guerra, composta por 85 lâminas e que foram realizadas entre 1810 e 1814. No entanto, somente foram publicadas em 1863, ou seja, 35 anos depois da morte do pintor.

20150816_112833Nesta série, Goya retrata o horror da guerra e suas fatais consequências. Não enaltece as vitórias, mas as cenas de bandidagem das tropas francesas, o patriotismo das guerrilhas e a crueldade perpetuada pelos dois bandos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta impressionante série foi provavelmente criada depois de sua visita à Zaragoza, cidade que foi bombardeada e sitiada pelo inimigo. Goya recolheu inúmeras testemunhas do massacre, sendo que representam fatos verídicos. Depois de uma brava resistência, Zaragoza caiu em 1809 e sua população esteve à beira do colapso devido a uma epidemia de tifo, provocada pelos incontáveis cadáveres putrefatos que se amontoavam pelas ruas da cidade. Todas as lâminas das 4 séries dos Gravados de Goya estão numeradas e com um título. A de abaixo denomina-se “Al cementério“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta outra, simplesmente “Por Quê ?”…

20150816_112846Nestas cruéis cenas, observamos a miséria humana como decorrência da guerra.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA vivência das histórias que viu e ouviu deixaram a Goya fortemente sensibilizado, e de forma permanente. O gravado a seguir chama-se “Yo lo vi…”

20150816_112805Em muitos locais do interior do país a população rural, pobre e insuficientemente armada, utilizou as técnicas da guerrilha, que foram combatidas de maneira terrível pelo exército de Napoleão.

20150816_112824Em algumas lâminas, Goya homenageia o heroísmo popular, caso de de Agustina de Aragón, uma mulher de Zaragoza que vendo os artilheiros mortos não hesitou em pegar o canhão e disparar contra o inimigo. Ainda hoje, é considerada um dos símbolos da resistência de Zaragoza contra o invasor. O gravado se chama “Que valor…”

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