Toureiros famosos da Espanha

No post de hoje, e no próximo, veremos alguns dos toureiros mais famosos da Espanha. Muitos deles fizeram parte de famílias que constituíram verdadeiras dinastias taurinas, caso de Pedro Romero (1754/1839), membro de uma ilustre família de toureiros, iniciada com seu avô Francisco Romero (1700/1763). Nascidos em Ronda, cidade considerada o berço da moderna arte de torear, suas inovações, como o uso do estoque para matar o animal inaugurada por Francisco, foram fundamentais para a história da tauromaquia. Em 1795, Pedro Romero inaugurou a Plaza de Toros de Ronda, uma das praças históricas do país. Para muitos estudiosos trata-se do toureiro mais completo de todos. É provável que em sua vida tenha matado a mais de 5 mil touros, e nunca foi ferido numa tourada. Faleceu em 1839, com a idade de 84 anos. Abaixo, vemos um quadro de Pedro Romero exposto no Museu Taurino da Plaza de Toros de Ronda.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos espetáculos taurinos mais vistosos que ainda existem são as chamadas “Corridas Goyescas“, em que os participantes utilizam trajes que foram retratados nos gravados do grande pintor Francisco de Goya. Este tipo de vestimenta surgiu em Madrid no século XVIII e foi utilizado pela burguesia até o século XIX, quando então seu uso se propagou ao resto da Espanha. A primeira “Corrida Goyesca” celebrou-se na Plaza de Toros de Murcia em 1929, para comemorar o centenário da morte do genial artista aragonês. Especialmente famosa é a realizada em Ronda, sendo que a primeira foi organizada em 1954, para comemorar o segundo centenário de nascimento de Pedro Romero.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMuitos dos toureiros mais famosos da Espanha tiveram um trágico destino em plena praça de touros, fato que colaborou para perpetuar a fama conquistada na arena. Este é o caso de José Gómez Ortega (1895/1920), mais conhecido como “Joselito“. Também representante de uma família dedicada ao mundo dos touros, é considerado um dos maiores toureiros da Espanha. Travou junto com o toureiro Juan Belmonte (1892/1962) uma rivalidade histórica no começo do século XX, a época dourada das touradas. Abaixo vemos a “Joselito” toureando na Plaza de Toros de Madrid (imagem tirada pelo fotógrafo Alfonso Sánchez Portela em 1914).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo auge de sua trepidante carreira, e com apenas 25 anos,  “Joselito” foi morto na Plaza de Toros de Talavera de la Reina pelo touro “Bailaor” em 1920. A cada 16 de maio, dia de sua morte, ainda hoje se guarda um minuto de silêncio nas praças de touros de todo o país. Abaixo, vemos a “Joselito” na Praça de Touros de Sevilha (foto de Serrano).

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XX destaca, entre outros, a figura de Manuel Rodríguez Sánchez (1917/1947), conhecido como “Manolete“. Nasceu em Córdoba em 1917, sendo considerado um dos mais legendários e elegantes toureiros do país. Contribuiu de forma decisiva para o embelezamento das touradas ao incluir movimentos em que era capaz de manter-se praticamente imóvel quando o touro passava perto de seu corpo, realizando uma série de passos consecutivos. Abaixo, vemos uma estátua dedicada ao toureiro no Museu Taurino de Córdoba.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAManolete faleceu na Plaza de Toros de Linares (município situado na Província de Jaén, Andalucía) em 1947, numa corrida de touros que contou com a participação de outro grande matador, Luis Miguel “Dominguín”, quando sofreu uma grave lesão na artéria femural provocada pelo touro “Islero“. Apesar das várias transfusões de sangue recebida, o toureiro não resistiu. Atualmente, uma das teorias a respeito de sua morte diz que o toureiro faleceu devido à aplicação de uma transfusão incompatível com seu organismo. Em 1956, se inaugurou em Córdoba um monumento em sua homenagem, esculpido pelo artista Manuel Álvarez Laviada. Para  financiar sua execução, se realizou uma tourada, que arrecadou 800 mil pesetas…

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua morte provocou uma intensa comoção em todo o país. O General Franco decretou luto oficial de três dias, e Manolete  transformou-se num grande símbolo do pós guerra na Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAManolete se apresentou em inúmeras Praças de Touros da Espanha, mas foi na Praça Monumental da Cidade do México onde obteve seus maiores êxitos. Abaixo, vemos o cartaz da fatídica corrida de toros na Plaza de Toros de Linares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

A Evolução das Touradas

Como vimos na matéria anterior, a prática das touradas se remonta a muito tempo atrás. Antigamente, viajavam pelos povoados da Espanha os “matadores” ou “toreadores” que realizavam um espetáculo à pé de forma mais ou menos rudimentar, divertindo o público e cobrando pelo serviço. Em 1542, se realizaram em Barcelona festividades em homenagem ao Rei Felipe II que incluiu jogos com touros. Abaixo, vemos um retrato do monarca.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XVII, o famoso escritor Miguel de Cervantes relata a existência de locais destinados à criação de touros bravos para as touradas no seu “Don Quixote de La Mancha”. Foi somente na segunda metade do século XVIII quando se produziram na Espanha uma série de novidades relacionadas à prática  das touradas, que originaram as corridas de touros no sentido moderno que hoje conhecemos. A primeira delas foi que o toureiro a pé substituiu o toureiro a cavalo. Os protagonistas dos espetáculos constituem gente humilde que passaram a profissionalizar-se e a cobrar dinheiro por sua atuação.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANesta época surgem as primeiras ganaderías bravas (fazendas destinadas especialmente à criaçao de touros de lídia, ou seja, para as corridas) e se começa a selecionar touros para as touradas. Também são construídas as primeiras Plazas de Toros como um local permanente destinados às touradas. Abaixo, vemos a Plaza de Las Ventas, em Madrid.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, se escrevem as primeiras “Tauromaquias”, obras que fixaram as técnicas e normas que passaram a definir a “Arte de Torear”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAExistiam duas correntes regionais cuja combinação deu origem ao Toreo Moderno, a escola vasco-navarra e a andaluza. A primeira se caracterizava pelos saltos realizados pelos toureiros, sem grande sofisticaçao. Desta variedade de tourear deixou uma impressionante documentação gráfica o genial pintor Francisco de Goya, que era um apaixonado pelas touradas, presenciando muitos espetáculos.

20150816_112339Já a escola andaluza utilizava capas para enganar o touro. Durante décadas, ambos estilos disputaram a supremacia do público, saindo vitorioso o modelo andaluz.

20150816_112313Se considera o toureiro Francisco Romero o “Pai do Toreo Moderno” e Ronda, sua cidade natal (Província de Málaga, Andalucía), o berço da “Arte de Torear”. Fundador de uma célebre dinastia de toureiros, Francisco Romero dividiu as corridas de touros em tres partes chamadas tercios (tercio de varas, de banderillas e de morte), que permanece vigente até os dias atuais. Seu neto Pedro Romero é conhecido até hoje como um dos principais toureiros da história. Abaixo, vemos uma estátua em Ronda que homenageia a Pedro Romero

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOs toureiros Pepe-Hillo e Costillares foram outros grandes nomes deste período inicial que triunfou na Espanha, finalizando com a Guerra da Independência Espanhola no início do século XIX. Terminada a guerra e com o desaparecimento destas figuras lendárias, as festas taurinas entram num período de decadência. Ganha um novo impulso com a chegada de outros toureiros de renome a partir de 1830, como “Paquiro”, conhecido como o “Napoleão dos Toureiros” e Rafael Guerra “Guerrita”, que dominaram o panorama taurino no final do século. Abaixo, vemos a histórica Plaza de Toros de Ronda

OLYMPUS DIGITAL CAMERA No final do século XIX, se proibiram na Argentina as corridas de touros (até então um país com grande tradição taurina) sem que voltassem a ser praticadas até os dias atuais. No Chile, as touradas foram abolidas décadas antes, em 1823, junto com as brigas de galos e a abolição dos escravos. Durante o começo do século XX, toureiros mexicanos se destacaram, como Rafael González “Machaquito” e Ricardo Torres “Bombita”.

20170528_191642A denominada época dourada das touradas estendeu-se de 1910 a 1920, com nomes como Juan Belmonte, um dos toureiros mais populares da história, e José Gómez “Joselito”, com quem travou uma das maiores rivalidades conhecidas entre toureiros profissionais. Graças a eles, a popularidade das touradas alcançou cotas nunca antes vistas, e que não foi superada  jamais na sociedade espanhola. Somente em 1919, Juan Belmonte participou de 119 touradas, uma cifra recorde até então. Ambos toureiros se consideram os diestros (termo sinônimo a toureiro) mais importantes do Toreo Moderno. Belmonte como o criador da estética e Joselito como um toureiro total, dominador de todas as técnicas e aspectos da tauromaquia, desde o impulso que deu à construção de novas Plazas de Toros a detalhes relativos à seleçao de touros bravos, etc.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADepois da Guerra Civil Espanhola (1936/1939), se produz outro ressurgimento do mundo taurino, especialmente graças a Manolete, que para muitos foi o toureiro mais vertical da história. Sua morte em 1947 na Plaza de Toros de Linares comoveu a nação. Abaixo, vemos uma placa comemorativa ao grande toureiro na Plaza de Toros de Las Ventas de Madrid.

IMG_3459O universo taurino sobreviveu apaixonadamente com outra rivalidade histórica, protagonizada pelos toureiros Dominguín e Antonio Ordóñez. As décadas de 70 e 80 do século passado foram o período de maior expansão comercial das touradas, e muitas foram organizadas mundo afora, inclusive nos EUA, com a participaçao de “El Cordobés” e um matador americano, John Fulton. As novas figuras do mundo taurino apresentam uma grande diversidade de estilos, como o colombiano César Rincón e o espanhol José Tomás, que em 2008 bateu o recorde que durava 36 anos na Plaza de Toros de Madrid, ao cortar 4 orelhas de dois touros, uma façanha considerada épica. Finalizo a matéria com uma foto minha na Plaza de las Ventas de Madrid, dando uma de toureiro…

IMG_3465