As Viagens do “Guernica”

Antes de abandonar Salamanca, tive a oportunidade de ver uma interessantíssima exposição sobre o quadro “Guernica“, a obra prima do mais influente artista do século XX, Pablo Ruiz Picasso (1881/1973). A exposição foi montada na Plaza de Anaya, situada ao lado das Catedrais de Salamanca, e foi organizada pelo Centro Cultural Caixa Forum, que está percorrendo várias cidades da Espanha.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA O “Guernica” já foi o tema de um post publicado em 17/5/2012, junto com o museu onde se encontra exposto, o Museu Reina Sofía de Madrid, que vemos abaixo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlguns anos atrás, pude fotografar o “Guernica“, algo impensável atualmente, mesmo porque está proibido captar imagens do quadro.

DSC03525A exposição de Salamanca discorre sobre as viagens que o quadro realizou depois de ter sido pintado por Picasso, participando de diversas exposições internacionais antes de seu retorno a Espanha. Considerado uma das obras mais conhecidas, reproduzidas, admiradas e reinterpretadas da História da Arte, o “Guernica” transformou-se num verdadeiro ícone do século XX.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro foi realizado por Picasso entre maio e junho de 1937 e seu título é uma referência ao bombardeio da cidade basca de Guernica pela aviação alemã no dia 26 de abril deste ano, dentro do contexto da Guerra Civil Espanhola (1936/1939). Este ataque aéreo é considerado o primeiro realizado contra uma população civil da história das disputas bélicas. Na realidade, sua elaboração por parte de Picasso foi um encargo do governo republicano para ser exposto no Pavilhão Espanhol, montado durante a Exposição Internacional de Paris de 1937, com a finalidade de atrair a atenção pública à causa republicana. Abaixo, vemos uma foto do pavilhão, cujo projeto construtivo se deve aos arquitetos Josep Lluís Sert e Luis La Casa, e o quadro exposto no local.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERACom o final da Guerra Civil Espanhola em 1939 e o início do governo ditatorial do General Franco, Picasso manifestou o desejo que o quadro retornasse ao país somente depois que voltasse a ser uma nação democrática. Depois de sua exibição na Exposição Internacional de Paris, muitas outras foram realizadas no continente europeu, como a de 1938/1939 no Reino Unido, com grande êxito de público e organizada para arrecadar fundos para o Comitê de Ajuda aos Refugiados Espanhóis.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante décadas, o quadro viajou por boa parte do mundo, antes de ser custodiado pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MOMA) a partir de 1958, onde permaneceu exposto até 1981. Abaixo, vemos o itinerário do “Guernica“…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO processo de criação da obra foi plenamente documentado pelo pintor através de esboços preparatórios e também por fotografias realizadas por Dora Maar (1907/1997), uma artista plástica francesa que se tornou uma das mulheres da vida de Picasso. Este material constitui um dos melhores exemplos documentados do progresso de uma obra artística em toda a História da Arte Universal. Picasso realizou, num prazo de 6 meses, (antes, durante e depois da conclusão do quadro), uma série de 45 esboços que atualmente encontram-se expostos no Museu Reina Sofía de Madrid, junto com a famosa obra do artista de Málaga.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO “Guernica“, um exemplo memorável da Arte Cubista, além de sua importância histórica e indiscutível qualidade artística, impressiona por seu tamanho (7.76m de comprimento x 3.49m de altura). Foi pintado utilizando-se somente as cores branca, negra e várias tonalidades de cor cinza.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar do título da obra e suas circunstâncias históricas, não existe no quadro nenhuma referência explícita ao bombardeio da cidade de Guernica, pois trata-se de uma composição simbólica, e não narrativa, retratando o horror à guerra e os sofrimentos que infringe a todos os seres humanos. Por este motivo, o quadro converteu-se num símbolo de protesto antibélico, utilizado contra os vários confrontos do século passado…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAlgo que desconhecia e que pude orgulhosamente constatar, é que durante as viagens do “Guernica” pelo mundo, o quadro esteve presente no Brasil em 1953, durante a realização da II Bienal de São Paulo, como vemos na foto abaixo.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO quadro serviu de motivo inspiratório a inúmeras obras em todo o mundo…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAFinalmente, em 1981, o quadro retornou a Espanha, com uma ampla divulgação da imprensa, escrita e televisiva…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA chegada do “Guernica” no Aeroporto de Barajas

OLYMPUS DIGITAL CAMERAInicialmente, o quadro permaneceu no Casón del Buen Retiro, uma das dependências que faziam parte do destruído Palácio del Buen Retiro, originalmente construído dentro do Parque do Retiro, de propriedade real na época de sua construção, que ainda podemos contemplar passeando pela cidade.

DSC08622OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1982, o “Guernica” passou a ser exposto permanentemente no Museu Reina Sofía, considerado um dos centros de Arte Contemporânea de maior prestígio de todo o mundo, cuja visita, evidentemente, recomendo !!!!!

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Cáceres – Extremadura

Cáceres foi a cidade que escolhi como base para conhecer a parte norte da Comunidade de Extremadura. Com quase 100 mil habitantes, Cáceres é a cidade mais populosa da parte norte da comunidade e considerada o município mais extenso de toda a Espanha (1.750 km quadrados).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAUm dos centros medievais mais importantes de todo o continente europeu, Cáceres foi declarada Patrimônio da Humanidade em 1986. Fundada pelos romanos, a cidade foi, no entanto, ocupada muito antes, como demonstram as pinturas rupestres encontradas em cavernas situadas na parte sul de seu núcleo urbano, como a Cueva de Maltravieso, cujas pinturas remontam a 20 mil anos atrás. Também foi ocupada pelos povos ibéricos, que construíram um castro (povoado ibérico) na região.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Cáceres foi fundada pelos romanos no ano de 28 aC com  a denominaçao de “Norba Caesarina“, em homenagem ao general romano Cayo Norbano Flaco, seu fundador, e ao Imperador Júlio César. Este primitivo núcleo transformou-se com o tempo no atual Centro Histórico da cidade. A cidade foi construída num local estratégico, na atualmente denominada Vía de la Plata, um caminho que unia as cidades de Astorga, no norte do país, com Mérida (Extremadura) e Sevilha (Andaluzia). Deste nome antigo, Norba Caesarina, procede o atual nome da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom a chegada dos Visigodos no final do século V, o anterior assentamento romano foi arrasado e até os séculos VIII e IX não existem nenhuma referência à cidade. Foram os muçulmanos que aproveitaram sua localização estratégica e o que sobrou da antiga colônia romana como base militar para combater os reinos cristianos do norte. Desta forma, em 1147, Abd al-Mumin refundou a cidade e, a partir do século XII, árabes e cristãos se sucederam alternativamente no governo de Cáceres.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEm 1169, o Rei Fernando II conquistou a cidade, entregando-a a um grupo de cavalheiros que constituíram uma ordem religiosa e militar, embrião da futura Ordem de Santiago. Quatro anos depois, Abu Yaqub reconquistou a cidade para os muçulmanos, ordenando degolar a maioria destes cavalheiros. A partir de 1212, data da vitória cristã na famosa Batalha de Navas de Tolosa, os avanços cristianos na Extremadura foram definitivos e em 1218 as Ordens Militares de Alcântara e de Santiago ampliaram seus domínios por quase toda a zona. Finalmente, em 1229, Cáceres foi definitivamente reconquistada pelo Rei Alfonso IX de León. O fato ocorreu precisamente no dia 23 de Abril, dia de São Jorge, que foi declarado padroeiro da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAO falecimento de Alfonso IX de León um ano depois da reconquista fez com que Cáceres passasse a integrar o antigo Reino de Castilla. No século XIV, sucessivas lutas entre a nobreza local fez com que os Reis Católicos, no século seguinte, ordenassem a derrubada das torres defensivas pertencentes a estas famílias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante as décadas seguintes ao Descobrimento da América, em Cáceres nasceram várias personalidades que desempenharam um importante papel no novo continente, ocupando cargos de relêvancia, como Diego García de Cáceres. Em 1790, ocorreu um fato decisivo para sua história, quando o Rei Carlos IV estabeleceu na cidade a sede da Real Audiência de Extremadura, o máximo órgão jurídico da região, fato que a transformou de uma simples vila a constituir uma cidade importante.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XIX, com a divisao administrativa de Extremadura em duas províncias, Cáceres foi designada capital de sua parte norte, enquanto Badajoz tornou-se a capital da província da metade sul. No verão de 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, o General Franco estabeleceu em Cáceres seu quartel general. Atualmente, sua economia está baseada no setor de serviços, principalmente a construção e o turismo. Por ela passa o trem que liga Madrid a Lisboa, e transformou-se num dos principais destinos turísticos de toda a comunidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANesta nova série de matérias que hoje inicio, vocês poderão conhecer esta belíssima cidade e seu excepcional centro histórico, cuja visita é mais que recomendável….

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Hospital del Rey – Burgos

Nossa viagem por Castilla y León iniciou e finalizou-se em Burgos, capital da província homônima, e uma das cidades mais importantes do norte da Espanha. Estivemos dois dias na cidade, alugamos um carro para percorrer a Comarca de Las Merindades, e a ela retornamos para tomar um ônibus a Madrid.  Burgos foi o tema de uma série de várias matérias publicadas entre 28/9/2015 e 1/11/2015, quando publiquei posts relativos aos monumentos históricos mais importantes da cidade castelhana. Desta vez, pude mostrar a cidade a meu irmão Marcelo, e ainda conhecer lugares que não conhecia.

20150725_201436Burgos é uma das cidades fundamentais do Caminho Francês, o mais popular e famoso dos Caminhos que levam à Santiago de Compostela. Na Idade Média, o fluxo de peregrinos era intenso, de forma que foi necessária a construção de centros assistenciais para auxiliar àqueles que realizavam o caminho. Um dos mais importantes de toda a rota jacobea, o Hospital del Rey encontra-se na saída da cidade…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEste hospital foi fundado pelo Rei Alfonso VIII de Castilla e por sua esposa Leonor no ano de 1195. Sua construção reflete a importância de Burgos na Idade Média, e desde sua fundação até o século passado esteve governado pelo Real Monastério de las Huelgas, situado próximo ao hospital (sobre este importante  monastério, ver a matéria publicada em 27/10/2015). Abaixo, vemos uma foto do monastério…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAntes de entrar no hospital, se construiu uma Ermita, dedicado a Santo Amaro, e um cemitério, onde os peregrinos  falecidos eram enterrados.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAbaixo, vemos a Porta de los Romeros, a principal porta de entrada ao Hospital del Rey. Ao longo do tempo, o hospital foi reformado, e esta bela porta foi construída já no século XVI no estilo renascentista por Juan de Salas. A seguir, vemos duas fotos, de sua parte externa e também desde o interior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo século XV, o Hospital del Rey chegou a contar com 87 leitos, um número considerável para a época. Sua excelente estrutura fez com que fosse considerado o melhor centro assistencial de todo o Caminho de Santiago. A igreja atual é barroca e data do século XVII.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERA Se conservam, no entanto, elementos construtivos de época anterior, como este arco ojival…

OLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a Guerra Civil Espanhola do século XX (1936/1939), o Hospital del Rey foi utilizado pelo bando nacionalista como hospital das tropas marroquinas que integravam o exército de Franco. Se construiu, inclusive, uma mesquita, que infelizmente não se conservou.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, o antigo hospital foi convertido na sede da Universidade de Burgos, onde se situa o Reitorado, uma Biblioteca e a Faculdade de Direito.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFelizmente, sua parte histórica está protegida desde 1931, quando o Hospital del Rey foi declarado monumento histórico em 1931, na categoria de Bem de Interesse Cultural (BIC).

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Arquitetura Típica de Ferrol

Um dos elementos mais notórios da cidade de Ferrol é a singular arquitetura de seus edifícios, motivo pelo qual decidi realizar duas matérias sobre ela e suas principais características. Uma delas constitui a grande quantidade de edifícios decorados com elementos modernistas, que veremos no próximo post. A outra, algo que comparte com outras cidades da Galícia, como La Coruña, por exemplo, correspondem as fachadas com os denominados miradores (traduzidos literalmente ao português como mirantes), como se conhecem as estruturas arquitetônicas que possibilitam a vista das ruas desde o interior das residências.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAApesar de não constituir algo original da arquitetura da cidade, pois estes elementos se encontram em muitas das cidades da Espanha, os miradores são abundantes em Ferrol, constituindo um detalhe típico do espaço urbano.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm alguns edifícios, os miradores praticamente foram colocados por toda a fachada do edifício. Em outros, estão restritos a privilegiados proprietários.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA grande maioria foram construídos em madeira e vidro, enquanto outros destacam-se por sua composição feitas de ferro, com uma elaborada decoração…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAIndependente das formas arquitetônicas, os miradores integram o aspecto geral das fachadas de muitos edifícios da cidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEm um destes típicos edifícios de Ferrol, nasceu seu filho mais ilustre, considerado um dos personagens mais polêmicos da história espanhola e que exerceu um papel fundamental para a compreensão do século XX no país. Seu nome, Francisco Franco Bahamonde, militar e ditador espanhol, mais conhecido como General Franco e apelidado de “Caudillo da Espanha” ou “Generalíssimo“, nasceu na cidade em 1892 e faleceu em Madrid em 1975. Integrante da cúpula do exército que deu um golpe de estado contra o governo democrático da Segunda República em 1936, cujo fracasso provocou a eclosão da Guerra Civil Espanhola, que se estendeu até 1939, Franco foi nomeado durante o período como chefe supremo do bando nacionalista. Com a vitória na contenda, assumiu o posto como ditador, papel que desempenhou até sua morte.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAQuando soube que Ferrol havia sido sua terra natal e que a casa onde nasceu ainda existia, começei a perguntar aos habitantes da cidade sua localização, e muitos deles nem sequer sabiam quem havia sido Franco (principalmente os mais jovens). Outros sabiam que sua casa se encontrava na cidade, mas ignoravam onde se situava. Finalmente, um atencioso funcionário de uma loja, através de uma pesquisa na Internet, me forneceu o endereço da casa natal de Franco, que ostenta duas placas com inscrições de difícil identificação.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADesde 2007 está em vigor na Espanha a Lei da Memória Histórica. Um dos seus preceitos postula a retirada de nomes de ruas, praças e parques espalhados pelo país vinculados com o bando nacionalista e a posterior ditadura franquista. Por exemplo, desde 1967 até 2002, na conhecida Plaza de España de Ferrol, se erguia uma estátua equestre do Ditador, que foi removida num momento em que a praça foi oportunamente reformada. Abaixo, vemos uma foto da praça, com alguns de seus emblemáticos edifícios.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO monumento a Franco foi levado a um dos armazéns do Museu Naval da cidade e logo a um depósito, e atualmente não pode ser vista por ninguém…

Antiga Penitenciária de Lugo

Antes de deixar Lugo, tive a oportunidade de conhecer um lugar impressionante por seu significado histórico, a Antiga Penitenciária da cidade, situada na Praça de Canalejas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAEsta prisão está vinculada ao período em que a Espanha esteve governada pelo General Franco, que impôs uma ditadura que se prolongou desde o final da Guerra Civil Espanhola até 1975, ano em que faleceu.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa realidade, num primeiro momento fui visitar o estabelecimento penitenciário com o objetivo de conhecer os restos arqueológicos existentes dentro da prisão, relacionados com a fundação da cidade pelos romanos, há cerca de 2 mil anos atrás. Quando cheguei ao local, percebi de imediato que se tratava de um estabelecimento com uma história perturbadora, relatada em suas celas e comentada por um atencioso funcionário.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAA Antiga Penitenciária de Lugo foi construída em 1887 pelo arquiteto da cidade Nemesio Cobreros, com o objetivo de tornar-se uma prisão modelo, onde a individualização dos detentos era uma de suas premissas básicas, ao contrário dos anteriores sistemas de aglomeração. Inicialmente, dispunha de água para os presos, que nao tinham que buscá-la nas fontes públicas No entanto, com o desenrolar da Guerra Civil, transformou-se num verdadeiro inferno. Franco conquistou a cidade em 20/7/1936, e em poucos dias foram detidos diversas  autoridades políticas da província, como o Governador, o Prefeito da cidade e muitas outras personalidades de outros municípios, além de intelectuais, líderes de partidos democráticos, professores, artistas e jornalistas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACriada para acolher 140 presos, em 4 anos (1936/1940) cerca de 6 mil pessoas estiveram entre seus muros por motivos políticos e de ideologia contrária ao pensamento franquista. Os primeiros presos foram autoridades políticas relacionadas ao Partido Republicano. Muitas mulheres foram detidas como reféns para forçar a entrega dos maridos, irmãos e demais familiares.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAMulheres militantes de esquerda também foram presas por suas atividades como guerrilheiras, conhecidas como “Rojas” (vermelhas, em português).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAGraças aos materiais existentes em vários arquivos, e também pelas cartas escritas pelos próprios presos, foi possível estabelecer como eram as condições no presídio durante a Guerra Civil. As celas individuais passaram a colher 14 detentos, número consideravelmente maior nas celas coletivas.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANumerosas detentas deram a luz na penitenciária, em condições precárias. Abaixo, vemos uma cadeira utilizada para o parto, usada entre os anos 20 e 50 do século passado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA taxa de mortalidade entre os presos era elevada devido a carência alimentar, falta de higiene e alta humidade, que colaborava para a proliferação de doenças. Ao menos 27 presos faleceram por doenças relacionadas às más condições higiênicas e a falta de assistência sanitária. Outra grande quantidade de detentos morreram devido à tortura e maus tratos recebidos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO pior mesmo era viver sob a constante ameaça de execução. De fato, dezenas de presos políticos e sindicalistas esperaram a morte nesta prisao. No meio de tanta dor, os presos tentavam manter a dignidade e o bom humor, apesar da adversidade.  Em uma carta de um preso vemos o seguinte relato sarcástico: “Vivo no segundo piso do “Hotel Canalejas”, número 26, em companhia de 44 hóspedes. Temos duas horas pela manhã e duas horas pela tarde para o recreio nos jardins do hotel…”.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAtualmente, a Antiga Penitenciária de Lugo foi convertida num centro cultural, com auditório, biblioteca, etc. As antigas celas transformaram-se em espaços criativos para vários artistas, como vemos acima. Uma exposição permanente conta a história do local, com o objetivo de homenagear as vítimas e compensar moralmente os familiares e amigos dos presos que nela estiveram. A estrutura do edifício foi remodelada para sua nova função, mas conserva as celas originais com suas portas dotadas de um visor que permitia observar os presos desde o exterior.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAMinha estadia em Lugo chegou ao final depois da visita a este tétrico, mas impressionante lugar. Deixei a cidade repleto de lembranças e vivências que recordarei sempre, como sua incrível muralha romana, a catedral, o centro histórico da cidade, além da simpatia de seus habitantes…

Palácio Real de Barcelona

Nesta última viagem a Catalunha, pude conhecer o Palácio Real de Barcelona, situado num belíssimo lugar um pouco afastado do centro, no Bairro de Pedralbes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAEntre 1919 e 1931, este palácio foi a residência dos Reis da Espanha em suas visitas à cidade. Atualmente é a sede de vários museus, entre os quais de Artes Decorativas, Cerâmica, Textil e de Indumentárias.

OLYMPUS DIGITAL CAMERASua origem se relaciona com um terreno adquirido por Eusebi Guell em 1862, o mecenas do grande arquiteto modernista Antoni Gaudí, que compreendia um edifício do século XVII, e outro terreno que passou a ser conhecido como Fincas Guell (uma das obras menos conhecidas de Gaudí, que veremos no próximo post). O genial arquiteto também se encarregou de reformar o palácio e desenhar os jardins que o cercam.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERANo entanto, Eusebi Guell cedeu o palácio e parte dos jardins à Coroa Espanhola, como agradecimento por ter sido nomeado Conde em 1918. A partir deste momento, o edifício foi totalmente remodelado para se transformar num Palácio Real, cujas obras foram realizadas por Eusebi Bona e Francesc Nebot.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO novo palácio foi construído no estilo novecentista, e foi oficialmente convertido em Palácio Real em 1924. Ao proclamar-se a Segunda República em 1931, foi adquirido pela Prefeitura de Barcelona, que decidiu instalar em suas dependências o Museu de Artes Decorativas em 1932. Passear por seus jardins e estátuas é realmente uma delícia, uma verdadeira zona onde a paz e a tranquilidade imperam.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERAOLYMPUS DIGITAL CAMERADurante a Ditadura de Franco, voltou a ser uma residência, acolhendo o general. Atualmente, o palácio pertence à Generalitat de Catalunha, o governo da comunidade. Na entrada dos jardins, foi colocada uma bela escultura, denominada “Mediterânea“, realizada por Eulália Fàbregas de Sentmenat.

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Refúgio da Guerra Civil – Cartagena

O século XX  representou um dos períodos mais dramáticos da história de Cartagena, e também de toda a Espanha. Entre 1936 e 1939, se desenrolou a Guerra Civil que assolou o país, cuja consequência foi um longa etapa de ditadura sob a direção do General Franco, a partir do término da guerra, no qual o bando nacionalista saiu vencedor, até sua morte em 1975. O início desta guerra que vitimou uma quantidade enorme de espanhóis, iniciou-se com a tentativa de um golpe militar por uma facção do exército no dia 18 de julho de 1936.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA cidade de Cartagena foi uma das que mais sofreram com os bombardeios da aviação ítalo-alema, pois os regimes totalitários destes dois países colaboraram com a causa franquista, cedendo armamentos, munições e aeronaves. Por sua vez, os republicanos receberam a ajuda militar da então U.R.S.S. A Guerra Civil Espanhola representou o primeiro conflito em que a população civil foi atacado pela aviação militar.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOs motivos pelos quais Cartagena foi tão castigada se deve a sua condição de sede da frota republicana e centro da indústria bélica naval, que abastecia cidades pró republicanas, como Madrid, por exemplo. A cidade foi alvo de uma grande quantidade de ataques desde o começo do conflito, cujo número estimado situa-se  entre 40 e 117. Depois da Catalunha, Cartagena tornou-se o principal fornecedor de armas da zona republicana.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPor estes motivos, foram construídos uma grande quantidade de refúgios para a proteção civil. Além do mais, estes locais difundiam informações e conselhos, fundamentais durante os ataques. Um destes refúgios pode ser visitado, pois foi convertido num museu sobre a Guerra Civil. Situa-se numa das colinas existentes ao redor do centro histórico da cidade, e foi escavado numa das mais conhecidas, o Cerro de la Concepción, que vemos abaixo no lado esquerdo da foto.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom capacidade para acolher cerca de 5.500 pessoas, era considerado o maior da cidade, sendo construído em 1937. Os principais organismos criados para a defesa da cidade foram a Junta de Defesa Passiva, que aconselhava a população e a Junta de Defesa Ativa, responsável pela artilharia antiaérea e os sistemas de iluminação, alerta, alarme, comunicações e observações.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA guerra supôs profundas transformações na vida dos espanhóis, como o racionamento e a dispersão de seus membros, pois os homens acudiam às frentes de batalhas, enquanto as mulheres trabalhavam na retaguarda, costurando uniformes militares, enchendo os cartuchos de pólvora, e outras atividades. As crianças, quando era possível, iam à escola. Um dos únicos entretenimentos para aliviar a dor dos seus habitantes eram o rádio, o cinema e os cafés.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACartagena foi a última cidade em render-se às tropas do exército nacionalista.

OLYMPUS DIGITAL CAMERATodas estas imagens foram tiradas no interior do refúgio. Em uma de suas salas, desenhos realizados por crianças da época me comoveram…

OLYMPUS DIGITAL CAMERACom esta bela e sugestiva foto, encerro as matérias sobre a cidade de Cartagena, uma cidade milenária que vale muito a pena conhecer…